Verso
Os versos são enunciados escritos de maneira descontínua entre si, regularmente usados para compor o texto de poemas e letras de canções. Geralmente, compartilham traços estilísticos comuns, como métrica e rimas, e ajuntam-se em estrofes. Apesar de serem empregados quase que somente em produções poéticas, podem ser trabalhados em qualquer gênero textual, havendo, inclusive, registros de seu uso em textos de medicina e invectivas políticas.
Um verso é composto por um conjunto de sílabas (chamadas de sílabas métricas ou sílabas poéticas) , que são dispostas visando o número delas no verso, a alternância entre sílabas fortes e fracas e as pausas planejadas na pronúncia. O objetivo final é construir um ritmo verbal, que pode ser definido pela conjugação da percepção de regularidade silábica e de alternância de sílabas fortes e fracas, o que permite o canto ou a recitação do texto. A partir do número de sílabas e da distribuição dos acentos, é possível construir variados tipos de versos. Ao longo da história, alguns deles se consagraram e foram empregados sistematicamente pelos mais diferentes poetas. Dentre eles: As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram;
Escansão silábica
Na produção dos versos, deve-se ter em mente a pronúncia oral, visto que eles são feitos para serem recitados ou cantados. Sendo assim, um verso como Amor é fogo que arde sem se ver (Camões), apesar de possuir onze sílabas gramaticais, deve ser contado como tendo dez, visto que na pronúncia oral as sílabas que e ar se juntam em uma só. Esse processo de junção de sílabas pode ocorrer, principalmente, por meio de quatro processos: Na produção de versos literários, esses processos são geralmente obrigatórios, contudo, na produção de versos musicais, há uma maior liberdade na escansão, devido ao canto. Por exemplo, no hino Foi na cruz, com letra em português de Henry Maxwell Wright, o primeiro verso - Oh! quão cego andei e perdido vaguei - é cantado sem a sinalefa entre cego e andei - ao invés de /sɛ.gwã.dei/ canta-se /sɛ.gu.ã.dei/.
Número de sílabas métricas
O número de sílabas métricas de um verso é de fundamental importância para a construção do ritmo verbal. Em geral, os versificadores lusófonos, por influência sobretudo do Tratado de metrificação portugueza de Castilho, terminam a contagem das sílabas métricas do verso na última sílaba tônica. Assim, um verso como No meio do caminho tinha uma pedra (No meio do caminho, Carlos Drummond de Andrade), apesar de contar doze sílabas, é classificado, entre os versificadores de língua portuguesa, como tendo onze, porque a última sílaba tônica cai na décima primeira sílaba: Dependendo do número de sílabas métricas, o verso é classificado como: Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti!
Terminação do verso
Dependendo da posição do acento da última palavra do verso - oxítona, paroxítona ou proparoxítona - o verso pode conter uma, duas ou então nenhuma sílaba não contada. A partir disso, o verso é classificado como: Na tradição poética de língua portuguesa, o verso mais comum é o grave, porque, dentre outros motivos, a maioria das palavras da língua portuguesa são paroxítonas. Muitos poetas costumam fazer um jogo entre versos agudos e graves para contribuir na construção do ritmo, visto que versos agudos, entre graves, dão a impressão de parada súbita na leitura. Por exemplo, a primeira estrofe da Canção do exílio (Gonçalves Dias) é composta por dois períodos, que ocupam dois versos cada um. O caráter agudo do segundo e do quarto verso ressaltam o fim de cada oração.
Alternância de sílabas fortes e fracas
Assim como na música o ritmo é construído a partir de compassos, batidas fortes e fracas, o ritmo do verso é construído a partir da alternância entre sílabas fortes e fracas. Em línguas como o grego, o hebraico e o latim, a força das sílabas é marcada pela duração: sílabas longas como sílabas fortes e sílabas breves como sílabas fracas. Já em línguas românicas, como o português, a força das sílabas é marcada pela intensidade: sílabas tônicas e subtônicas como sílabas fortes e sílabas átonas como sílabas fracas. A variação entre sílabas tônicas/subtônicas e átonas costuma se dar de maneira binária (uma forte a cada uma fraca) ou ternária (uma forte a cada duas fracas), visto que, quando há três ou mais sílabas átonas em sequência, uma delas acaba ganhando proeminência e se torna subtônica.
Cesura
No decorrer da leitura, ocorrem alguns descansos de voz no interior do verso, que são chamados de cesuras. Elas ocorrem, geralmente, em acentos frasais (acentos tônicos de maior proeminência na frase) e dividem o verso em grupos fônicos ou hemistíquios, que comportam, geralmente, um grupo acentual. As cesuras e os hemistíquios são estrategicamente dispostos pelo versificador e podem ser aproveitados para diversos fins. No caso do verso (Amor) É ferida que dói e não se sente (Camões), há uma cesura na sexta sílaba (dói) que serve para (i) alterar o ritmo do verso, ternário no primeiro hemistíquio e binário no segundo; e (ii) dar suporte à estrutura do paradoxo formado no texto, sendo que no primeiro hemistíquio é feito uma proposição (Amor é ferida que dói) e no segundo, um complemento (e não se sente) que torna a proposição paradoxal (como pode algo doer e não ser sentido?).
Pés métricos
As sílabas fortes e fracas se agrupam em pés métricos, que são conjuntos de sílabas dominados por uma sílaba forte. Os principais são: Há ainda outros pés, formados a partir de variantes dos quatro principais, como o anfíbraco, formado por sílaba fraca/forte/fraca (cabeça). Muitas vezes, um verso é formado por um conjunto de apenas um pé, mas não raro são empregados vários pés para construir um verso, como é o caso de Como se te perdesse, assim te quero (Amavisse, II, Hilda Hilst), formado por um troqueu e três iambos e um anfíbraco; e O amor, quando se revela (Presságio, Fernando Pessoa), formado por um iambo e três troqueus.
Um conjunto de versos é chamado de estrofe ou estância, e os versos que a compõem são escritos de maneira descontínua, isto é, um em cima do outro. Os versificadores costumam dividir o texto em estrofes para facilitar a distribuição temática e trabalhar os versos separadamente. Geralmente, os versos que compõem uma estrofe compartilham características estruturais comuns, como número de sílabas e ritmo, além de serem geralmente conectados por traços fonéticos (aliterações, rimas etc.), sintáticos (paralelismo, anáfora, quiasmo etc.) e semânticos.
Métrica
Muitas vezes, os versos que compõem uma estrofe, e até mesmo um texto inteiro, apresentam o mesmo número de sílabas métricas. Este fenômeno é chamado de isossilabismo ou, mais popularmente, métrica. Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se eu deliro ou se é verdade Tanto horror perante os céus... A regularidade silábica pode ser observada estritamente em todos os versos ou então apresentar variações, como no poema Traduzir-se (Ferreira Gullar), que apresenta versos de 6-4-6-4 sílabas métricas na maioria de suas estrofes. No primeiro caso, é dito que a composição apresenta versos métricos; no segundo, versos compostos. Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo.
Verso livre
Quando os versos de uma estrofe não apresentam uma quantidade regular de sílabas métricas, eles são chamados de versos livres ou irregulares. Quando vier a Primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. A realidade não precisa de mim. Apesar de muitas culturas poéticas, como a hebraica, terem produzido sistematicamente versos sem regularidade silábica ou rítmica, o verso livre, como é atualmente conhecido, só começou a ser praticado a partir da obra de Walt Whitman e dos simbolistas franceses. É importante lembrar que, apesar dos versos livres não apresentarem regularidade silábica, eles ainda são dotados de ritmo.
Figuras de sonoridade
Muitas vezes, os versos que compõem uma estrofe apresentam traços fonéticos comuns, que servem para estabelecer entre eles uma regularidade e unidade sonora. Dentre eles, o mais popular é a rima. Empregada sistematicamente na poesia ocidental a partir dos hinos ambrosianos e da Idade Média, a rima consiste numa semelhança de sons entre duas ou mais palavras a partir de suas vogais tônicas. Geralmente, os poetas empregam as rimas no final dos versos, com o intuito não só de marcar o seu fim como também segmentar a estrofe e o texto, como na primeira estrofe do poema Meus oito anos, de Casimiro de Abreu, que segue um esquema de rimas ABBCDEEC, que divide a estrofe em duas partes: do primeiro ao quarto verso, marcados pelas rimas BB, onde o eu lírico aborda o sentimento de saudade que tem; e do quinto ao oitavo verso, marcados pelas rimas EE, onde o eu lírico projeta algumas imagens de sua infância; as duas partes unidas pela rima C-C, que, por serem agudas, induzem a uma parada na leitura do texto.
Figuras de sintaxe
Além de serem conectados por figuras de sonoridade, os versificadores não raramente empregam figuras de sintaxe na construção das estrofes. Dentre elas: agora, aqui, na luz crepuscular deste lugar vazio, tenho um bando de visões, só não posso ter um par. Eu sou a que no mundo anda perdida, Eu sou a que na vida não tem norte, Sou a irmã do Sonho,e desta sorte Sou a crucificada ... a dolorida ... Não quero sem Sylvano já ter vida, Pois tudo sem Sylvano é viva morte; Já que se foi Sylvano venha a morte, Perca-se por Sylvano a minha vida. Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José?
Tipos de estrofe
Ao longo dos anos, algumas estrofes se consagraram na língua portuguesa, devido ao uso recorrente e constante aperfeiçoamento. Dentre elas: Manhã de Junho ardente. Uma encosta escavada, Seca, deserta e nua, à beira d'uma estrada. Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha, Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha. Sobre uma folha hostil duma figueira brava, Mendiga que se nutre a pedregulho e lava, A aurora desprendeu, compassiva e divina, Uma lágrima etérea, enorme e cristalina. Porque o guerreiro de fé nunca gela, Não agrada o injusto e não amarela. O Rei dos reis foi traído e sangrou nessa terra, Mas morrer como um homem é o prêmio da guerra. Mas, ó, conforme for, se precisar Afogar no próprio sangue, assim será.


