Aristóteles
Aristóteles foi um filósofo e polímata da Grécia Antiga. Ao lado de Platão, de quem foi discípulo na Academia, foi um dos pensadores mais influentes da história da civilização ocidental. Aristóteles abordou quase todos os campos do conhecimento de sua época: biologia, física, metafísica, lógica, poética, política, retórica, ética e, de forma mais marginal, a economia. A filosofia, definida como "amor à sabedoria", passou a ser compreendida por Aristóteles em sentido mais amplo, buscando se tornar uma ciência das ciências. Embora o estagirita tenha escrito muitos tratados e diálogos formatados para a publicação, apenas cerca de um terço de sua produção original sobreviveu, nenhuma delas destinada à publicação.
Aristóteles nasceu em Estagira, na Trácia, filho de Nicômaco. Seu pai era amigo e médico pessoal do rei macedônio Amintas III, rei conhecido por ser pai de Filipe II e avô de Alexandre. Existem algumas controvérsias entre os estudiosos a respeito da influência da atividade médica da família de Aristóteles em seu interesse pela biologia e fisiologia. No entanto, é sabido que o pai de Aristóteles, Nicômaco, era médico, e que a medicina era uma atividade importante em sua família. Segundo a compilação bizantina Suda, Aristóteles era descendente de Nicômaco, filho de Macaão, filho de Esculápio. Com cerca de 16 ou 17 anos partiu para a cidade de Atenas, maior centro intelectual e artístico da Grécia Antiga. Como muitos outros jovens da época, foi para lá prosseguir os estudos. Duas grandes instituições disputavam a preferência dos jovens: a escola de Isócrates, que visava preparar o aluno para a vida política, e Platão e sua Academia, com preferência à ciência (episteme) como fundamento da realidade. Apesar do aviso de que, quem não conhecesse geometria ali não deveria entrar, Aristóteles decidiu-se pela academia platônica e nela permaneceu vinte anos, até a morte de Platão, no primeiro ano da 108a olimpíada (348 a.C.). Aristóteles provavelmente participou dos Mistérios de Eleusis.
A filosofia de Aristóteles dominou verdadeiramente o pensamento europeu a partir do século XII. A revolução científica iniciou-se no século XVI e somente onde a filosofia aristotélica foi dominante é que sobreveio uma revolução científica. Apesar do alcance abrangente que as obras de Aristóteles gozaram tradicionalmente, acadêmicos modernos questionam a autenticidade de uma parte considerável do Corpus aristotelicum. Parte das afirmações a respeito da Física e da Química de Aristóteles foram impugnadas ao longo dos séculos, e a principal razão disso é que nos séculos XVI e XVII os cientistas aplicaram métodos quantitativos ao estudo da natureza inanimada, assim algumas observações de Aristóteles são irremediavelmente inadequadas em comparação com os trabalhos dos novos cientistas. O termo Metafísica não é aristotélico; o que hoje chamamos de metafísica era chamado por Aristóteles de "filosofia primeira", sendo por isso identificada com a teologia (theologikê), distinguindo-a da matemática e das ciências naturais (física) como filosofia contemplativa (teoretikú) que estuda o divino. A palavra "metafísica" parece ter sido cunhada pelo editor do primeiro século d.C., que reuniu várias pequenas seleções das obras de Aristóteles no tratado que conhecemos com o nome de Metafísica.
Lógica
A lógica aristotélica, que ocupa seis de suas primeiras obras, constitui o exemplo mais sistemático de filosofia em dois mil anos de história. Sua premissa principal envolve uma teoria de caráter semântico desenvolvida por ele para servir de estrutura para a compreensão da veracidade de proposições. Foi por meio de sua lógica que se estabeleceu a primazia da lógica dedutiva. Aristóteles sistematizou a lógica, definindo as formas de interferência que eram válidas e as que não eram — em outras palavras, aquilo que realmente decorre de algo e aquilo que só aparentemente decorre; e deu nomes a todas essas diferentes formas de interferências. Por dois mil anos, estudar lógica, significou estudar a lógica de Aristóteles.
Física
Aristóteles não reconhecia a ideia de inércia, ele imaginou que as leis que regiam os movimentos celestes eram muito diferentes daquelas que regiam os movimentos na superfície da Terra, além de ver o movimento vertical como natural, enquanto o movimento horizontal requereria uma força de sustentação. Ainda sobre movimento e inércia, Aristóteles afirmou que o movimento é uma mudança de lugar e exige sempre uma causa, o repouso e o movimento são dois fenômenos físicos totalmente distintos, o primeiro sendo irredutível a um caso particular do segundo. No livro II, Do Céu, ele afirma explicitamente que quando um objeto se desloca para seu estado natural o movimento não é causado por uma força, assim ele afirma que o movimento daquilo que está no processo de locomoção é circular, retilíneo ou uma combinação dos dois tipos.
Óptica
Na época de Aristóteles, a óptica matemática era ainda uma disciplina nova, contrariamente às outras matemáticas e especialmente à geometria. Ele faz recorrentes referências à cor, à sua "unidade" e à sua constituição, nos mesmos contextos em que se fala de outros setores do real que pertencem a outras ciências matemáticas, e do que neles é unidade. Aristóteles fez objeções à teoria de Empédocles e ao modelo de Platão que considerava que a visão era produzida por raios que se originavam no olho e que colidiam com os objetos então sendo visualizados. Ao refutar as teorias então conhecidas, ele formulou e fundamentou uma nova teoria, a teoria da transparência: a luz era essencialmente a qualidade acidental dos corpos transparentes, revelada pelo fogo.
Química
Enquanto Platão, seu mestre, acreditava na existência de átomos dotados de formas geométricas diversas, Aristóteles negava a existência das partículas e considerava que o espaço estava cheio de continuum, um material divisível ao infinito. Sua obra Meteorologia, sintetiza suas ideias sobre matéria e química, usando as quatro qualidades da matéria e os quatro elementos, ele desenvolveu explicações lógicas para explicar várias de suas observações da natureza. Para Aristóteles a matéria seria formada, não a partir de um único, mas por quatro elementos: terra, água, ar e fogo, mas existiria sim um substrato único para toda a matéria, mas que seria impossível de isolar — serviria apenas como um suporte que transmite quatro qualidades primárias: quente, frio, seco e úmido. A fundação da Alquimia se baseou nos ensinamentos de Aristóteles, curiosamente ele afirmou que as rochas e minerais cresciam no interior da Terra e, assim como os humanos, os minerais tentavam alcançar um estado de perfeição através do processo de crescimento, a perfeição do mineral seria quando ele se tornasse ouro.
Astronomia
Aristóteles concorda com seu mestre (Platão) em considerar a astronomia uma ciência matemática em sentido pleno, não menos do que a geometria, ele também concordava que os movimentos estudados pela astronomia, como diz a A República, não se percebem "com a vista". O cosmos aristotélico é apresentado como uma esfera gigantesca, porém finita, à qual se prendiam as estrelas, e dentro da qual se verificava uma rigorosa subordinação de outras esferas, que pertenciam aos planetas então conhecidos e que giravam em torno da Terra, que se manteria imóvel no centro do sistema (sistema geocêntrico).
Biologia
Considerado o fundador das ciências como uma disciplina, Aristóteles deixou obras naturalistas como História dos Animais, As partes dos animais e A geração dos animais, opúsculos como Marcha dos animais, Movimentos dos animais e Pequeno tratado de história natural e muitas outras obras sobre anatomia e botânica que se perderam e tratavam sobre o estudo de cerca de 400 animais que buscou classificar, tendo dissecado cerca de 50 deles. Também realizou observações anatômicas, embriológicas e etológicas detalhadas de animais terrestres e aquáticos (moluscos e peixes), fez observações sobre cetáceos e morcegos. Embora suas conclusões sejam, muitas vezes, equivocadas, sua obra não deixa de ser notável. Seus escritos de biologia e zoologia correspondem a mais de uma quinta parte de sua obra. Neles, trabalha sobre a noção de animal, a reprodução, a fisiologia e a classificação científica.
De acordo com a distinção que se origina com o próprio Aristóteles, seus escritos são divididos em dois grupos: os "exotéricos" e os "esotéricos". É difícil para muitos leitores modernos aceitar que alguém pudesse tão seriamente admirar o estilo daquelas obras atualmente disponíveis para nós. No entanto, alguns estudiosos modernos têm advertido que não podemos saber ao certo se o elogio de Cícero foi dirigido especificamente para as obras exotéricas. Alguns estudiosos modernos têm realmente admirado o estilo de escrita concisa encontrado nas obras existentes de Aristóteles. As obras de Aristóteles que sobreviveram desde a antiguidade através da transmissão de manuscrito medieval são coletados no Corpus Aristotelicum. Esses textos, ao contrário de obras perdidas de Aristóteles, são tratados filosóficos técnicos de dentro da escola de Aristóteles. A referência a eles é feita de acordo com a organização da edição da obra de August Immanuel Bekker (Aristotelis Opera edidit Academia Regia Borussica, Berlin, 1831–1870) pela Academia Real da Prússia, que por sua vez é baseado em classificações antigas dessas obras. Acredita-se que a maior parte de sua obra tenha sido perdida, e apenas um terço de seus trabalhos tenham sobrevivido.
Mais de 2300 anos depois de sua morte, Aristóteles continua sendo uma das pessoas mais influentes que já viveram. Ele contribuiu para quase todos os campos do conhecimento humano e foi o fundador de muitas áreas novas. De acordo com o filósofo Bryan Magee, "é duvidoso que qualquer ser humano saiba o tanto quanto ele sabia". Entre inúmeras outras realizações, Aristóteles foi o fundador da lógica formal e pioneiro no estudo da zoologia, deixando cada futuro cientista e filósofo em débito para com ele por suas contribuições para o método científico. Maimônides (considerado a principal figura intelectual do judaísmo medieval) adotou o aristotelismo dos estudiosos islâmicos que se tornou fundamento para seu Guia dos Perplexos, base de toda a filosofia escolástica judaica. Maimônides também considerou Aristóteles o maior filósofo que já existiu e o denominou como o "chefe dos filósofos". Além disso, em sua carta a Samuel ibn Tibbon, Maimonides observa que não há necessidade de Samuel estudar os escritos de filósofos que precederam Aristóteles porque as obras deste último são "suficientes por si mesmas e [superiores] a tudo o que foi escrito antes deles. Seu intelecto, o de Aristóteles, é o limite extremo do intelecto humano, além daquele sobre quem a emanação divina fluiu a tal ponto que atingem o nível da profecia, não havendo nível superior".
Sobre seu sucessor, Teofrasto
O aluno e sucessor de Aristóteles, Teofrasto, escreveu a obra Historia Plantarum, uma obra pioneira em botânica. Alguns de seus termos técnicos permanecem em uso, como carpelo. Teofrasto preocupou-se muito menos com as causas formais do que Aristóteles, descrevendo pragmaticamente como as plantas funcionavam.
Filósofos gregos posteriores
A influência da obra de Aristóteles foi sentida quando o Liceu se transformou na Escola peripatética. Entre os estudantes notáveis de Aristóteles estão Aristóxenes, Dicearco, Eudemo de Rodes, Demétrio de Faleros, Hárpalo, Heféstion, Mênon, Mnason de Fócis, Nicômaco e Teofrasto.
Medicina da Grécia Antiga
O primeiro professor de medicina de Alexandria, Herófilo de Calcedônia, corrigiu Aristóteles, colocando a inteligência no cérebro e conectando o sistema nervoso ao movimento e à sensação. Herófilo também distinguiu entre veias e artérias, observando que as últimas pulsam enquanto as primeiras não. Embora alguns atomistas antigos, como Lucrécio, tenham desafiado o ponto de vista teleológico das ideias aristotélicas sobre a vida, a teleologia (e após o surgimento do cristianismo, a teologia natural) permaneceria central para o pensamento biológico essencialmente até os séculos XVIII e XIX. Ernst Mayr afirma que não houve "nada de real consequência na biologia depois de Lucrécio e Galeno até o Renascimento".
Influência sobre os eruditos bizantinos
Os escribas cristãos gregos desempenharam um papel crucial na preservação das obras de Aristóteles, copiando todos os manuscritos gregos existentes do "corpus". Os primeiros cristãos gregos que muito comentaram sobre Aristóteles foram João Filopono, Elias e David, no século VI, e Estéfano de Alexandria no início do século VII.
Mundo islâmico medieval
Aristóteles foi um dos pensadores ocidentais mais reverenciados no início da teologia islâmica. A maioria das obras ainda existentes de Aristóteles, bem como vários comentários gregos originais, foram traduzidas para o árabe e estudadas por filósofos, cientistas e estudiosos muçulmanos. Averroes, Avicena e Alpharabius, que escreveram sobre Aristóteles em grande profundidade, também influenciaram Tomás de Aquino e outros filósofos escolásticos cristãos ocidentais. Estudiosos muçulmanos medievais descreviam regularmente Aristóteles como o "Primeiro Mestre". O título foi posteriormente usado por filósofos ocidentais (como no famoso poema de Dante) que foram influenciados pela tradição da filosofia islâmica.
Europa Medieval
Com a perda do estudo do grego antigo no início da Idade Média Ocidental Latina, Aristóteles ficou praticamente desconhecido de c. 600 DC a c. 1100, com exceção da tradução latina do Organon feita por Boécio. Nos séculos XII e XIII, o interesse por Aristóteles ressurgiu e os cristãos latinos fizeram traduções do árabe e do grego. Depois que o escolástico Tomás de Aquino escreveu sua Summa Theologica, trabalhando a partir das traduções de Moerbeke e chamando Aristóteles de "O Filósofo", a demanda pelos escritos de Aristóteles cresceu e os manuscritos gregos retornaram ao Ocidente, estimulando um renascimento do aristotelismo na Europa que continuou no Renascimento. Esses pensadores misturaram a filosofia aristotélica com o cristianismo, trazendo o pensamento da Grécia Antiga para a Idade Média.


