António Feliciano de Castilho
António Feliciano de Castilho, primeiro visconde de Castilho, foi um escritor romântico português, polemista, pedagogista e inventor do Método Castilho de leitura. Em consequência de sarampo perdeu a visão quase completamente aos 6 anos de idade. Licenciou-se em direito na Universidade de Coimbra. Viveu alguns anos em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, Açores, onde exerceu grande influência entre a intelectualidade local. Contra ele rebelou-se Antero de Quental na célebre polémica do Bom-Senso e Bom-Gosto, vulgarmente chamada Questão Coimbrã, que opôs os jovens representantes do realismo e do naturalismo aos vetustos defensores do ultra-romantismo.
Sofrendo de crónicos problemas financeiros e desgostoso por ver a frieza com que fora acolhido em Portugal o seu Método Português, em 1847 partiu para os Açores, fixando-se em Ponta Delgada, cidade onde viveu até 1850. Recebido em Ponta Delgada como um herói, rapidamente conquistou a simpatia da aristocracia local, em particular da próspera elite dos comerciantes da laranja. Vivia-se então na ilha de São Miguel um período de prosperidade económica, assente sobre a exportação de laranjas para Inglaterra, e de procura de novas culturas industriais que permitissem manter o forte sector de exportação de produtos agroalimentares que entretanto se criara. Instalado em São Miguel, com o apoio de alguns magnatas locais, entre os quais José do Canto, Castilho dedicou-se à escrita e ao fomento cultural. Nesse período, escreveu em Ponta Delgada o Estudo Histórico-Poético de Camões, enriquecido de curiosas notas, fundou uma tipografia, onde se imprimiu o jornal o Agricultor Michalense, a convite da Sociedade Promotora da Agricultura da ilha, que o tinha contratado. Castilho era o redactor principal, dedicando-se, para além da escrita, à realização de conferências que despertaram o amor de estudo.
A infância e a cegueira
Filho do Dr. José Feliciano de Castilho Barreto (1769–1826), médico da Real Câmara e lente de prima da Universidade de Coimbra, que depois emigraria para o Brasil, apenas regressando com D. João VI e de D. Domicília Máxima Doroteia e Silva Castilho. Foi uma criança com dificuldades de saúde, incluindo sérios sintomas de tísica, as quais culminaram aos seis anos de idade com um ataque de sarampo que o deixou cego. Apesar de nessa altura já saber ler e escrever, a cegueira impediu-o durante toda a vida de escrever e ler, tendo de estudar ouvindo a leitura de textos e sendo obrigado a ditar toda a sua obra literária. Aprendendo somente pelo que ouvia ou lhe diziam, Castilho conseguiu alcançar razoável erudição no latim e nas humanidades clássicas, o conhecimento superficial de algumas línguas e o conhecimento aprofundado da língua portuguesa, que lhe permitiu distinguir-se como poeta e prosador.
A Universidade de Coimbra e as primeiras obras
Acompanhado por seu irmão Augusto Frederico de Castilho, quase da mesma idade, com ele estudou Humanidades, instruiu-se no conhecimento dos poetas latinos, que foram sempre os seus estudos predilectos, e com ele matriculou-se na Universidade de Coimbra, na Faculdade de Cânones, em que ambos se formaram. Foi discípulo do padre José Fernandes, latinista de primeira ordem e poeta muito apreciável, a quem deveu os elementos necessários para adquirir o conhecimento profundo da língua latina, que sempre o distinguiu. O seu talento poético começou a desenvolver-se, sendo ainda criança; versejava com a máxima facilidade. Tinha 16 anos quando escreveu e publicou um Epicédio na morte da augustíssima senhora D. Maria I, rainha fidelíssima. Essa obra foi acolhida com surpresa, por ser firmada por um poeta de tão tenra idade e, sobretudo, cego. Em reconhecimento, foi-lhe concedida uma pequena pensão com carácter de incitamento.
Os tempos de Castanheira do Vouga
O seu irmão Augusto, seu companheiro de estudos, optou pelo sacerdócio e em Outubro de 1826 foi provido na paróquia de São Mamede de Castanheira do Vouga. António Feliciano, habituado à sua companhia, decidiu ir viver com ele, fixando-se naquela localidade até 1834. Foram oito anos durante os quais Portugal viveu tempos difíceis, com as perseguições políticas e a violência generalizada, a que se seguiram as Guerras Liberais (1828–1834). Apesar das naturais repercussões locais, Castanheira do Vouga foi para Castilho um local de refúgio, o que lhe permitiu atravessar aqueles tempos conturbados dedicando-se ao estudo dos clássicos. Foi nessa época que traduziu as Metamorfoses e os Amores de Ovídio e que escreveu muitos dos versos incorporados mais tarde nas Escavações poéticas e que compôs os poemetos A noite do Castello e os Ciúmes do Bardo.
O casamento
A publicação das Cartas de Echo e Narciso motivou ao poeta uma aventura romântica. Uma dama reclusa no convento de Vairão, D. Maria Isabel de Baena Coimbra Portugal, escreveu-lhe dando-se como uma nova Eco e perguntando se ele procederia como Narciso. Essa intriga galante resultou numa série de quadras do Amor e Melancholia, que o poeta publicou em Coimbra em 1828. Concluída a guerra civil e como resultado da extinção das ordens religiosas em Portugal levada a cabo pelos vencedores, essa senhora abandonou o convento e veio a casar com o poeta, realizando-se o casamento em 29 de Novembro de 1834. Pouco durou esse consórcio, pois Maria Isabel faleceu, sem filhos, a 1 de Fevereiro de 1837, com 40 anos.
Ida à Madeira e novo consórcio
Casou, em 6 de Maio de 1839, na Igreja da Senhora da Piedade das Chagas, em Lisboa, com D. Ana Carlota Xavier Vidal (Funchal, Madeira, 2 de Maio de 1811 – Santa Isabel, Lisboa, 18 de Junho de 1871). Desse casamento, que duraria 32 anos, resultaram sete filhos, entre os quais o memorialista e continuador da obra literária do pai, Júlio de Castilho, o militar Augusto de Castilho, e o igualmente escritor e poeta Eugénio de Castilho (1847–1900). Nesse mesmo ano foi iniciado na maçonaria, na loja Independência, com o nome simbólico de Chénier. No ano de 1840 acompanhou seu irmão Augusto à ilha da Madeira, onde esse, afectado por tuberculose, procurava alívio para a doença. Não resultando o tratamento, Augusto faleceu na Madeira a 31 de Dezembro daquele ano.
Os tempos áureos e a invenção do Methodo Portuguez
Nos primeiros dias de 1841 voltou da ilha da Madeira, e a 1 de Outubro publicava-se o primeiro número da Revista Universal Lisbonense, por ele fundada e dirigida, e à qual se dedicaria em quase exclusivo até 1845. Por esta época inicia o período mais fecundo da sua produção literária, consolidando a sua reputação como o "escritor do regime" cuja aprovação era necessária para o sucesso literário em Portugal. Essa predominância de Castilho e a criação de uma intrincada teia de elogios mútuos e de empoladas críticas favoráveis, resultantes mais de cumplicidades pessoais de que de real mérito literário, estão na origem da célebre Questão Coimbrã do Bom-Senso e Bom-Gosto.
Grã-Cruz ou Grande Dignitário da Imperial Ordem da Rosa.


