Albert Bierstadt
Albert Bierstadt foi um pintor prussiano radicado nos Estados Unidos.
Juventude
Era filho de Heinrich, um militar que servira no exército do Reino de Hanôver, e Christina Bierstadt. Sua família se mudou para New Bedford, nos Estados Unidos, em 1832. A cidade era um movimentado e próspero porto baleeiro, com uma elite abastada e culta mas conservadora e religiosa. O pai se estabeleceu com um negócio de consertos de barris e tonéis, e em sua modesta residência se reuniram os primeiros metodistas da Nova Inglaterra. Seus primeiros anos são mal documentados, mas parece que desde jovem se interessava por viagens e pela arte. Na cidade trabalhavam alguns pintores, como William Swain, William Hall e Adam van Beest, e eram populares divertimentos de caráter artístico que faziam referência a regiões remotas do globo, que podem, segundo opinião de Richard Trump, ter influenciado seu gosto pela pintura. Relatos familiares dizem que com doze anos compôs um trabalho escolar sobre as Montanhas Rochosas. Mais tarde trabalhou na Shaw's Frame Factory, uma fábrica de espelhos e molduras, e fazia decoração de bolos de casamento.
Aperfeiçoamento
De qualquer maneira, em 1853 dirigiu-se a Dusseldorf, um cosmopolita centro de cultura cuja academia de arte era respeitada entre os artistas norte-americanos pela qualidade de seus cursos. Não é garantido que tenha sido admitido formalmente nesta escola, e esperava, na verdade, estudar com o primo de sua mãe, o pintor Johann Peter Hasenclever, mas quando ele chegou em Dusseldorf o parente havia morrido. Então se tornou aluno de Andreas Achenbach e Karl Friedman Lessing, ligados à academia, e estudou informalmente também com Worthington Whittredge e Emmanuel Leutze, artistas lá residentes e de fama já estabelecida. Whittredge logo passou a protegê-lo, e assim falou do discípulo:
Retorno e primeira viagem ao oeste
Quando voltou para a América, em dezembro de 1857, já era considerado em sua comunidade um artista sério. Abriu um atelier de pintura e passou a aceitar discípulos, começou a fazer pinturas com material coletado na Europa, conseguiu algumas vendas e enviou obras para salões da Academia Nacional de Desenho. Em 1858 organizou em sua cidade uma exposição histórica, com vários integrantes do grupo que mais tarde foi chamado Escola do Rio Hudson, corrente pictórica à qual Bierstadt filiou-se por vocação natural, incluindo seus fundadores Thomas Cole e Asher Durand, além de alguns pintores alemães, outros locais e ele mesmo. Nesta época também retratou as Montanhas Brancas da Nova Inglaterra.
Maturidade e consagração
No verão de 1860 ele e seus irmãos publicaram um álbum com 52 fotografias que tomara em sua viagem. Ao mesmo tempo, iniciou a consolidação de uma fulgurante carreira como pintor paisagista, utilizando seus inúmeros esboços e fotografias como base para as composições. Na primavera expôs no salão da Academia Nacional de Desenho sua primeira grande tela, A base das Montanhas Rochosas, Pico Laramie, sendo também aceito como membro da respeitada instituição, mas a obra mais importante deste conjunto, e a mais celebrada de toda a sua carreira, é Montanhas Rochosas, Pico Lander, retratando a montanha nomeada em homenagem ao coronel Lander, há pouco morto na Guerra Civil que ensanguentava outras partes do país. Seu sucesso foi imediato. Até James Jackson Jarves, que mais adiante se tornaria seu mais contundente crítico, comentou que "capturando a qualidade da luz americana, clara e transparente, e com um desenho de linhas firmes, ele é insuperável".
Fama em declínio, anos finais
A partir de meados da década de 1870 sua sorte mudou. Sua pintura começou a sair de moda rapidamente, enfrentando a mudança nos gostos e a concorrência da pintura francesa. Além disso, o oeste já começava a perder o fascínio do remoto e se tornava um lugar conhecido e habitado, e suas pinturas perdiam este apelo que antes fora tão forte. Foi convidado a doar uma obra para a Academia de Belas Artes da Pensilvânia, enviando Monte Adams, Montanhas Rochosas, mas na Exposição Universal de Filadélfia em 1876 o trabalho que apresentou foi recebido com frieza. Embora tivesse acumulado uma fortuna, manter o seu padrão de vida principesco era coisa cara. As vendas caíam e seus esforços em promover sua obra, que o haviam tornado uma espécie de showman, se tornaram alvo de piadas. Logo apareceram dificuldades financeiras e ele teve de tomar empréstimos. Alugou sua mansão para conseguir algum dinheiro e instalou-se em uma casa menor nas margens do rio Hudson, abrindo um atelier e galeria comercial em Nova Iorque.
Contexto
Bierstadt é tido com um típico exemplo dos ideais que moviam o progresso norte-americano em sua época: por um lado era um imigrante pobre que tinha conseguido fazer fama e fortuna em um país novo e desafiador, espelhando a ideia muito cara aos norte-americanos do self-made-man, e por outro os grandes formatos e o tratamento épico de alto voo que dava aos cenários magnificentes logo foram reconhecidos como a expressão visual do Destino Manifesto, crença que incendiou o país durante a Guerra Civil Americana e que afirmava que o povo americano havia nascido para dominar e organizar aquele vasto continente e mesmo além das suas fronteiras. No período da Guerra (1861-1865) os norte-americanos estavam obcecados com a questão da identidade nacional, estimulando a criação de fortes lealdades regionais. Produziu-se uma literatura abundante sobre temas regionalistas, e depois do conflito a demanda por essas histórias só cresceu, sendo exemplares os casos de Mark Twain, que foi reconhecido nacionalmente com Jim Smiley and His Jumping Frog (1865), e Harriet Beecher Stowe, com seu Oldtown Folks (1869), que foram seguidos de imitações incontáveis por outros escritores, numa difusão favorecida pela melhoria nas condições de impressão e distribuição e a publicidade em jornais.
A paisagem
Bierstadt foi um artista prolífico, deixando mais de trezentas pinturas conhecidas. Porém, estima-se que um número expressivo de outras se perdeu ao longo dos anos. O principal de sua obra está no tema da paisagem, que pintou muitas vezes em escala monumental, mas deixou também numerosos pequenos estudos de alta qualidade, além de desenhos e fotografias. Segundo Allison Palmer, seu estilo descende dos românticos alemães da geração de Caspar David Friedrich, que tentavam traduzir em seu paisagismo o senso do divino, vendo a natureza como a manifestação de uma força maior, que só poderia ser compreendida se a pessoa a contemplasse com reverência. Suas pinturas de juventude combinam com essa proposta, e fazem referência também ao trabalho de William Turner e Andreas Achenbach, bem como aos escritos de John Ruskin, mas são relativamente convencionais, sem uma preocupação em definir especificidades locais, e indicam um talento ainda em desenvolvimento. Somente depois de sua primeira viagem pelo oeste norte-americano seu estilo se consolidaria na forma pela qual ficou mais conhecido.
Outros temas
Em sua trajetória dedicou-se quase integralmente ao puro paisagismo, mas pintou algumas obras monumentais sobre temas históricos, como Colombo pisa em terra, Entrada em Monterey, Outono nas serras e A descoberta do rio Hudson, embora mesmo aqui a paisagem assuma um papel de grande relevo, quase obscurecendo a ação dramática. Elas têm em comum o fato de descreverem momentos de primeiro contato do homem branco com territórios virgens e se inserirem na retórica oficial do período da reconstrução nacional após a Guerra Civil. Essas telas são usualmente menosprezadas pelos estudiosos, que as consideram convencionais e, sendo todas, salvo a Colombo, fruto de lobby do artista junto ao governo, pensam que foram produzidas somente para sua promoção pessoal. Fazem parte deste gênero suas pouquíssimas obras sobre a Guerra Civil, como Guerrilha e O bombardeio, mas outra uma vez a ação é mostrada à distância e a cena carece de impacto dramático, perdendo-se na descrição principal da paisagem.
Glória e ofuscamento
No auge de sua fama, na década de 1860, foi o pintor mais bem pago do mundo, aclamado na Europa e na América, e exerceu uma influência importante sobre outros artistas, criando uma populosa escola de imitadores. Mas a partir dos anos 1870 seu prestígio começou a fenecer, sua obra começou a ser vista como exagerada e essencialmente falsa, e sua onipresença se tornou um incômodo para outros artistas. Em 1870 Hank Smith protestou: "Hoje em dia é só Bierstadt e Bierstadt e Bierstadt! O que ele fez senão alterar e entortar e distorcer e descolorir e diminuir e enfeiar todo este país decepcionado? Porquê? Suas montanhas são altas demais e finas demais, elas vão desmoronar ao primeiro vento de outono! Eu conduzi cavalos por dois verões no Yosemite, e, para ser honesto, quando eu me coloquei diante desta pintura não o reconheci". Mark Twain, observando a tela Pôr-do-sol no vale do Yosemite, disse que "algumas das montanhas do sr. Bierstadt mergulham em uma bruma perolada, que é tão encantadoramente bela que deploro que o Criador não a tenha criado Ele mesmo de modo que ela pudesse permanecer lá. [...] Não precisamos desta atmosfera glorificada num retrato do Yosemite, ao qual ela seguramente não pertence".
Reabilitação
Sua reputação começou a ser restaurada somente na década de 1960, primeiro através de seus estudos, e não por causa de suas obras finalizadas, acompanhando o crescimento do interesse pela produção norte-americana de pintura, o surgimento da questão ambiental e a recuperação pelos norte-americanos de suas raízes culturais. Em 1972 uma retrospectiva apresentada no Museu Whitney de Arte Americana foi saudada pela imprensa como uma grata surpresa, meritória por trazer novamente à luz a obra de um pintor há muito esquecido, e embora a pujança de seu estilo fosse novamente reconhecida, ainda era considerado um acadêmico convencional. Hoje sua posição é mais segura, mas isso não o livrou de críticas e ainda desperta polêmica. Por ocasião da grande retrospectiva Albert Bierstadt: Art & Enterprise realizada no Museu do Brooklyn em 1991, Michael Brenson, escrevendo para o The New York Times, afirmou:


