Academicismo
Academicismo ou academismo designa, originalmente, o método de ensino artístico profissionalizante concebido, formalizado e ministrado pelas academias de arte europeias. Este método estendeu sua influência sobre todo o mundo ocidental ao longo de vários séculos, desde sua origem na Itália em meados do século XVI, e teve um impacto em várias sociedades não-ocidentais por conta das conquistas do colonialismo. No entanto, os termos não têm uma aplicação consistente entre a crítica especializada, e às vezes ele foi ampliado, e às vezes limitado ou transposto para outras áreas. Para alguns eles se referem à versão do método consolidada na Academia Real de Pintura e Escultura da França, fundada em Paris em 1648 por um grupo de pintores liderados por Charles Le Brun, que impôs uma pedagogia fortemente sistemática, hierarquizada e ortodoxa. O sucesso da proposta francesa a tornou o modelo para a fundação de inúmeras outras escolas de arte de nível superior em vários países, de grande importância para a evolução das correntes barroca, neoclássica e parte da romântica. Outros escritores preferem empregá-los para descrever um estilo particular, nascido nos círculos das academias ou por sua influência, também denominado arte acadêmica ou estilo acadêmico. Finalmente, para muitos autores, se referem especialmente à arte produzida no âmbito das academias que funcionaram no século XIX. Apesar de serem termos aplicáveis com toda a propriedade a qualquer das artes, a grande maioria dos pesquisadores tem voltado sua atenção principalmente aos efeitos do modelo acadêmico sobre as artes visuais, e dentre elas, a pintura.
A palavra "academia" remonta à Grécia Antiga (em grego: Ακαδήμεια, Akadimeia), denominando um bosque sagrado de oliveiras localizado na periferia de Atenas, dedicado à deusa Atena. Seu nome arcaico era Hekademia (Ἑκαδήμεια), mas no período clássico fora transformado para Akadimeia, por associação com o herói mítico Akademos, que possuíra o sítio. O santuário era especialmente venerado e protegido, e produzia o óleo de oliva que era distribuído como prêmio nos Jogos Panatenaicos. Neste local Platão fundou a sua escola de filosofia, que foi conhecida como Academia Platônica. Dali o termo academia atravessou as eras e reapareceu em 1427, quando Poggio Bracciolini chamou sua villa de campo de "sua academia", possivelmente inspirado em Cícero, que assim chamara seu próprio retiro rural. Desde então o termo se tornou de uso corrente entre os humanistas italianos que estavam atualizando o platonismo. Na década de 1450 o grupo de intelectuais reunido em torno de Alamano Rinuccini se autointitulou Chorus Achademiae Florentinae. Na década seguinte, Pomponio Leto reuniu humanistas na Accademia Romana, e em torno de 1471 o cardeal Bessarion formou uma academia que levou seu nome. Mais importante, porém, foi a Accademia Platonica de Marsilio Ficino, organizada na década de 1470 e que contou com nomes como Angelo Poliziano, Cristoforo Landino e Pico della Mirandola. O nome academia se difundiu pela Europa e passou a designar tanto um local de reunião de intelectuais e artistas e de estudos clássicos, como o próprio grupo de estudiosos e também uma corrente filosófica. Mais tarde a palavra ampliou ainda mais sua abrangência, podendo ser aplicada como sinônimo de universidade, sala de concertos, teatro ou outra instituição ou grupo cultural, artístico ou científico. Enquanto que as primeiras academias renascentistas eram informais, no século XVI começaram a ser estruturadas com maior rigidez, ainda que com pouca clareza de propósitos. A primeira que estabeleceu estatutos foi a Accademia dei Rozzi, em Siena, em 1531. Seus nomes eram muitas vezes bizarros, como mostram as academias dos Acesos, dos Inflamados, dos Obscuros, dos Renovados, dos Adormecidos, dos Aflitos, dos Desejosos, dos Imaturos, dos Naufragados, e assim por diante. Seus membros recebiam igualmente nomes fantasiosos. Todas elas se envolviam em duas linhas gerais de atividade: as filológicas-filosóficas e as científicas, e as academias especificamente para o cultivo das artes nasceram um pouco mais tarde.
As primeiras academias de arte
O surgimento das academias de arte no século XVI se deveu à necessidade de se responder a novas demandas sociais. Vários Estados nacionais, que se dirigiam para o modelo absolutista, entenderam que era preciso criar uma arte que os identificasse especificamente e servisse como símbolo de unidade cívica, e também fosse capaz de consolidar simbolicamente o status de seus governantes. Neste processo a Igreja Católica, antes a maior força política e o maior aglutinante social da Europa, começou a perder parte de sua influência, com a consequência da maior laicização das sociedades. A arte sacra, ao longo da Idade Média de longe o maior campo de expressão artística, passou a conviver com uma arte profana em expansão, derivada de fontes literárias clássicas, que estavam experimentando um lento resgate desde o século XII e que na altura do Renascimento estavam erigidas na referência cultural mais prestigiada e em modelo de qualidade.
Estabilização: a academia francesa e as artes visuais
Se coube à Itália o mérito da fundação desse novo tipo de instituição, a França se encarregou de levar o modelo a um primeiro estágio de grande ordem e estabilidade. Suas primeiras tentativas de estabelecimentos de academias como as italianas aconteceram ainda no século XVI, no reinado de Henrique III, especialmente através da atividade de Jean-Antoine de Baïf, que fundou uma academia ligada à Coroa francesa. Como as similares italianas, tinha um caráter acima de tudo filológico-filosófico, mas trabalhava também sobre conceitos relativos às artes e ciências. Embora tenha desenvolvido atividade intensa com debates regulares e produção teórica, defendendo princípios clássicos, era desprovida de uma estrutura educativa e teve uma existência breve. Em 1635 o cardeal Richelieu fundou a Academia Francesa, dedicada à gramática da língua francesa, marcando o início de uma normatização generalizada e acelerada da vida cultural francesa. Seguindo o exemplo, em 1648 um grupo de artistas liderados por Charles Le Brun fundou em Paris a Academia Real de Pintura e Escultura, patrocinada pela regente Ana de Áustria. Seu objetivo era semelhante ao italiano, prestigiar os artistas e também concorrer com a guilda parisiense de pintores e escultores. Em pouco tempo foram fundadas outras academias reais para a dança (1661), a música (1669) e a arquitetura (1671), todas com mesmos objetivos reguladores de suas especialidades. Depois de um início pouco efetivo, em 1671 a Academia Real de Pintura e Escultura passou a ser controlada por Jean-Baptiste Colbert, que confirmou Le Brun como diretor. Eles a tornaram o principal braço executivo de um programa de glorificação da monarquia absolutista de Luís XIV, estabelecendo definitivamente a associação da escola com o Estado e com isso revestindo-a de enorme poder diretivo sobre todo o sistema de arte nacional, o que veio a contribuir para tornar a França o novo centro cultural europeu, deslocando a supremacia até então italiana. Neste período a doutrina acadêmica atingiu o auge de seu rigor, abrangência, uniformidade, formalismo e explicitude, e segundo Barasch em nenhum outro momento da história da teoria da arte a ideia de Perfeição foi mais intensamente cultivada como o mais alto objetivo do artista, tendo como modelo máximo a produção da Alta Renascença italiana. Assim, a Itália continuava a ser uma referência inestimável, tanto que foi instituída em 1666 uma filial em Roma, a Academia da França em Roma, tendo como primeiro diretor Charles Errard, com o objetivo de prover hospedagem e estrutura de apoio para os vencedores do Prêmio de Roma, que passavam alguns anos na Itália em busca de aperfeiçoamento. Mas enquanto que para os renascentistas italianos a arte era também uma pesquisa do mundo natural, para Le Brun era acima de tudo o produto de uma cultura adquirida, de formas herdadas e de uma tradição estabelecida.
Uma descrição do método de ensino empregado para a pintura pode servir como exemplo geral. A primeira academia francesa era mais um centro organizador do que uma escola, pois o principal do ensino era dado nos ateliês dos mestres, com quem os discípulos viviam e a quem ajudavam como parte de seu aprendizado, o que refletia a herança do sistema das guildas. Consolidando-se a escola, com o tempo passou-se a oferecer várias disciplinas práticas nas suas próprias dependências. Mesmo entre os discípulos havia uma gradação hierárquica correspondente ao grau de seu progresso. Os novatos iniciavam mais como servos do mestre do que como aprendizes, e desempenhavam todas as tarefas mais braçais do atelier, como limpar o local, acender o fogo no inverno e providenciar ventilação no verão, cuidar da conservação dos materiais e prepará-los para uso dos discípulos graduados e do mestre. No pouco tempo que lhes restava eram introduzidos no desenho elementar e na cópia de obras didáticas de gravura ou desenho, que reproduziam composições de mestres consagrados modernos e peças da Antiguidade clássica. A seguir, passavam a copiar esculturas, e depois desenhavam a partir do modelo vivo. A cópia de obras consagradas era um passo indispensável para a aquisição de um senso de forma e estilo e desenvolver a aptidão na representação anatômica e no manejo da luz e sombra para a criação de volumes. Quando era considerado capacitado em todos os aspectos básicos da criação era autorizado a tentar o ingresso formal na academia como estudante, sempre através da recomendação de um mestre já membro e mediante a apresentação de um portefólio de desenhos acabados. Se aceito, ingressava e iniciava uma etapa de qualificação superior, com estudos aprofundados de anatomia, técnicas artísticas específicas a cada modalidade de arte, geometria, perspectiva e cultura geral, incluindo teoria da arte, religião, mitologia e história antiga.
Depois do fim do reinado de Luís XIV o estilo acadêmico fortemente associado à sua monarquia começou a se difundir, acompanhando o crescimento da nobreza urbana e o aparecimento de uma série de outras academias importantes pela Europa, inspiradas no sucesso do exemplo francês: Nuremberg (1674), Polônia (1694), Berlim (1697), Viena (1705), São Petersburgo (1724), Estocolmo (1735), Copenhage (1738) e Madrid (1752). Nos séculos XVIII e XIX diversas outras academias menores apareceram em várias cidades europeias e o modelo se expandiu para a América, sendo fundada em 1783 a Academia de São Carlos no México, em 1805 a Academia de Belas Artes da Pensilvânia nos Estados Unidos, e em 1826 a Academia Imperial no Brasil. Enquanto isso, na Itália aparecia outro grande centro de irradiação, Veneza, lançando a tradição das vistas urbanas e dos "caprichos", cenas paisagísticas fantasiosas povoadas de ruínas da Antiguidade, que se tornaram prediletas dos nobres viajantes no Grand Tour.
Outras geografias
Não é possível descrever as particularidades do desenvolvimento da filosofia acadêmica em todos os países e regiões onde ela foi cultivada sem tornar a descrição exaustiva. Denis & Trodd assinalaram que estudos recentes vêm fazendo um levantamento dessas derivações, evidenciando que ao contrário de um cenário unificado, ainda que compartilhando de muitos princípios gerais, o academicismo, em especial no século XIX, foi um caleidoscópio de teorias e práticas diferenciadas. Seguem alguns dados sobre algumas escolas regionais a título de exemplo. Durante o Rococó, na Inglaterra, onde em 1768 foi fundada a Royal Academy, a ortodoxia da academia barroca francesa sofreu uma das primeiras tentativas consistentes de adaptação aos novos tempos e a outros contextos, através da atuação de Joshua Reynolds, chamado por Denis & Trodd de "o sintetizador acadêmico arquetípico". Para Reynolds o propósito da arte ia além da busca obsessiva por unidades e estruturas clássicas, procurando em vez dar ao produto uma visualidade de ênfase mais material, mais corpórea. Em seu IX Discurso, de 1780, escreveu:
A ascensão do modernismo
Muitos autores concordam que o nascimento do modernismo pode ser descrito como o fim dos valores coletivos e a negação da arte como essencialmente um veículo de princípios morais. É fato que obras moralizantes e históricas continuaram a ser produzidas ao longo de todo o século XIX, mas com um impacto todo diverso, quando no período vitoriano moralidade passou a significar acima de tudo castidade. O modernismo também tem sido descrito como responsável por um processo de pulverização das hierarquias e pelo início do reinado do individualismo e da subjetividade em arte, de uma forma muito mais profunda do que já havia sido sugerido pelos românticos ou mesmo pelos maneiristas muito antes, criando uma multiplicidade de estéticas pessoais que não se consolidaram numa linguagem comum e uniformizada, com escassa ou nenhuma preocupação de inserir a produção em um sistema organizado ou de criar uma arte socialmente engajada. Há que os acuse até de terem praticado uma versão própria da ditadura elitista que condenavam nos acadêmicos.
A renovação do modelo acadêmico: fórmulas de compromisso e continuidade
Apesar do grande preconceito que revestiu as academias e que ainda perdura em muitos setores da crítica e entre os produtores, comparando-se a essência da teoria acadêmica com a teoria que informa a produção e educação artística contemporânea e informou até mesmo os modernistas iconoclastas, constata-se que alguns princípios gerais do antigo academicismo permaneceram em vigor ininterruptamente ao longo de todo o século XX, especialmente depois que os modernistas começaram a obter posições de professores dentro das escolas de arte. A permanência é atestada pelos seguintes fatos: Mas ainda que sejam muitas as semelhanças entre as práticas antiga e moderna, pode ser problemático determinar até que ponto elas têm o mesmo significado, e ainda há muita resistência na aceitação da ideia de que a arte possa ser testada e avaliada por critérios objetivos. Permanece muito vivo o debate entre teoria e prática nos ambientes acadêmicos atuais, a relativização dos conceitos se tornou amplamente difundida, tornando difícil para os professores determinar qualquer parâmetro consistente de atribuição de significados e de avaliação qualitativa, e não parece haver uma perspectiva de solução das contradições entre teoria e prática para breve, uma vez que o próprio debate é parte dos currículos e é incentivado como uma forma de aquisição de conhecimento e consciência, como, de resto, vem sendo há séculos no ambiente acadêmico.
Recuperação crítica
Em que pese o descrédito generalizado em que o academismo caiu, vários pesquisadores ao longo do século XX empreenderam o estudo do fenômeno acadêmico. Barlow afirmou que a despeito da ampla divulgação do modernismo no início do século XX, as bases teóricas de sua rejeição ao academicismo foram surpreendentemente pouco aprofundadas pelos seus proponentes, formando-se acima de tudo uma espécie de "mito anti-acadêmico", mais do que uma crítica consistente. Denis & Trodd resumiram a fortuna crítica do academicismo dizendo que as pesquisas sobre a matéria tenderam a se concentrar em três diferentes abordagens: as que procuraram rastrear a geração e transformação das práticas materiais e sistemas conceituais da arte acadêmica; as revisionistas, que buscaram revalorizar o Academicismo como um precursor do modernismo, e as que exploraram os sistemas pictoriais e as tradições e processos da cultura acadêmica no contexto das novas redes e estruturas de representação que emergiram nos séculos XVIII e XIX. De todos os engajados nesse estudo, Nikolaus Pevsner foi talvez o mais importante, descrevendo nos anos 1940 a história das academias em uma escala épica, mas se concentrou nos aspectos institucionais e organizadores, desvinculando-os dos estéticos e geográficos.


