Academia Imperial de Belas Artes
A Academia Imperial de Belas Artes (AIBA) foi uma escola superior de arte fundada no Rio de Janeiro, Brasil, por D. João VI. Enfrentando muitas dificuldades iniciais, por fim conseguiu se estabilizar, assumindo um papel central na determinação dos rumos da arte nacional durante a segunda metade do século XIX, sendo um centro de difusão de novos ideais estéticos e educativos, e um dos principais braços executivos do programa cultural nacionalista patrocinado pelo imperador D. Pedro II. Com o advento da República, passou a se chamar Escola Nacional de Belas Artes, mas foi extinta como instituição autônoma em 1931, sendo entretanto absorvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e continuando em atividade até os dias de atuais, como uma de suas unidades de ensino, a Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A fundação de uma escola de artes e ofícios no Brasil se deve, segundo informa Rafael Denis, à iniciativa da ala francófila do conselho de ministros de Dom João, representada pelo Conde da Barca. Uma escola desta feição se tornava cada vez mais necessária para a formação de profissionais especializados para servirem ao Estado e às indústrias nascentes, quando no país até então praticamente nada existia em termos de ensino regular e a tradição artística se transmitia através do antigo sistema das corporações. A implementação da ideia exigia a contratação de professores estrangeiros, de modo que enviados do Conde entraram em contato em Paris com Joachim Lebreton, então secretário perpétuo da seção de Belas Artes do Institut de France, para que ele reunisse o grupo de mestres necessários, que seria conhecido como a Missão Artística Francesa. Entretanto, a fundação da escola é controversa, e outros autores apontam diferentes mentores possíveis para o projeto, entre eles Dom João, o Marquês de Marialva e os franceses Lebreton ou Taunay. A documentação sobrevivente parece deixar claro que a Missão foi idealizada pelos próprios franceses. Em duas cartas Nicolas Taunay oferece seus serviços à corte portuguesa, a correspondência do Marquês de Aguiar refere que de parte da corte não havia intenção nenhuma de financiar a viagem deles ou garantir-lhes a estadia, correspondência do diplomata Francisco José Maria de Brito ao Conde da Barca apresenta o projeto como concebido por Lebreton, e numa carta de Brito a Lebreton ele lembrava ao destinatário que o projeto era inteiramente obra de Lebreton, que não lhe garantira nada em nome do governo português, e que uma acolhida oficial dependeria apenas da circunstância, incerta, de o príncipe regente querer apoiá-los. Por fim, o decreto de fundação da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios em 12 de agosto de 1816 informa que Dom João iria aproveitar o trabalho de um grupo de franceses que havia procurado sua proteção.
Esse projeto, um representante típico do chamado Academismo, tinha um perfil muito contrastante com o sistema de ensino e circulação de arte até então prevalente no Brasil. Havia na terra já uma longa e rica tradição artística local, visível no vasto legado de arte barroca que ainda sobrevive no país, mas seus métodos eram em tudo diversos. O aprendizado seguia o modelo informal das corporações de ofícios medievais, o status de artista nem era reconhecido, antes eram considerados meros artesãos especializados, cuja inserção na sociedade era apenas marginal. As temáticas privilegiadas por esse produtores eram basicamente religiosas, sendo a Igreja o maior mecenas do período. O sistema de arte do Brasil Colônia não estava capacitado para a produção de uma arte palaciana como a que desejava a corte recém chegada, e assim se explica a rápida encampação do projeto de Lebreton pela monarquia no exílio, considerando-o o marco inaugural da entrada no Brasil na "verdadeira" civilização. A Missão chegou ao Brasil imbuída de altos propósitos, como escreveu Debret:
Apesar de todos os obstáculos e controvérsias, os franceses deixaram uma marca indelével no cenário cultural brasileiro, e a semente que lançaram acabou frutificando. Debret e Montigny se tornaram os principais núcleos de resistência. O primeiro foi distinguido como pintor oficial de Dom Pedro I, e o segundo foi responsável por vários projetos arquitetônicos e urbanísticos que contribuíram para a renovação da fisionomia urbana do Rio, influenciando muitos alunos. Lebreton, por sua vez, com o plano curricular que estabeleceu em 1816, deixou diretrizes metodológicas que com algumas modificações permaneceram norteando a evolução da instituição ao longo de todo o século XIX. Alguns dos primeiros alunos da escola também acabaram se destacando e perpetuando o ideal primitivo, entre eles Simplício de Sá e José de Cristo Moreira, portugueses; Afonso Falcoz, francês; Manuel de Araújo Porto-Alegre, Francisco de Sousa Lobo, José dos Reis Carvalho, José da Silva Arruda e Francisco Pedro do Amaral, brasileiros.
A primeira exposição
A Academia foi responsável pela primeira exposição de Artes realizada no país, a Exposição da Classe de Pintura Histórica, instalada em 1829. Essa exposição havia sido determinada pelo Imperador, por Aviso Ministerial de 26 de Novembro de 1828: Desse modo, no ano seguinte, Debret e Grandjean de Montigny, com obras próprias e de seus discípulos, apresentaram quarenta e sete trabalhos de pintura histórica, cento e seis estudos de arquitetura, quatro trabalhos do professor de paisagem e quatro bustos de gesso de Marc Ferrez. A exposição foi um sucesso, visitada por mais de duas mil pessoas, e dela se ocuparam os jornais, tendo sido organizado e distribuído um catálogo.
A segunda exposição
Graças, ainda, aos esforços de Debret e Araújo Porto-Alegre, realizou-se uma segunda exposição, em 1830, ainda mais importante. Durante os oito dias que permaneceu aberta ao público, teve grande afluência de visitantes. Na Seção de Pintura figuraram sessenta e quatro trabalhos, cujos autores foram os mesmos da exposição anterior, e mais - Henrique José da Silva, diretor, Domingos José Gonçalves Magalhães, amador, com desenhos, pinturas, alegorias e cópias de Porto-Alegre; Antônio Pinheiro de Aguiar, com cópias; Marcos José Pereira, com cópias e desenhos; Correia de Lima, com estudos de figuras antigas e composições; Frederico Guilherme Briggs, Jó Justino de Alcântara e Joaquim Lopes de Barros Cabral, com estudos de paisagem, segundo os quadros do mestre Félix Taunay.
Em 1831 a estrutura da escola já exigia novas adaptações, introduzindo-se a chamada Reforma Lino Coutinho, complementada por decreto de 1833, que reformularam os estatutos e entre outras novidades sistematizaram as premiações por mérito e distinguiram os alunos regularmente matriculados dos diletantes, e os nativos dos estrangeiros. A Reforma também consagrou definitivamente o sistema acadêmico tradicional, definindo a emulação dos mestres e a cópia de obras famosas como as ferramentas principais para o bom aprendizado. Em 1834 assumiu a direção da AIBA Félix Taunay, filho de um dos integrantes da Missão Francesa, que se por um lado pouco fez para restabelecer os cursos técnicos profissionalizantes, por outro reforçou o modelo de ensino inspirado pelas academias europeias, pois para ele o único caminho que poderia conduzir os brasileiros a conquistarem um lugar no mundo civilizado seria a imitação dos europeus. Taunay também aparelhou a Academia com expressivas coleções de gravuras e esculturas para estudo dos alunos, incluindo muitas cópias de obras célebres, engrossando o acervo didático que havia sido iniciado com a coleção de pinturas que Lebreton vendera a Dom João, e foi responsável pela criação em 1845 dos prêmios de bolsas de estudo na Europa, com as quais os alunos brasileiros poderiam se aperfeiçoar no contato direto com importantes professores e as grandes criações artísticas cuja fama se espalhava pelo mundo. Outras de suas contribuições foram ter conseguido que o governo tornasse públicas as Exposições Gerais; lutou pela participação da Academia como órgão consultor nos projetos oficiais do governo; organizou a biblioteca e traduziu livros para facilitar a compreensão dos conceitos neoclássicos pelos estudantes brasileiros, a maioria deles com escassa instrução anterior.
Apogeu e declínio
A Academia se consolidava, antigos alunos se tornavam mestres e muitos outros estrangeiros foram atraídos para seu círculo, dinamizando a vida cultural do Rio de Janeiro e, por extensão, de todo o Império. Dentre todas as especialidades artísticas, neste período a pintura de temas históricos se tornou a mais prestigiada, seguida pelos retratos oficiais e só depois pelos outros temas, como a paisagem e a natureza-morta, numa hierarquização de categorias que estava ligada a preceitos essencialmente morais e educativos típicos do Academismo. Em termos de estilo, embora o Neoclassicismo continuasse influente, passou a predominar uma tendência romântica, importada também da Europa mas numa versão já atenuada, mais otimista e menos mórbida, distante do espírito do "mal do século", criando-se uma síntese bastante eclética, eficiente para os propósitos daquele momento histórico. Encarregados muitas vezes diretamente pelo governo, os artistas produziram uma série de obras grandiloquentes, em especial na pintura, cuja finalidade era reconstruir visualmente, para a nação que se pretendia civilizada e para o mundo, um passado heroico, comparável ao das nações europeias. Ao contrário do elemento negro, relegado sempre à condição de figurante anônimo, o indígena recebeu considerável espaço naquele passado, mas dentro de uma apresentação fortemente idealizada.
Após a proclamação da República, a Academia Imperial de Belas Artes foi palco de intensos debates entre grupos de professores e jovens alunos que propunham caminhos alternativos para a reforma a ser empreendida na Academia. Lutava-se contra as normas de ensino então vigentes, herança da Missão Artística Francesa de 1816. O grupo dos modernos, dentre os quais se alinhavam José Fiúza Guimarães, Rafael Frederico e Eliseu Visconti, pressionavam por uma ampla reforma dessas antigas normas, bastante defasadas das ideias mais arejadas trazidas da Europa pelos professores Rodolfo Bernardelli e Rodolfo Amoedo. Enquanto isso, os positivistas, mais radicais, pregavam mesmo a extinção da Academia, instituição que consideravam anacrônica. Dentre os positivistas estavam Montenegro Cordeiro, Décio Villares e Aurélio de Figueiredo. Num terceiro grupo, na defesa das normas tradicionais de ensino, reuniam-se os conservadores.


