Cristianismo liberal
Cristianismo liberal representa a tentativa de abordar o cristianismo de uma perspectiva crítica, aberta, desconsiderando eventos sobrenaturais, sem negar ou menosprezar a importância da experiência religiosa e do compromisso religioso.
A teologia liberal surgiu da reação ao racionalismo iluminista e da valorização da experiência e essência pelo romantismo dos séculos XVIII e XIX, principalmente entre igrejas protestantes europeias e seu correspondente no catolicismo, o modernismo teológico. A influência da teologia liberal, fundamentada em uma visão positiva da humanidade, sucumbiu diante dos horrores da 1a Guerra Mundial. Drasticamente, o movimento da teologia liberal diminuiu com a ascensão do pentecostalismo na década de 1920, da neo-ortodoxia na década de 1930, do movimento ecumênico e missionário nos anos 1940, do evangelicalismo nos anos 1950, da teologia da libertação na década de 1960 e com a teologia pós-liberal dos anos 1990. Apesar de sua quase extinção, há ainda no início do século XXI alguns poucos teólogos liberais, como o teólogo Marcus Borg, o bispo episcopaliano John Shelby Spong e o teólogo alemão Jörg Lauster. Atualmente, os aderentes dessa teologia congregam em denominações diversas ou se comungam em pequenas denominações como a Igreja Presbiteriana não Subescrevente da Irlanda, a Congregação Unitarista de Pernambuco, a Igreja Cristã Livre do Recife ou associações como a Rede Europeia Protestante Liberal.
O início da teologia liberal está na reação ao racionalismo que o teólogo alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834) propunha com base na teologia natural. Diante dos questionamentos da historicidade das Escrituras pelos racionalistas, Schleiermacher argumentava que a verdadeira religião seria dependente do sentimento humano da comunhão com Deus. Deus só poderia ser experimentado por meio do sentimento, não da razão, pois a humanidade ao ser consciente de seu próprio pecado e de sua necessidade de redenção, que só pode ser realizada por Jesus Cristo, deveria reunciar-se a ele. Meio século depois de Schleiermecher, outro teólogo, Albrecht Ritschl (1822-1889), impulsionou a teologia liberal. Ritschl discordava da ênfase de Schleiermacher no sentimento, pois isso levaria a um sentimentalismo, um misticismo ou um subjetivismo. Antes, a crença religiosa deveria ser baseada objetivamente nos eventos históricos registrados no Novo Testamento, pois seria o testemunho da missão divina de Jesus. Todo o conhecimento disponível da história, da linguística e arqueologia deveria ser recrutado para o estudo da Bíblia. Porém, alinhado com a naturalismo metodológico, Ritschl não encontrou bases históricas para as doutrinas como o nascimento virginal de Jesus, da Trindade ou do sacrifício vicário, tampouco para a historicidade de milagres. Contudo, o centro de sua teologia seria morte de Jesus Cristo, a qual representaria um exemplo da possibilidade de redenção da humanidade. A vida cristã deveria ser devotada à atividade ética e ao desenvolvimento. Desse modo, as doutrinas cristãs funcionariam como julgamentos de valor, em vez de afirmações de fatos. A superação do pecado e a entrada no Reino de Deus se dava pela prática da caridade e da comunhão entre as pessoas, não pela fé em Cristo.
Por desconhecimento teológico ou deliberamente, entre círculos fundamentalistas, reacionários e conservadores é comum referir-se a quem não subscreva às suas doutrinas como teólogos "modernistas" ou "liberais". No entanto, essa pejoração trata-se mais de uma falácia do espantalho, sem necessariamente o conteúdo teológico dos oponentes serem ligados ao movimento histórico de liberalismo teológico. Outra associação indevida do termo "liberalismo teológico" é aplicada a biblistas e teólogos que adotam o método histórico-critico de hermenêutica bíblica enquanto a posição "conservadora" ou "tradicionalista" supostamente adotaria o método histórico-gramatical. Entretanto, um dos pioneiros norte-americanos da teologia liberal, Hosea Ballou, empregava o método histórico-gramatical; enquanto o biblista aderente do evangelicalismo, William Robertson Smith, aderia ao método histórico-critico. Frequentemente, promotores do diálogo ecumênico são tachados de "liberais", embora não tenha sido a aproximação inter-religiosa parte essencial do liberalismo teológico, o qual abrigava desde ativistas anti-pluralismo religioso durante o Kulturkampf como também interlocutores do Parlamento Mundial de Religiões. Enquanto isso, o movimento ecumênico contemporâneo foi lançado por evangelicais nas conferências missionárias de 1888 a 1910.


