Balduíno IV de Jerusalém
Balduíno IV, conhecido como o Rei Leproso, foi o rei de Jerusalém de 1174 até sua morte em 1185. Ele foi admirado por seus contemporâneos e por historiadores posteriores por sua força de vontade e dedicação ao Reino Latino, mesmo enfrentando a debilitante lepra. Escolhendo conselheiros competentes, Balduíno governou um próspero Estado cruzado e conseguiu protegê-lo do governante muçulmano Saladino.
Apesar de o seu nascimento não ser mencionado em qualquer documento ou história contemporânea, as crónicas permitem estimar a data do seu nascimento em meados de 1161. Aquando do seu nascimento, o seu pai, então conde de Jafa e Ascalão, pediu ao irmão, o rei Balduíno III de Jerusalém, para ser o padrinho do seu filho. Uma vez que este aceitou, a criança foi baptizada com o prenome de Balduíno. Balduíno III morreu no ano seguinte, sendo sucedido por Amalrico. Para subir ao trono, este foi forçado pela nobreza cruzada a anular o seu casamento com Inês de Courtenay, julgada de personalidade demasiado volátil e propensa a intrigas para se tornar rainha da Cidade Santa. Inês manteve o título de condessa de Jafa e Ascalão (posteriormente seria também senhora de Sidom) e continuou a receber uma pensão pelo rendimento desse feudo; e a Igreja declarou Balduíno IV e Sibila filhos legítimos do rei, preservando o seu lugar na ordem de sucessão. Amalrico voltaria a casar-se em 1167 com Maria Comnena, de quem nasceria Isabel I de Jerusalém.
Amalrico morreu a 11 de Julho de 1174, depois de tentar impedir o domínio dos zênguidas sobre o califado egípcio, mas sem sucesso. Mas este domínio não seria completo porque, com a morte em 1171 do conquistador Xircu, o território passou para o controlo do seu sobrinho Saladino, que adoptou uma política dúbia, não totalmente submissa a Noradine. Os estados cruzados tinham agora de enfrentar a sul o poder emergente dos aiúbidas, em vez do poder decadente dos fatímidas. Balduíno IV foi imediatamente coroado, pelo patriarca latino de Jerusalém Amalrico de Nesle a 15 de Julho, com a idade de treze anos. Uma vez que a maioridade estava definida para o quinze anos, o reino foi colocado sob regência, inicialmente exercida informalmente pelo senescal Milão de Plancy, guerreiro de renome mas que se revelaria um falho político. Duas semanas depois da coroação, a 28 de Julho, o rei Guilherme II da Sicília desembarcou em Alexandria e pôs cerco à cidade, mas seria derrotado por Saladino a 31 de Julho. Se Milão de Plancy tivesse lançado um ataque simultâneo, é provável que Saladino, ainda em situação precária no poder do Egito, tivesse ficado em uma posição muito desfavorável.
Milão de Plancy foi acusado de abusar da sua posição de regente, pelo que os nobres do reino exigiram a sua renúncia. Perante a sua recusa, foi assassinado no final do ano durante uma viagem de inspecção a São João de Acre e Raimundo foi nomeado bailio pela Haute Cour (corte de Jerusalém). A sul, Saladino planeava tomar as cidades-estado de Alepo, Homs e Damasco, na posse dos herdeiros de Noradine, para dominar a Síria e cercar os estados cruzados, objectivo principal da jiade. Em resposta, Raimundo III apoiou os zênguidas contra o sultão do Egito. Em 1175 Balduíno acompanhou o seu regente a Homs, em uma operação que forçou Saladino a levantar o cerco a Alepo. Em agradecimento, o emir desta cidade libertou os seus prisioneiros cristãos, entre os quais Reinaldo de Châtillon e Joscelino III de Edessa, apesar de também ser relatado que o segundo só foi libertado quando a sua irmã pagou um resgate de 50 000 dinares, provavelmente com uma ajuda do tesouro real. Depois, Raimundo iniciou várias incursões a territórios muçulmanos com o objectivo de enfraquecer o aiúbida.
Devido à sua doença, desde o início do seu reinado Balduíno IV teve de se preocupar com os problemas da sua sucessão. O seu pai casara-se duas vezes: com Inês de Courtenay, que contraíra novo matrimónio com Reginaldo de Sidom; e com Maria Comnena, casada em 1177 com Balião de Ibelin. Sibila, a filha de Inês, já tinha atingido a maioridade e tido um filho, pelo que estava em uma boa posição para suceder ao irmão, mas Isabel, a filha de Maria, tinha o apoio dos Ibelin, a família do seu padrasto. A posição de Raimundo III de Trípoli era difícil e controversa. Como parente mais próximo do rei por via varonil, poderia reivindicar o trono. No entanto não tinha produzido descendentes que pudessem ser seus herdeiros inequívocos, o que terá sido o motivo de evitar colocar-se na posição de pretendente. Em vez disso, usou a sua influência para colaborar com os Ibelin na tentativa de influenciar os casamentos das princesas.
Depois de assumir o trono, Balduíno IV não ratificara a paz de Raimundo III de Trípoli com Saladino. Deste modo, invadiu a região de Damasco e do vale do Beca, e planejou um ataque ao Egito, a fonte do poder do sultão. O anterior príncipe de Antioquia, Reinaldo de Châtillon, foi libertado de Alepo em 1176 por um filho de Noradine, através de uma troca de prisioneiros ou do pagamento do seu resgate por Manuel I Comneno. Balduíno enviou-o a Constantinopla em embaixada ao imperador bizantino a fim de obter o apoio naval para esta expedição. Reinaldo voltou ao Reino de Jerusalém no início de 1177, sendo recompensado com um casamento com Estefânia de Milly, a abastada viúva de Onofre III de Toron e Milão de Plancy, e herdeira do Senhorio de Transjordânia, incluindo os castelos de Queraque e Montreal, a sudoeste do mar Morto. Estas fortalezas controlavam as rotas de comércio entre o Egito e Damasco, e davam acesso ao mar Vermelho. Balduíno tentou assegurar a cooperação do seu cunhado Guilherme de Monferrato com Reinaldo na defesa do sul do reino, mas o conde de Jafa e Ascalão morreria em Junho.
Sob pressões da sua corte e cada vez mais doente, em 1180 Balduíno IV acabaria por permitir várias decisões que teriam consequências desastrosas: a eleição do patriarca latino de Jerusalém Heráclio de Auvérnia, os casamentos de Sibila com Guido de Lusinhão e de Estefânia de Milly com Reinaldo de Châtillon, e o noivado da sua meia-irmã Isabel com Onofre IV de Toron. Com base na Historia de Guilherme de Tiro, as primeira decisões têm sido atribuídas pelos historiadores à influência de Inês de Courtenay sobre o filho, mas recentemente esta versão dos acontecimentos tem sido posta em dúvida, levando em conta a inimizade pessoal do cronista pelo partido dos Ibelin. Por outro lado, o noivado de Isabel pode ser explicado por uma dívida de gratidão que o rei sentiria pelo avô do noivo, Onofre II de Toron, que perdeu a vida para o salvar em 1179. Uma herdeira ficava assim ligada ao partido oposto aos Ibelin, em um contexto de equilíbrio de poderes.
Literatura
Várias obras literárias basearam-se no personagem histórico do rei leproso, com graus variáveis de imprecisão. Em geral é representado como um personagem simpático. Algumas destas obras são:


