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Samuel de Neardeia

Samuel de Neardeia ou Samuel bar Abá, muitas vezes chamado apenas Samuel ou Mar Samuel, foi um amora judeu da 1.ª geração. Era filho de Abá bar Abá e chefe da Academia de Neardeia, na Babilônia.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 16/07/2026
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Vida

Família e primeiros anos

Samuel nasceu em Neardeia por volta de 165 e era filho de Abá bar Abá. Como ocorre com muitos outras personagens, diversas narrativas lendárias se ligam ao seu nascimento. Seu pai, que posteriormente passou a ser conhecido apenas pela designação Abu di-Xemuel ("pai de Samuel", era comerciante de seda. Teve um filho chamado Rabá e duas filhos, cujos nomes não são conhecidos. Suas filhas capturadas por soldados durante a guerras do Império Sassânida com o Império Romano. Elas foram Elas foram levadas para Séforis, na Palestina, onde foram resgatadas por correligionários, mas ambas morreram em idade jovem, após terem sido sucessivamente casadas com um parente. Diz-se que Judá bar Bateira) encomendou de Abá uma veste de seda, mas recusou-se a aceitá-la depois que Abá a havia providenciado; quando este lhe perguntou o motivo da recusa, Judá respondeu: "a encomenda foi apenas verbal, e não bastou para tornar a transação vinculante". Abá replicou: "A palavra de um sábio não é melhor garantia do que o seu dinheiro?”. "Tens razão", disse Judá; "e porque dás tanto valor à palavra empenhada, terás a felicidade de ter um filho semelhante ao profeta Samuel, cuja palavra todo o Israel reconhecerá como verdadeira". Pouco depois nasceu um filho a Aba, a quem deu o nome de Samuel.

Estudos

O primeiro mestre de Samuel foi um homem cujo nome não é conhecido; diz-se que Samuel dominava mais do que ele certa questão jurídica e recusou-se a submeter-se aos maus-tratos desse professor. Então seu pai, ele próprio destacado mestre da Lei, passou a instruí-lo. Depois, Abá o enviou a Nísibis, para frequentar a escola do rabino que profetizara seu nascimento, a fim de que ali adquirisse conhecimento da Lei. Samuel permaneceu pouco tempo em Nísibis. De volta a Neardeia, estudou com Levi ben Sissi, que estivera na Babilônia antes da morte de Judá, o Príncipe e exerceu grande influência em sua formação. O progresso de Samuel foi tão rápido que logo passou a relacionar-se com seu mestre como igual. Além da Bíblia e da Lei tradicional, Samuel recebeu, provavelmente desde cedo, instrução em outras ciências. É provável que tenha acompanhado o pai em sua viagem à Palestina, pois, após a ida de Levi ben Sissi à Palestina, já não havia na Babilônia quem pudesse instruí-lo.

Academia de Neardeia

Após a morte de Xila, diretor (rexe sidra) da Academia de Neardeia, Samuel foi nomeado para o cargo, depois que Rave o recusara, por não aceitar funções honoríficas na cidade natal de Samuel. Sob sua direção, a academia prosperou e, junto com a fundada por Rabe em Sura, gozou de altíssimo prestígio. Rabe em Sura e Samuel em Neardeia estabeleceram a independência intelectual da Babilônia. Já não era necessário aos jovens ir à Palestina para estudar a Lei. A Babilônia passou a ser considerada, em certo sentido, uma segunda Palestina. Samuel ensinava: "Assim como é proibido emigrar da Palestina para a Babilônia, também é proibido emigrar da Babilônia para outros países". Após a morte de Rabe, nenhum novo diretor foi eleito, e o maior discípulo dele, Huna — que se tornara presidente do tribunal de Sura — subordinou-se em tudo a Samuel, consultando-o em toda questão jurídico-religiosa difícil. A Academia de Neardeia era então a única existente na Babilônia, e Samuel era considerado a autoridade suprema entre os judeus babilônicos. Até mesmo Joanã bar Napaca, o mais eminente mestre da Palestina, que inicialmente via Samuel apenas como um colega, ficou tão convencido de sua grandeza — depois que Samuel lhe enviara numerosas responsa sobre importantes leis rituais — que exclamou: "Tenho um mestre na Babilônia".

Conhecimentos científicos

Samuel parece ter possuído vasto conhecimento da medicina conforme praticada em seu tempo; isso é evidente pelas numerosas máximas médicas e regras dietéticas dispersas pelo Talmude. Opôs-se à concepção então corrente, mesmo em círculos cultos, de que a maioria das doenças provinha do mau-olhado, declarando que a origem de todas as enfermidades devia ser buscada na influência nociva do ar e do clima sobre o organismo humano. Atribuía muitas doenças à falta de higiene e outras a perturbações no modo regular de vida. Alegava possuir curas para a maioria das enfermidades e era particularmente hábil no tratamento dos olhos; descobriu um colírio conhecido como o "ḳillurin [κολλύριον] de Mar Samuel", embora afirmasse que lavar os olhos com água fria pela manhã e banhar mãos e pés com água morna à noite eram melhores do que todos os colírios do mundo. Samuel também identificou várias doenças dos animais. Às vezes desenhava a figura de um ramo de palmeira como sua assinatura, o que talvez fosse um sinal comum entre médicos da época.

Ensinamentos

Samuel desenvolveu e ampliou teorias jurídicas anteriores e formulou muitos novos princípios legais. Ele enunciou o importante princípio segundo o qual a lei do país em que os judeus vivem é obrigatória para eles (dina d'malkhuta dina). Esse princípio, reconhecido como válido do ponto de vista haláquico, fez da obediência às leis do país um dever religioso para os judeus. Assim, embora os judeus tivessem seus próprios tribunais civis, Samuel entendia que o direito persa devia ser levado em consideração e que diversas normas judaicas deveriam ser adaptadas a ele. Em razão de sua lealdade ao governo e de sua amizade com o xainxá Sapor I (r. 240–270), Samuel foi chamado "Rei Sapor" (Šabur Malka). Julius Fürst e Rapoport explicam, cada um de modo diverso, o nome Arioque, dado a Samuel, a partir de suas estreitas relações com os neopersas e com seu rei. Comentadores mais antigos explicam esse nome sem referência a tais relações.

Relação com a corte

Foi graças à influência de Samuel junto ao xainxá que os judeus receberam muitos privilégios. Em certa ocasião, Samuel chegou mesmo a subordinar seu amor por seu próprio povo à sua lealdade ao xainxá e à sua rigorosa concepção dos deveres do cidadão; pois, quando chegou a notícia de que os persas, ao capturarem Cesareia Mázaca, na Capadócia, haviam matado 12 mil judeus que lhes resistiram obstinadamente, Samuel se absteve de manifestar qualquer tristeza. Contudo, nutria grande amor por seu povo e preservava fielmente a memória do antigo Reino de Judá. Certa vez, quando um de seus contemporâneos se adornou com uma coroa de oliveira, Samuel lhe enviou a seguinte mensagem: "A cabeça de um judeu que hoje usa uma coroa enquanto Jerusalém jaz desolada merece ser separada de seu tronco". Samuel esperava que a restauração do Estado judaico na Palestina ocorresse de modo natural, mediante a permissão concedida pelos diversos governos para que os judeus retornassem à Palestina e ali estabelecessem um Estado independente.

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Fontes consultadas

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