Babilónia
Babilónia (português europeu) ou Babilônia (português brasileiro) foi a cidade central da civilização babilónica, na Mesopotâmia, situada nas margens do rio Eufrates. As suas ruínas encontram-se a norte do centro da cidade atual de Hila, capital da província de Babil, no Iraque, situada 100 km a sul de Bagdade. Em pelo menos duas ocasiões, a primeira no século XVIII a.C. e a segunda no século VI a.C., foi capital da principal potência da Mesopotâmia e, nesses períodos, é possível que tenha sido a maior cidade do mundo, na qual existiam alguns dos monumentos mais impressionantes da Antiguidade e que ocupava uma área de cerca de 10 km² defendida por várias cercas de imponentes muralhas. O seu sítio arqueológico foi classificado pela UNESCO como Património Mundial em 2019.
Babilónia aparece tardiamente na história da Mesopotâmia antiga, em comparação com outras grandes cidades dessa civilização, como Quis, Uruque, Ur, Nipur ou Nínive. Por isso, a sua rápida ascensão é ainda mais notável. A cidade é pouco mencionada na documentação da segunda metade do 2.º milénio a.C., mas cresceu rapidamente sob o impulso de uma dinastia amorita que obteve vários êxitos militares importantes, durante o período dito "paleobabilónico" (2004–1595 a.C.). Durante o período seguinte, dito "médio-babilónico" (1595–fim do século XI a.C.), Babilónia afirmou-se de forma permanente como capital da Mesopotâmia meridional, tornando-se um grande centro religioso além de um centro político, sob a dinastia cassita e a Segunda dinastia de Isim (1154–1027 a.C.). O início do 1.º milénio a.C. foi marcado por períodos turbulentos, que se prolongaram nas guerras provocadas pelas tentativas de controlo da região da Babilónia pelos reis assírios. Estes foram finalmente derrotados pelos reis que fundaram o poderoso império dito neobabilónico (626–539 a.C.) e que empreenderam as obras que tornaram Babilónia a cidade mais prestigiada do seu tempo. Depois da queda deste império, sucederam-se várias dinastias estrangeiras; apesar da cidade não ser a capital, ela conservou uma importância considerável até aos últimos séculos antes de Cristo, durante as fases mais tardias da história babilónica, antes de ser abandonada nos primeiros séculos da nossa era.
Origens da cidade e do seu nome
A menção mais antiga ao que pode ter sido o nome da cidade de Babilónia encontra-se numa tábua datada por critérios paleográficos de c. 2 500 a.C. (Período Dinástico Arcaico). Esse texto menciona uma cidade chamada BA7.BA7 ou BAR.KI.BAR cujo soberano (ENSÍ) comemora a construção do templo do deus AMAR.UTU, que em períodos ulteriores é a forma suméria do nome de Marduque, a divindade tutelar de Babilónia, o que aparentemente dá força à hipótese do texto se referir aquela cidade. O nome "Babilónia" provém do grego, que por sua vez provém do acádio bāb-ili(m), que significa "porta (bābu(m)) do deus (ili(m))", que se encontra também nos textos sob a forma bāb-ilāni ("porta dos deuses"). Terá tido origem no termo babal ou babulu, que sem dúvida fazia parte da língua, atualmente desconhecida, de uma população anterior à presença suméria e semita na Mesopotâmia, pelo que se desconhece o seu significado. Uma outra hipótese é que se trate de um termo de origem suméria, que talvez signifique "pequeno bosque". Esse termo original teria sido interpretado, devido à proximidade fonética, pelos falantes de acádio que povoaram a cidade como significando "porta do deus", pois ele aparece com frequência nos textos mais antigos em logogramas sumérios, sob a forma KÁ.DINGIR ou KÁ.DINGIR.RA, que tem o mesmo sentido (KÁ, "porta"; DINGIR "deus"; -RA como marca do dativo) e é uma tradução e não apenas uma simples transposição fonética como acontece com outras adaptações da palavra noutras línguas. O nome acádio da cidade, por sua vez, deu origem ao hebraico Babel e ao árabe Bābil, que designa a cidade nessas línguas.
Dinastia amorita
A ascensão de Babilónia dá-se com o surgimento de uma dinastia de origem amorita, que se inicia em 1 894 a.C. com um soberano de nome Samuabum (r. 1894–1881). Este período é designado como " paleobabilónico" ou "babilónico antigo". Samulael (r. 1880–1845) foi o verdadeiro ancestral da primeira dinastia da Babilónia, pois não era da família do seu predecessor e todos os seus sucessores foram seus descendentes. Estes aumentaram progressivamente o reino, que no início estava limitado à cidade e aos seus arredores. Durante o reinado de Sim-Mubalite (r. 1812–1793), Babilónia torna-se uma potência capaz de rivalizar com os outros grandes reinos amoritas vizinhos de Larsa, Esnuna, Isim e Uruque. O seu filho Hamurábi (r. 1793–1750) desempenhou com inteligência o seu papel no cenário internacional do seu tempo e foi sob o seu reinado que esta primeira dinastia babilónica se tornou uma potência regional dominante. Durante a primeira parte do seu reinado não obteve qualquer vitória, mas depois logrou submeter os reinos que em sua volta: Larsa, Esnuna e, mais tarde, Mari.
Dinastia cassita
Depois da tomada de Babilónia pelos hititas, a situação política na região babilónica é particularmente obscura. A região ficou sob o controlo de uma dinastia de origem cassita em condições mal conhecidas. Um texto do século VII a.C. encontrado em Nínive, na Assíria, apresenta-se como uma cópia de uma inscrição do rei cassita Agum II (início do século XVI a.C.), onde se lê que restituiu as estátuas de culto de Marduque e Sarpanitu a Babilónia e restaurou o Esagila. Nada se sabe quanto à autenticidade desse texto, tanto mais que esse rei Agum só é mencionado em textos posteriores ao seu reinado.[b] Os conhecimentos atuais acerca do domínio cassita sobre a Babilónia só são seguros a partir do início do século XV a.C. (um século depois do ataque hitita e do suposto reinado de Agum II), com o reinado de Burnaburias I e principalmente dos seus sucessores Ulamburias e Agum III. Os reis desta dinastia, que se apresentam como monarcas de Cardunias (correspondente à região da Babilónia), mais frequentemente do que como "reis de Babilónia", raramente aparecem relacionados com a cidade, onde as suas obras são pouco ou nada mencionadas. O estatuto da cidade como centro político não é claro: durante o reinado de Curigalzu I ou Curigalzu II, no início do século XIV a.C., foi fundada uma nova capital em Dur-Curigalzu ("forte Curigalzu", do nome do seu fundador), situada a norte de Babilónia, num local onde os rios Eufrates e Tigre estão mais perto um do outro, à semelhança de outras futuras capitais de reinos estabelecidos na Mesopotâmia, como Selêucia do Tigre, Ctesifonte ou, mais tarde, Bagdade.
Segunda dinastia de Isim e período de declínio
Os elamitas foram finalmente expulsos de Babilónia por uma nova dinastia com origens em Isim, que logrou retomar a cidade. O seu maior rei, Nabucodonosor I (r. 1126–1105 a.C.), derrotou depois os elamitas no seu próprio país e trouxe de volta triunfalmente a estátua de Marduque, um acontecimento que é relatado num longo texto que figura numa ata de doação. Este ato é particularmente importante para a história religiosa de Babilónia, pois é neste período que se estabeleceu a primazia de Marduque sobre as outras divindades mesopotâmicas, com a redação da “Epopeia da Criação” (Enūma eliš), que narra como ele se tornou rei dos deuses. Nesta história, Babilónia aparece como uma cidade construída pelos deuses e situada no centro do mundo, no ponto de contacto entre o Céu e a Terra (materializado pelo zigurate, cujo nome significa "Casa-ligação do Céu e da Terra"). Geralmente considera-se que foi também nessa época que foi redigido o texto topográfico chamado TINTIR (o mesmo que Babilu),[c] devido ao seu incipit, onde está descrita a localização de todos os locais de culto da cidade, que tinha então o estatuto de cidade santa. Acredita-se por isso que a cidade já tinha então a sua planta praticamente definitiva, mesmo sendo possível que o texto (e por conseguinte a organização interior final da cidade) seja mais tardio.
Babilónia e o domínio assírio
A situação começou a estabilizar a partir do século IX a.C., apesar de continuar muito agitada. Os reis de Babilónia lutaram para afirmar o seu domínio sobre a região, mas as dinastias eram muito instáveis. A estes problemas somou-se o reinício das guerras contra a Assíria, que se encontrava numa posição de força devido à sua maior estabilidade interna. A degradação da situação acelerou-se durante o reinado do rei assírio Tiglate-Pileser III (r. 745–727 a.C.), que após vários anos de combates conseguiu conquistar Babilónia em 728 a.C., onde se proclamou rei. O domínio assírio, porém, não ficou assegurado, e Sargão II (r. 722–705 a.C.), que restaurou templos e as muralhas de Babilónia, teve que enfrentar um duro adversário na Babilónia, Merodaque-Baladã II, que por duas vezes reinou na cidade. Senaqueribe, o sucessor de Sargão II, tentando fazer face a várias revoltas em Babilónia, colocou um dos seus filhos no trono da cidade. Este ficou pouco tempo no poder — foi capturado durante outra revolta e foi entregue aos aliados dos revoltosos, os elamitas, que o executaram. A resposta de Senaqueribe foi terrível e o relato que se conhece deixa claro o ódio contra os babilónios. O rei assírio teria massacrado uma grande parte da população e destruiu grande parte da cidade mudando o curso das águas para a inundar. Depois destruiu as muralhas e o santuário de Marduque, de onde levou a estátua. Segundo o relato, a destruição teria sido ordenada pelo deus Marduque, zangado com os babilónios, e Senaqueribe foi apenas o braço da vingança divina. A verdadeira amplitude das destruições é controversa e tudo indica que a cidade não foi completamente destruída como o rei assírio queria fazer crer.
Império Neobabilónico e apogeu de Babilónia
A sucessão de revoltas na Babilónia enfraqueceu a Assíria, ao mesmo tempo que na cidade o espírito de resistência ficou cada vez mais forte e os resistentes ficaram cada vez mais ativos e mais unidos. Após a morte de Assurbanípal em 627 a.C., os seus sucessores envolveram-se em querelas que acabaram por ser fatais para o reino assírio. Nabopolassar, governador em nome dos assírios do "País do Mar", provavelmente de origem caldeia, aproveitou os tumultos na Assíria para tomar o poder em Babilónia em 625 a.C. e após isso entrou gradualmente em conflito com o seu vizinho do norte. Após alguns anos de conflitos, ele conseguiu finalmente derrubar o Império Assírio com a ajuda do rei dos Medos, Ciaxares, entre 614 e 610 a.C.
Os estratos antigos de Babilónia não foram escavados, à exceção de algumas residências paleobabilónicas e os textos não revelam informações suficientes para saber qual seria o aspeto da cidade nos períodos mais antigos. A maior parte dos dados disponíveis sobre Babilónia, quer resultantes de escavações, quer dos diferentes textos locais e exteriores, são referentes ao período neobabilónico (624–539 a.C.) e ao período aqueménida (539–331 a.C.).
Uma "megacidade" da Antiguidade
No seu apogeu, estima-se que a cidade de Babilónia ocupava entre 950 e 975 hectares, o que torna Babilónia o maior conjunto de ruínas da Antiguidade mesopotâmica e mesmo do do Próximo Oriente, que atualmente cobre vários teis. As estimativas do número de habitantes são praticamente impossíveis. Há autores que avançaram com 100 000 habitantes apenas na cidade interior, mas as estimativas não têm bases sólidas. Para dar uma ideia da ordem de grandeza, a população de Nínive no seu apogeu, a segunda maior cidade da Mesopotâmia antiga, foi estimada em aproximadamente 75 000 habitantes, baseada em dados mais seguros. Qualquer que fosse o número de habitantes, tratava-se manifestamente de uma cidade muito povoada entre o período neobabilónico e o período aqueménida, que pode considerar-se a primeira "megacidade" da história, fervilhante de atividade, que inspirou a imaginação de testemunhas exteriores.
Os monumentos do poder político
Antes da conquista persa, ocorrida em 539 a.C., Babilónia foi a capital do império mais poderoso do Médio Oriente, o que explica o seu crescimento. Os reis construíram ali vastos palácios que refletiam o seu poderio. A maior parte desses palácios foram desenterrados durante as escavações. Esses edifícios continuaram a ser utilizados pelo poder político depois da perda da autonomia da cidade, pois foram a residência de um governador importante e foram usados por reis, como Alexandre, o Grande, que pensava fazer da cidade a sua capital antes de morrer. A vida das elites políticas de Babilónia é no entanto muito mal conhecida devido à ausência de fontes similares às dezenas de tábuas que se conhecem sobre as capitais do Império Assírio. Sabe-se muito pouco da corte e da administração central do império babilónico.
Uma capital religiosa
A "Porta dos Deuses" tornou-se progressivamente o principal centro religioso da Mesopotâmia, um processo evolutivo que é difícil não colocar em paralelo com a afirmação da cidade como maior capital política da parte sul do que era a região mais esplendorosa nos planos cultural e político. O clero do Esagila, certamente apoiado pelo poder real, elevou gradualmente o deus Marduque ao estatuto de principal deus do panteão mesopotâmico graças a uma produção teológica impressionante. Os santuários deste deus tornaram-se o conjunto mais vasto e mais prestigiado da Mesopotâmia antiga e a afirmação de Babilónia como cidade santa teve também repercussões no desenvolvimento de muitos outros santuários. Tudo isso deu origem a uma vida religiosa e intelectual muito dinâmica.
Dada a sua importância política e cultural, Babilónia tornou-se um elemento do imaginário e dos mitos de várias civilizações, até mesmo muito tempo depois da sua queda. Os relatos relativos à cidade, dificilmente dissociáveis da trajetória do reino do qual era a capital, concentraram-se sobretudo no estatuto de cidade de proporções gigantescas e com monumentos grandiosos, mas também, de forma mais negativa, no seu orgulho e nos seus pecados. As fontes antigas fornecem a matriz dessas representações: em primeiro lugar as fontes provenientes da própria teologia babilónica, nas quais a cidade é considerada sagrada e situada no centro do mundo, depois nos escritos dos autores gregos e latinos, que deixaram a imagem de uma cidade gigantesca, e por fim os autores dos textos bíblicos, que a apresentam quase sempre numa perspetiva negativa. Depois do seu desaparecimento, desenvolveu-se uma imagem de grande cidade e símbolo do pecado, nomeadamente na Idade Média, quando as fontes mais fiáveis sobre o que ela tinha sido realmente ficaram inacessíveis.
Nas civilizações antigas
A ascensão política de Babilónia foi progressivamente transportada para o domínio religioso e mitológico na Mesopotâmia antiga, sobretudo devido à instigação dos letrados dos templos da cidade, em primeiro lugar do Esagila. Isso conjuga-se com a afirmação da preeminência de Marduque como rei dos deuses, que se manifesta na redação do século XII a.C. da “Epopeia da Criação”. Este relato mitológico descreve como Marduque se tornou o rei dos deuses sendo o único capaz de salvá-los da ameaça representada por Tiamat, ancestral de todos eles que simbolizava o caos. Depois da sua vitória, Marduque criou o mundo com o cadáver de Tiamat e no seu centro, no local onde se juntavam o Céu e a terra, instalou os grandes deuses em Babilónia, a sua cidade que eles construíram, começando pelo seu grande templo. Esta ideia segundo a qual Babilónia era o centro do mundo encontra-se igualmente numa tábua que representa um mapa-múndi babilónico no qual a cidade aparece no seu centro.
A memória de Babilónia depois do seu fim
Depois do desaparecimento de Babilónia, a maior parte dos testemunhos diretos referentes à cidade foram em grande medida esquecidos durante a Idade Média, quando a imagem da cidade se deformou ainda mais. As fontes bíblicas constituíam então o essencial da documentação de base que estava disponível. Os territórios que outrora tinha estado sob o domínio babilónico pertenciam agora a estados muçulmanos e vários autores de língua árabe e persa, sobretudo geógrafos e historiadores, preservaram a memória do local das ruínas da cidade, que evocavam como primeira capital do Iraque. As histórias que eles evocam a propósito da cidade baseiam-se largamente na Bíblia ou nas tradições históricas iranianas, nomeadamente as ligadas aos reis Nabucodonosor II (Bukht Naṣ[ṣ]ar) e Alexandre (Iskandar). A cidade só é referida uma vez no Alcorão.
Os estudos dos sítios arqueológicos da Mesopotâmia antiga foram iniciados durante a primeira metade do século XIX e foram-se intensificando nas décadas que se seguiram. Os primeiros estudos focaram-se nos sítios assírios, cujas ruínas eram mais espetaculares. Apesar do sítio de Babilónia ter atraído rapidamente a atenção devido à celebridade do nome, só foi objeto de escavações no início do século XX, que foram levadas a cabo por uma das melhores equipas de arqueólogos da sua geração. Seguiram-se outras campanhas durante a segunda metade do século XX, que aprofundaram os conhecimentos sobre o local, que no entanto continua por explorar na sua maior parte.
Primeiras investigações e escavações
Não obstante por vezes haver alguma confusão com os sítios vizinhos de Birs Ninrude (Borsipa) e Acarcufe (Dur-Curigalzu), onde as ruínas dos zigurates faziam lembrar a Torre de Babel, a localização de Babilónia nunca foi realmente perdida e até o topónimo usado localmente — Bābil — deriva do nome antigo da cidade. Vários viajantes europeus visitaram as suas ruínas, como Benjamim de Tudela (século XII), Pietro Della Valle (século XVII) e Pierre Joseph de Beauchamp (século XVIII). O primeiro trabalho científico sobre as ruínas foi realizado pelo britânico Claudius James Rich, que no início do século XIX fez o primeiro levantamento cartográfico do local, que foi pioneiro na exploração científica da Mesopotâmia. Seguiram-se vários compatriotas seus, nomeadamente Austen Henry Layard em 1850 e Henry Rawlinson em 1854, dois dos principais descobridores de sítios das capitais assírias, que ali estiveram pouco tempo devido ao sítio de Babilónia apresentar menos descobertas espetaculares do que os sítios do norte, o que explica que não tenha havido escavações nesse período. Em 1852, uma equipa de franceses escavou o local, sob a direção de Fulgence Fresnel, assistido por Jules Oppert e Félix Thomas.
Escavações alemãs
Em 1897, Robert Johann Koldewey foi a Babilónia e decidiu empreender as suas escavações numa escala sem precedentes. No ano seguinte, foi criada a Deutsche Orient-Gesellschaft (DOG, "Sociedade Oriental Alemã") para reunir os fundos necessários ao projeto, para o qual também contribuíram os museus prussianos que iriam receber os achados feitos nas escavações. O projeto teve também o apoio do imperador Guilherme II, que era um entusiasta de antiguidades orientais. Os trabalhos foram iniciados ainda em 1898 e prolongaram-se até 1917, uma duração excecional para a época, tanto mais que as investigações só eram interrompidas uma vez por ano, ao contrário do que é usual acontecer atualmente. Devido à dimensão do sítio e aos objetivos das escavações (redescobertas científicas, desenterramento de peças e envio das mais importantes para Berlim), Koldewey e os seus assistentes, nomeadamente Walter Andrae, montaram um elaborado sistema logístico. Foram escavados vários locais em simultâneo — frequentemente três, por vezes cinco — e o número de operários envolvidos chegou rapidamente aos 150 a 200, chegando a atingir 250. O projeto tinha também como objetivo empreender escavações em outros sítios, o que foi feito em Birs Nimrud (Borsipa), Fara (Xurupaque) e depois em Qala'at Shergat (Assur), de que Andrae se ocupou de forma permanente entre 1903 e 1913.
Escavações depois de 1945
As escavações em Babilónia só foram retomadas várias décadas depois da partida de Koldewey. Em 1962 e entre 1967 e 1973, equipas alemãs escavaram o setor do zigurate e de outros edifícios, nomeadamente um complexo que pode ter sido o antigo templo da grande festa religiosa do Akitu. A partir de 1974, trabalhou no sítio uma equipa italiana dirigida por G. Bergamini. O primeiro objetivo era efetuar estudos topográficos e estratigráficos para corrigir e completar as escavações da época de Koldewey. Estes estudos revelaram a elevação da cidade devido aos problemas hidrográficos do local. Foram também postos a descoberto alguns edifícios no setor de Ishin Aswad.
Reconstruções e degradações
Durante as décadas de 1960 e 1970, as equipas arqueológicas iraquianas empreenderam a restauração de monumentos antigos no país, com objetivos turísticos, o que foi levado a cabo paralelamente com novas escavações. Um dos monumentos restaurados em Babilónia foi o templo de Ninmah. O sítio de Babilónia foi um dos que tiveram mais edifícios reconstruídos, em grande parte devido a ter-se tornado um símbolo do Iraque, desde que o país foi fundado em 1932. O programa de reconstruções intensificou-se a partir de 1978, impulsionado por Saddam Hussein, que governou o Iraque entre 1979 e 2003. Um dos objetivos era ligar o ditador ao passado da Mesopotâmia para fins de propaganda, apresentando-o por vezes como sucessor de Hamurábi, de Nabucodonosor II e de alguns soberanos assírios. As questões políticas misturaram-se com os interesses turísticos e Babilónia passou a ser um local de manifestação do poder. Foram restaurados alguns monumentos, como uma parte da muralha e a Porta de Istar. Outros foram modificados, como o Palácio Sul, cuja sala do trono foi adaptada para poder ser usada para concertos e receções, ou o teatro grego, que foi dotado de 2 500 lugares para espetáculos. Saddam Hussein foi ao ponto de mandar colocar inscrições de fundação, como faziam os antigos soberanos babilónicos, e mandou construir um palácio sobre uma das três colinas artificiais que foram então construídas no sítio. O local da antiga cidade passou a ser palco de várias festividades, que se realizaram regularmente. Essas obras são criticadas pelos arqueólogos pois elas impedem as escavações num grande parte do sítio e aceleram a degradação de alguns monumentos antigos, já danificados pelas escavações precedentes, que retiraram algumas partes deles para museus europeus, e pela erosão que se intensificou desde que eles foram desenterrados.[s]


