Aquitu
Aquitu ou Aquitum era um festival de primavera da antiga Mesopotâmia. O Aquitu da Babilónia teve um papel fundamental no desenvolvimento das teorias sobre religião, mitologia e rituais, porém o seu propósito continua a ser causa controvérsia entre historiadores de religião e assiriólogos.
O festival babilónico começava tradicionalmente no dia 21 de Adar ou 1 de Nisannu do calendário babilónico. Neste dia realizava-se a procissão até à "Casa de Aquitu", onde era celebrada a vitória de Marduque sobre o dragão Tiamate (deusa das águas inferiores) no início da Criação. A "Casa de Aquitu", a que os assírios de Nínive chamavam "Bete Ecribi" ("Casa das Orações" em assírio antigo), situava-se fora das muralhas, a cerca de 200 metros destas, onde havia belas árvores cuidadosamente decoradas e regadas, por respeito ao deus que se considerava quem concedia a vida à natureza. A procissão da vitória era a forma da população expressar a sua alegria pela renovação do poder de Marduque e destruição das forças do mal que praticamente controlavam a vida no início. Ao chegar ao "Bete Aquitu", o deus Marduque começava a festejar tanto com os deuses do mundo superior como com os do mundo inferior — as estátuas dos deuses eram dispostas em volta de uma mesa enorme com se estivessem num banquete. Marduque regressava à cidade à noite, para celebrar o seu casamento com a deusa Istar, onde o céu e a terra se uniam; e como os deuses estavam unidos, então a terra também se unia ao céu. O rei personificava esta união encenando o seu casamento com a mais alta sacerdotisa da Esagila, onde ambos se sentavam no trono em frente ao povo e recitavam poemas especialmente escritos para a ocasião. Esse amor iria trazer vida na primavera.
Primeiro ao terceiro dia
O sacerdote de Esagila (lar de Marduque) recitava preces tristes com os outros sacerdotes e o povo respondia com orações igualmente tristes que expressavam o temor humano pelo desconhecido. Este medo do desconhecido explica igualmente porque que é todos os dias o alto sacerdote se dirigia a Esagila para pedir perdão a Marduque e implorar pela proteção e favorecimento da Babilónia, a sua cidade sagrada. Esta prece era chamada "O Segredo de Esagila". "Senhor sem igual em tua ira,Senhor, gracioso rei, senhor das terras,Quem fez a salvação para os grandes deuses,Senhor, que derruba os fortes com seu olhar,Senhor dos reis, luz dos homens, que distribuem destinos,Ó Senhor, Babilônia é o teu trono, Borsipa a tua coroaOs largos céus são o teu corpo ...Dentro dos teus braços tu tomaste o forte ...
Quarto dia
Eram realizados os mesmos rituais dos três dias anteriores. Antes do nascer do sol, os sacerdotes observavam as estrelas sagradas "Acre". Durante o dia era recitado o “Enuma Elis”, um poema épico do mito da criação babilónico, provavelmente a história mais antiga acerca do nascimento dos deuses e da criação do universo e dos seres humanos, onde se conta como todos os deuses se uniram no deus Marduque a seguir à sua vitória sobre Tiamate. A recitação deste épico era considerada o início das preparações para a submissão do rei da Babilónia perante Marduque no quinto dia do Aquitu. Durante a noite era representado um drama igualmente em honra de Marduque.
Quinto dia
Era neste dia que o rei da Babilónia se submetia ritualmente a Marduque. O monarca entrava na Esagila acompanhado pelos sacerdotes e juntos aproximavam-se do altar onde estava o alto sacerdote representando Marduque. Este começava por despojar o rei das suas joias, cetro e coroa, depois esbofeteava-o com força enquanto ele se ajoelhava diante do altar, ao mesmo tempo que rezava pedindo perdão a Marduque e submetendo-se a ele dizendo: «Eu não pequei, Oh Senhor do universo, e não neglicenciei o Teu poder celestial...» O alto sacerdote que representava o papel de Marduque dizia então: «Não temas o que Marduque tem para dizer, pois ele ouvirá as tuas preces, estenderá o teu poder e aumentará a grandeza do teu reino». A remoção de todas as possessões mundanas era um símbolo da submissão do rei a Marduque.
Quinto dia
Era um dia muito agitado, antes da chegada dos deuses. Os bonecos feitos no terceiro dia eram queimados e era encenada uma batalha a fingir. A agitação simbolizava o caos constante em que a cidade ficaria sem Marduque. O deus Nabu, representado por estátuas, chegava em barcos especialmente construídos para a ocasião, acompanhado pelo seus assistentes de bravos deuses vindos de Nipur, Uruque, Quis e Eridu (cidades da antiga Babilónia). Nessa altura começava uma marcha, integrada por uma enorme multidão, que seguia o rei até à Esagila onde Marduque estava preso, cantando «aqui está ele [Nabu] que vem de longe para restaurar a glória do seu pai que está preso».
Sétimo dia
No terceiro dia da prisão de Marduque, este era libertado pelo filho Nabu. Os deuses maléficos tinham fechado um portão enorme depois de Marduque ter entrado na sua casa. Marduque lutava até à chegada de Nabu, que partia o grande portão, e seguia-se uma batalha entre os dois grupos, que terminava com a vitória de Nabu e a libertação de Marduque.
Oitavo dia
Quando Marduque era libertado, as estátuas dos deuses eram reunidas na "Sala dos Destinos" (Ubshu-Ukkina), para se decidir o seu destino. A decisão era que todos se submetessem a Marduque. O rei implorava a todos os deuses que apoiassem e honrassem Marduque, uma tradição que indica que todos os deuses eram submissos a Marduque, que era único na sua posição.
O mito de Marduque representado no festival está registado no chamado Juízo de Marduque (KAR 143). Neste mito, Marduque aparece como uma divindade de vida, morte e renascimento, refletindo a origem agtária do festival, baseado no ciclo de semeaduras e colheitas. Ele está preso no mundo inferior e ergue-se no terceiro dia. O paralelismo óbvio com a morte e ressureição de Cristo celebrada no cristianismo oriental foi notado muito cedo e foi analisado em detalhe por Heinrich Zimmern em 1918. Tikva Frymer-Kensky observa que Pallis[quem?] rejeitou em 1926 parte dos paralelismos cristológicos apontados por Zimmern, mas frisava que a morte de Marduque, a lamentação por ele, a sua restauração subsequente e a alegria pela sua ressureição fazem parte dos modelos do Médio Oriente para o mito cristão. Frymer-Kensky vai mais longe, afirmando que a análise mais aprofundada feita por von Soden mostra que o texto é uma história de um deus da morte e ressureição, mas sim um texto manifestamente político relacionado com a inemizade entre a Assíria e a Babilónia. Tal não implica que não existisse o mito do deus que ressuscita. O tema de um deus jovem que morre, comum por todo o Médio Oriente, reflete-se igualmente nas lendas de Tamuz, que é referido na Bíblia, que fala em "mulheres chorando por Tamuz" até no templo do deus hebraico.
O festival do Aquitu continuou a ser celebrado durante o período selêucida (312–63 a.C.) e foi até ao período romano. No início do século III d.C. ainda se realizava em Emessa, na Síria, em honra do deus Heliogábalo (ou Elagabalus, Elagabal ou El-Gabal). O imperador romano Heliogábalo (r. 218–222), que era de origem síria e na juventude foi sacerdote de Elagabal, introduziu o festival em Itália. Os iranianos celebram o 21 de março como o Noruz ("Novo Dia"), dia de Ano Novo. Os assírios celebram um festival de primavera chamado Kha b-Nissan, no dia 1 de abril, primeiro dia do calendário assírio. O nome acádio Aquitu foi reintroduzido no assirianismo, no dia 1 de Nissan do calendário assírio introduzido na década de 1950, correspondente ao 1 de abril do calendário gregoriano. O festival de Seharane, celebrado por judeus da regiões curdas do norte do Iraque, oeste do Irão e do sudeste da Turquia desde há 2 000 anos, é um descendente direto do Aquitu. Foi criado por assuritas quase converteram ao judaísmo, provavelmente durante a vigência do reino de Adiabena.


