Almançor
Almançor (em árabe: المنصور; romaniz.: al-Manṣūr; , foi um militar e político do Alandalus que, como hájibe do débil califa Hixame II, foi o governante de facto durante o apogeu do Califado de Córdova.
Não obstante haver muitas dúvidas sobre o ano exato do nascimento de Almançor, tudo parece indicar que este ocorreu em 939, embora também possa ter ocorrido em 938. A sua família (Abu ʿAmir) era árabe, proprietária de terras e de origem iamanita, da tribo Maʿafir, estabelecida desde a invasão muçulmana da Península Ibérica em Turruxe (ou Turrush), uma alcaria pertencente à Cora de al-Yazirat, situada junto à foz do rio Guadiaro [es] no que é hoje o município andaluz de San Roque. As terras da sua família foram dadas por Tárique ibne Ziade, o comandante da invasão muçulmana, a um antepassado de Almançor de nome Abedal Maleque, como recompensa pela sua atuação na invasão, nomeadamente na conquista de Carteia. A abundância de topónimos derivados do árabe Turrux na Andaluzia, principalmente nas províncias de Málaga e Granada, fez com que várias localidades tenham sido erradamente assinaladas como a terra natal de Almançor.
Quando ainda era muito jovem, ibne Abi Amir foi viver para Córdova, onde estudou direito e letras sob a tutela dum tio materno. Esta formação devia facilitar-lhe o ingresso na administração estatal, pois as oportunidades de carreira nas forças armadas eram limitadas para os árabes. Como muitos outros jovens de famílias acomodadas, recebeu formação na interpretação do Alcorão, em tradição profética e em aplicação da lei islâmica, completando a sua educação como alfaqui, com o objetivo de se tornar juiz. Da época de estudante conservou o gosto por literatura. Tendo sido aluno de mestres de renome na tradição legal islâmica e nas letras, mostrou talento para essas áreas. A morte do seu pai e a má situação familiar levaram-no a abandonar os estudos e a tornar-se escrivão profissional. Depois de ocupar um modesto posto de memorialista no palácio e na Mesquita de Córdova, perto dos gabinetes da administração, para ganhar o seu sustento, o jovem destacou-se rapidamente pelas suas qualidades e ambição, tendo iniciado a sua fulgurante carreira política como escrivão da sala de audiências do cádi chefe da capital, Maomé ibne al-Salim. Este era um importante conselheiro do califa Aláqueme II, apesar dos seus cargos serem exclusivamente religiosos e não políticos. Em breve chamou a atenção do vizir Jafar Almuxafi, chefe da administração civil, que o introduziu na corte califal, provavelmente por recomendação de ibne al-Salim. Na altura já se destacava pelos seus conhecimentos e competência profissional, que continuaria a demonstrar nos cargos que rapidamente começou a acumular na administração. Então com menos de 30 anos de idade, Almançor foi um dos jovens funcionários que fizeram parte da mudança geracional da corte no início do reinado de Aláqueme II.
Eliminação dos pretendentes e triunvirato
A morte do califa Aláqueme II a 1 de outubro de 976[j] e a proclamação do seu filho Hixame marcaram o início dum novo período ascendente na carreira política de Almançor. Foi também um evento crucial na história do califado, que a partir daí foi marcado pela sua figura e pelo afastamento gradual do poder efetivo do terceiro califa andalusino. O Alandalus passou por uma grave crise de sucessão naquela época, pois o sucessor designado, Hixame, nascido em 965, além de ser muito jovem para reinar, tinha muito pouca formação, dado que o pai só o tinha associado ao governo quando tinha oito, nove ou onze anos. Esta era uma situação extraordinária, pois nunca antes o emirado ou o califado tinham estado nas mãos dum menor. Algumas escolas de jurisprudência islâmica rechaçavam a possibilidade de que um menor alcançasse o posto de califa, mas a tradição omíada andalusina garantia a herança de pais a filhos e o caso de Abderramão III, constituía um precedente.[k] Perante esta situação, e apesar dos esforços de Aláqueme durante os seus últimos anos de vida para assegurar a sucessão do seu filho associando-o a tarefas de governo, os altos dignitários do califado dividiram-se em relação à sucessão. Alguns defendiam a nomeação do hájibe Jafar Almuxafi, enquanto outros preferiam dar o título califal a Almuguira, um dos irmãos do defunto, filho mais novo e favorito de Abderramão III, que tinha 27 anos.
Queda em desgraça de Almuxafi
Apesar da aliança entre Almuxafi e Almançor ter minado o tradicional poder dos saqalibas na corte, as relações entre os dois aliados deterioraram-se passado pouco tempo. A incapacidade do hájibe para enfrentar a crise de prestígio exterior causada pelas intrigas sucessórias e as incursões cristãs, que em 976 quase alcançaram a capital, permitiu a Almançor tomar conta do comando das tropas da capital após assegurar a Subh a sua capacidade para restaurar o prestígio militar que Almuxafi não tinha conseguido recuperar. Ao contrário do hájibe, Almançor inclinava-se para responder militarmente às incursões cristãs e mostrou-se disposto a comandar uma aceifa de represália. Almuxafi, pelo contrário, advogava a adoção duma estratégia defensiva que, na prática e apesar do poderio militar cordovês, resultaria na entrega aos estados cristãos dos territórios a norte do rio Guadiana. Graças à influência de Subh, Galibe obteve nessa altura o governo da Marca Inferior e o comando dos exércitos fronteiriços.
Confronto com Galibe
Uma vez esmagada a oposição na corte, não tardou muito que os dois homens que partilhavam entre eles o poder de facto entrassem em colisão. O velho general opôs-se à forma como Almançor se empenhava em afastar da vida política o jovem califa, controlando o acesso a este e dedicando-se a reforçar o seu próprio poder. Galibe achava que as manobras do seu aliado e genro, que, além do controlo do califa, incluíam a construção do seu grande palácio e o reforço das unidades berberes, acabariam por prejudicar a dinastia. Por sua vez, o prestígio militar do seu sogro obscurecia as façanhas militares de Almançor, não obstante as suas sucessivas campanhas vitoriosas.
Aliança com a rainha mãe e problemas de governo
Durante vinte anos, até à rutura da sua aliança em 996, Almançor atuou em parte como representante de Subh, a poderosa mãe do califa, de quem era informador, e comandante dos exércitos e da polícia. Era Subh quem de facto tomava grande parte das decisões, pois era constantemente consultada pelos regentes do filho. Quando o califa atingiu a maioridade a situação não mudou, pois o jovem não reclamou o poder, possivelmente devido a algum tipo de doença ou incapacidade para desempenhar as responsabilidades do cargo. Na realidade, Almançor não atuava apenas como usurpador do poder califal, mas também como tutor do califa incapacitado e garante do poder dinástico. Porém, o seu posto oficial como mero controlador da administração e do exército em nome de Hixame, fazia com que fosse substituível, pelo que tomou medidas para reforçar a sua posição. Para o fazer, a capital foi colocada nas mãos dum primo seu, que a controlou com mãos de ferro, e promoveu uma série dos seus partidários, geralmente mal vistos e considerados despóticos, que mais tarde, quando o califado se desagregou, tomaram o domínio de diversas taifas. Além disso, também se aliou a vários senhores fronteiriços.
Rutura com Subh e concentração do poder político
Com Galibe morto e Hixame incapaz de desempenhar as suas obrigações como califa, apesar de já ter atingido a maioridade, Almançor começou a ponderar preparar a sua sucessão e assumir oficialmente o poder, inclusivamente substituindo o califa. Em 989 tentou, sem sucesso, que os alfaquis aceitassem como mesquita congregacional (aljama) a mesquita da Medina Alzahira, a sua cidade palaciana. A partir de 991 associou o seu filho Abedal Maleque ao governo, à semelhança do que Aláqueme tinha feito com Hixame, nomeando-o hájibe e alcaide (comandante) supremo dos exércitos califais, embora sem se retirar do poder. Ao mesmo tempo, apresentou discretamente aos alfaquis que assessoravam o cádi-mor a possibilidade deste substituir o califa devido à incapacidade deste para assegurar as funções que o cargo exigia. A regência, anteriormente justificada pela menoridade de Hixame, não podia justificar-se pela mera inépcia para desempenhar as suas funções. Porém, o parecer foi negativo, pois segundo os juristas o substituto de Hixame devia ser outro coraixita (membro da tribo de Maomé). Almançor aceitou a decisão com relutância e nos anos seguintes foi-se apossando de mais poderes e inclusivamente de algumas competências específicas do califa, como confirmar as nomeações oficiais com o seu selo e não com o do califa, apesar de agir em nome deste. Nomeou um novo responsável da casa da moeda, apropriou-se de novos títulos e manteve parte da administração na sua residência fortificada, onde funcionou uma corte paralela à do soberano. Além disso, fez com que o seu nome fosse mencionado após o do califa nas orações de sexta-feira. Em 991, o conselho dos alfaquis acabou por ceder à pressão e e mudou o seu parecer desfavorável à classificação da mesquita da Medina Alzahira como mesquita congregacional, apesar do seu uso como tal tenha continuado a ser mal visto por muitos notáveis cordoveses.
Reforma do exército e da administração
A separação entre o poder temporal, detido por Almançor, e o formal e espiritual, nas mãos de Hixame como califa, aumentou a importância da força militar, o sustentáculo do poder do primeiro (juntamente com o novo cerimonial da corte do hájibe, que rivalizava com a do califa) e instrumento para garantir o pagamento dos tributos. Almançor deu continuidade com êxito às reformas militares que tinham sido iniciadas por Aláqueme II e o predecessores deste. Essas reformas incluíam vários aspetos, nomeadamente o aumento da profissionalização do exército regular, necessário tanto para garantir a todo o momento o poder na capital como as numerosas aceifas que eram uma das fontes de legitimidade do seu poder político. Isso levou a uma perda de importância da conscrição e das tropas não profissionais, que em muitos casos foram substituídas por tropas profissionais, geralmente de saqalibas e magrebinos, que eram pagas com novos impostos, libertando assim os andalusinos do serviço militar. O recrutamento de saqalibas e berberes não era novidade e já tinha ocorrido em reinados anteriores,[r] mas Almançor aumentou-o. Foram também criadas unidades que, ao contrário do exército regular califal, eram fiéis primordialmente a Almançor e serviam para controlar a capital. Esta contratação massiva de mercenários e saqalibas (estes últimos eram formalmente escravos) fazia com que, segundo os cronistas cristãos, «geralmente os exércitos sarracenos somam 30, 40, 50 ou 60 mil homens, se bem que em ocasiões graves cheguem a 100, 160, 300 e até 600 mil combatentes.» Alguns registos vão ao ponto de afirmar que nos tempos de Almançor os exércitos cordoveses podiam reunir 600 mil peões e 200 mil cavaleiros, «provenientes de todas as províncias do império».
Defesa da ortodoxia religiosa e legitimação do poder
Um dos instrumentos usados para reforçar o seu poder foi a corte organizada por Almançor na Medina Alzahira, a sua cidade palaciana, na qual escritores e poetas elogiavam as suas virtudes, o que era usado para fazer propaganda entre o povo. Tanto a estabilidade e prosperidade do regime como a sua defesa rigorosa do islão — que Almançor se empenhou em demonstrar através de vários gestos piedosos — granjearam-lhe apoio popular. Entre as coisas que fez para promover a sua imagem de muçulmano devoto estão ter copiado à mão um Alcorão, que o acompanhava durante as suas campanhas, e a ampliação da Mesquita de Córdova entre 987 e 990. As ambições políticas do hájibe tiveram repercussões significativas na cultura e na religião, cujos agentes foram obrigados a apoiarem-no. Para reforçar a sua imagem de defensor do islão, censurou ciências consideradas contrárias à religião pelos mais ortodoxos e mandou destruir muitas obras consideradas heréticas da importante biblioteca de Alhaquém. Para obter ganhos políticos, numa altura em que estar nas graças dos jurisconsultos ainda era muito importante devido ao seu poder ainda ser instável, censurou disciplinas como a lógica, filosofia ou astrologia, apesar do seu apreço pela cultura. A sua intromissão em assuntos religiosos foi ao ponto de nomear o seu próprio tio, um cádi veterano, como cádi principal após a morte de ibne Zarbe, que se tinha oposto a várias das suas petições.
Campanhas no Magrebe
A escassa produção cerealífera cordovesa obrigava os omíadas a abastecer-se no Magrebe, pelo que a expansão fatímida na região constituía um perigo económico além de político. O califado andalusino, maioritariamente sunita, disputava com os rivais xiitas fatímidas o controlo do noroeste de África e, com isso, também o do controlo do comércio de Mediterrâneo ocidental. Ao contrário das suas campanhas na Península Ibérica (à exceção da realizada conjuntamente com Galibe no início da sua carreira), a intervenção de Almançor nos combates no Magrebe não foi pessoal, mas sim de supervisão. O comando efetivo das operações militares esteve nas mãos de subalternos, os quais geralmente acompanhava cerimoniosamente até Algeciras, onde as tropas e o seu general embarcavam para atravessar o estreito que separa a Europa da África.
Ataques contra os cristãos
(ver também, mais abaixo, um mapa das principais campanhas.) Paralelamente às campanhas do Magrebe, Almançor empenhou-se na guerra contra os reinos cristãos hispânicos. Em 950, no fim do reinado de Ramiro II de Leão, os Estados cristão ibéricos — o Reino de Leão, o Reino de Pamplona e o Condado de Barcelona — foram forçados a aceitar a soberania cordovesa mediante um tributo anual que caso não fosse pago resultava numa campanha militar de represália. Almançor começou a realizar represálias deste tipo e outros ataques em 977 e continuou a fazê-los até que morreu em 1002, apesar da maior parte delas ter ocorrido nos últimos anos da sua vida, quando tinha mais poder. Apesar das diversas fontes não coincidirem, calcula-se que realizou cerca de 56 campanhas, 26 delas no primeiro período, de 977 a 985. Nestas ofensivas, Almançor atacou tanto centros de importância política e económica como outros de importância religiosa. As famosas razzias, algaras ou aceifas (literalmente "campanhas de verão"), chamadas cunei pelos cristãos, tinham como objetivo tático e económico a captura de cativos e gado do inimigo; estrategicamente destinavam-se gerar um estado de insegurança permanente que impedisse que os cristãos desenvolvessem uma vida organizada fora de castelos, cidades fortificadas ou suas proximidades. Uma das principais características era a curta duração das campanhas e a distância entre os locais atacados.
Mas, no final, a divina piedade compadeceu-se de tanta ruína e permitiu aos cristãos erguerem a cabeça, pois no 13.º ano do seu reinado, depois de muitas e horríveis matanças de cristãos, foi arrebatado em Medinaceli, grande cidade, pelo demónio que o havia possuído em vida, e sepultado no inferno. Versos do epitáfio esculpidos em mármore: As suas façanhas vão-te ensinar sobre elecomo se o visses com os teus próprios olhos.Por Deus que jamais voltará a dar ao mundo nada como ele,nem defenderá as fronteiras outro que se lhe possa comparar. — segundo o historiador magrebino ibne Idari Almançor morreu de doença no dia 27 do mês do Ramadão de 392 do calendário islâmico (9 de agosto de 1002 no calendário gregoriano) em Medinaceli, quando tinha 65 anos. Nos seus últimos dias, já moribundo, aconselhou sobre o governo do califado o seu filho Abedal Maleque Almuzafar, que após a morte do pai foi rapidamente para Córdova para receber o cargo do pai e evitar qualquer veleidade de oposição dos partidários da família do califa.


