Otomão
Otomão ibne Afane foi o terceiro califa do Califado Rashidun, governando de 644 até seu assassinato em 656. Na tradição islâmica, ele era primo em segundo grau, genro e companheiro sênior do profeta Maomé, desempenhando um papel crucial na história inicial do Islã. Seu legado mais notável é a compilação oficial e padronizada do Alcorão, conhecida como o Códice de Otomão, que permanece em uso até hoje.
Pontos-chave
- Otomão ibne Afane foi o terceiro califa do Califado Rashidun.
- Ele é conhecido por ordenar a compilação oficial do Alcorão, o Códice de Otomão.
- Otomão era primo em segundo grau, genro e companheiro sênior do profeta Maomé.
- Seu califado foi marcado por expansão militar e administração econômica e social.
- Ele foi assassinado em 656, após um período de revolta contra seu governo.
Nascido no Hejaz, Otomão pertencia ao influente e rico clã Banu Umayya. Órfão precocemente, herdou uma vasta fortuna que investiu em comércio, tornando-se um mercador bem-sucedido e um dos mais ricos dos Coraixitas.
Otomão foi um dos primeiros a abraçar o Islã, migrando para a Abissínia e depois para Medina. Sua riqueza e habilidades comerciais prosperaram em ambos os locais. Ele participou de batalhas cruciais e teve um papel importante no Tratado de Hudaybiyya, sendo honrado com o título de 'Dhū al-Nurayn' (O Possuidor de Duas Luzes) por ser casado com duas filhas de Maomé.
Conversão ao Islã
Ao retornar de uma viagem à Síria em 611, Otomão conheceu a missão de Maomé. Após conversar com Abu Becre, converteu-se ao Islã, tornando-se um dos primeiros seguidores. Sua conversão desagradou seu tio, Al-Hakam ibn Abi al-As. Otomão era um dos poucos em Meca que sabia escrever.
Migração para a Abissínia
Em 615, Otomão e sua esposa Rucaia migraram para a Abissínia. Ele continuou sua atividade comercial, prosperando na região. Após quatro anos, retornaram a Meca, acreditando falsamente que os Coraixitas haviam aceitado o Islã. Otomão reconstruiu seus negócios com sucesso.
Migração para Medina
Em 622, Otomão e Rucaia migraram para Medina. Ele se estabeleceu como um rico comerciante, suprindo a necessidade de comércio na cidade, majoritariamente agrícola. Casado com duas filhas de Maomé, recebeu o título honorífico de Dhū al-Nurayn.
Participação em Batalhas
Otomão lutou em todas as batalhas importantes do início do Islã, exceto Badr, onde ficou para cuidar de sua esposa doente, Rucaia, que faleceu. Ele recebeu a promessa de recompensa equivalente à de quem participou de Badr. Em campanhas importantes, como a de Tabuque, Otomão fez contribuições financeiras significativas, equipando um terço do exército.
Tratado de Hudaybiyya
Em 628, Otomão foi enviado a Meca para negociar o Tratado de Hudaybiyya. Um boato de sua morte levou Maomé a fazer o Juramento da Árvore (Bay'ah al-Ridwan) com seus companheiros para vingá-lo. Otomão foi libertado e o tratado foi assinado, demonstrando a confiança de Maomé nele.
Últimos Anos de Maomé
Fontes xiitas mencionam a presença de Otomão no evento de Gadir Cume. Fontes sunitas interpretam o evento de forma diferente, mas Otomão é lembrado como alguém que jurou fidelidade a Ali em certas ocasiões.
Otomão manteve uma relação próxima com Abu Becre, o primeiro califa, a quem ele ofereceu lealdade após sua conversão. Durante as Guerras de Apostasia, Otomão aconselhou Abu Becre em Medina e, em seu leito de morte, Abu Becre ditou seu testamento a Otomão.
Em seu leito de morte, Omar estabeleceu um comitê de seis companheiros para escolher o próximo califa. Após intensas negociações, Otomão foi eleito califa ao aceitar seguir o Livro de Deus, a Sunnah do Profeta e o exemplo dos dois califas anteriores.
Durante seu califado, Otomão ordenou a compilação do Alcorão em uma versão padronizada, o Códice de Otomão, para preservar a unidade do texto sagrado. Ele também promoveu a expansão militar, reformou a administração econômica e social, mas enfrentou crescente oposição pública.
Administração Econômica e Social
Como ex-comerciante, Otomão aumentou o abono público em cerca de 25%. Ele removeu restrições à compra de terras agrícolas e permitiu empréstimos do tesouro público, promovendo o florescimento do comércio e aumentando as receitas da terra.
Expansão Militar
Otomão delegou mais autoridade militar a generais de confiança, permitindo a expansão para o Sindh e a Armênia. Sob sua permissão, uma marinha foi estabelecida, que derrotou a marinha bizantina na Batalha dos Mastros em 655, abrindo o Mediterrâneo para os muçulmanos.
Oposição Pública
O aumento da tensão antigovernamental levou Otomão a convocar um conselho de governadores. Agentes foram enviados para investigar o descontentamento, mas as queixas pessoais e a propaganda contra o governo, especialmente no Egito, levaram a um conflito crescente.
A revolta contra Otomão se intensificou, com contingentes de rebeldes marchando para Medina com o objetivo de assassiná-lo. Apesar de recusar o combate para evitar derramamento de sangue muçulmano, Otomão foi cercado e, em 17 de junho de 656, foi fatalmente esfaqueado enquanto recitava o Alcorão.
Rebeldes em Medina
Contingentes de rebeldes do Egito, Cufa e Baçorá foram a Medina com o objetivo de assassinar Otomão. Eles ofereceram o califado a Ali, Zobair e Talha, que recusaram. A oposição influenciou a opinião pública, enfraquecendo o apoio a Otomão.
Cerco e Assassinato
O cerco à casa de Otomão se intensificou. Seus apoiadores superavam os rebeldes em número, mas Otomão proibiu o combate para evitar derramamento de sangue. Ele foi assassinado em seu quarto enquanto recitava o Alcorão, com seus dedos sendo cortados ao tentar proteger o texto.
Causas da Revolta
As razões da revolta são disputadas. Enquanto alguns apontam para a prosperidade e liberdade sob Otomão, outros criticam suas decisões arbitrárias e nepotismo. O estilo de governança de Otomão o tornou uma figura controversa na história islâmica.
Após seu assassinato, o corpo de Otomão permaneceu sem sepultamento por três dias. Com poucos apoiadores, foi enterrado no cemitério judeu, posteriormente fundido ao muçulmano pelos Omíadas.
Funeral
O corpo de Otomão, ainda com as roupas do assassinato, foi levado ao cemitério ao anoitecer por cerca de uma dúzia de apoiadores. O funeral foi discreto e sem lavagem do corpo, com a lamparina apagada para manter o sigilo.
Sepultamento
Inicialmente, o sepultamento no cemitério muçulmano foi impedido. Otomão foi enterrado no cemitério judeu adjacente. Mais tarde, os Omíadas uniram os cemitérios para que seu túmulo ficasse em solo muçulmano. As orações fúnebres foram lideradas por Jubair ibne Mutime.
Otomão era descrito como de estatura média, ombros largos e com barba cheia. Era conhecido por sua beleza, modéstia e timidez, o que o levava a uma postura formal mesmo com o profeta Maomé. Era um príncipe-comerciante culto e educado.
Otomão adotou o título de 'vice de Deus'. Sua avaliação é geralmente positiva entre os sunitas, destacando a eficácia de seus nomeados e a criação da primeira marinha muçulmana. Seu ato mais significativo foi a padronização do Alcorão, unificando sua recitação e forma escrita.
Impacto Religioso
Otomão é creditado por unificar o Alcorão em sua forma atual. Ele ordenou a compilação de manuscritos em cópias perfeitas para padronizar a recitação e escrita, preservando o texto sagrado e eliminando variantes divergentes.


