Abederramão ibne Aufe
Abederramão ibne Aufe foi um companheiro do profeta islâmico Maomé, comerciante, militar, jurista e um dos mais influentes estadistas da primeira comunidade muçulmana. Foi um dos primeiros convertidos ao islã, participou das duas hégiras, combateu ao lado de Maomé em todas as principais campanhas militares e integrou o conselho encarregado de escolher o sucessor do califa Omar (r. 634–644). Destacou-se ainda por sua riqueza, pela generosidade com que financiou a comunidade muçulmana e por sua atuação como conselheiro dos califas Abu Becre (r. 632–634), Omar e Otomão ibne Afane (r. 644–656). Tradicionalmente é contado entre os Dez aos quais foi prometido o Paraíso e entre os companheiros autorizados a emitir pareceres jurídicos (fátuas).
Abederramão pertencia ao clã zuraíta dos coraixitas. Nasceu em Meca por volta de 581, cerca de dez anos após o Ano do Elefante. Antes de converter-se ao islã chamava-se Abede Anre ou Abede Alcaba, nome que, segundo a tradição, foi substituído por Maomé após sua conversão. Desde a juventude dedicou-se ao comércio, atividade na qual acumulou grande experiência e que continuaria a exercer durante toda a vida. As fontes afirmam que, mesmo antes do advento do islã, era conhecido por seu bom caráter e por abster-se do consumo de bebidas alcoólicas. Amigo de longa data de Abu Becre, converteu-se ao islã por intermédio dele e figura entre os oito primeiros muçulmanos. Em razão da perseguição promovida pelos coraixitas, participou inicialmente da migração para a Abissínia e, posteriormente, da Hégira para Medina. Após a chegada à cidade, Maomé estabeleceu entre ele e Sade ibne Arrabi um pacto de fraternidade (muaquir), integrando os emigrantes mecanos à comunidade dos ançares.
Abederramão ibne Aufe foi lembrado pelas fontes islâmicas tanto por sua atuação política quanto por sua prosperidade econômica e sua generosidade. Comerciante bem-sucedido desde antes da conversão ao islã, acumulou uma das maiores fortunas entre os companheiros de Maomé, sem deixar de empregar grande parte de seus recursos em benefício da comunidade muçulmana. Os relatos tradicionais afirmam que chegou a doar de uma só vez uma caravana composta por quinhentos camelos carregados de mercadorias e, em outra ocasião, libertou trinta escravos no mesmo dia. Sua fortuna também foi empregada no financiamento de expedições militares e em diversas iniciativas de assistência aos muçulmanos mais necessitados. Na tradição islâmica, Abederramão é igualmente reconhecido como um dos Dez aos quais foi prometido o Paraíso e como um dos companheiros mais próximos de Maomé. Sua participação na escolha de Otomão ibne Afã como terceiro califa é considerada um dos episódios políticos mais relevantes da história do Califado Ortodoxo, tendo seu procedimento de consulta aos principais grupos da comunidade sido frequentemente citado como exemplo de deliberação coletiva na escolha de governantes. Embora tenha convivido intimamente com Maomé durante muitos anos, Abederramão mostrou-se extremamente cauteloso na transmissão de hádices. Apenas sessenta e cinco tradições lhe são atribuídas pelas principais coletâneas biográficas. Além de tradicionalista, foi considerado apto a emitir fátuas desde a época de Maomé, mantendo essa função durante os califados de Abu Becre, Omar e Otomão. Os juristas posteriores o incluíram entre os chamados Mutawassitun, grupo de companheiros que, sem atingir o volume dos mais prolíficos emissores de pareceres jurídicos, exerceram atividade regular e reconhecida nesse campo, deixando um conjunto de fátuas suficiente para constituir um pequeno tratado.


