Portugueses
Portugueses são um povo e grupo étnico da Península Ibérica, no sudoeste da Europa. O português é a sua língua, e o catolicismo a religião nominalmente predominante.
Os portugueses, assim como os outros povos do sul da Europa e alguns mediterrânicos, são uma população maioritária, mas não exclusivamente morena.
Os portugueses são uma população sul europeia, predominantemente atlântico europeia e oeste-mediterrânica. Todos os europeus modernos são basicamente descendentes de três populações que povoaram o continente europeu: os caçadores-coletores ocidentais; os primeiros agricultores europeus vindos da Anatólia e os proto-indo-europeus vindos da Estepe pôntica (Cultura Yamna ou Yamnaya), com algumas populações atípicas apresentando mistura adicional com povos da Sibéria e do Oriente Próximo. A diferença entre o sul e o norte da Europa consiste no grau de influência de cada grupo: a ancestralidade relacionada com Yamnaya é menor no sul da Europa e maior no norte, ao passo que a ancestralidade dos agricultores da Anatólia é maior no sul e menor no norte. Os italianos da Sardenha são a população moderna com maior similaridade genética com os antigos povos agricultores neolíticos da Europa, com cerca de 85% da ancestralidade sarda sendo oriunda dos agricultores neolíticos. Por sua vez, a ancestralidade das estepes relacionada à cultura Yamnaya atinge seu pico nos noruegueses, lituanos e estonianos, que têm cerca de 50% da ancestralidade relacionada aos povos das estepes.
As populações paleolíticas e mesolíticas ibéricas
Os seres humanos chegaram à Europa há cerca de 50 mil anos, alcançando a Península Ibérica entre 40 e 30 mil anos atrás, segundo vestígios arqueológicos. Os primeiros humanos que habitaram a Península Ibérica tinham olhos, cabelos e pele escura, porém foram substituídos, entre 20 e 15 mil anos atrás, por caçadores-coletores oriundos dos Balcãs, os quais tinham cabelos e pele escura, mas olhos claros e um pouco de ancestralidade do Oriente Próximo. Geneticistas como Barry Cunliffe, Bryan Sykes, Stephen Oppenheimer e Spencer Wells têm avançado com a hipótese, fundamentada nestes e noutros estudos genéticos, bem como em dados arqueológicos, de que as populações ibéricas devem ser consideradas como a origem principal dos povos que repovoaram a Europa atlântica no período pós-glacial, particularmente durante o Paleolítico e o Mesolítico, mas também no Neolítico.
A predominância do contributo neolítico
Por volta de sete mil anos atrás, agricultores oriundos da Anatólia, que corresponde à atual Turquia, dispersaram-se por toda a Europa, chegaram à Península Ibérica e misturaram-se aos caçadores-coletores que viviam na região. Atualmente, assim como em outros povos do Sul da Europa, a maior parte da ancestralidade genética dos portugueses é oriunda dos agricultores neolíticos. Estudos sugerem que os primeiros agricultores europeus tinham, em sua maioria, cabelos e olhos escuros, mas pele clara. Foram eles os responsáveis por introduzir a pele clara na Península Ibérica e na Europa em geral. Os agricultores do Neolítico trouxeram mudanças à paisagem humana da Península Ibérica a partir de há 7 000 a.C., com a introdução da agricultura e o início da Cultura Megalítica Europeia. Esta viria a espalhar-se por grande parte da Europa Ocidental e parte do Norte de África. Um dos centros mais antigos desta cultura monumental foi Portugal. Este é igualmente o período em que se assiste à expansão por via marítima, a partir do leste mediterrânico, da Cultura da Cerâmica Cardial, associada igualmente a processos migratórios marcados pela presença do Haplotipo E3b, originário do Corno de África e disperso pelo Mediterrâneo oriental durante o Mesolítico.
A Idade do Cobre
Cerca de 4.500 anos atrás, a população da Península Ibérica era formada basicamente pela mistura dos caçadores-coletores do Paleolítico e do Mesolítico com os agricultores do Neolítico. Porém, a partir de então, um novo grupo populacional apareceu na península, proveniente de migrações a partir da Estepe pôntica ao norte e a leste do Mar Negro. Esse grupo de ancestralidade estepe e as populações ibéricas preexistentes parecem ter coexistido na Península Ibérica por séculos, com pouca miscigenação. No entanto, por volta de 2000 a.C. quando essas populações começaram a se misturar, isso ocorreu com uma grande assimetria sexual, conforme revelado pelos cromossomos Y, que são herdados apenas pelos homens: os tipos de cromossomo Y dos homens da estepe tornaram-se cada vez mais comuns, enquanto os tipos de cromossomo Y dos habitantes anteriores essencialmente desapareceram, num período de apenas 200 anos. Em outras palavras, os homens vindos da estepe substituíram toda a população masculina da Península Ibérica, 100% dos seus cromossomas Y sumiram e 40% da ancestralidade ibérica foi substituída. Não se sabe por que isso ocorreu, pois registos arqueológicos não evidenciam que tenha havido uma explosão de violência nesse período. A genética, portanto, conseguiu encontrar que os homens ibéricos desapareceram num curto período de tempo, porém não se sabe se foi devido à guerra, à escravatura e à subjugação, ou às preferências culturais das mulheres ibéricas, ou a alguma combinação de elementos.
A Idade do Bronze
A Idade do Bronze, que se desenvolve a partir de 1 800 a.C., acentuará os processos populacionais e culturais verificados na Idade do Cobre: aumento da urbanização a sul e leste, aumento das influências centro-europeias a norte e oeste. De facto, é por volta do I milénio a.C. que se verificam as primeiras migrações para a Península Ibérica de populações claramente de língua Indo-Europeia (associadas à expansão da Cultura dos Campos de Urnas, de carácter proto-celta), e que viriam a contribuir para a Idade do bronze atlântica (cujas principais regiões parecem ter sido Portugal, a Andaluzia (Tartesso?), a Galiza e a Grã-Bretanha). Estas migrações foram mais tarde, nos séculos VII a V a.C. (já na Idade do Ferro), seguidas por outras que podem já ser claramente identificadas como celtas. É neste contexto de celtização que, a partir do século VI a.C. se deu o desenvolvimento da Cultura castreja numa ampla zona do noroeste da Península Ibérica, entre os rios Douro e Návia e a Oeste do Maciço Galaico, tendo desenvolvido um tipo muito peculiar de assentamentos, chamados castros, diferentes de outras áreas da Península.
A Idade do Ferro
Os dois principais componentes dos desenvolvimentos populacionais do território português durante a Idade do Ferro foram a migração de populações celtas e o desenvolvimento da Civilização Tartéssica. Estes dois processos acentuaram ainda mais as características da paisagem cultural do Portugal de então — mediterrânico a sul do rio Tejo e continental a norte. As migrações de populações protoceltas e celtas, no seguimento da anterior expansão da Cultura dos Campos de Urnas, acentuam vincadamente o carácter indo-europeu do panorama humano na Península Ibérica, e muito particularmente o português. Trata-se, por um lado, do forte substrato protocelta (às vezes chamado pré-celta) que dará origem aos lusitanos e aos seus vizinhos vetões (no espaço dos quais se veio a desenvolver a Cultura dos berrões), na área onde se identifica a cultura castreja e que parece estar também igualmente presente nos galaicos e ástures (embora estes últimos possam ter igualmente uma forte componente aquitânica vinda dos também misturados Cântabros). Por outro lado, trata-se da clara «celtização» da metade noroeste da Península através dos processos de expansão démica e cultural a partir do centro celtibero, que assim produz populações celtas distintas das celtiberas e que podem ser designadas como hispano-celtas (ou celtas da Península Ibérica).
A romanização
Em 219 a.C., as primeiras legiões romanas invadem a Península Ibérica (que viriam a designar por Hispânia) no âmbito da Segunda Guerra Púnica contra Cartago (herdeiros dos fenícios na zona de influência a sul), num processo de conquista que só será terminado durante o reinado do Imperador Augusto em 19 a.C.. Os Romanos, com forte presença militar na Península (não só devido à guerra com Cartago, mas posteriormente em processos de conquista territorial das populações ibéricas, bem como em lutas intestinas entre romanos, tais como a revolta de Sertório entre 83–72 a.C., ou a guerra civil de César entre 49–45 a.C.), acabaram por ser a mais importante influência cultural nas populações que viriam a constituir a nação portuguesa. Tal influência deveu-se ao legado maior do latim (nomeadamente o latim vulgar) como, inicialmente, língua franca de comunicação e, posteriormente, língua universal (extinguindo todas as línguas pré-Romanas que se falavam na Península, com a conhecida excepção do Basco, provavelmente originário do Aquitânio), que originou a língua portuguesa. Outra influência que se pode considerar romana, ainda que de origem não romana e numa fase muito posterior (já no século IV), foi o cristianismo. A importância romana foi não só directa, através destes e outros legados culturais, como indirecta e ainda presente, já que a Civilização Romana se constitui como uma das fontes matriciais da Civilização Europeia.
Portugal foi tradicionalmente uma terra de emigração: desde os processos de expansão imperial e colonização, passando pelo povoamento das Ilhas Atlânticas, pela colonização do Brasil (onde a maioria da população tem ancestralidade portuguesa; ver Luso-brasileiro e Imigração portuguesa no Brasil) e dispersão noutras partes do Império (onde se formaram comunidades de origem parcialmente portuguesa, cultural — como em Goa os Goeses católicos, em Ceilão os Burghers portugueses, em Malaca os Cristang e em Macau os Macaenses; além das elites portuguesas ou mistas nas colónias africanas e em Timor); a emigração económica para o Brasil já no século XIX e primeira metade do XX, bem como, em menor medida, para outras regiões da América (Estados Unidos da América, Canadá, Caraíbas, Havai); a emigração económica e política a partir de 1960, essencialmente para os países mais desenvolvidos da Europa Ocidental (Suíça, Alemanha, França e Luxemburgo), bem como a emigração madeirense para a África do Sul e Venezuela e açoriana para os Estados Unidos e Canadá. Todos estes foram processos que produziram a existência de comunidades portuguesas fora de Portugal. É claro que, com o passar dos tempos e gerações, aqueles que inicialmente eram portugueses deixam de o ser, passando a ser americanos, canadianos, sul-africanos, brasileiros, venezuelanos, franceses, australianos etc. Ainda que, no âmbito das diferenciações étnicas desses países, possam ser categorizados como "portugueses" (luso-americanos, luso-brasileiros, luso-franceses, etc.). Contudo, as comunidades da diaspora portuguesa sentem geralmente um forte vínculo à terra dos seus antepassados, à sua língua, à sua cultura e aos seus pratos nacionais e particularmente ao bacalhau.


