Criptojudaísmo
O criptojudaísmo é a prática clandestina de formas de judaísmo por indivíduos ou comunidades que, em público, aderem ou são obrigados a aderir a outra religião. Na historiografia sobre a Península Ibérica e o mundo atlântico moderno, o termo aparece sobretudo associado aos cristãos-novos de origem judaica, aos marranos e aos conversos acusados de continuar a observar, em segredo, preceitos atribuídos à "Lei de Moisés".
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O termo criptojudeu designa uma pessoa que conserva práticas ou identidade judaica de modo secreto. Ele não é sinônimo perfeito de cristão-novo: cristãos-novos eram judeus convertidos ao cristianismo, ou seus descendentes, mas nem todos praticavam judaísmo clandestino. Também não é sinônimo neutro de marrano, palavra historicamente usada de forma pejorativa na Península Ibérica, embora tenha sido reaproveitada pela historiografia para designar identidades judaicas dissimuladas entre conversos. Em Portugal, a conversão forçada dos judeus em 1497 criou uma população juridicamente cristã, mas socialmente marcada pela distinção entre cristãos-velhos e cristãos-novos. A Inquisição portuguesa, estabelecida em 1536, passou a tratar a suspeita de judaísmo como uma das principais formas de heresia entre os conversos.
As práticas descritas nas fontes incluem jejuns, restrições alimentares, luto "à maneira judaica", guarda do sábado, preparação doméstica para o Shabat, celebrações associadas ao Yom Kippur e à Páscoa judaica, além de orações transmitidas oralmente. A transmissão dessas práticas ocorreu principalmente no espaço doméstico e familiar, com papel destacado das mulheres em vários processos inquisitoriais. Como os cristãos-novos ibéricos foram afastados de instituições judaicas abertas, livros hebraicos, rabinos e escolas talmúdicas, o criptojudaísmo não correspondeu sempre ao judaísmo rabínico normativo. A historiografia descreve muitas dessas práticas como formas fragmentárias, híbridas ou reconstruídas de memória religiosa, influenciadas tanto por recordações judaicas quanto pelo ambiente católico em que os conversos viviam.
Alguns estudos associam a cultura criptojudaica sefardita à recepção da Cabala entre judeus ibéricos e cristãos-novos judaizantes. Marcos Silva e coautores argumentam que o cabalismo foi importante na cultura dos judeus portugueses antes da expulsão e analisam exemplos de cristãos-novos ligados a práticas ou leituras cabalísticas. Os autores também ressaltam que a relação entre Cabala e criptojudaísmo permanece relativamente pouco estudada, o que exige cautela ao generalizar essa influência para todos os grupos criptojudaicos.
Na América portuguesa não houve um tribunal inquisitorial permanente, mas o território esteve sob jurisdição do Tribunal de Lisboa. A ação inquisitorial ocorreu por meio de visitações, bispos, comissários, familiares do Santo Ofício e remessa de réus para Portugal. Segundo Anita Novinsky, o estudo dos cristãos-novos no Brasil colonial deve considerar tanto a perseguição inquisitorial quanto as ambiguidades de identidade dos conversos, que podiam ser vistos como suspeitos pela sociedade católica mesmo quando sua prática judaica era incerta ou fragmentária. As pesquisas situam denúncias e processos relacionados ao criptojudaísmo em diferentes regiões da América portuguesa, incluindo Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio de Janeiro, Minas Gerais e a antiga Capitania de São Vicente. Durante o domínio neerlandês em Pernambuco (1630-1654), existiu no Recife uma comunidade judaica aberta e legalmente organizada, associada à Sinagoga Kahal Zur Israel. Com a restauração portuguesa, o judaísmo público deixou de existir naquela região, e parte das práticas judaicas voltou a depender de formas clandestinas, familiares ou comunitárias.
Bahia
Na Bahia, a Primeira Visitação do Santo Ofício (1591-1593) produziu uma das principais séries documentais sobre cristãos-novos e práticas judaizantes na América portuguesa. Tamiris Santana descreve os cristãos-novos da Bahia quinhentista como descendentes de judeus convertidos à força em Portugal que, diante da perseguição inquisitorial, encontraram no espaço colonial formas de observar práticas religiosas de seus antepassados, transformando o judaísmo talmúdico em um "judaísmo possível". Os estudos sobre a Bahia destacam a centralidade do espaço doméstico e das mulheres na transmissão de práticas judaizantes. Angelo Adriano Faria de Assis analisou a "sinagoga das mulheres" no Nordeste açucareiro, ressaltando que as visitações revelaram tanto conflitos entre cristãos-velhos e cristãos-novos quanto o papel feminino na preservação de costumes judaicos secretos. Famílias como as Antunes, no Recôncavo Baiano, aparecem em pesquisas sobre criptojudaísmo feminino e processos inquisitoriais.
Pernambuco
Em Pernambuco, as fontes inquisitoriais e a historiografia registram tanto práticas criptojudaicas coloniais quanto a experiência singular de judaísmo público durante o período neerlandês. Angelo Adriano Faria de Assis estudou Bento Teixeira e João Nunes Correia como dois cristãos-novos judaizantes ligados ao Brasil colonial. A família Dias-Fernandes é um dos casos mais estudados do criptojudaísmo pernambucano. Branca Dias e Diogo Fernandes aparecem associados a denúncias de judaísmo, e Suzana do Nascimento Veiga analisou a quarta geração feminina dessa família, incluindo netas de Branca Dias acusadas de judaísmo e levadas ao Tribunal da Inquisição de Lisboa. O estudo destaca a transmissão matrilinear de práticas e memórias religiosas no interior da família.
Paraíba
Na Paraíba, estudos sobre marranismo colonial identificam comunidades cristãs-novas e redes familiares atingidas pelo Santo Ofício, especialmente no século XVIII. Fernanda Mayer Lustosa estudou as raízes judaicas da Paraíba colonial dos séculos XVI a XVIII, e pesquisas posteriores retomaram o tema do marranismo paraibano como adaptação e resistência. Bruno Feitler analisou um grupo de cristãos-novos presos pela Inquisição portuguesa entre 1730 e 1740 na capitania da Paraíba. O autor questiona a ideia de uma transmissão criptojudaica contínua e autônoma, enfatizando a importância de contatos externos e intervenções judaicas para a manutenção ou reativação de práticas e identidades judaicas entre conversos. Pesquisas recentes também descrevem processos envolvendo dezenas de cristãos-novos paraibanos no século XVIII, documentando acusações de práticas judaizantes em redes familiares.
Rio de Janeiro
O Rio de Janeiro tornou-se, no século XVIII, um espaço importante para a circulação de cristãos-novos, mercadores e redes familiares sob vigilância inquisitorial. Lina Gorenstein estudou a comunidade cristã-nova fluminense no início do século XVIII, tema também retomado por Monique Silva de Oliveira em pesquisa sobre a família Azeredo. Os processos do Rio também se relacionam com redes comerciais e familiares que alcançavam Minas Gerais e outras capitanias.
Minas Gerais
Em Minas Gerais, o criptojudaísmo está ligado ao ciclo do ouro, à migração de cristãos-novos para as zonas mineradoras e à vigilância exercida por comissários, familiares do Santo Ofício e autoridades eclesiásticas. Anita Novinsky analisou 57 processos de marranos de Minas no século XVIII, destacando a presença de comerciantes, mineradores e redes familiares nas regiões auríferas. Angelo Adriano Faria de Assis observa que Minas Gerais foi, no século XVIII, uma das regiões mais procuradas por cristãos-novos que partiam de Portugal ou de outras áreas do império português, atraídos pelo ouro, pelos diamantes e pelas possibilidades de comércio. O mesmo estudo registra localidades associadas a cristãos-novos e judaizantes, como Vila Rica, Serro Frio, Vila do Príncipe, Ribeirão do Carmo, minas de Paracatu, Curralinho e Sabará, entre outras.
São Vicente e São Paulo
Para a antiga Capitania de São Vicente e a formação paulista, Nachman Falbel observou que a documentação inquisitorial referente aos cristãos-novos de São Vicente e da região paulista é menos numerosa do que a de outras capitanias. Ainda assim, denúncias da Primeira Visitação mencionam cristãos-novos moradores de São Vicente, como Francisco Mendes, associado à geração dos "Valles", e Antônio do Vale. O autor também chama atenção para os riscos de uma historiografia baseada apenas em indícios nominais ou raciais, ponto relevante para evitar identificar descendências judaicas sem documentação suficiente.
Algumas redes familiares são frequentemente estudadas pela historiografia por aparecerem em processos inquisitoriais ou em documentação comunitária: Esses exemplos não constituem uma lista genealógica de descendentes atuais. Em verbetes enciclopédicos, a identificação de uma família como criptojudaica depende de fontes históricas publicadas e deve evitar extrapolações sobre pessoas vivas ou linhagens não documentadas.
O caso mais conhecido de criptojudaísmo contemporâneo em Portugal é o da comunidade de Belmonte, estudada desde o início do século XX por Samuel Schwarz e por pesquisas posteriores sobre orações e tradições orais. Estudos sobre o romanceiro criptojudaico português indicam que certas orações, romances bíblicos e manuscritos familiares foram preservados por transmissão oral ou doméstica, embora nem sempre correspondam diretamente à liturgia judaica normativa.


