Convento de Cristo
O Convento de Cristo é a denominação atribuída a um conjunto de edificações históricas situado na freguesia de São João Baptista, cidade de Tomar, Portugal. O início da sua construção remonta a 1160 e está intimamente ligado aos primórdios do Reino de Portugal e ao papel então desempenhado pela Ordem dos Templários, onde tinha a sua sede portuguesa, tendo subsequentemente sido reconfigurado e expandido pela herdeira Ordem de Cristo.
Convento de Cristo é denominação que geralmente identifica um importante conjunto arquitetónico que inclui o Castelo Templário de Tomar, a Charola templária e igreja manuelina adjacente, o convento renascentista da Ordem de Cristo, a cerca conventual (ou Mata dos Sete Montes), a Ermida de Nossa Senhora da Conceição e o aqueduto conventual (Aqueduto dos Pegões). A sua construção iniciou-se no século XII e prolongou-se até ao final do século XVII, envolvendo um vasto empenhamento de recursos, materiais e humanos, ao longo de sucessivas gerações. Atualmente é um espaço cultural, turístico e ainda devocional.
Séculos XII-XVIII
O castelo foi fundado por Gualdim Pais no reinado de D. Afonso Henriques (em 1160) e ainda conserva memórias do tempo desses monges cavaleiros empenhados na reconquista; compreendia a vila murada, o terreiro e a casa militar situada entre a casa do Mestre, a Alcáçova, e o oratório dos cavaleiros (a Rotunda ou Charola). Em 1357, quarenta e cinco anos depois da extinção da Ordem dos Templários, o castelo passou a ser em definitivo a sede da Ordem de Cristo, criada em sua substituição ainda no reinado de D. Dinis. Em 1420 o Infante D. Henrique é nomeado governador e administrador da Ordem de Cristo e, a partir daí, o exercício da governação da Ordem será entregue à família real. A Ordem é reconfigurada sem desvirtuar o seu espírito original, de cavalaria e de cruzada, mas dirigindo-a para um novo objetivo, o da expansão marítima, que a própria Ordem irá financiar (é com o Infante que os Cavaleiros se tornam navegantes e que muitos navegantes se tornam cavaleiros de Ordem de Cristo). Durante a sua regência o ramo de religiosos contemplativos é introduzido na Ordem, passando a coexistir com o dos freires-cavaleiros; a casa militar do castelo é transformada num convento, são construídos dois claustros e a Alcáçova é adaptada para casa senhorial do Infante.
Séculos XIX-XXI
Os século XIX e XX representam para o Convento de Cristo um tempo conturbado e de mudança profunda. Em 1811 as tropas francesas ocupam o convento, levando à destruição do notável cadeiral do coro. Em 1834, a extinção das ordens religiosas põe subitamente termo à vida monástica neste convento masculino (por vontade de D. Maria II, a Ordem de Cristo irá no entanto sobreviver, sob a forma de Ordem Honorífica; o seu Grão-Mestre é, no presente, o Presidente da República Portuguesa); parte importante do seu recheio é roubada, nomeadamente livros de canto em pergaminho com iluminuras, pinturas e outros espécimes artísticos. No ano seguinte muitos dos bens conventuais (tais como a Cerca conventual, o recinto da vila antiga no castelo e as edificações do ângulo sul-poente do convento), são vendidos em hasta pública a um particular, futuro Conde de Tomar, que transforma a ala poente do claustro dos Corvos num palacete ao gosto oitocentista onde ele e a sua família irão residir durante várias gerações.
Classificação patrimonial
Devido ao seu notável valor patrimonial, o Convento de Cristo encontra-se classificado como Monumento Nacional (1910) e como Património Mundial (1983).[nota 2] A classificação da UNESCO como Património Mundial baseou-se em dois critérios: primeiro, o Convento de Cristo representa uma realização artística de exceção no que toca ao templo primitivo e às edificações quinhentistas; por outro lado, está associado a ideias e acontecimentos de significado universal, tendo sido concebido na sua origem como um monumento simbólico da reconquista e tornando-se, no período manuelino, num símbolo inverso, o da abertura de Portugal às civilizações exteriores.
O conjunto diversificado que compõe o Convento de Cristo foi construído entre os séculos XII e XVII, tendo sofrido adaptações sucessivas que refletiram os vários tipos de utilização que acolheu e as características estilísticas da arquitetura dos diferentes momentos históricos, partilhando traços românicos, góticos, manuelinos, renascentistas, maneiristas e do denominado estilo chão. Num balanço muito simplificado, das edificações iniciais dos séculos XII e XIII que sobreviveram destaquem-se o Castelo e a Charola templária (em estilos românico e gótico); das intervenções do tempo do Infante D. Henrique no século XV, assinalem-se os claustros góticos, a noroeste da Charola, e as ruínas do Paço do Infante; a intervenção quinhentista inicial (1510–1515) deixou-nos a igreja/coro manuelina, a ampla valorização do interior da Charola, o Portal sul e uma inacabada Sala do Capítulo, onde predomina o estilo manuelino; as empreitadas seguintes, iniciadas c. 1532, corresponderam à edificação do vasto convento em estilo renascentista (sendo maneirista o Claustro de D. João III), que envolveu exteriormente a igreja manuelina e ocupou uma extensa área a oeste (incluindo vários claustros, dormitórios, refeitório, cozinha e outros espaços destinados à vida monástica); as derradeiras etapas de construção tiveram lugar durante a Dinastia Filipina e no período posterior à Restauração, correspondendo à edificação, entre outros, do longo bloco, em estilo chão, que delimita o complexo conventual a norte/nordeste (que acolheu a Portaria Nova ou Portaria Filipina, a Enfermaria e a Botica) e do Aqueduto, a sul.
Castelo, Charola, Claustros Góticos
O Castelo de Tomar era constituído por uma cintura de muralhas e estava dividido em três espaços. Na parte sul situava-se o recinto da vila (onde hoje se encontra o laranjal). Na parte mais elevada da colina, a norte, foi estabelecida a casa militar dos Templários, ladeada pela casa do Mestre (a Alcáçova; em ruinas), com a sua torre de menagem e, a poente, o oratório dos cavaleiros (a Charola). Separava estes dois recintos o vasto terreiro do castelo, hoje um espaço ajardinado. A Charola do Convento de Cristo era o oratório privativo (com prováveis funções sepulcrais) dos Cavaleiros no interior da fortaleza. Tendo como modelo a basílica paleocristã do Santo Sepulcro, de Jerusalém, é um dos raros e emblemáticos templos em rotunda da Europa medieval. Segundo Paulo Pereira, a sua construção foi realizada em duas etapas: a inicial decorreu na segunda metade do século XII (c. 1160–1190), num tempo dominado pelo românico (seria interrompida devido a graves escaramuças com os almóadas); a segunda, de finalização do templo, cerca de quatro décadas mais tarde (c. 1230–1250), já em fase de plena afirmação da linguagem gótica em Portugal. O resultado é uma obra que cruza elementos de ambos os estilos (românico e gótico). A planta da Charola desenvolve-se em torno de um espaço central, octogonal, que se desdobra em dezasseis faces no paramento exterior do deambulatório. O interior do tambor central é coberto por uma cúpula assente em nervuras cruzadas, de grande verticalidade, e o deambulatório por abóbada de canhão.
Igreja manuelina e Portal Sul
Entre 1510 e 1513 decorrem as obras de construção da igreja, sob direção de Diogo de Arruda. O novo edifício foi literalmente encostado à face ocidental da antiga charola templária e tirou partido dos desnivelamentos do terreno nessa zona para criar um volume unificado de grande imponência (o impacto exterior seria, no entanto, seriamente afetado pela posterior construção dos claustros renascentistas adjacentes), e criar, interiormente, os espaços sobrepostos da sacristia e do coro-alto (onde foi instalado um notável cadeiral de Olivier de Gand, que não sobreviveria à devastação patrimonial ocorrida durante as Invasões Francesas). O conjunto, em particular a fachada ocidental, apresenta uma profusão decorativa dotada de um profundo simbolismo mitográfico que cruza os símbolos cristológicos e mariânicos com os da heráldica régia. A famosa janela da fachada ocidental em particular, concebida como um «inflamado poema de pedra», inscreve-se num vasto paramento (cingido de botaréus e animado com esculturas dos quatro «reis de armas» do reino), revelando o programa de ornamento de fauna e flora terrestre e de ecos da aventura das Descobertas emblemáticos do estilo manuelino.
Claustros renascentistas
A disposição global da renovação e ampliação renascentista de João de Castilho obedeceu a um conceito racional (e funcional). Dois longos corredores em cruz articulam quatro claustros principais, que em conjunto delimitam um enorme quadrilátero; são eles o Claustro Grande (ou de D. João III), o Claustro da Hospedaria, o Claustro dos Corvos e o Claustro da Micha. Um quinto Claustro, de dimensões mais modestas, foi encostado à fachada ocidental da igreja manuelina, afetando seriamente a sua visibilidade. Do ponto de vista funcional este claustro — Claustro de Santa Bárbara —, veio ocupar um lugar chave, de transição entre as antigas e as novas edificações. Terá sido o primeiro a ser construído (c. 1531–1532) e as suas características estilísticas revelam desde logo um corte radical com a densidade híper-decorativa do manuelino e a opção por um novo idioma classicista. O primeiro piso deste claustro foi demolido em meados do século XIX com o intuito de restituir visibilidade à fachada da igreja manuelina, em particular à famosa janela manuelina. Por último, assinale-se o pequeno Claustro das Necessárias (um bloco saliente na fachada oeste do conjunto conventual), destinado em exclusivo ao saneamento.
Claustro de D. João III
O Claustro Grande original – ou Claustro de D. João III –, foi quase integralmente desmontado depois da morte de João de Castilho, por razões que permanecem por esclarecer na íntegra. Foi substituído pela notável versão maneirista de Diogo de Torralva, considerada uma obra-prima deste arquiteto e do maneirismo europeu. As obras de construção seriam prolongadas por Francisco Lopes depois da morte de Torralva (ocorrida em 1566), sendo os acabamentos finais (de Filipe Terzi) e o fontanário central (de Pedro Fernandes de Torres) realizados já em tempo da dominação filipina. Peça cimeira na arquitetura europeia do século XVI, este claustro traduz a assimilação precoce dos mais eruditos valores maneiristas.
Dormitórios e Cruzeiro, Refeitório, Noviciado
Os longos corredores do piso superior dos dormitórios são cobertos por extensas abóbadas de berço com caixotões em madeira de carvalho tipicamente classicistas; no local onde se cruzam formam o Cruzeiro propriamente dito, interessante peça arquitetónica projetada por Castilho com a assistência de Pedro Algorreta que tem adjacente uma capela com a imagem do Cristo Sentado ou Senhor da Cana Verde, 1654 (escultura em terracota de Inácia da Encarnação). Com decoração em relevo (guirlandas, putti…) e coberto por um lanternim com uma cúpula em «barrete de clérigo», o cruzeiro pontua a intersecção de corredores e altera a arquitetura límpida e despojada do conjunto. A sala do refeitório é coberta por uma abóbada de canhão, assente numa cornija contínua e com caixotões delimitados por nervuras em pedraria, de secção quadrangular e configuração clássica. Dois púlpitos, localizados frente a frente nas paredes mais longas, exibem motivos simbólicos renascentistas.
Aqueduto, Portaria Nova e Enfermaria Monástica
Construído na era de Filipe II de Espanha, o Aqueduto dos Pegões foi concebido por Filipe Terzi. Trata-se de uma obra de engenharia hidráulica de grande escala com cerca de 6 quilómetros de extensão, dispondo de um total de 180 arcos para as passagens aéreas da conduta. Destaque-se o trecho sobre o vale dos Pegões, constituído por 58 arcos de volta inteira, na zona mais funda do vale assentam sobre 16 arcos quebrados, por sua vez erguidos sobre imponentes maciços de alvenaria. O aqueduto termina com uma fiada de grandes arcos adossados à fachada sul do convento. Do lado oposto, a norte do complexo conventual, dispõe-se o "longo e monótono" corpo da chamada Portaria Nova. Erigido no Século XVII, em Estilo chão, "sem quaisquer arremedos estilísticos", integra as Enfermarias e a Botica. Com entrada a norte, a Portaria Nova inclui uma escadaria em 3 lanços, com silhares de azulejos azuis e brancos de padrão, sendo precedida por um pequeno vestíbulo (a céu aberto), terminando na Sala dos Reis, um espaço quadrangular com azulejos idênticos aos da escadaria e teto apainelado de madeira pintada. A Sacristia Nova, em estilo maneirista, foi também edificada durante a Dinastia Filipina.


