A Persistência da Memória
A Persistência da Memória é uma pintura a óleo sobre tela de Salvador Dalí, realizada em 1931 durante a sua fase surrealista. Mede 24,1 por 33 centímetros e integra, desde 1934, a colecção do Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova Iorque. No catálogo raisonné da obra pictórica de Dalí corresponde ao número P 265.
Imagem: ThaísaViolante · BY-ND · Openverse
Dalí aproximou-se do grupo surrealista de Paris em 1929, desenvolvendo no início da década seguinte o chamado método paranoico-crítico, no qual procurou representar com grande precisão pictórica imagens oriundas da imaginação e do inconsciente. A Fundació Gala-Salvador Dalí situa A Persistência da Memória entre as obras características deste período da sua produção. Na autobiografia The Secret Life of Salvador Dalí, publicada cerca de uma década depois da execução do quadro, Dalí atribuiu a ideia dos relógios moles à contemplação de um queijo camembert muito macio depois de uma refeição. Descreveu a criação das figuras como uma inspiração súbita, ocorrida quando trabalhava numa paisagem já iniciada. Anne Umland, curadora do MoMA, observa, contudo, que o relato autobiográfico de Dalí foi escrito quando a pintura já era célebre, não devendo ser tomado como uma descrição inteiramente literal do processo de execução.
Imagem: Vitor Oliveira from Torres Vedras, PORTUGAL · BY-SA · Openverse
A composição representa uma paisagem árida junto ao mar. Ao fundo encontram-se falésias iluminadas, identificadas pelo MoMA com a costa da Catalunha, região natal de Dalí. Em primeiro plano surgem três relógios de bolso deformados e flácidos: um pende de um ramo de árvore sem folhas, outro dobra-se sobre uma estrutura rectangular e um terceiro repousa sobre uma figura carnosa de aparência quase humana. Esta última apresenta traços que evocam o perfil do próprio Dalí. Um quarto relógio, fechado e aparentemente rígido, encontra-se coberto de formigas. O MoMA associa as formigas, motivo recorrente na obra do pintor, à decomposição. A instituição relaciona igualmente os relógios moles com a expressão de Dalí «camembert do tempo», derivada do relato posterior do artista sobre a origem da imagem. A oposição entre a execução minuciosa e aparentemente realista dos objectos e a sua transformação física constitui uma característica central da pintura. A curadora Anne Umland descreve a obra como uma combinação de formas representadas com precisão quase palpável e objectos submetidos a estados impossíveis de amolecimento e dissolução, em consonância com o interesse surrealista pelos sonhos, pelo inconsciente e por realidades alternativas.
Imagem: ponte_nasondas · BY · Openverse
A Persistência da Memória foi apresentada em Paris na Galerie Pierre Colle, entre 3 e 15 de junho de 1931. Em novembro do mesmo ano integrou a exposição Newer Super-Realism, no Wadsworth Atheneum, em Hartford, sendo exposta na mostra Surrealism da Julien Levy Gallery, em Nova Iorque, em janeiro de 1932. Segundo o MoMA, a apresentação nova-iorquina teve repercussão imediata, com reproduções da pintura em grande parte da cobertura crítica da exposição. A proveniência registada pela Fundació Gala-Salvador Dalí passa pela Galerie Pierre Colle e pela Julien Levy Gallery. Helen Resor adquiriu posteriormente a pintura a Julien Levy para a oferecer ao MoMA em 1934; o museu regista a entrada na colecção como uma doação anónima. A obra participou posteriormente em numerosas exposições, entre elas Fantastic Art, Dada, Surrealism, organizada pelo MoMA em 1936, a retrospectiva de Dalí realizada pelo mesmo museu em 1941 e exposições no Centre Pompidou, Tate Gallery, Metropolitan Museum of Art e Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia. Em 2009, foi temporariamente cedida à Fundació Gala-Salvador Dalí, em Figueres, na sua primeira apresentação em Espanha desde que saíra do país em 1931.
Imagem: Pedro Ribeiro Simões from Lisboa, Portugal · BY · Openverse
Os relógios moles tornaram-se um dos motivos mais associados à produção de Dalí. Entre 1952 e 1954, o artista retomou directamente a composição em A Desintegração da Persistência da Memória, obra em que os elementos da pintura de 1931 aparecem fragmentados no contexto do interesse posterior de Dalí pela física atómica e pela chamada «mística nuclear».


