Batalha de Valmy
A Batalha de Valmy foi travada a 20 de setembro de 1792, durante as guerras da Revolução Francesa. Foi travada no início das guerras da Primeira Coligação. Nesta batalha enfrentaram-se as tropas francesas e prussianas, um exército que espelhava a revolução e um exército convencional, criado por monarquias absolutas. O primeiro estava sob o comando dos generais Charles Dumouriez e François Kellermann, o segundo sob o comando do Duque de Brunswick. Esta batalha, que não chegou a consumar-se, foi, apesar de tudo, a primeira vitória militar da Revolução Francesa, pois o exército prussiano retirou. Não sendo um feito militarmente relevante, reveste-se de enorme importância histórica.
A Revolução Francesa tinha retirado a maioria dos poderes ao rei, Luís XVI. Parte da nobreza francesa tinha começado a emigrar e muitos, os émigrés, encontravam-se na Prússia e no Arquiducado da Áustria. Os tumultos sucedem-se na capital francesa e, de igual forma, a repressão. Luís XVI tenta a fuga mas é preso em Varennes-en-Argonne (Ver o artigo Fuga de Varennes). Uma manifestação para exigir a queda da monarquia provoca o Massacre do Campo de Marte. Aproxima-se a data da aprovação da constituição. Frederico Guilherme II da Prússia e Leopoldo II da Áustria, irmão da rainha Maria Antonieta, em reunião no Castelo de Pillnitz, na Saxónia, redigiram uma declaração, conhecida como Declaração de Pillnitz, em que pediam que fossem restituídos os poderes a Luís XVI e faziam um apelo às potências europeias para agirem antes que as ideias da Revolução Francesa se expandissem para os seus reinos. Convidaram essas potências para unirem-se com a finalidade de restaurar o poder monárquico em França. Alguns países concordaram em começar a organizar contingentes militares para responderem a este apelo mas o Reino Unido declinou o convite.
Valmy é uma comuna francesa, situada no departamento do Marne, região Champagne-Ardenne, Nordeste da França, a cerca de 100 Km da fronteira com a actual Bélgica. Localiza-se perto da auto-estrada A4, entre Reims e Verdun. O local do campo de batalha está hoje bem sinalizado, por placas onde encontramos escrito «Site de la Bataille de Valmy». Um moinho de vento com cerca de 14 metros de altura, restaurado e idêntico ao que se encontrava no mesmo local durante a batalha, facilita a sua localização. Este campo de batalha é delimitado, a Norte, pela Ribeira de Bionne, que vai desaguar no Rio Aisne, onde assentava o flanco direito do dispositivo francês. A sul do campo de batalha corre o Rio Auve, que recebe o Jeure como afluente. Trata-se de uma região agrícola, pouco arborizada, com algumas colinas de encostas suaves. A Leste do campo de batalha encontram-se os Montes Argonne, cadeia de colinas de formação rochosa e cortada por desfiladeiros e cursos de água, onde se situa a Floresta de Argonne. Por esta região passavam cinco estradas que a atravessavam em cinco desfiladeiros. Por si só, este facto já constituía uma dificuldade para o invasor mas, além disso, as estradas transformavam-se em percursos de lama quando chovia. Para Sul de Valmy estende-se uma colina em que, no seu extremo sul, foi construído o moinho de vento, e a Norte encontra-se o Monte Yron.
A força invasora
As forças invasoras eram formadas por tropas prussianas, austríacas, hessianas e émigrés sob o comando de Karl Wilhelm Ferdinand, Duque de Brunswick, oficial prussiano que tinha servido sob as ordens de Frederico o Grande e se tinha distinguido na Guerra dos Sete Anos e nas campanhas da Baviera e da Holanda. No entanto, a presença de Frederico Guilherme II da Prússia inibia Brunswick de agir exclusivamente de acordo com a sua linha de pensamento. Os exércitos prussiano e austríaco eram os mecanismos obedientes dos seus respectivos monarcas, com excelentes infantaria e cavalaria, mas com uma artilharia pouco evoluída. Muitos dos seus generais estavam velhos e alguns dos mais novos olhavam com simpatia os movimentos revolucionários em França. O elo mais fraco deste exército era o seu comando pois, entre Frederico Guilherme II da Prússia e Brunswick, não havia unidade de pensamento. O primeiro era muito influenciado pelos émigrés e o segundo não gostava deles; pelo contrário, demonstrava alguma simpatia pelos Girondinos e Jacobinos, de tal forma que, no início de 1792, o Governo Revolucionário lhe tinha oferecido o comando do Exército Francês.
A força francesa
O Exército Francês daquela época estava dividido em três exércitos de campanha: Exército do Norte, Exército do Centro e Exército do Reno. As forças que participaram na Batalha de Valmy pertenciam aos Exércitos do Norte e do Centro. O Exército do Norte tinha como comandante o General Charles François Dumouriez e o Exército do Centro era comandado pelo General François Christopher de Kellermann. Embora ainda dispondo de muitos soldados do Exército Real, as fileiras eram preenchidas por muitos voluntários com pouca ou nenhuma experiência e de cuja lealdade os chefes militares duvidavam. No entanto, este era um exército animado por um espírito nacional e cabia aos seus comandantes saberem explorar esse espírito, que se traduzia numa grande força anímica.
A invasão e a marcha até Valmy
A força invasora entrou em França com três exércitos. O exército de Brunswick saiu de Koblenz e entrou na Lorena, colocando-se entre o exército de Kellermann, em Metz, e o de Dumouriez em Sedan. No seu flanco esquerdo movimentavam-se os austríacos, sob o comando do Príncipe Hohenlohe-Kirchberg e no flanco direito o corpo de tropas de Clerfayt. Estes três exércitos juntaram-se na Lorena. O plano era atravessar o Rio Mosa e avançar pela estrada que conduzia a Paris. No dia 23 de Agosto, o exército de Brunswick atingiu a fortaleza de Longwy que, após um curto bombardeamento, aceitou render-se. Quando a ameaça passou a pender sobre a fortaleza de Verdun, Dumouriez enviou dois batalhões para reforçar a guarnição daquela praça. Não chegaram a tempo, pois a fortaleza entretanto caiu em poder dos prussianos. O exército de Dumouriez ocupou posições em St. Ménehould. A sua missão era agora defender as passagens nos Montes Argonne e aguardar a chegada de Kellermann, que tinha recebido ordens para o apoiar. O exército de Dumouriez, por si só, não dispunha de tropas suficientes para defender os cinco desfiladeiros.
A batalha
No dia 19 de Setembro, o Exército do Centro, sob comando do General Kellermann, atravessou o rio Auve e chegou a Dommartin-la-Planchette. Com ele vinham 17 batalhões e 30 esquadrões; ao todo, 16 000 homens. Burnswick continuava a desenvolver o plano para um envolvimento das tropas francesas a fim de forçá-las a retirar. Decidiu fazer avançar as forças prussianas por Grandpré e, a partir daí, avançar para Sul e ameaçar La Chalade e Les Islettes a partir de Oeste. Simultaneamente, as tropas austríacas avançariam sobre as mesmas posições a partir de Leste. Esta acção, entendia ele, forçaria Dumouriez a retirar. Dizia Brunswick ao Coronel Massenbach, que o acompanhava no reconhecimento: "Tomaremos Les Islettes e sem grande derramamento de sangue. Como sabe, devemos poupar os nossos homens, pois não somos mais numerosos".
A Batalha de Valmy foi um verdadeiro teste entre os exércitos conservadores e os exércitos revolucionários. Brunswick era considerado pelos militares da antiga escola como sendo o melhor general de então, famoso pelas suas campanhas na Holanda (1787), assentes muito mais na manobra que no confronto directo. Na campanha em França, durante quase um mês, os dois exércitos manobraram um contra o outro. A impetuosidade, os desacordos internos, a ineficácia e as situações de pânico que surgiam repentinamente, marcaram as operações francesas. Os movimentos dos prussianos foram extremamente lentos, subordinados a um sistema de abastecimentos completamente ineficaz. No dia 20 de Setembro, em Valmy, ambos os exércitos apresentavam alguma desordem e a batalha, na realidade, não foi mais que um grande duelo de artilharia. Embora não sendo uma grande vitória, Valmy foi importante porque Brunswick decidiu não seguir para Paris.


