Autoritarismo no Brasil
O autoritarismo, ou autoritarismo social, é um traço marcante da sociedade brasileira. Embora a imagem do brasileiro seja a da afabilidade, da cordialidade, da "democracia racial", a realidade mostra uma uma sociedade violenta, desigual, e hierárquica. A mentalidade autoritária de grande parte da população ainda é um obstáculo ao pleno desenvolvimento da democracia no país, democracia entendida não como o direito a eleger e ser eleito, mas como uma mentalidade igualitária em todos os setores da sociedade.
Imagem: Aécio Neves - Senador · BY · Openverse
Muito do autoritarismo vem da forma com que nossa colonização foi feita. O território que hoje compreende o Brasil era uma colônia de exploração, caracterizada por grandes propriedades rurais nas mãos de poucos. A convivência entre as pessoas era muito mais vertical do que horizontal. Nas palavras de Paulo Freire, "oscilávamos entre o poder do senhores das terras e o poder do governador, do capitão-mor". Segundo o autor, uma das consequências desse passado colonial é o "mutismo" brasileiro, a adequação (ou resignação) fatalística do povo aos acontecimentos, sua baixa participação nos problemas comuns, na vida democrática. Estávamos assim 'conformados' em um tipo de vida rigidamente autoritário, nutrindo-nos de experiências verticalmente antidemocráticas, em que se formavam e robusteciam sempre mais as nossas disposições mentais também e forçosamente antidemocráticas Ao falar da origem do autoritarismo, é impossível deixar de mencionar a escravidão. O antropólogo Darcy Ribeiro exprime as consequências desse passado.
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Marilena Chaui aponta que o caráter autoritário da sociedade brasileira é um obstáculo à democracia. Os itens a seguir são as causas que obstaculizam a pleno desenvolvimento da democracia em seu sentido mais amplo (igualdade, mentalidade democrática). Conforme a filósofa, a sociedade brasileira é caracterizada pelos seguintes aspectos: A democracia é inviabilizada por carências na educação. Paulo Freire acredita que "estes deficits [na educação], realmente alarmantes, constituem óbices ao desenvolvimento do país e à criação de uma mentalidade democrática".
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No seu livro A Cabeça do Brasileiro (2007), Alberto Carlos Almeida demonstra, por meio de dados e estatísticas, que existe uma correlação entre hierarquia e autoritarismo. Isto é, pessoas que defendem certas posturas autoritárias (como a repressão a protestos contra o governo) são os mesmos que defendem posturas hierárquicas, como a relação entre patrão e empregado. Para a maioria dos brasileiros, não há igualdade efetiva. Por exemplo, um patrão é hierarquicamente superior a um empregado, mesmo fora das relações de trabalho. Exemplo disso é o seguinte dado: Conforme os dados revelam, dois em cada três brasileiros acreditam não haver igualdade fora do ambiente de trabalho. Conforme esse outro dado, um porteiro (provavelmente mulato, ou negro) permanece um porteiro, mesmo se ele se tornar rico. Sua posição na sociedade é bem definida, e ele não deveria ir para um bairro de classe alta. Para Alemeida, a educação é a solução para esses (e vários outros) problemas. Conforme afirma, "mais riqueza e mais educação levam as pessoas a rejeitar a autoridade superior e a buscar formas de 'autoexpressão'. Pessoas mais educadas tendem a se afastar da autoridade superior e a rejeitar as relações sociais verticais em benefício de relações de poder mais horizontais."
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Outros dados levantados pela pesquisa que evidenciam uma mentalidade autoritária são o número de brasileiros que apoiam punições ilegais, como estupro de estupradores nas prisões, linchamentos de suspeitos de crimes e o espancamento de assaltantes pela polícia para obter a confissão de um crime (ou seja, tortura, uma violação dos direitos humanos). Mais da metade dos entrevistados acham que essas punições podem ser usadas, mesmo que ocasionalmente. Pouco menos da metade da população brasileira considera essas punições "sempre erradas".
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Contemporaneamente, o autoritarismo pode ser verificado com o fenômeno bolsonarista, que gira em torno, mas não se limita a, do o militar reformado Jair Bolsonaro se tornou presidente do Brasil em 2018. Trata-se de uma manifestação no autoritarismo na política. Esse tipo de autoritarismo não é novo. De fato, conforme um estudo acadêmico sobre o lado autoritarista do bolsonarismo: A rigor, o Bolsonarismo está para além da figura de Jair Bolsonaro, embora esta figura grotesca e bizarra tenha significados sociopolíticos, trazendo à baila marcas históricas da formação social brasileira e da nossa própria cultura política, materializadas no conservadorismo, no machismo, no racismo, na misoginia, nas discriminações de múltiplas naturezas. Bolsonaro parece bem encarnar a perspectiva colonialista de submissão, elitismo e violência, a atravessar a história do País, reatualizando-se no reacionarismo político-cultural, em pauta no Brasil do Presente.


