Pesquisa · Mapa mental

Neogramática

Neogramática é uma escola de pensamento lingüístico que procurou introduzir na lingüística histórica os princípios positivistas que triunfavam na ciência e na filosofia do momento, esperando renovar a gramática comparada. Conforme Faraco (2012), a Neogramática foi um movimento no século XIX de uma nova geração de estudiosos das línguas, relacionados à Universidade de Leipzig, na Alemanha, que foram contrários a certos pressupostos da Gramática Histórico-Comparativa praticada na época.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 27/07/2026
01

O início do movimento neogramático

De acordo com Tarallo (1990), a Escola Neogramática era formada por vários estudiosos da história das línguas, sendo da Universidade de Leipzig, segundo Leroy (1967), os idealizadores do movimento. Camara Jr. (1979) aponta que o movimento neogramático teve inspiração proveniente de uma obra de Wilhelm Scherer (1841–1886), publicada em 1968. “Scherer […] advogava leis fixas na mudança fonética. Enfatizava a importância da fonética para o estudo histórico da linguagem", além de ter ainda introduzido a hipótese da analogia (CAMARA JR., 1979, p. 73). Em relação ao movimento neogramático, o autor diz ter o movimento se iniciado de um comunicado que criticava métodos mais antigos de comparação linguística. O movimento se iniciou após um desentendimento entre Georg Curtius (1820–1885) e Karl Brugmann (1849–1919), corredatores de uma revista. O desentendimento foi devido a um artigo escrito por Brugmann, que este insere na revista quando Curtius estava ausente, de viagem. Curtius não concorda com a ideia defendida no artigo e escreve no fim do volume da revista uma nota explicando que estivera fora de Leipzig, não tendo, portanto, oportunidade de dar sua opinião sobre o artigo, deixando toda a responsabilidade a critério de Brugmann, corredator da revista. Brugmann não mais colaborou nessa revista e Curtius, posteriormente, altera o nome de tal revista para um que não apresentasse ligações com Brugmann. Juntamente com Hermann Osthoff (1847–1909), Brugmann funda uma nova revista, cujo primeiro volume traz o manifesto neogramático.

02

A designação "neogramáticos"

A nova geração de estudiosos que se opôs à Gramática Histórico-Comparativa, de acordo com Faraco (2012), foi chamada de “Junggrammatiker”, cuja tradução é “jovens gramáticos”, prevalecendo, contudo, a designação “neogramáticos”. Camara Jr. (1979) diz que a designação “jovens gramáticos” foi criada por Brugmann como um apelido humorístico para denominar os alunos da Universidade de Leipzig contrários aos ensinamentos de Curtius. A finalidade humorística de Brugmann com a designação não foi percebida e acabou sendo usada para nomear o movimento. A alteração de “jovens gramáticos” para “neogramáticos” se deve a uma tradução feita por Graziadio Isaia Ascoli (1829–1907) do alemão e que acabou sendo usada fora da Alemanha. Os neogramáticos alemães, por terem se concentrado na Universidade de Leipzig, tiveram também “Escola de Leipzig” como denominação.

03

Posições da escola

Os neogramáticos se esforçaram por incluir seus trabalhos sobre a lingüística histórico-comparada dentro das ciências naturais, tomando como modelos a geologia e a física. O princípio sobre o que basearam este status científico foi o da regularidade das mudanças fonéticas e trataram de establecer leis fonéticas para resumir os padrões regulares observados. Segundo Weedwood (2015), os neogramáticos formularam a tese de que as mudanças fonéticas seguiam leis fonéticas regulares. Tarallo (1990) assinala que eles focalizaram a regularidade. Os neogramáticos “formularam uma teoria, na qual se assumiu que as mudanças fonéticas tinham um caráter de absoluta regularidade e, portanto, deveriam ser entendidas como leis que não admitiam exceções” (FARACO, 2012, p. 51–52). Em relação aos neogramáticos, Faraco (2012) diz que uma mudança sonora é entendida como automática, pois essa considera somente o contexto fonético. Nas línguas, a ocorrência generalizada das mudanças fônicas obedecendo às leis fonéticas pode dar origem a irregularidades gramaticais. Em contrapartida, há a analogia, que apesar de não ser sempre aplicada, quando o é, dá origem a regularidades gramaticais.

04

Principais obras dos neogramáticos

Conforme Faraco (2012), para as consoantes do ramo germânico das línguas indo-europeias, Karl Verner (1846–1896) demonstrou num artigo de 1875 que as exceções da lei de Grimm eram aparentes, logo, regulares. Essa descoberta de Verner reforçou o princípio da regularidade da mudança, inspirando a hipótese base da teoria dos neogramáticos de que a mudança sonora apresenta regularidade absoluta. Por conseguinte, houve a aceitação de que a mudança sonora obedecia a leis que tinham aplicação a todos os casos que apresentavam as mesmas condições, leis que não tinham exceções, as chamadas “leis fonéticas”. Considera-se como manifesto neogramático o prefácio escrito por Hermann Osthoff e Karl Brugmann para o primeiro número da revista “Morphologischen Untersuchungen”, publicada em 1878 (FARACO, 2012). Como trabalho neogramático, Leroy (1967) assinala também a publicação do trabalho de Ferdinand de Saussure (1857–1913), “Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européennes”.

05

Revendo posições

Faraco (2012) aponta que as leis fonéticas foram o alvo central das críticas. A ideia dessas leis como dependentes apenas de condições fonéticas e com aplicação a todos os elementos que satisfazem às condições da mudança foi revista pelos neogramáticos, como Hermamn Paul, e pelos seguidores críticos do movimento, como Leonard Bloomfield (1887–1949). Como coloca Faraco (2012, p. 53), “logo […] ficou claro que um princípio de regularidade absoluta (quebrado apenas por intervenção da analogia) dificilmente permitiria dar conta de forma adequada da história das línguas, que é bem mais complexa do que supunham, de início, os neogramáticos”. Graziadio Ascoli, conforme Camara Jr. (1979), embora tivesse aceito o princípio das leis fonéticas, entendia que essas se explicam por fatores históricos, os quais justificariam as exceções. Faraco (2012) afirma que especialmente os estudos dialetológicos mostraram que, apesar de a mudança ser caracterizada pela regularidade, tal regularidade geralmente não atinge de modo instantâneo todos os elementos sob mudança, nem todas as variedades de uma língua. A regularidade não alcança rapidamente e por completo todo o espaço geográfico e/ou social em que determinada língua é falada, não depende apenas de pressões estruturais manifestadas pela analogia, mas também de pressões sócio-históricas. Os estudos empíricos levaram ao entendimento de que “uma unidade sonora pode mudar de maneira diferente duma palavra para outra, o que significa que a expansão das mudanças é lenta, progressiva e diferenciada tanto no espaço geográfico, quanto no interior do vocabulário” (FARACO, 2012, p. 150), já que há diferentes condições de uso entre as palavras, de acordo com o autor.

06

O legado neogramático

De acordo com Leroy (1967), os neogramáticos não estabeleceram uma teoria geral da linguagem. Isso porque focalizaram a realização de estudos que enfatizavam detalhes das línguas. Tarallo (1990) salienta que as concepções neogramáticas se fizeram presentes na primeira metade do século XX nos estudos linguísticos e que características neogramáticas se fizeram presentes também nos estudos das línguas após um século do movimento neogramático. Lima-Hernandes (2010) aponta que o Funcionalismo guarda semelhanças com a Neogramática. Segundo Corrêa (2011, p. 40), a teoria neogramática “abriu passagem para correntes importantes da atualidade, dentre as quais gerativistas e variacionistas, ainda que adotassem perspectivas diferentes entre si”. Corrêa (2011) exemplifica que os neogramáticos, objetivando entender como a mudança ocorre, acabam cuidando de característica do mecanismo mental humano ou do modo como a mudança acontece internamente no indivíduo, o que lembra o Gerativismo.

Vídeos recomendados

Fontes consultadas

Continue pesquisando