Xadrez na Arábia
O Xadrez na Arábia refere-se a contribuições dos povos árabes ou da Arábia na história do xadrez. A participação destes povos, sobretudo após o advento da religião islâmica, foi fundamental na expansão do xadrez pelos continente asiático e europeu. Os povos nativos da península Arábica eram próximos ao Império Sassânida, com sua variante do xadrez chamada Chatrangue, e com a consolidação da fé islâmica no século VI estes povos expandiram seu império a leste, conquistando a civilização persa e a oeste conquistando o norte da África e o sul das penínsulas Ibérica e Itálica, levando com eles sua própria versão do jogo.
O Califado Ortodoxo (em árabe: الخلافة الراشدية) foi o primeiro de quatro califados da história do Islamismo, fundado após a morte do profeta Maomé em 632. No seu auge, o califado se estendeu pela península Arábica, Cáucaso, norte da África e planalto iraniano formando o maior império em extensão até a época. A conquista da Pérsia substituiu o zoroastrismo da cultura local pelo islamismo, entretanto vários outros elementos da cultura foram preservados e incorporados pelos povos árabes. Por volta de 711, a Península Ibérica foi invadida pelos muçulmanos sob comando de Tárique do califado Omíada. Cruzaram o mar Mediterrâneo na altura do estreito de Gibraltar e entraram na Península vencendo Rodrigo, o último rei visigodo da Hispânia. Nos séculos seguintes alargaram suas conquistas formando o território de Al-Andalus, que governaram por quase oitocentos anos. Apesar dos conflitos constantes que duraram até a Reconquista de todo o território, a cultura árabe teve um intenso contato com os reinos cristãos.
Os árabes traduziram os nomes das peças conforme seu idioma, sendo as principais diferenças a Rukh (Torre) que tinha um significado variado na Pérsia mas foi consolidado como uma biga entre os árabes, e o Pīl que não é uma palavra persa mas foi traduzido com o significado de Elefante. O Asp (Cavalo), Piyada (Peão) e Farzin (Vizir) foram traduzidos para as respectivas palavras árabes Faras, Baidaq e Firzan respectivamente. Todas as peças de origem árabe são facilmente identificáveis em virtude de seu formato abstrato determinado pela influência do Islamismo. Existe uma considerável quantidade peças de xadrez de origem árabe encontradas ao longo do Oriente Médio e norte da África. As mais antigas datam do século VI e VII aproximadamente e foram encontradas Irã e sul do Iraque. Outras dos séculos VIII a X foram encontradas no Egito, Síria e após o século X várias encontradas em solo europeu. O conjunto mais conhecido destas são as peças de Ager, encontradas na cidade de Àger que teriam pertencido ao conde de Arnau Mir de Tost de Urgel. As peças são fabricadas em rochas cristalinas de origem estrangeira tendo sido provavelmente confeccionadas no Egito.
Um manuscrito árabe intitulado Yawakit ul Mawakit (século XI), escrito por ibne Almutaz, filho do califa Almutaz, traz uma breve menção do jogo no qual enumera suas qualidades. Apesar do islamismo ter se manifestado contra o jogo, em algumas ocasiões os califas mantinham a prática em suas cortes. O conto As mil e uma noites traz a história do jogador de xadrez Almadi, filho de Harune Arraxide, que compra uma escrava conhecida por ser uma hábil jogadora de xadrez. Almadi perde três vezes consecutivas para a moça e como recompensa poupa a vida do interesse romântico dela. Entretanto uma descrição melhor das regras do Xatranje, em qualidade e propósito, é encontrada na literatura hebraica. O rabino Bonsenior Abu Yachia, que viveu por volta do século X, escreveu um poema descrevendo as regras de movimentação das peças e o arranjo inicial das peças. Existem várias lendas a respeito da criação do jogo na literatura árabe o que demonstra a popularidade do mesmo na cultura. Entre as citadas estão a história do brâmane Sissa ibne Dair que criou o jogo a pedido de um rajá indiano e como recompensa pedira um grão de trigo na primeira cada casa do tabuleiro, dobrando progressivamente para cada em cada casa e a história que conta o pedido da mãe do Rei Gav, de modo a provar que este não havia provocado a morte do irmão Talhende durante uma batalha sendo esta reconstituída sobre o tabuleiro.
O Xatranje
A principal diferença entre o Xatranje árabe e a versão ocidental do jogo era o tabuleiro monocromático do qual não havia um posicionamento correto em relação as cores para arranjar inicialmente as peças. Em função disso, existiam dois arranjos iniciais possíveis em relação ao Rei e o Firz do qual o enxadrista mais forte escolhia a posição do seu Rei no início da partida e o adversário colocava o seu na mesma coluna, com os respectivos Firz ao lado. As outras peças eram dispostas conforme a versão ocidental, com a ressalva de que o lugar do bispo era ocupado pelo Pil. Não existia o roque e assim como no Chatrangue o jogador podia vencer aplicando o Shah-mat (xeque-mate), deixando o oponente com o Rei solitário ou deixando o o Rei adversário afogado, neste ponto diferindo de seu antecessor onde não era permitido deixar o Rei nesta situação.
Existiam poucas diferenças entre as regras do Xatranje e do Chatrangue, e a principal contribuição árabe no jogo diz respeito aos princípios científicos de análise e um estudo mais aprofundado do jogo posicional. Sob domínio árabe foi introduzido também a notação algébrica de xadrez que apesar de não ser empregada universalmente para o Xatranje, o era para a descrição de problemas de xadrez que haviam se tornado populares. O jogo tornou-se popular entre califas, como Harune Arraxide, que patrocinavam os melhores jogadores de sua corte e no final do século IX já era amplamente aceito e difundido no mundo árabe sendo levado para o norte da África, Sicília e Península Ibérica. Surgiram então os primeiros grandes jogadores notáveis em suas época pela capacidade de jogar mesmo dando vantagens de peões até torres para seus adversários. Aladli, Alrazi e Alçuli foram os grandes nomes deste período, tendo-se destacado tanto no xadrez como nas artes e ciências.
Influência do islamismo
Quando os árabes dominaram a Pérsia em 651 o profeta Maomé já havia falecido, o que provocou um longo debate entre os teólogos islâmicos sobre a legalidade da prática do jogo. A controvérsia era na interpretação do capítulo 5 do Corão, livro sagrado do islamismo, que afirma: Os teólogos sunitas interpretaram que este banimento de ídolos se referia a todas as formas de representação de homens e animais, o que incluia pinturas, esculturas e peças de xadrez. Apesar da interpretação xiita ser restrita a ídolos religiosos somente, a interpretação sunita prevaleceu e a situação foi contornada com a confecção de peças abstratas. Outras observações deviam ser cumpridas, de modo que a prática do xadrez não atrapalhasse os deveres religiosos, o que incluia não ser praticado por dinheiro, não levar a disputas ou a linguajar impróprio. Apesar disso, algumas interpretações mais radicais classificaram o xadrez como haram, o que significava que o jogo era proibido e sua prática merecedora de castigo. Esta visão radical era ocasionalmente adotada por califas o que levava à destruição de peças e tabuleiros, embora nem todos o fizessem.


