Anatomia da Crítica
A Anatomia da crítica: Quatro ensaios de Herman Northrop Frye busca formular uma visão geral do escopo, teoria, princípios e técnicas da Crítica literária derivada exclusivamente da literatura. Frye omite conscientemente qualquer crítica específica, oferecendo ao invés disso uma teoria de inspiração clássica dos modos, símbolos, mitos e gêneros, da literatura, que ele chamou de "um grupo interconectado de sugestões" para a teoria literária.
A intenção da introdução é defender a necessidade da crítica literária, distinguir sua natureza e a natureza de outras formas de crítica, além de esclarecer uma diferença entre a experiência direta com a literatura e o estudo sistemático da crítica. Algumas razões justificam chamar a introdução de 'polêmica'. Ao defender a necessidade da crítica literária, Frye opõe-se à noção, comum a Tolstoy e ao pensamento romântico, de que o 'gosto natural' é superior ao estudo acadêmico (e por extensão, à crítica). Do outro lado, ele também se opõe à ideia de que a resposta do público seja inversamente proporcional ao valor real da obra, que é comum dentro de um tipo de crítica que tem seu ápice na era vitoriana. Frye também acusa uma série de métodos (e.g.. marxista, freudiano, Junguiano, neoclássico, etc.) como sendo representantes de uma 'falácia determinista'. Ele não se opunha a nenhuma dessas ideologias em particular, mas via a aplicação de qualquer ideologia à literatura como um desvio da crítica genuína. Segundo ele, isso significa submeter um trabalho literário ao gosto filosófico individual e à glorificação ou demonização de um autor conforme uma preferência ideológica.
Frye inicia sua sistematização da literatura com três aspectos da poesia dados por Aristóteles em sua Poética: mito (enredo), ethos (caracterização e definição) e dianóia (tema/ideia). Frye enxerga a literatura como pertencendo a um espaço contínuo que varia entre obras guiadas pelo enredo (mythos), como na maioria das obras de ficção, e obras guiadas pela ideia (dianoia), como em ensaios temáticos ou retóricos, e até na poesia lírica. O Primeiro Ensaio começa explorando os diferentes aspectos da ficção (subdivididos entre trágica e cômica) dentro de cada "modo" conforme proposto por ele, e termina com uma discussão similar sobre a literatura temática. Frye divide seu estudo da literatura trágica, cômica, e temática em cinco "modos", cada um identificado com uma época literária específica: mítico, romântico, mimético alto, mimético baixo, e irônico. Essa categorização é também uma representação do "ethos" aristotélico, ou a caracterização, e se relaciona com a maneira pela qual o protagonista é retratado diante do resto da humanidade ou em relação ao seu próprio ambiente. Frye sugere que as civilizações clássicas tenham a história do desenvolvimento desses cinco modos, e que algo similar aconteceu na civilização ocidental durante o período medieval e moderno. Ele especula que a ficção contemporânea possa vivenciar um retorno ao mito, completando o ciclo dos cinco modos. Frye argumenta que, quando a ironia é levada ao extremo, ela retorna ao modo mítico; esta concepção de "ciclicidade" ou "recursividade" está próxima das concepções de Gianbattista Vico e Oswald Spengler, influentes em Frye.
Uma vez estabelecida a teoria dos modos, Frye propõe cinco níveis, ou fases, do simbolismo, cada fase possuindo o seu próprio "mythos, ethos e dianóia", como propostos no primeiro ensaio. As fases de Frye são baseadas nos quatro níveis da alegoria medieval (as duas primeiras fases constituindo o primeiro nível). Além disso, Frye relaciona as cinco fases com as cinco eras da humanidade no primeiro ensaio, correspondendo aos seus cinco modos. Frye define um símbolo literário como "qualquer unidade dentro de qualquer estrutura literária que pode ser isolada para a atenção crítica". A fase descritiva representa a propriedade externa, ou centrífuga, do símbolo. Por exemplo, quando uma palavra como 'gato' evoca uma definição, uma imagem, uma experiência, ou qualquer propriedade conectada à própria palavra que é externa ao contexto literário, ou seja, o símbolo representa algo externo ao contexto em que a palavra está sendo usada, temos que a palavra está sendo interpretada em sua simbologia descritiva. Frye denomina qualquer símbolo desse tipo como um signo. Ele não define signo de nenhuma maneira além dessa, em que se aponta um sentido externo, e ele também não se refere a nenhuma teoria semiótica em particular. Em oposição ao signo está o motivo, que é o símbolo tomado em sua fase literal. Essa fase demonstra o sentido interno, ou centrípeto, do significado, mais bem descrito como o seu sentido contextual. Para Frye, literal significa praticamente o oposto do uso corrente; quando dizemos que algo "literalmente" significa alguma coisa, isso geralmente envolve uma referência a uma definição externa ao texto, como uma definição de dicionário, ou uma ideia apreendida anteriormente por um uso anterior da mesma palavra. Em vez disso, para Frye, literal se refere ao significado do símbolo em sua situação literária específica, enquanto descritivo se refere à conotação pessoal e à definição convencional. Finalmente, Frye desenvolve uma analogia entre o ritmo e a harmonia, respectivamente, com as fases literal e descritiva. A fase literal tende a ser horizontal, dependendo do que virá antes ou depois do símbolo, enquanto a fase descritiva tende a ser dispersa no espaço, tendo significados externos que variam em proximidade com o sentido contextual.
O terceiro ensaio é a culminação da teoria de Frye naquilo que une os elementos da caracterização de cada uma das cinco fases simbólicas apresentadas nos dois primeiros ensaios em um corpo orgânico. Esse corpo é organizado em volta da metáfora do desejo e da frustração humana, como manifestado em metáforas das grandes categorias dos seres (divino, humano, animal, vegetale mineral) e em analogia com as quatro estações. Em determinado ponto temos as imagens do apocalipse, que tipificam a revelação do céu e a última realização do desejo humano. Neste estado, a estrutura literária aponta para a unificação de todas as coisas em um único símbolo anagógico. A metáfora do divino é a deidade, do humano é Cristo (ou outros seres que representem a totalidade humana em uma culminação espiritual), do animal é o cordeiro, do vegetal é a Árvore da vida ou a vinha, e do mineral é a Jerusalém divina, ou a cidade de Deus.


