Dogolachan
Dogolachan foi um imageboard da extrema-direita brasileira. A primeira versão foi criada em 2013 por Marcelo Valle Silveira Mello, preso desde 2018 e posteriormente condenado pela Justiça Federal, com processo judicial transitado e julgado, por diversos crimes como pedofilia, ameaça, racismo, divulgação de vídeos e fotos de pornografia infantil e outros crimes.
Marcelo Valle era um analista de sistemas e ex-estudante da Universidade de Brasília (UnB). Foi condenado junto com Emerson Eduardo Rodrigues em 2012 a seis anos e três meses de prisão como resultado da Operação Intolerância, da Polícia Federal com apoio do FBI, por suas postagens no blog Silvio Koerich. A operação foi deflagrada depois de mais de 70 mil denúncias nas Secretarias de Proteção à Mulher e de Direitos Humanos da Presidência. O blog propagava mensagens racistas, machistas, homofóbicas e pedofílicas. Durante a investigação, foram encontradas evidências e um ataque terrorista contra os alunos de Ciências Sociais de sua antiga universidade. Depois de um ano e seis meses preso, ganhou o direito de cumprir a pena sob liberdade condicional. Foi nessa época, em 2013, que ele criou o Dogolachan. Ele havia sido expulso dos outros chans, por isso decidiu criar o seu. Seu nome no imageboard era Psy, Batoré ou Psytoré. O imageboard é famoso pela trollagem e discurso de ódio. O símbolo do website é o dogola, um meme brasileiro de um cachorro russo sorrindo, que na época foi compartilhado à exaustão. O grupo propagava a ideia que precisava haver um contra-ataque para devolver o lugar de direito aos homens héteros e brancos após a revolução cultural dos anos 60. Também apoiava os ataques de ódio de Jair Bolsonaro. Dentro do fórum, pessoas que cometem assassinatos e chacinas são declaradas como heróis e minorias no geral são chamadas de escória. De acordo com a Safernet, ONG que combate crimes na internet, até 2019, o Dogolachan e outros 5 websites ligados a ele geraram mais de 160 mil reclamações formais.
O Massacre de Realengo foi cometido antes da criação do fórum, em 7 de abril de 2011, mas o perfil do assassino é parecido com os usuários do fórum e serviu de inspiração para outros massacres. O atentado foi comemorado no Dogolachan. No dia 15 de junho de 2018, o moderador do Dogolachan Kyo ou Fuego Sancto, André Luiz Gil Garcia, de 29 anos, pediu em Penápolis a uma mulher de 27 anos que saísse com ele. Quando ela disse que não, André deu um tiro em sua nuca. Ele tentou fugir do local, mas foi cercado pela Polícia Militar e se matou com um tiro no peito. Ele já havia se envolvido em outros ataques. Antes do crime, postou no Dogolachan que queria se matar, mas estava ressentido por não haver como matar sua ex-namorada, que morava em outro estado. os channers especulavam que ele tinha depressão e estava apreensivo da Polícia Federal descobrir seu envolvimento com o site. A vítima, Luciana de Jesus do Nascimento, morreu no dia 5 de julho. Ele era moderador do Dogolachan desde pelo menos 2017 e gostava de convencer pessoas com tendências suicidas a se matarem.
Alguns ataques foram comprovadamente feitos pelo imageboard. Outros, porém, seguem o mesmo padrão, mas podem ter sido feitos por outros indivíduos ou entidades. Dolores Aronovich Aguero, professora da UFC e feminista, foi uma das primeiras ameaçadas pelo chan. As ameaças começaram em 2013, antes da criação do fórum, pelas denúncias feitas contra o blog Sílvio Koerich. Aronovich declarou que receceu diversas ameaças oriundas de Mello e outros individuos. Ela descreve os chans como organizações terroristas. A lei 13.642/18, conhecida como Lei Lola, proposta por Luizianne Lins, permitiu que a Polícia Federal possa investigar crimes cibernéticos de misoginia em âmbito interestadual e internacional. O site de notícias Ponte Jornalismo publicou diversas notícias sobre o Dogolachan, o que levou seus funcionários a sofrerem ameaças. Em 2017, usuários do Dogolachan passaram a atacar Ricardo Wagner Arouxa, um consultor de segurança na área de tecnologia, por desavenças com o usuário "Alemão" no grupo do Cartola FC no VK.
Em setembro de 2016, a UFMG recebeu na página do Facebook mensagem de ameaça de chacina na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. A mensagem original foi publicada em 2009 em um site ligado ao Dogolachan. Em outra mensagem, afirmou ter 19 anos e citou o atentado em Nice como uma maneira de matar os alunos. No dia 4 de dezembro de 2017, a secretaria do curso de letras da USP recebeu e-mail dizendo que um atirador abriria fogo contra alunos e funcionários da FFLCH. "Eu vou aparecer hoje na segunda-feira, último dia de aula, com uma touca ninja e duas pistolas 9mm que eu comprei na favela São Remo [vizinha à Cidade Universitária], e vou entrar atirando para matar". Também ameaçou jogar ácido sulfúrico em uma funcionária e que iria se matar para encontrar suas 70 virgens no Paraíso. Além disso, jurou lealdade ao Daesh e ao califa Al-Baghdadi. Foi registrada a ocorrência no 93ºDP (Jaguaré). O dono do e-mail que enviou as mensagens era Murilo Ianelli Chaves. Anteriormente, ele estava sofrendo perseguições por ter criado projeto na internet que denuncia o compartilhamento de fotos envolvendo pedofilia e se envolveu na expulsão do presidente da Frente Integralista Brasileira, Victor Emanuel Barbuy, do campus. Ele alega que seu e-mail foi hackeado por usuários do Dogolachan.
Uma série de políticos ligados de alguma maneira a movimentos minoritários receberam ameaças similares, muitas vezes assinado com o nome ficticio Ricardo Wagner Arouxa. Nos e-mails, o autor escrevia que vivia de auxílio emergencial e que sua mulher estaria com câncer de mama, e ameaçava matar a pessoa em questão, com algumas variações no método. Apesar disso, há a possibilidade que outros grupos além do Dogolachan estivessem envolvidos. Em 2022, estes e outros casos de violência foram denunciados por relatores e organismos da ONU por meio de uma carta enviada ao Governo Brasileiro. O ex-deputado LGBTQIA+ Jean Wyllys sofreu constantes ameaças por parte de membros do Dogolachan. Desde 2018, após o assassinato de Marielle Franco, ele passou a andar apenas com escolta policial. Em 2019, desistiu do mandato e fugiu para Barcelona por causa das ameaças. Dentre as ameaças, constavam o envio de e-mails contendo ofensas e ameaças, incluindo o assassinato de membros de sua família e uma ameaça de estupro a sua irmã. Em 2020, o Núcleo de Direitos Humanos do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios denunciou Marcelo Mello pelos crimes de coação no curso do processo, injúria qualificada pela raça e origem e ameaça. Ele pode ser condenado de um a seis meses de prisão, além da multa por danos morais.
O criminoso Marcelo Valle Silveira Mello, presidiário, preso no Penitenciária Federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, e outros membros do Dogolachan, se fazem passar por outras pessoas na internet para praticar crimes cibernéticos. Segundo o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, nos Autos TJDFT – PJE n. 0038136-38.2016.8.07.0001: "Contudo, no curso das investigações, que transcorreram no âmbito da Polícia Federal (IPL 508/2017), verificou-se que, embora o e-mail tenha sido assinado em nome de EMERSON EDUARDO RODRIGUES SETIM, o verdadeiro remetente foi o denunciado MARCELO VALLE SILVEIRA MELLO." "No presente caso, o endereço eletrônico goec@sigaint.org faz parte de serviços de e-mail conhecidos por prometer anonimidade aos seus usuários, sendo evidente que EMERSON, detentor de profundos conhecimentos de informática, não se valeria desse endereço eletrônico e se identificaria ao mandar a mensagem via e-mail com conteúdo criminoso."


