Al-Ma'arri
Abu al-Ala al-Ma'arri, em árabe: أبو العلاء المعري,(Maarate Anumane, 26 de dezembro de 973 – Maarate Anumane, 9 de maio de 1057), também conhecido por seu nome latino Abulola Moarrensis; filósofo, poeta e escritor árabe de Maarate Anumane, no Emirado de Alepo. As crenças religiosas e a visão filosófica de mundo de al-Ma'arri têm sido objeto de um extenso debate acadêmico, tanto histórico quanto contemporâneo. Embora sua poesia crítica tenha levado detratores e os primeiros estudiosos ocidentais a caracterizá-lo como um deísta, livre-pensador ou um dos “principais ateus” de sua época, essa categorização é amplamente contestada por outros estudiosos e pelos próprios escritos posteriores de al-Ma'arri. Em seu tratado de autodefesa Zajr al-Nabeh, al-Ma'arri afirmou explicitamente sua fé islâmica ortodoxa — incluindo sua crença no Dia do Juízo Final — e buscou refúgio em Deus contra as alegações de que sua poesia seria prova de ateísmo. Nesses textos, ele esclareceu que seus versos não eram uma rejeição ao Islã em si, mas sim críticas severas dirigidas à corrupção dos estudiosos religiosos, às práticas hipócritas e à ignorância teológica de seus contemporâneos.
Abu al-‘Ala’ nasceu em dezembro de 973 em al-Ma'arra (atual Maarate Anumane, Síria), a sudoeste de Alepo, de onde vem o adjetivo que indica o local de origem (“al-Ma'arri”). Em sua época, a cidade fazia parte do Califado Abássida, o terceiro califado islâmico, durante a Idade de ouro islâmica. Ele era membro dos Banu Sulayman, uma notável família de Ma'arra, pertencente à tribo dos tanuquitas, de maior porte. Um de seus ancestrais foi provavelmente o primeiro cádi de Ma'arra. A tribo dos tanuquitas fez parte da aristocracia na Síria por centenas de anos e alguns membros dos Banu Sulayman também eram conhecidos como ótimos poetas. Ele perdeu a visão aos quatro anos devido à varíola. Mais tarde, em sua vida, ele se considerava “um prisioneiro duplo”, o que se referia tanto à cegueira quanto ao isolamento geral que sentiu durante sua vida. Começou sua carreira como poeta muito cedo, com cerca de 11 ou 12 anos. Foi educado inicialmente em Ma'arra e Alepo, depois em Antioquia e em outras cidades sírias. Entre seus professores em Alepo estavam companheiros do círculo de ibn Khalawayh. Esse gramático e estudioso islâmico morreu em 980 d.C., quando al-Ma'arri ainda era uma criança. Al-Ma'arri, no entanto, lamenta a perda de ibn Khalawayh em termos fortes em um poema de seu Risālat al-Ghufrān. Al-Qifti relata que, quando estava a caminho de Trípoli, al-Ma'arri visitou um monastério cristão perto de Lataquia, onde ouviu debates sobre filosofia helenística que deram origem ao seu secularismo, mas outros historiadores, como ibn al-Adim, negam que ele tenha sido exposto a qualquer teologia que não fosse a doutrina islâmica.
Oposição à religião
Nos primeiros estudos ocidentais, al-Ma'arri foi frequentemente caracterizado como um cético que denunciava a superstição e o dogmatismo na religião. Essa interpretação específica de sua poesia, juntamente com sua visão geralmente negativa da vida, levou a descrições dele como um livre-pensador pessimista. Ao longo de seus escritos filosóficos, um tema recorrente destacado por esses primeiros críticos é a ideia de que a razão ocupa uma posição privilegiada em relação às tradições, sugerindo que basear-se em preconceitos e normas estabelecidas pela sociedade pode ser limitante. Com base em traduções para o inglês de versos selecionados, orientalistas pioneiros como Reynold A. Nicholson argumentaram que al-Ma'arri via a religião como uma “fábula inventada pelos antigos”, alegando que ele a considerava sem valor, exceto para aqueles que exploram as massas crédulas. Esse ponto de vista histórico é frequentemente ilustrado por traduções encontradas em enciclopédias do início do século XX:
Ascetismo
Al-Ma'arri era um asceta, renunciando aos desejos mundanos e vivendo isolado dos outros enquanto produzia suas obras. Ele se opunha a todas as formas de violência. Em Bagdá, embora fosse bem recebido, decidiu não vender seus textos, o que lhe dificultou a vida. Esse estilo de vida ascético é comparado a pensamentos semelhantes na Índia durante sua época.
Veganismo
Nos últimos anos de vida de al-Ma'arri, ele optou por parar de consumir carne e todos os outros produtos de origem animal (ou seja, tornou-se um vegano praticante). Ele escreveu: Não comam injustamente o que a água renunciou, e não desejem como alimento a carne de animais abatidos,Ou o (leite) branco de mães que destinavam seu puro gole para seus filhotes, não para nobres damas.E não aflijam os pássaros desavisados roubando-lhes os ovos; pois a injustiça é o pior dos crimes.E poupai o mel que as abelhas obtêm prontamente, com sua laboriosidade, das flores de plantas perfumadas;Pois elas não o armazenaram para que pertencesse a outros, nem o coletaram para generosidade e presentes.Lavei minhas mãos de tudo isso; e gostaria de ter percebido meu caminho antes que minhas têmporas ficassem grisalhas!
Antinatalismo
O pessimismo fundamental de al-Ma'arri se expressa em sua recomendação antinatalista de que nenhuma criança deveria ser gerada, para poupá-las das dores da vida. Em uma elegia composta por ele sobre a perda de um parente, ele combina sua dor com observações sobre a efemeridade desta vida: Amoleça seus passos. Parece-me que a superfície da terra não passa de corpos de mortos, Ande lentamente no ar, para não pisar nos restos mortais dos servos de Deus. O epitáfio autocomposto por al-Ma'arri, em seu túmulo, afirma (em relação à vida e ao nascimento): “Este é o crime de meu pai contra mim, que eu mesmo não cometi contra ninguém.”
Al-Ma'arri é controverso até hoje, pois era cético em relação ao islamismo. Em 2013, a Frente al-Nusra, um ramo da al-Qaeda, demoliu uma estátua de al-Ma'arri durante a Guerra Civil Síria. A estátua foi feita em 1944, pelo escultor Fathi Muhammad. O motivo por trás da destruição é contestado; as teorias variam do fato de que ele era um herege ao fato de que alguns acreditam que ele seja parente da família al-Assad.
Uma das primeiras coleções de seus poemas apareceu como The Tinder Spark (Saqṭ az-Zand; سقط الزند). A coleção de poemas incluía elogios ao povo de Alepo e ao governante hamadânida Sade Adaulá. Ganhou popularidade e estabeleceu sua reputação como poeta. Alguns poemas da coleção eram sobre armaduras. Uma segunda coleção, mais original, apareceu sob o título Necessidade Desnecessária (Luzūm mā lam yalzam لزوم ما لا يلزم) ou simplesmente Necessidades (Luzūmīyāt اللزوميات). O título refere-se a como al-Ma'arri via a questão da vida e alude à complexidade desnecessária do esquema de rima usado. Sua terceira obra é uma trabalho em prosa conhecida como A Epístola do Perdão (Risalat al-Ghufran رسالة الغفران). A obra foi escrita como uma resposta direta ao poeta árabe ibn al-Qarih, de quem al-Ma'arri zomba por suas visões religiosas. Nesta obra, o poeta visita o paraíso e conhece os poetas árabes do período pagão. Essa visão é compartilhada por estudiosos islâmicos, que frequentemente argumentam que os árabes pré-islâmicos são de fato capazes de entrar no paraíso.


