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Alandalus

Alandalus, também chamado de Al-Ândalus e Al-Andalus, foi o conjunto de territórios da Península Ibérica que estiveram sob domínio político islâmico entre os séculos VIII e XV, com extensão geográfica variável ao longo do tempo. O termo passou a ser utilizado após a conquista omíada iniciada em 711 e permaneceu em uso mesmo durante os períodos de fragmentação política, sempre em referência às regiões governadas por muçulmanos.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 08/07/2026
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Etimologia

A origem do topônimo Alandalus permanece objeto de debate historiográfico. O mais antigo testemunho material conhecido do termo data de 716–717, em um dinar bilíngue cunhado durante o governo omíada na Península Ibérica, no qual a designação latina Espânia (Span(ia)) corresponde ao termo árabe Alandalus. A moeda encontra-se atualmente no Museu Arqueológico Nacional de Madrid. Apesar da documentação numismática precoce, as fontes árabes medievais não oferecem uma explicação explícita para a origem do nome, o que levou à formulação de diversas hipóteses modernas, nenhuma das quais alcançou consenso definitivo.

Hipótese vândala

Uma das interpretações mais antigas foi proposta no século XIX por Reinhardt Dozy, segundo a qual Alandalus derivaria de Vandalícia, nome que, segundo o autor, teria sido atribuído à Bética romana após o assentamento dos Vândalos na região entre 409 e 429. Essa hipótese foi posteriormente aceita por alguns estudiosos, como Évariste Lévi-Provençal. Contudo, não existem evidências documentais contemporâneas que comprovem o uso do termo Vandalicia para designar a Bética, razão pela qual essa interpretação é hoje amplamente rejeitada pela historiografia especializada.

Hipótese visigoda

Outra explicação foi formulada por Heinz Halm, que propôs que Alandalus seria uma arabização indireta de conceitos jurídicos e territoriais visigodos. Segundo essa interpretação, o termo derivaria de Gothica sors, expressão latina associada à divisão fundiária do Reino Visigótico, cuja forma equivalente na língua gótica seria landa-hlauts (“lote de terra”), posteriormente adaptada ao árabe. Embora linguisticamente engenhosa, essa hipótese também não encontrou confirmação documental suficiente e permanece controversa.

Hipótese atlântica

Uma interpretação alternativa foi sugerida por Joaquín Vallvé Bermejo, que relacionou o termo Alandalus à tradição clássica da Atlântida, descrita por Platão. Segundo essa leitura, a expressão árabe Jazirate Alandalus (“ilha de Alandalus”), presente em algumas fontes medievais, refletiria uma tradução ou adaptação da noção de “ilha do Atlântico”. Essa hipótese, no entanto, é considerada especulativa e carece de aceitação entre os especialistas contemporâneos. De modo geral, a historiografia recente tende a considerar a etimologia de Alandalus como incerta, ressaltando a ausência de provas textuais conclusivas para qualquer uma das teorias propostas.

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História política

Distinguem-se os seguintes períodos na história política do Alandalus: Perante o avanço cristão sobre o sul da Península Ibérica no século XIII, o rei Maomé I de Xaém, optou por declarar-se vassalo do rei de Castela e ajudou-o na luta contra outros muçulmanos. Fixando-se em Granada, inicia a dinastia dos nacéridas, que seria o último reduto do poder islâmico na Península durante os dois séculos e meio seguintes. Os sultões nacéridas oscilaram entre a subserviência aos castelhanos e aos Merínidas do norte de África. Granada tornou-se um importante centro urbano, recebendo muçulmanos refugiados de outros pontos da Península. Um dos grandes legados arquitectónicos desta dinastia foi a construção do palácio da Alhambra. Em janeiro de 1492 o último rei nacérida, Abu Abedalá (Boabdil), capitulou perante os Reis Católicos, Fernando e Isabel. No ano seguinte o reino de Granada seria integrado na Espanha. As famílias muçulmanas de posição social mais elevada deixaram a Península, fixando residência no norte de África. Os muçulmanos que permaneceram foram obrigados em 1502 a converter-se ao cristianismo ou então teriam de abandonar o país. Por sua vez, os muçulmanos que se tinham convertido à fé cristã (os mouriscos) foram acusados de seguir o islão secretamente, tendo sido expulsos da Espanha entre 1609 e 1614.

O Domínio Omíada

Desde os finais do século VII que os árabes atacavam as costas do sul da Península Ibérica. O conde D. Julião, governador visigodo de Ceuta, convida os muçulmanos a desembarcar na Península, como forma de retaliação pelo facto da sua filha ter sido raptada pelo rei visigótico Rodrigo (r. 710–711). Em julho de 710 o conde proporciona quatro barcas para que os muçulmanos desembarquem em Tarifa, num acto que serviria para a exploração do terreno. Em abril ou maio de 711, Tárique, um antigo escravo que se tinha tornado lugar-tenente do governador da Ifríquia (uma província do Califado Omíada, que corresponde à Tunísia), Muça ibne Noçáir, atravessa o estreito que separa a África da Península Ibérica, e que a partir de então receberia o seu nome (Gibraltar, de Jabal al Tariq, "a montanha de Tárique"), com um exército constituído por árabes e berberes.

Emirado de Córdova

A queda dos Omíadas em Damasco e a tomada do poder pelos Abássidas em 750 teriam repercussões políticas no Alandalus. O único sobrevivente do massacre da família omíada, o príncipe Abderramão I, chega à Península em 756 e instala-se em Córdova, onde toma o título de emir, declarando-se independente do califado dos Abássidas, dando início a uma dinastia que governa o Alandalus até 1031. Abderramão I teve que lidar com as ambições territoriais do franco Carlos Magno, cujo exército, ao deixar a Península em 778, acabaria por sofrer um ataque dos bascos na região dos Pirenéus, episódio imortalizado e La chanson de Roland. O emirado de Córdova seria um importante centro cultural, que manteve relações diplomáticas com os reinos cristãos, até mesmo com o Império Bizantino.

Califado de Córdova

Em 929 o emir Abderramão III declarou-se califa, título que lhe conferia independência não só política, mas também religiosa em relação aos Abássidas. Esta sua acção foi motivada pelo aparecimento dos fatímidas no Norte de África, que eram seguidores do Islão Xiita, assumindo-se Abderramão como guardião da ortodoxia sunita. Abderramão pacificou o sul e o levante peninsular, onde tinham surgido vários movimentos independentistas. O seu sucessor, Aláqueme II, governou durante um período de paz. O terceiro califa de Córdova, Hixame II, foi eclipsado durante a sua menoridade por Maomé ibne Abi Amir, mais conhecido pelo seu nome das crónicas cristãs - Almançor -, que ocupava o cargo de hájibe ou prefeito do palácio. Almançor (governou entre 978 e 1002) concentra o poder efectivo nas suas mãos, tendo dirigido campanhas periódicas contra os cristãos; em 997 chega mesmo a destruir o santuário de Santiago de Compostela. Para além disso, estabeleceu o domínio do Alandalus na parte ocidental do Magrebe, através do vice-reino de Córdova.

O período das primeiras taifas

Embora a desagregação final do califado de Córdova se tenha verificado em 1031, desde 1009 a situação política caracterizava-se pela instabilidade. Finda a hegemonia da família do primeiro-ministro Almançor, começa a anarquia, provocada pela ambição de vários protagonistas e dá-se a decomposição do califado. O Alandalus acabará retalhado em inúmeras unidades políticas, os reinos de taifas (do árabe al-ta´ifa, "partido" ou "bandeira"). Os reinos de taifas eram unidades políticas que partilhavam uma afinidade de origem étnica. Muitos deles tiveram uma existência efémera. Os berberes estabeleceram reinos no centro e sul da Península e os eslavos na costa leste. As taifas com maior extensão territorial eram as que faziam fronteira com os reinos cristãos (as de Badajoz, Toledo e Saragoça), encontrando-se as mais pequenas no sul.

Período almorávida

Perante a conquista cristã da cidade de Toledo em 1085, Almutâmide, rei abádida da taifa de Sevilha, pede ajuda aos Almorávidas, uma dinastia berbere que governava o norte de África. Em 1086, o emir almorávida Iúçufe ibne Taxufine derrota os cristãos na Batalha de Zalaca. Para além do combate aos cristãos, os Almorávidas acabariam por subjugar os reinos de taifas entre 1090 e 1110 e integrar o Alandalus no seu império norte-africano. As origens da dinastia dos Almorávidas encontram-se nos lantunas, uma tribo dos Berberes sanajas que viviam de forma nómada no Sara Ocidental (entre o sul do atual Marrocos e as margens do rio Senegal) e que se tinha convertido ao Islão (embora superficialmente) no século IX. No primeiro quarto do século XI, o pregador Abedalá ibne Iacine tentou impor aos lantunas uma forma do Islão rigorista, baseada na estrita observância da escola malequita. Perante a rejeição destes Berberes, Iacine retirou-se com alguns adeptos para um arrábita, um mosteiro militar situado numa ilha perto da costa da Mauritânia, de onde deriva o nome Almorávida (do árabe al-murabit, “guarda de fronteira”, “eremita”). Após a morte de Iacine, emerge como líder Iúçufe ibne Taxufine, verdadeiro fundador da dinastia. Com os seus guerreiros, Iúçufe lança-se à conquista das regiões correspondentes aos atuais Marrocos e a Argélia ocidental, tomando Fez em 1063 e fundando a cidade de Marraquexe por volta de 1069.

Período almóada

O poder almorávida no norte de África seria substituído por uma nova dinastia berbere, a dos Almóadas. Maomé ibne Tumarte, um berbere que estudou em Córdova e no Médio Oriente antes de regressar ao norte de África, iniciou um movimento religioso que pretendia um retorno ao um Islão mais "puro" e contestou o poder do almorávidas junto das tribos berberes. Depois da sua morte, este movimento teve como líder Abde Almumine (1130–1163), um dos seguidores de Tumarte, que seria o primeiro califa almóada. Em 1145, Almumine enviou um exército à Península Ibérica e após algumas batalhas o Califado Almóada conquistou o Alandalus. A única excepção foi as ilhas Baleares, onde se refugiaram os descendentes do último governador almorávida, os Banu Gania, que conservaram a independência até 1203.

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Sociedade e demografia. Aspectos da vida quotidiana

A população do Alandalus era muito heterogénea e constituída por árabes e berberes (uns e outros muçulmanos), moçárabes (são os hispano-godos que, sob o domínio muçulmano conservaram a religião cristã de rito-moçárabe, mas adoptaram as formas de vida exterior dos muçulmanos), e judeus. Para além destes, existia outro grupo, os muladis, que eram os cristãos que se tinham convertido ao islamismo. Os moçárabes e os judeus tinham liberdade de culto, mas em troca dessa liberdade eram obrigados ao pagamento de dois tributos: o imposto pessoal de capitação (gizia), e o imposto predial sobre o rendimento das terras (carage). Estes dois grupos tinham autoridades próprias, gozavam de liberdade de circulação e podiam ser julgados de acordo com o seu direito. Moçárabes e judeus estavam sujeitos às seguintes restrições: As cidades de Toledo, Mérida, Valência e Lisboa eram importantes centros moçárabes da Península. Em Toledo os moçárabes chegaram a encabeçar uma revolta contra o domínio árabe.

Religiões e convivência

Quando os muçulmanos chegaram à Península Ibérica, a população local era predominantemente cristã, embora o paganismo e o arianismo ainda persistissem em algumas regiões. O historiador americano Richard Bulliet, em um trabalho baseado no uso quantitativo dos dados onomásticos, fornecido por dicionários biográficos acadêmicos, concluiu que foi apenas no século X, quando o emirado andaluz estava firmemente estabelecido e se tornou o maior poder do Mediterrâneo ocidental, sob o Califa Abderramão III, que os muçulmanos se tornaram uma maioria na Ibéria. Antes de meados deste século, ele afirma, a população do Alandalus ainda era metade cristã. A maioria dos muçulmanos da Península Ibérica, chamados de mouros, não eram imigrantes do Norte da África ou árabes, mas descendentes de ibéricos convertidos ao islamismo, os chamados muladis. A conversão ao islamismo apresentava vantagens: muitos cristãos se converteram ao islã para evitar ter de pagar a jizia, um imposto que era cobrado dos não muçulmanos. A conversão ao islão também abria novos horizontes aos cristãos nativos, aumentava sua posição social, assegurava melhores condições de vida e ampliava as chances de ter trabalhos tecnicamente mais qualificados e avançados.

Mulheres

Como em tantas outras sociedades patriarcais, muçulmanas ou não, a vida das mulheres no Alandalus era definida por fatores sociais e econômicos, mas principalmente por seu gênero. Havia normas que regulavam o contato entre homens e mulheres. Quando o assunto é espaço urbano, sabe-se que elas deveriam permanecer nos ambientes familiares e privados e só poderiam sair caso cumprissem alguns requisitos. Mas isso não quer dizer que as cidades do Alandalus fossem vazias de mulheres, com todas elas recolhidas em suas casas. Locais como cemitérios, mercados e banhos eram frequentados por parte delas, além das mesquitas e outros lugares de devoção. Aquelas pertencentes às famílias mais ricas eram as que menos tinham contato com o “mundo exterior”, pois a crença era de que deveriam proteger sua honra dos perigos exteriores – e a honra de uma mulher era a de toda a sua família. Fora do espaço doméstico os nomes próprios das mulheres eram ignorados; eram designadas exclusivamente como “mães de” ou “filhas de” determinado homem. Por consequência, elas deveriam se relacionar abertamente apenas com os homens da família, e para isso foram estabelecidas várias normas dentro da legislação islâmica. O caso das criadas e escravas era um pouco diferente, dada a sua condição servil. A proteção de sua honra não requeria as mesmas precauções que as mulheres ricas precisavam tomar; desta maneira, estavam um pouco mais livres para ir e vir dentro do espaço urbano. Portanto, o acesso das mulheres aos mais variados lugares também dependia de sua situação social.

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Economia

A chegada da civilização islâmica à Península Ibérica provocaria importantes transformações económicas. De uma economia essencialmente rural passou-se para uma economia marcadamente urbana. Um dos locais mais importantes da cidade muçulmana é o soco ou mercado. Os mercados conheceriam um renascimento na Península durante o período islâmico. Neles realizava-se o comércio de produtos diversos, principalmente dos produtos de metal e de outros produtos do artesanato. As oficinas e tendas do Alandalus, onde se produziam esses trabalhos, eram propriedade do Estado. Os principais produtos do comércio eram as sedas, o algodão, os tecidos de lã. Alguns artigos de luxo produzidos no Alandalus seriam exportados para a Europa cristã, para o Magrebe e mesmo para o Oriente. A nível da agricultura, nas zonas secas do Alandalus surgiria o cultivo do trigo e da cevada. Semeiam-se também ervilhas, favas e grãos, que eram a base da alimentação da população. Em períodos durante os quais a produção de cereais era baixa recorria-se à importação de cereais do norte de África. Foi durante este período que o cultivo do arroz foi introduzido na Península Ibérica, bem como da berinjela, da alcachofra e da cana-de-açúcar.

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O legado artístico e arquitectónico

De notar que o legado artístico e arquitectónico islâmico em Portugal limita-se a ruínas ou fortificações desse período, muitas delas posteriormente alteradas, e certos traços artísticos encontrados nos azulejos ou a arquitectura tradicional do Algarve. A civilização de Alandalus deixou na Espanha, especialmente no sudeste; um vasto e único legado cultural, artístico e arquitectónico. As primeiras manifestações artísticas e arquitectónicas islâmicas no Alandalus continuam as tradições do período hispano-godo e fundem-nas com as tradições bizantinas e persas trazidas do Oriente. A presença visigoda pode ser vista, por exemplo, no uso do arco em ferradura, que contudo apresenta-se mais fechado. Os materiais de construção mais comuns foram a pedra e o tijolo e os elementos decorativos adoptados foram os geométricos, vegetais e epigráficos. Um dos monumentos mais representativos da civilização islâmica peninsular é a Grande Mesquita de Córdova. Este edifício começou a ser construído em 786, durante o reinado de Abderramão I, no local onde se encontrava a basílica visigoda de São Vicente, tendo sido alvo de sucessivas ampliações e modificações até aos finais do século X.

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Ciência

À semelhança do que sucedeu no domínio artístico, os árabes e berberes que se fixaram na Península Ibérica no século VIII começaram por recorrer aos saberes legados pela civilização visigoda. Progressivamente, fruto dos contactos com o Oriente (no contexto, por exemplo, da peregrinação anual a Meca) e do desejo de alguns soberanos do Alandalus em fazerem das suas cortes centros de saber que rivalizassem com as cidades do Médio Oriente, desenvolveu-se no Alandalus uma ciência que apresentou aspectos de originalidade. Abderramão II foi um dos primeiros governantes que se esforçou por converter a sua corte em Córdova num centro de cultura e sabedoria, tendo recrutado com esse objectivo vários sábios do mundo islâmico. Um deles foi Abas ibne Firnas, que embora tivesse sido contratado para ensinar música em Córdova, brevemente se interessou por outros campos do saber, como o voo; ele seria o autor de um aparelho voador feito em madeira, com penas e asas de grandes aves (uma espécie de asa delta). Decidido em testar a sua obra, atirou-se de um ponto alto da cidade de Córdova, e segundo os relatos, conseguiu voar durante algum tempo, mas acabou por despenhar-se, sofrendo alguns ferimentos. Em sua casa, ibne Firnas construiu um planetário, no qual não só se reproduzia o movimento dos planetas, mas também fenómenos como a chuva e a trovoada.

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Fontes consultadas

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