Antinatalismo
Antinatalismo é a posição filosófica que atribui um valor negativo ao nascimento. Antinatalistas argumentam que as pessoas devem se abster de procriar por ser um ato moralmente ruim. Em escritos acadêmicos e literários, vários fundamentos éticos foram apresentados para o antinatalismo. Algumas das primeiras formulações da ideia de que seria melhor não ter nascido vêm da Grécia Antiga. O termo "antinatalismo" está em oposição ao termo "natalismo", e provavelmente foi usado pela primeira vez como o nome dessa posição pelo filósofo belga Théophile de Giraud em seu livro L'art de guillotiner les procréateurs: Manifeste anti-nataliste.
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Marc Larock apresenta uma visão que ele chama de "deprivacionalismo". De acordo com essa visão: (1) Cada pessoa tem interesse em adquirir uma nova preferência satisfeita. (2) Sempre que uma pessoa é privada de uma nova preferência satisfeita, isso viola um interesse e, portanto, causa danos. Larock argumenta que se uma pessoa é privada de um número infinito de novas preferências satisfeitas, ela sofre um número infinito de danos e que tal privação é a morte, à qual a procriação conduz. Todos nós somos trazidos à existência, sem o nosso consentimento, e ao longo de nossas vidas, nos familiarizamos com uma infinidade de bens. Infelizmente, há um limite para a quantidade de bem que cada um de nós terá em nossas vidas. Eventualmente, cada um de nós morrerá e seremos permanentemente excluídos da perspectiva de qualquer bem adicional. A existência, vista desta maneira, parece ser uma piada cruel.
Na religião
O ensinamento de Buda, entre as outras Quatro Nobres Verdades e o começo de Mahāvagga, é interpretado por Hari Singh Gour da seguinte maneira:.mw-parser-output .flexquote{display:flex;flex-direction:column;background-color:#F1F1F1;border-left:3px solid #C7C7C7;font-size:100%;margin:1em 4em;padding:.4em .8em}.mw-parser-output .flexquote>.flex{display:flex;flex-direction:row}.mw-parser-output .flexquote>.flex>.quote{width:100%}.mw-parser-output .flexquote>.flex>.separator{border-left:1px solid #C7C7C7;border-top:1px solid #C7C7C7;margin:.4em .8em}.mw-parser-output .flexquote>.cite{text-align:right}@media all and (max-width:600px){.mw-parser-output .flexquote>.flex{flex-direction:column}}@media screen{html.skin-theme-clientpref-night .mw-parser-output .flexquote{background-color:transparent}}@media screen and (prefers-color-scheme:dark){html.skin-theme-clientpref-os .mw-parser-output .flexquote{background-color:transparent}}
Teodiceia e antropodiceia
Julio Cabrera considera a questão de ser um criador em relação à teodiceia e argumenta que assim como é impossível defender a ideia de um bom Deus como criador, também é impossível defender a ideia de um bom homem como criador. Na paternidade, o pai humano imita o pai divino, no sentido de que a educação pode ser entendida como uma forma de busca de "salvação", o "caminho correto" para um filho. Porém, um ser humano poderia decidir por não sofrer de maneira alguma do que sofrer e posteriormente ser oferecido a possibilidade de salvação do sofrimento. Na opinião de Cabrera, o mal não é associado com a ausência de ser, mas com o sofrimento e morte daqueles que estão vivos. Portanto, pelo contrário, o mal é apenas e obviamente associado com o ser.
Peter Wessel Zapffe
Peter Wessel Zapffe via os humanos como um paradoxo biológico. De acordo com ele, a consciência tornou-se excessivamente evoluída nos seres humanos, tornando-nos incapazes de funcionar normalmente como os outros animais: a cognição nos dá mais do que podemos carregar. Nossa fragilidade e insignificância no cosmos são visíveis para nós. Queremos viver, porém por causa de como evoluímos, somos a única espécie cujos membros estão conscientes de que estão destinados a morrer. Somos capazes de analisar o passado e o futuro, tanto a nossa situação como a de outros, bem como imaginar o sofrimento de bilhões de pessoas (além de outros seres vivos), e sentir compaixão para com seu sofrimento. Nós ansiamos por justiça e significado em um mundo que carece de ambos. Isso garante que a vida dos indivíduos conscientes seja trágica. Temos desejos: necessidades espirituais que a realidade é incapaz de satisfazer, e nossa espécie ainda existe apenas porque limitamos a nossa consciência do que essa realidade realmente implica. A existência humana equivale a uma rede emaranhada de mecanismos de defesa, que podem ser observados individualmente e socialmente, em nossos padrões de comportamento diários. De acordo com Zapffe, a humanidade deve cessar esse auto-engano, e a consequência natural seria a sua extinção ao abster-se da procriação.
Ética negativa
Julio Cabrera propõe um conceito de "ética negativa" em oposição ao que ele vê como éticas "afirmativas", que afirmam o ser. Ele descreve a procriação como um ato manipulador e prejudicial, que envia de forma unilateral e não-consensual um ser humano para uma situação dolorosa, perigosa e moralmente inabilitante. Cabrera considera a procriação uma manipulação ontológica e total: o próprio ser de alguém é fabricado e usado, e portanto, em contraste com casos intra-mundanos em que se é colocado em uma situação danosa, no caso da procriação não há qualquer possibilidade de defesa contra esse ato. Segundo Cabrera, a manipulação na procriação é visível principalmente no caráter não-consensual e unilateral do ato, de maneira que procriar é per se e inevitavelmente assimétrico, seja produto de premeditação, seja produto de descuido; está sempre atrelado a interesses (ou desinteresses) de outros humanos, não do humano criado. Ele enfatiza que, embora não seja possível evitar a manipulação durante a procriação, é perfeitamente possível evitar a procriação em si, e que, então, nenhuma regra moral é violada.
Imperativo kantiano
Julio Cabrera, David Benatar, e Karim Akerma argumentam que a procriação é contrária ao imperativo prático de Immanuel Kant (de acordo com Kant, um homem nunca deve ser usado como um meio para um fim, mas sempre como um fim em si mesmo). Eles argumentam que uma pessoa pode ser criada para o bem de seus pais ou de outras pessoas, mas que é impossível criar alguém pelo seu próprio bem; e que portanto, seguindo a recomendação de Kant, nós não devemos criar novas pessoas. Heiko Puls argumenta que as considerações de Kant em relação a deveres parentais e procriação humana em geral implicam argumentos para um antinatalismo eticamente justificado. Kant, porém, de acordo com Puls, rejeita essa posição em sua teleologia por razões meta-éticas.
Impossibilidade de consentimento
Seana Shiffrin, Gerald Harrison, Julia Tanner e Asheel Singh argumentam que a procriação é moralmente problemática por causa da impossibilidade de obter o consentimento do humano que será trazido à existência. Shiffrin lista quatro fatores que, em sua opinião, justificam o consentimento hipotético da procriação como um problema: (1) não há risco de grandes danos se a ação não for tomada; (2) se a ação for tomada, os danos sofridos pela pessoa criada podem ser muito severos; (3) uma pessoa não pode escapar da condição imposta sem um custo muito alto (o suicídio é muitas vezes uma opção fisicamente, emocionalmente e moralmente excruciante); (4) o procedimento de consentimento hipotético não se baseia nos valores da pessoa que irá suportar a condição imposta.
Alguns antinatalistas acreditam que a maioria das pessoas não avalia a realidade de maneira precisa, o que afeta o desejo de ter filhos. Petter Wessel Zapffe identifica quatro mecanismos repressivos que usamos, de maneira consciente ou não, para restringir a nossa consciência da vida e do mundo. De acordo com Zapffe, desordens depressivas são frequentemente "mensagens de uma percepção mais profunda e imediata da vida, frutos amargos de uma genialidade do pensamento". Alguns estudos parecem confirmar isso: fala-se sobre o fenômeno do realismo depressivo, e Colin Feltham, assim como John Pollard, escrevem sobre o antinatalismo como uma de suas possíveis consequências. David Benatar, citando numerosos estudos, enumera três fenômenos descritos por psicólogos, que, segundo ele, são responsáveis por tornar as nossas auto-avaliações sobre a qualidade de nossas vidas não confiáveis: Os fenômenos psicológicos acima não são surpreendentes a partir de uma perspectiva evolutiva. Eles militam contra o suicídio e são a favor da reprodução. Se as nossas vidas são tão ruins quanto eu ainda sugiro que elas sejam, e se as pessoas estivessem propensas a ver essa verdadeira qualidade de suas vidas pelo que ela é, elas poderiam estar muito mais inclinadas a se matar, ou pelo menos a não produzir mais tais vidas. O pessimismo, então, tende a não ser selecionado naturalmente.
O antinatalismo pode levar a uma posição específica sobre a moralidade do aborto. De acordo com Benatar, uma pessoa começa a existir – não como um organismo no sentido biológico, mas como um ser no sentido ético (como entidade com interesses morais importantes) – quando surge a consciência, quando um feto é senciente, e até aquele ponto, um aborto é moral, enquanto a gravidez contínua seria imoral. Benatar refere-se a estudos cerebrais EEG e estudos sobre a percepção da dor do feto, que afirma que a consciência fetal não ocorre antes de vinte e oito semanas de gravidez, antes da qual é incapaz de sentir dor. Contrariamente a isso, o último relatório da Royal College of Obstetricians and Gynaecologists mostrou que o feto ganha consciência nunca antes da vigésima quarta semana da gravidez. Alguns pressupostos deste relatório sobre a senciência do feto após o segundo trimestre foram criticados. De maneira semelhante argumenta Karim Akerma. Ele distingue entre organismos que não possuem propriedades mentais e seres vivos que possuem propriedades mentais. Segundo seu ponto de vista, que ele chama de visão mentalista, um ser vivo começa a existir quando um organismo (ou outra entidade) produz uma forma simples de consciência pela primeira vez.
Alguns antinatalistas reconhecem a procriação de outros animais sencientes como moralmente ruim, e a esterilização como moralmente boa no caso deles. Karim Akerma define o antinatalismo, que inclui outros animais sencientes, como antinatalismo universal e ele mesmo assume tal posição: Ao esterilizar os animais, podemos libertá-los de ser escravos de seus instintos e de trazer mais e mais animais cativos para o ciclo de nascer, contrair parasitas, envelhecer, adoecer e morrer; devorar e ser devorado. David Benatar enfatiza que sua assimetria se aplica a todos os seres sencientes e menciona que os humanos desempenham um papel na decisão de quantos animais haverá: os humanos criam outras espécies de animais e são capazes de esterilizar outras espécies de animais. Magnus Vinding argumenta que a vida dos animais selvagens em seu ambiente natural é geralmente muito ruim. Ele chama atenção para fenômenos como morrer antes da idade adulta, fome, doenças, parasitas, infanticídio, predação, e ser comido vivo. Ele cita pesquisas sobre como a vida animal é na natureza. Um a cada oito filhotes machos de leão sobrevive até a idade adulta. Outros morrem como resultado de fome, doença e muitas vezes são vítimas dos dentes e garras de outros leões. Atingir a idade adulta é muito mais raro para os peixes. Apenas um a cada cem salmões chinook masculinos sobrevivem até a idade adulta. Vinding acredita que, se as vidas humanas e a sobrevivência das crianças humanas fossem assim, os valores humanos atuais não permitiriam a procriação; no entanto, isso não é possível quando se trata de animais não humanos, que são guiados pelo instinto. Ele considera que, mesmo que alguém não concorde que a procriação é sempre moralmente má, deve-se reconhecer a procriação na vida selvagem como algo moralmente mau e algo que deveria ser evitado (pelo menos em teoria, não necessariamente na prática). Ele sustenta que a não intervenção não pode ser defendida se rejeitarmos o especismo, e que devemos rejeitar o dogma injustificável que afirma que o que está acontecendo na natureza é o que deveria estar acontecendo na natureza.
Thomas Metzinger e Sander Beckers argumentam contra a tentativa de criar inteligências artificiais, pois isto poderia aumentar significativamente a quantidade de sofrimento no universo. A evolução não é algo a ser glorificado. Uma maneira — além de inumeráveis outras — de enxergar a evolução biológica em nosso planeta é como um processo que criou um oceano de sofrimento e confusão crescentes que previamente inexistiam. Como não apenas o simples número de indivíduos conscientes, mas também a dimensionalidade de seus espaços de estados fenomenais está aumentando continuamente, este oceano também está se aprofundando. Para mim, este também é um forte argumento contra a criação de uma consciência artificial: Não devemos intensificar este terrível alvoroço antes de termos compreendido verdadeiramente o que de fato está acontecendo aqui.


