Batalha de Ajenadaim
A Batalha de Ajenadaim ou Ajenadeim foi travada em 30 de julho de 634 no vale de Elá, a sul da cidade atual de Bete-Semes, Israel, a um par de dezenas de quilómetros a ocidente de Jerusalém, foi a primeira batalha formal em campo aberto entre o Império Bizantino e o Califado Ortodoxo e por isso também a primeira batalha das guerras bizantino-árabes, que durariam mais de cinco séculos. A batalha resultou numa vitória decisiva dos muçulmanos. Os detalhes da batalha são conhecidos principalmente através de fontes muçulmanas, como Uaquidi.
Depois da conquista muçulmana da cidade de Bostra, a capital do Reino Gassânida, um espião do comandante muçulmano Xurabil ibne Haçana vindo de Ajenadaim informou que brevemente ali haveria uma grande concentração de tropas bizantinas em Ajenadaim. Nessa altura, Iázide ibne Abi Sufiane ainda se encontrava a sul do rio Jarmuque, Anre ibne Alas estava no vale de Arava, e vários destacamentos dos exércitos de Abu Ubaida e Xurabil estavam espalhados pela região de Haurã. Calide ibne Alualide, comandante em chefe do exército Ortodoxo, escreveu a todos os comandantes para se dirigirem imediatamente para Ajenadaim e ali se concentrarem. Esta decisão revelar-se-ia correta, pois com um grande exército bizantino a postos nessa em Ajenadaim, os muçulmanos os muçulmanos teriam ficados presos aos territórios onde se encontravam, que por si só não tinham grande importância estratégica. Por sua vez, os Bizantinos ainda pensavam estar a lidar com bandidos árabes locais, e não com uma força militar organizada, pelo que prepararam a defesa apenas com tropas locais. Para os Árabes, esta ameaça clara, orquestrada pelo imperador bizantino Heráclio, tinha que ser derrotada se queriam prosseguir a invasão da Síria.
Antes do início da batalha ambos os exércitos formaram e linhas extensas, tendo os seus acampamentos na retaguarda. Os muçulmanos, e muito provavelmente também os Bizantinos, estavam divididos em três divisões, com uma guarda de flanco em cada uma das alas. Muadá ibne Jabal comandava o centro muçulmano; Saíde ibne Anre a ala esquerda; e Abderramão ibne Abacar, filho do califa Abacar, a ala direita. Xurabil comandava a guarda vital do flanco esquerdo; desconhece-se o nome do comandante da guarda do flanco direito. Atrás do centro, protegendo o acampamento muçulmano, encontrava-se uma reserva comandada por Iázide. Foi ordenado aos arqueiros muçulmanos que disparassem fogo de barragem controlado em vez de atirar contra alvos individuais. Calide, Anre e outros comandantes seniores e "campeões" integravam a formação central. As mulheres muçulmanas foram instruídas para defenderem o acampamento caso fosse necessário.
Primeiro dia
Antes da batalha começar, os comandantes de ambos os exércitos fizeram discursos para levantar o moral dos seus soldados enquanto eram feitas as revistas de tropas. Um bispo cristão tentou, em vão, negociar a retirada dos Árabes. Calide retorquiu oferecendo a conversão ao Islão, o pagamento da jizia (taxa) ou o combate. Darar ibne Alazuar, um ex-cobrador de impostos que se tinha tornado um guerreiro de renome, fez o levantamento das posições romanas e matou aqueles que tentaram capturá-lo. Darar iria desempenhar um papel importante na batalha. Os Bizantinos começaram por atacar com a cavalaria ligeira de escaramuças, com fundibulários e arqueiros atirando sobre o exército muçulmano, aparentemente para tentar romper a coesão e baixar o moral. Mas os muçulmanos mantiveram-se nos seus postos firmemente e, conforme as ordens, não responderam ao fogo inimigo. Os atiradores bizantinos estavam fora do alcance dos arqueiros muçulmanos. Esta fase da batalha foi desfavorável aos muçulmanos, que muitas baixas, várias delas mortais. Calide decidiu então entrar em combate os campeões individuais contra os campeões do inimigo. Nestes duelos, os muçulmanos teriam vantagem, além de que era útil eliminar tantos oficiais bizantino que fosse possível, pois isso reduziria significativamente a eficácia do exército bizantino. O primeiro campeão muçulmano a entrar em ação foi Darar ibne Alazuar. Este era conhecido popularmente como "o guerreiro meio nu" por causa do seu hábito de combater sem camisa nem armadura, mas desta vez ele avançou com uma armadura completa e um escudo de pele de elefante que tinha tirado a um soldado morto, para se proteger dos projéteis. Darar desafiou vários campeões muçulmanos.
Segundo dia
O comandante bizantino Teodoro planeou assassinar Calide e montou uma emboscada, mas esta falhou devido à intervenção da unidade de Darar. Teodoro desafiou Calide para um duelo e, sem desembainhar a sua espada, saltou sobre ele prendendo-o, ao mesmo tempo que gritava para que dez Bizantinos viessem ajudá-lo. Estes correram para ele. No entanto, quando se aproximaram, Teodoro notou que o líder destes "Romanos" estava em tronco nu — afinal era Darar que tinha vestido roupa e armaduras bizantinas e posteriormente as tinha despido, voltando ao seu traje normal em tronco nu. Teodoro foi morto pelo "temível Darar". Com os Bizantinos sem comandante e a confusão que se seguiu à emboscada fracassada, os muçulmanos viram uma oportunidade para atacar. Fizeram-no prontamente, iniciando um combate brutal e impiedoso. Para acabar com as longas horas de carnificina, Calide mandou entrar em combate as suas últimas reservas sob o comando de Iázide (que estavam de guarda ao acampamento). A linha bizantina finalmente colapsou sob o peso deste ataque final.
Depois da batalha de Ajenadaim, o exército Ortodoxo conquistou toda a Palestina e grande parte da Síria, incluindo Damasco (depois de dois cercos). Todavia, o imperador percebeu que os ataques árabes eram mais do que simples raides, e eram, em vez disso, ações coordenadas para conquistar territórios. Ao saber da derrota, Heráclio abandonou Emesa, onde se encontrava, e fugiu para Antioquia. Na primavera de 636, os Bizantinos enviaram um exército imperial contra os Árabes, deixando de confiar nas forças locais para lidar com o problema. Reconhecendo o alto preço da vitória em Ajenadaim contra uma força militar muito mais pequena do que o exército que agora marchava contra ele, Calide retirou todas as tropas muçulmanas para sul. Perseguido arduamente pelos Bizantinos, Calide deteve o seu avanço no rio Jarmuque, onde finalmente enfrentou o inimigo em batalha. Na batalha de Jarmuque, Calide ibne Alualide comandou novamente o exército Ortodoxo vitoriosamente contra os Bizantinos, desta vez comandados por Teodoro Tritírio e Vaanes. A vitória em Jarmuque abriu definitivamente o caminho para a conquista total da Palestina e Síria. Esta última tornar-se-ia em breve o centro da civilização islâmica.


