Afro-brasileiros
Afro-brasileiros, negros, pretos ou afrodescendentes são os termos usualmente adotados para designar a parcela da população brasileira descendente dos povos nativos da África subsaariana.
Atualmente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) utiliza cinco categorias de cor ou raça no censo brasileiro: branca, parda, preta, amarela (asiático oriental) e indígena. No censo de 1940, todos os indivíduos que não identificaram como "branco", "preto" ou "amarelo", foram posteriormente agrupadas na categoria pardo. Assim, essa categoria não incluía apenas os que se identificavam como pardo, mas também aqueles que se autodeclaram como moreno, mulato, caboclo, indígena, etc. Nos censos seguintes, pardo foi formalizado como uma categoria própria, enquanto os povos indígenas ganharam uma categoria separada somente em 1991. No censo do IBGE de 2010, 7,6% dos brasileiros identificaram sua cor ou raça como preta, 43,1% como parda e 47,7% como branca. Esses dados, contudo, devem ser analisados com cautela, haja vista a histórica tendência ao branqueamento que se observa nas classificações raciais no país. Ativistas e estudiosos associados ao Movimento Negro argumentam que a inclusão da categoria pardo no censo distorce a representação demográfica do Brasil. Eles sustentam que o privilégio ideológico pela branquitude na sociedade brasileira leva muitos brasileiros a ‘negar sua negritude’ e ‘se clarear’ no censo ao escolher a categoria pardo. Muitos atores do Movimento Negro preferem o termo negro, definindo-o como a soma dos indivíduos que se classificam como pardo e preto no censo. Muitos estudiosos e cientistas sociais também combinam as categorias pardo e preto em seus estudos, usando termos como afro-descendente, afro-brasileiro ou negro. Em 2010, o Congresso brasileiro aprovou o Estatuto da Igualdade Racial. A lei adota o termo racial negro, definido-o como a soma de pretos e pardos. Embora evidências sugiram que pretos e pardos tenham perfis socioeconômicos e indicadores de bem-estar material semelhantes em comparação com os brancos, alguns pesquisadores observam que é problemático agrupar pretos e pardos em uma categoria coletiva de negros, pois parte dos brasileiros que se identificam como pardos não têm ascendência africana. Segundo uma pesquisa de 2000 realizada no Rio de Janeiro, toda a população autoidentificada como preta afirmou ter ascendência africana. 86% dos autoidentificados como pardos relataram ter ancestrais africanos, mas é notável que 14% dos pardos do Rio de Janeiro disseram não ter ancestrais africanos. Esse percentual é ainda maior no Norte do Brasil, onde houve uma maior contribuição genética dos povos indígenas. O sociólogo Demétrio Magnoli considera que classificar todos os pretos e pardos como negros é um ataque à visão racial dos brasileiros. O sociólogo Simon Schwartzman aponta que substituir negro por preto e suprimir a alternativa pardo significaria impor ao Brasil uma visão da questão racial como uma dicotomia, semelhante à dos Estados Unidos, que não seria verdadeira.
A escravidão no mundo
Segundo o historiador Orlando Patterson, praticamente não existe ser humano que não seja descendente de escravos ou de senhores de escravos. A escravidão foi adotada em diversas sociedades humanas, em diferentes regiões do mundo, vigorando nas populações mais primitivas até as civilizações mais sofisticadas. No que viria a ser o Brasil, a escravidão já era praticada pelos índios, na sua forma mais primitiva, bem antes da chegada dos europeus. Entre os tupinambás, a escravidão não tinha um valor econômico, vez que os cativos serviam para serem exibidos como troféus de valor militar e honra ou como carne a ser devorada em rituais canibalescos que poderiam acontecer até quinze anos após a captura.
O tráfico transatlântico de escravos
Nenhum continente foi tão afetado pela escravidão como a África. O último e o maior sistema escravista da história da humanidade foi o tráfico de africanos para as Américas. Praticamente todos os povos da Europa ocidental estiveram envolvidos nesse altamente lucrativo tráfico, embora Portugal, Holanda, Inglaterra e França se tenham destacado. Com a chegada dos europeus ao continente africano no século XVI, o tráfico de escravos, intenso há vários séculos, cresceu ainda mais. Em troca de mercadoria e dinheiro oferecidos pelos comerciantes europeus, vários povos africanos venderam pessoas de tribos vizinhas para os traficantes de pessoas. Como resultado do estímulo econômico advindo do comércio de escravos, surgiram na África Estados centralizados cuja economia estava fortemente dependente da venda de escravos, como Daomé e o Império Axante. Neste processo, os comerciantes europeus e a elite africana lucravam por meio da escravização de milhões de africanos. De maneira geral, havia oito meios pelos quais as pessoas poderiam ser escravizadas:
Por que os africanos?
Teria sido muito mais barato aos europeus obter escravos na própria Europa do que enviar navios para a costa africana, com o objetivo de capturar mão de obra. Para os europeus, o grupo de indivíduos elegíveis para a escravidão era muito mais restrito do que para os africanos. A expansão ultramarina colocou os europeus em contato com povos "que diferiam mais deles, cultural e fisicamente, do que qualquer outro povo com o qual eles tinham interagido no milênio anterior". Na Europa, a hipótese de escravizar outros europeus nunca foi levantada, ao passo que, na África, havia grupos africanos dispostos a vender outros africanos para serem escravizados. Assim, a principal causa para a escravização em massa de africanos foi "um descompasso entre as concepções africana e europeia a respeito da elegibilidade para a escravização, em cujas raízes encontram-se a cultura, as normas sociais, que não estão claramente ligadas à economia". Segundo o historiador David Eltis, "A África era uma massa continental muito maior, que abrigava mais diversidade de populações humanas do que se poderia encontrar em qualquer outra área de tamanho comparável no mundo. Não é de estranhar que os africanos não tivessem uma concepção continental de pertencimento — isto é, de povos que não se podia escravizar". Concomitantemente, no continente americano, os povos ameríndios estavam morrendo aos milhares e o número de colonos europeus dispostos a cruzar o Atlântico era muito pequeno. Assim, os colonizadores buscaram na África a mão de obra necessária para desenvolver as colônias.
A escravidão no Brasil
O Brasil recebeu cerca de 38% de todos os escravos africanos que foram trazidos para a América. A quantidade total de africanos subsaarianos que chegaram ao Brasil tem estimativas muito variadas: alguns citam mais de três milhões de pessoas, outros quatro milhões. Segundo uma estimativa, de 1501 a 1866, foram embarcados na África com destino ao Brasil 5.532.118 africanos, dos quais 4.864.374 chegaram vivos (667.696 pessoas morreram nos navios negreiros durante o trajeto África-Brasil). O Brasil foi, de longe, o país que mais recebeu escravos no mundo. Em comparação, no mesmo período, com destino à América do Norte foram embarcados 472.381 africanos, dos quais 388.747 chegaram vivos (83.634 não sobreviveram). De acordo com a estimativa do IBGE, o número total de africanos que chegou ao Brasil foi de 4.009.400.
História moderna
As elites políticas do Brasil promoveram ativamente a imigração europeia para "branquear" a população, proibindo a imigração africana e asiática em 1891. Para incentivar a imigração europeia, o governo federal subsidiou viagens ao Brasil até 1927. Trabalhadores europeus e brasileiros brancos eram privilegiados em empregos industriais, enquanto brasileiros de ascendência africana frequentemente eram relegados ao trabalho doméstico e nas plantation. Afro-brasileiros criaram suas próprias instituições sociais e culturais para se apoiarem mutuamente. Em Salvador, fundaram irmandades religiosas como o Rosário às Portas do Carmo (1888–1938). A Sociedade Protetora dos Desvalidos, criada em 1832, foi uma das primeiras associações de ajuda mútua para afro-brasileiros. Também existiam grupos ligados à religião liderados por mulheres afro-brasileiras, como a Irmandade da Boa Morte, na Bahia. Excluídos dos clubes sociais brancos, os afro-brasileiros formaram suas próprias organizações, incluindo o Luvas Pretas (1904) e o Centro Cívico Palmares (1927), que servia como biblioteca e espaço de encontro.
Grupos étnicos
Os portugueses classificavam diversas etnias africanas de forma genérica, sem levar em conta as peculiaridades existentes entre esses diferentes grupos. De maneira geral, os escravos eram identificados de acordo com a região do porto onde embarcaram. Em consequência, um grupo classificado como único pelos portugueses poderia, de fato, abarcar diversas etnias dentro dele. Em termos gerais, pode-se classificar as culturas africanas vindas ao Brasil em três grandes grupos: Os oeste-africanos, oriundos da denominada Costa da Mina, sobretudo da atual Nigéria e do Benim, eram genericamente denominados de escravos minas ou sudaneses, embora dentro desse grupo genérico estivessem incluídas etnias diversas, como os nagôs, jejes, fantis e axantes, gás e minas, malês (africanos islamizados), hauçás, canúris, nupés, gurunsis, fulas e mandingas. Muitos dos escravos trazidos da Costa da Mina eram seguidores da religião muçulmana. Alguns deles sabiam ler e escrever em árabe, fato inusitado no Brasil colonial, onde a maioria da população, inclusive a elite, era analfabeta. A influência islâmica desses escravos pode ainda ser vista em Salvador, sobretudo no vestuário das baianas, com seu característico turbante muçulmano, saias largas e compridas, xales e mantras listradas.
Rotas do tráfico entre Brasil e África
O projeto The Trans-Atlantic Slave Trade Database estimou que, durante o tráfico negreiro, desembarcaram no Brasil 5.099.816 africanos. Após minuciosas análises na África e nas Américas, os pesquisadores conseguiram traçar as origens dos africanos trazidos ao Brasil. Cerca de 68% dos escravos desembarcados no Brasil eram provenientes do Centro-Oeste africano. Atualmente, situam-se nessa região os Estados de Angola, República do Congo e República Democrática do Congo. Cada época da história do Brasil tem diferentes portos importantes de embarque de escravos, e cada porto recebia escravos provenientes de uma grande região que ia centenas de quilômetros dentro do interior da África. Portanto, a origem étnica dos escravos recebidos no Brasil é muito variada, além de se ter alterado ao longo dos séculos de tráfico negreiro.
Retorno à África
Diversas comunidades de escravos libertos no Brasil retornaram à África entre os séculos XVIII e XIX. Entre eles destacam-se os Tabom, retornados ao Gana em 1835-36, e os Agudás ou Amarôs, no Benim (ver: Francisco Félix de Sousa), no Togo e na Nigéria. Numerosos, esses "brasileiros" estabeleceram-se na região da antiga costa dos Escravos - que abrangia todo o golfo de Benim, indo da atual cidade de Lagos, na Nigéria, até Acra, no Gana. Milton Guran em seu livro "Agudás – os "brasileiros" do Benim" resume: "Os "brasileiros" do Benim, Togo e Nigéria, também conhecidos como agudás, nas línguas locais, são descendentes dos antigos escravos do Brasil que retornaram à África durante o século XIX e dos comerciantes baianos lá estabelecidos nos séculos XVIII e XIX. Possuem nomes de família como Souza, Silva, Almeida, entre outros, festejam Nosso Senhor do Bonfim, dançam a burrinha (uma forma arcaica do bumba-meu-boi), fazem desfiles de Carnaval e se reúnem frequentemente em torno de uma feijoada ou de um kousidou. Ainda hoje é comum os agudás mais velhos se cumprimentarem com um sonoro "Bom dia, como passou?" "Bem, 'brigado'" é a resposta."
Imigração africana recente
Nas décadas recentes, africanos negros têm imigrado ao Brasil, especialmente de países que falam português como Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, em busca de oportunidades de trabalho ou comerciais. Há também um expressivo número de migrantes de países não-lusófonos como Senegal, República Democrática do Congo, Togo e Nigéria, mas a maioria vai para o país latino-americano em condição de refugiados.
Muitos negros foram trazidos para o Brasil como escravos no período colonial e imperial e eram uma parcela grande da população, mas, o crescimento da população negra foi relativamente pequeno em comparação com a entrada de escravos da África subsaariana. Primeiramente, porque os homens eram a grande maioria dos escravos traficados para o Brasil, atingindo quantidades até oito vezes maiores do que a de mulheres. Segundo, porque a mortalidade era muito maior entre os escravos do que entre o resto da população brasileira. Em certos momentos da história do Brasil, o crescimento da população escrava deveu-se somente ao crescimento do tráfico de escravos. Deve ser registrado que não há certeza quanto ao número que entrou porque no Brasil não foi realizado censo da população brasileira antes de 1872. O que é certo, porém, é que o número de africanos trazidos foi grande, porém, a maior parte deles era do sexo masculino, com expectativa de vida no geral muito baixa. Nas palavras de Auguste de Saint-Hilaire: "Uma infinidade de negros morreu sem deixar descendência". Tanto é que a população inteira do Brasil, estimada em 4 milhões por volta de 1823, abrangendo todos os segmentos da população (brancos, pardos e mestiços em geral, africanos livres e escravos, e índios), corresponde ao número total de africanos que, de acordo com alguns, teria vindo ao Brasil durante todo o período colonial, não se podendo dizer, então, que o número de africanos trazidos corresponda àquele que contribuiu, efetivamente, para o crescimento demográfico do país.
Distribuição geográfica
Segundo o censo do IBGE de 2022, a região Sudeste concentra 43,58% da população preta do Brasil e o Nordeste, 34,5%. Portanto, 78,08% dos pretos brasileiros vivem nessas duas regiõesː Os estados com maior percentual de cidadãos pretos no Censo de 2022 do IBGE são: Segundo o censo demográfico de 2022, São Paulo era a cidade brasileira com a maior população autoidentificada como preta, com 1.160.073 indivíduos se identificando como pretos. Ela é seguida pelo Rio de Janeiro com 968.428, Salvador com 825.509, Belo Horizonte com 312.920, Brasília com 301.765, Recife com 182.546, Feira de Santana com 180.190, Fortaleza com 171.018, Porto Alegre com 168.196 e São Luís com 167.885. Em termos proporcionais, dos dez municípios brasileiros com maior população preta, nove estavam Bahia e um no Maranhãoː
A família escrava
Durante muitos anos, diversos historiadores e antropólogos sustentaram que, no Brasil, os escravos não formavam famílias. Florestan Fernandes afirmava que os escravos eram anômicos, não tinham solidariedade entre si e a família, não apenas a linhagem, como a nuclear, com o pai presente, nunca existiu. Para esses autores, a união entre negros era passageira, gerando filhos ilegítimos, sendo que os laços de parentesco e a vida familiar eram destruídos pela venda, pelos obstáculos impostos pelos senhores quanto à formação de famílias entre os escravos e pelo comércio interno que desmantelava essas uniões. As poucas famílias que existiam eram centradas na mãe e, quase sempre, os filhos eram criados sem a presença do pai.
O processo de miscigenação entre africanos, europeus e indígenas foi fundamental na constituição da população brasileira. O fenômeno, contudo, não levou a uma democracia racial, como quiserem alguns autores, vez que raça, cor da pele, origem e classe social sempre exerceram influência direta nas oportunidades de mobilidade social dos habitantes do Brasil. Alguns autores, como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda defendiam a tese de que, entre os portugueses, havia ausência ou pouquíssimo preconceito de raça, fato que explicaria a sua propensão à miscigenação racial. Estudiosos posteriores, como C. R. Boxer, discordavam dessa teoria pois, segundo ele, os portugueses eram um dos povos mais racistas de sua época, sendo que desenvolveram, entre os séculos XVI e XVIII, um complexo mecanismo de "limpeza de sangue" que produzia inabilitações e criava estigmas de toda a sorte contra descendentes de judeus, mouros, índios, negros e outros.
Miscigenação entre negros e brancos
Durante vários séculos, no mundo ocidental, as mulheres, independentemente da raça ou origem, viveram subordinadas aos homens e foram frequentemente vítimas de violência física e sexual. Nas sociedades escravocratas, a situação era particularmente pior vez que, em qualquer lugar onde há escravidão, os escravos são frequentemente vítimas de exploração sexual por parte dos seus senhores, seja em relações heterossexuais ou homossexuais. Para as mulheres, o cenário era ainda mais degradante e, no caso do Brasil, além da exploração sexual típica da hierarquização senhor-escrava, somava-se a misoginia racista que se formou na sociedade colonial. Os homens dirigiam palavras chulas e investidas sexuais sobre as negras escravas ou forras e mulatas, enquanto para as brancas eram destinados os galanteios e palavras amorosas. A mulher de origem africana, assim como a indígena no primeiro século de colonização, foi frequentemente degradada à situação de objeto sexual dos homens brancos.
Os africanos no Brasil conseguiram preservar uma parca herança africana. Todavia, apesar de ter sido pequena, essa herança africana, somada à indígena, deixou para o Brasil, no plano ideológico, uma singular fisionomia cultural. Os negros trazidos como escravos eram capturados ao acaso, em centenas de tribos diferentes e falavam línguas e dialetos não inteligíveis entre si. O fato de todos serem negros não ensejava uma unidade linguístico-cultural quando submetidos à escravidão. A própria religião, que atualmente serve como união entre os afro-brasileiros, na época da escravidão, devido à diversidade de credos, os desunia. Em consequência, a diversidade linguística e cultural trazida pelos escravos, aliada à hostilidade entre as diferentes tribos e à política de evitar que escravos da mesma etnia ficassem concentrados nas mesmas propriedades, impediram a formação de núcleos solidários que retivessem o patrimônio cultural africano.
Influência no português falado no Brasil
Atualmente, nenhum idioma africano é falado correntemente no Brasil. Hoje, a maioria dos pesquisadores acreditam que dialetos crioulos devem ter existido no país no passado, mas todos tiveram existência efêmera. Contudo, nos 400 anos que a língua portuguesa teve contato com os idiomas africanos no Brasil, diversas influências dessas línguas foram absorvidas na fala brasileira. Os escravos oeste-africanos foram numerosos no Brasil, contudo exerceram uma menor influência no português. Dentre as línguas oeste-africanas, também chamadas de "sudanesas", as mais importantes foram as da família cuá, faladas no Golfo do Benim. Seus principais representantes no Brasil foram os iorubás e os povos de línguas do grupo jeje-fon, conhecidos antigamente como minas ou jejes. A influência das suas línguas hoje se limitam sobretudo aos léxicos relacionados às religiões afro-brasileiras (Iemanjá, Xangô, Oxum, Oxóssi etc.)
O preconceito racial no Brasil é o que alguns autores chamam de preconceito "de marca", ou seja, que recai sobre o fenótipo do indivíduo (tipo de cabelo, traços e cor da pele). Ele não recai diretamente sobre a ancestralidade, pois no Brasil as classificações raciais se baseiam mais na aparência física da pessoa do que na ancestralidade. É um racismo que aparece como expressão de foro íntimo, mais apropriado ao recesso do lar. A escravidão foi abolida, houve a universalização das leis, mas o padrão tradicional de acomodação racial não foi alterado, mas apenas camuflado. Apesar da tão falada "miscigenação brasileira", um sistema enraizado de hierarquização social com base em critérios como classe social, educação formal, origem familiar e na raça continuaram. Se após a Segunda Guerra Mundial o darwinismo racial foi perdendo força e o conceito biológico de raça foi se desmontando, o "preconceito de cor" fazia as vezes da raça.
Casos de racismo divulgados
Casos bem divulgados de racismo fazem parte da História recente do Brasil. Em 1950, a atriz negra norte-americana Katherine Dunham foi impedida de se hospedar em um hotel de São Paulo por ser "pessoa de cor". O caso rendeu críticas de Gilberto Freyre na tribuna da Câmara dos Deputados e foi um dos motivadores para a edição da Lei Afonso Arinos, a primeira lei antirracista do Brasil. No futebol, os casos de racismo são antigos no Brasil. O esporte teve uma origem elitista, dominado por brancos, no início do século XX. Porém, paulatinamente, o futebol tornou-se motivo de diversão para jovens negros e pobres, que se tornariam os grandes nomes do futebol brasileiro, até hoje. Contudo, nos primeiros tempos, houve grande resistência à participação de jogadores negros. Para o Campeonato Sul-Americano de Futebol de 1921, o Presidente da República Epitácio Pessoa "recomendou" que a seleção não levasse jogadores negros para a Argentina pois, segundo ele, era necessário projetar uma imagem "melhor" do Brasil para os estrangeiros. Em decorrência, jogadores famosos na época, como o mulato Arthur Friedenreich, ficaram de fora do campeonato. Naquela altura, era comum que jogadores negros e mulatos usassem pó-de-arroz no rosto e alisassem os cabelos para serem aceitos. Pelé, durante sua carreira, foi ridicularizado pelos colegas e pela mídia em decorrência da sua cor, embora o jogador tenha-se negado a participar de qualquer luta antirracista.
Indicadores sócio-econômicos
Um relatório da UFRJ divulgado em 2011 aponta que tem crescido a parcela de negros e pardos no total de desempregados. De acordo com o relatório, em 2006, 54,1% do total de desocupados eram negros e pardos (23,9% de homens e 30,8% de mulheres). Pouco mais de 10 anos antes, ou seja, em 1995, os negros e pardos correspondiam a 48,6% desse total (25,3% de homens e 23,3% de mulheres). Em relação aos que estão empregados, as diferenças entre as raças também são claramente perceptíveis: em 2006, o rendimento médio mensal real dos homens brancos equivalia a R$ 1.164,00, valor 56,3% superior à remuneração obtida pelas mulheres brancas (R$ 744,71), 98,5% superior à conseguida pelos homens negros e pardos (R$ 586,26) e 200% à obtida pelas mulheres negras e pardas.
Diferenças sociais baseada na origem étnica
Os indicadores sociais revelam que no Brasil os trabalhadores brancos recebem o dobro dos trabalhadores negros e pardos. A desigualdade social entre brancos e negros e mulatos no Brasil remonta aos tempos coloniais. Embora nos primeiros dois séculos de colonização a maioria da população de origem africana no Brasil fosse escrava, no século XVIII houve um incrível crescimento das alforrias e negros e mulatos livres chegaram a formar a maioria da população em algumas capitanias. Porém, as leis e decretos vindos da Coroa Portuguesa e as práticas sociais impediram enormemente o progresso econômico dessa população. Os libertos de ascendência africana eram discriminados por leis que, frequentemente, deixavam de distingui-los dos escravos. Essas leis eram mais evidentes com relação a porte de armas e no uso de certas vestimentas. Pessoas de origem africana eram proibidas de ocupar cargos públicos, uma vez que era necessário comprovar a "pureza de sangue" para se candidatar.
Representatividade na mídia
Os afrodescendentes têm pouca visibilidade na mídia brasileira. Na televisão brasileira ainda impera o modelo hegemônico branco, refletindo um anseio por uma euro-norte-americanização do retrato social brasileiro. Apesar da resistência cultural e política de grupos negros, a televisão brasileira ainda não foi capaz de representar os valores, experiências e importância desse grupo formador da população brasileira. A telenovela, importante produto da indústria cultural brasileira, já representou várias classes sociais, mas os centros de suas tramas sempre rodam em torno de uma classe média branca e suas relações com os ricos. A "classe média da Zona Sul" é retratada nas novelas brasileiras de forma destacada e glamourizada, e os personagens negros são retratados a partir da visão dos brancos. Os personagens negros aparecem como "empregados fiéis e anjos da guarda dos protagonistas e personagens mais relevantes do horário nobre". Mesmo a classe média negra, quando retratada nas novelas, aparece de forma tão normal e assimilada, sem ligação com a cultura afro-brasileira, que poderia ser interpretada por atores brancos.
Negros nos livros didáticos
Nos livros didáticos brasileiros, há uma invisibilidade dos negros e uma disparidade em relação à representação de brancos. Em uma pesquisa, nos textos não verbais analisados, em apenas 11% há representação de negros, embora mais de 40% da população brasileira se defina como preta ou parda. A representação dos negros nos livros escolares acontece com uma ênfase no lado pejorativo e degradante dessas pessoas. Em mais de 72% das representações nos livros, o negro está exposto sob uma perspectiva negativa e em somente 30% de forma positiva. No meio escolar brasileiro, a representação dos negros no livro didático está normalmente associada com o que há de pior, com a delinquência, as drogas, a escravidão, a miséria, o lixo. Frequentemente fazem referências à cor do personagem de forma negativa. A maioria dos professores entrevistados dizem não perceber essa representação negativa do negro ou não dá a devida importância ao tema, muitas vezes delegando o preconceito ao próprio aluno negro. Para a maioria dos professores, o racismo existente na sociedade não adentra o meio escolar. A ótica dos alunos, por outro lado, se mostrou mais aguçada quanto à percepção dessa discriminação. A maioria dos estudantes relataram que percebem que nos livros didáticos há uma maior representação do grupo branco do que do negro, apenas 11,11% disseram que tanto brancos quanto negros são representados de forma igual. Porém uma minoria entende isso como uma manifestação de racismo. Os alunos, ao terem contato com o livro, associam os personagens ali contidos com os colegas de classe. Como a maioria dos negros são retratados de forma pejorativa no livro didático, os colegas negros passam a ser estigmatizados e ridicularizados, gerando sérios reflexos na sua formação.
Uma pesquisa genética encomendada pela BBC Brasil analisou a ancestralidade de 120 brasileiros auto-declarados pretos que vivem em São Paulo. Foram analisados o cromossomo Y, herdado do pai, e o DNA mitocondrial, herdado da mãe. Ambos permanecem intactos através de gerações porque não se misturam com outros materiais genéticos provenientes do pai ou da mãe, salvo as raras mutações que podem ocorrer. O DNA mitocondrial de cada pessoa é herdado da sua mãe, e esta o herdou do ancestral materno mais distante (a mãe da mãe da mãe etc). Já o cromossomo Y, presente apenas nos homens, é herdado do pai, e este o herdou do ancestral paterno mais distante (o pai do pai do pai etc). A pesquisa revelou proporções quase iguais de cromossomos Y de origem europeia (50%) e africa subsaariana (48%) no grupo analisado. Assim, pode-se afirmar que metade desta amostra de pretos brasileiros são descendentes de pelo menos um homem europeu. Por outro lado, esta pesquisa mostrou que no grupo de pretos analisados, cerca de 85% das pessoas tinham DNA mitocondrial originado de uma antepassada da África subsaariana e 12,5% de uma índigena. Se o grupo analisado representa uma boa amostra da população brasileira, pode-se dizer que os brasileiros negros descendem pelo lado paterno tanto de europeus quanto de africanos subsaarianos, enquanto pelo lado materno são em maior parte descendentes de africanas subsaarianas (85%). Nota-se também que uma parte considerável (12,5%) deste grupo de brasileiros autodeclarados pretos é descendentes pelo lado materno de pelo menos uma ancestral índia.


