Pesquisa · Mapa mental

XVII Congresso do Partido Socialista Italiano

O XVII Congresso do Partido Socialista Italiano foi realizado no Teatro Carlo Goldoni, em Livorno, de 15 a 21 de janeiro de 1921, inserido no contexto geral do conflito que se desenrolava no movimento operário internacional entre a corrente reformista e a revolucionária. O debate, acompanhado com grande interesse tanto na Itália quanto no exterior, centrou-se na solicitação da Internacional Comunista (Comintern) para expulsar a ala gradualista dos partidos que a integravam ou que pretendiam integrá-la. Ao final de dias caracterizados por um clima particularmente tumultuoso e turbulento, o congresso registrou a cisão da facção comunista que, diante da recusa da maioria do partido em acatar a solicitação da Comintern e expulsar os gradualistas do PSI, abandonou os trabalhos e deu origem ao Partido Comunista Italiano.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 17/10/2026
01

Antecedentes

As diretrizes internacionais

Em julho-agosto de 1920, o segundo congresso da Internacional Comunista estabeleceu, em 21 pontos rígidos e detalhados, as condições para a admissão de partidos na própria Internacional. Nesses pontos, emergiu a necessidade de distanciar dos partidos (que teriam todos de adotar a nova denominação de "comunista") os expoentes reformistas, considerados contrarrevolucionários. No que diz respeito à situação italiana, essa necessidade foi reforçada pela crítica de que o partido, cúmplice do que foi definido como a "sabotagem" realizada pela CGL, não soube aproveitar a oportunidade revolucionária criada durante o Biênio Vermelho. O PSI, na verdade, deixou toda a iniciativa para o sindicato, que levou adiante uma tática gradualista culminando no acordo de 15 de setembro de 1920 com os industriais: mediado pelo Presidente do Conselho, Giovanni Giolitti, o acordo garantiu aumentos salariais, mas não levou a avanços políticos significativos,[nota 2] destacando a incapacidade substancial do movimento socialista de enfrentar a hegemonia da burguesia com ferramentas adequadas.[nota 3]

A elaboração das moções

Na véspera do Congresso, o partido estava dividido em três facções principais e dois grupos menores: a ala direita era a da "concentração socialista", próxima das posições do reformismo gradualista de Turati; no centro, colocava-se a maioria dos maximalistas (os "comunistas unitários") de Giacinto Menotti Serrati; à esquerda, os comunistas "puros" de Amadeo Bordiga. Numa posição intermediária entre os reformistas e os unitários, encontravam-se os chamados "revolucionários intransigentes" de Costantino Lazzari, enquanto ao lado dos comunistas estava o grupo da "circular" de Antonio Graziadei e Anselmo Marabini que, embora fiéis às diretrizes da Comintern, pretendiam trabalhar por uma mediação.

Os unitários em maioria

A fração maximalista unitária, cuja posição na Direção era minoritária, obteve uma grande maioria durante os congressos provinciais: a moção de Serrati obteve aproximadamente 100.000 votos, contra os 58.000 da moção comunista e os 15.000 da concentracionista. Por esta razão, a perspectiva de uma cisão à direita, como se materializara recentemente na França e na Alemanha, perdeu terreno: na véspera da reunião de Livorno, pelo contrário, a "cisão à esquerda" já era considerada irrevogavelmente decidida. De fato, enquanto a maioria dos comunistas acreditava ser cada vez mais necessário romper a unidade para salvar a perspectiva revolucionária a curto prazo, a maioria maximalista, sobre a qual recaía a escolha final de qual minoria deveria abandonar o partido, continuava a mostrar-se relutante em expulsar a ala moderada.

02

O debate no Congresso

Abertura dos trabalhos

Na véspera do congresso, foi distribuído o relatório da direção referente ao período decorrido desde o anterior Congresso de Bolonha. Destacava os substanciais aumentos numéricos registrados pelo partido nos últimos dois anos: o PSI, que em 1919 tinha 1 891 seções com 81 464 membros, tinha subido para 4 367 seções e 216 327 membros. Este aumento também se verificou em termos de mandatos parlamentares (de 47 para 156) e de entidades locais governadas (350 municípios e 8 províncias à época do XVI Congresso, 2 500 municípios e 25 províncias em janeiro de 1921). Após as últimas reuniões das facções realizadas na manhã de 15 de janeiro, o congresso foi aberto às 14h pelo presidente provisório Giovanni Bacci, que lembrou o aniversário do Levante Espartaquista de 1919. Francesco Frola, por sua vez, leu a saudação do Comitê Executivo da Internacional Comunista, que atacava duramente a fração unitária, cuja ação foi definida no documento como «a concretização das previsões mais desfavoráveis», e os da ala esquerda do Partido Socialista Suíço e dos partidos comunistas austríaco, holandês e espanhol.[nota 8] A mensagem deste último foi uma acusação direta contra Serrati e provocou protestos e polêmicas. Paul Levi estava presente representando o Partido Comunista Operário Alemão e, em seu discurso de boas-vindas, expressou a esperança de que também se constituísse um Partido Comunista na Itália. Secondino Tranquilli (mais tarde conhecido pelo pseudônimo Ignazio Silone) falou em nome da Federação da Juventude e anunciou a fusão da juventude no novo Partido Comunista.

Kabakčiev contra Serrati

Na manhã de 16 de janeiro, o delegado do Partido Comunista Búlgaro e da Internacional, Christo Kabakčiev, apresentou seu relatório: o texto, escrito em francês e lido em tradução por Francesco Misiano, abordou primeiro a situação política nos Balcãs e depois a questão italiana, analisando em detalhes a grave situação econômica e financeira do país no período pós-Primeira Guerra Mundial e indicando o caminho revolucionário como a única saída para a crise. Esse objetivo deveria ser alcançado através da exclusão de todos aqueles que o impediam, ou seja, os reformistas: segundo o delegado búlgaro, essa divisão entre forças revolucionárias e não revolucionárias, que já havia ocorrido em muitos países, era também necessária na Itália para que todo o continente europeu estivesse preparado para a revolução final que levaria à paz e à solução dos problemas de desemprego e pobreza causados pelas políticas burguesas.

O partido revolucionário

O terceiro dia foi caracterizado pelos discursos de Costantino Lazzari e Umberto Terracini. Lazzari, da fração minoritária dos "revolucionários intransigentes", criticou os dissidentes e, referindo-se a Marx, sublinhou como a unidade do proletariado era indispensável, o que teria dado força à Terceira Internacional, e como a distinção entre comunismo e socialismo era forçada, o que se tornara terminologicamente necessário na Rússia, onde «até os reformistas se autodenominam revolucionários», mas que era enganoso na Itália: «seria como fazer as pessoas acreditarem que o comunismo é algo diferente do socialismo». Lazzari também contestou o fato de os russos não terem levado em conta que na Itália, ao contrário de muitos outros países, as correntes social-democratas já haviam sido expulsas há muito tempo, e lembrou a esse respeito o expurgo de Leonida Bissolati, Ivanoe Bonomi, Angiolo Cabrini e Guido Podrecca em 1912. Lazzari declarou-se, portanto, contra a expulsão da ala direita do partido, segundo o princípio da "liberdade de pensamento e disciplina na ação".

Ditadura burguesa ou ditadura proletária

Em 19 de janeiro, a sessão foi aberta com a comemoração de Andrea Costa no aniversário de sua morte. Amadeo Bordiga subiu ao palco em seguida e criticou toda a história do socialismo pré-guerra, acusando-o de ter se tornado, nas últimas décadas, uma força conservadora que substituiu a concepção marxista de conflito violento entre classes por uma visão pequeno-burguesa pacífica. Para Bordiga, os interesses da classe proletária não poderiam ser realizados dentro da estrutura do mecanismo político existente, por meio da busca de conquistas graduais e resultados parciais que não tinham como objetivo a derrubada do Estado burguês, segundo uma estratégia social-democrata cuja falácia fora demonstrada pela Primeira Guerra Mundial. O delegado comunista explicitou o dilema da "ditadura burguesa ou ditadura proletária", sublinhando como a social-democracia, onde chegou ao poder, como na Ucrânia ou na Geórgia, traiu suas próprias teorias de liberdade e agiu contra o proletariado.

Os maximalistas aplaudem Turati

O discurso vespertino de Filippo Turati demonstrou a profunda dissidência ideológica que o separava dos comunistas: dele transparecia, de fato, a nítida rejeição a qualquer solução revolucionária violenta e uma vigorosa defesa do reformismo socialista e de seu «trabalho diário de criar a maturidade das coisas e dos homens», que sobreviveria ao «mito russo» por trás do qual, segundo o líder socialista, se escondia o nacionalismo. Turati declarou-se, apesar de identificar algumas ambiguidades, a favor da moção de Reggio Emilia, atacou o princípio do recurso à violência, típico das minorias e do capitalismo, e sublinhou como a ditadura do proletariado tinha de ser da maioria, e portanto democrática, para não se transformar em mera opressão.

Rumo à cisão

Nicola Bombacci falou de uma separação dolorosa, mas necessária, tendo em conta o período revolucionário que o país atravessava e a necessidade de esclarecimento – tal como acontecia no resto do mundo – no seio do movimento socialista e das suas «duas escolas». Em seguida, tomou a palavra Anselmo Marabini, do grupo "circular", explicando que sua facção votaria «a moção que será reconhecida pelos representantes da Terceira Internacional», acusando os unitários de dividir o partido, tanto à direita quanto à esquerda, em nome da unidade. Paul Levi também haviam tomado conhecimento da situação, embora até o dia anterior tivessem tentado mediar com Serrati para obter a expulsão dos reformistas e a unidade do restante do partido, mas foram impedidos pelos delegados da Comintern: Rákosi, em particular, relataria mais tarde que havia telegrafado a Moscou para solicitar novas diretrizes sobre o assunto, obtendo em resposta a autorização para continuar no caminho da cisão.[nota 10]

03

Os resultados da votação

A saída dos comunistas

Após a retirada dos documentos da circular e dos intransigentes, a votação ocorreu em três moções: a unitária ou "de Florença" (assinada por Baratono e Serrati), a comunista ou "de Ímola" (Bordiga-Terracini) e a concentracionista ou "de Reggio Emilia" (Baldesi-D'Aragona). Os resultados, que corresponderam às previsões e refletiram os dados registrados durante os congressos provinciais, foram comunicados pelo Presidente Bacci na manhã de 21 de janeiro: dos 172 487 votos válidos, os delegados atribuíram 98 028 votos aos Unitários, 58 783 aos Comunistas e 14 695 aos Concentracionistas, tendo registrado 981 abstenções. A aprovação da moção Baratono-Serrati foi seguida da intervenção de Polano (a Federação da Juventude «resolve seguir as decisões que a facção Comunista tomar») e do anúncio de Bordiga de que a maioria do congresso se tinha posicionado fora da Terceira Internacional, e que, portanto, os delegados da moção Comunista abandonariam o plenário. Imediatamente depois, os Comunistas saíram do Teatro Goldoni cantando A Internacional e reuniram-se no Teatro San Marco.

A moção Bentivoglio

Os delegados das outras moções continuaram seus trabalhos discutindo alguns pontos da pauta, entre os quais um documento assinado por Paolo Bentivoglio foi aprovado por unanimidade, no qual a adesão do PSI à Internacional Comunista foi reafirmada, "aceitando seus princípios e métodos sem ressalvas", e protestando contra a declaração de exclusão emitida pelo representante do Comitê Executivo "com base em uma divergência de avaliação circunstancial e que poderia e deveria ter sido resolvida com um esclarecimento amigável e um entendimento fraterno". Na verdade, esperava-se que, no congresso seguinte da Comintern, a controvérsia fosse resolvida atribuindo a Kabakčiev a responsabilidade de ter cedido excessivamente à pressão dos dissidentes e de ter ultrapassado os limites de seu mandato.

04

Os desdobramentos posteriores

O advento do fascismo

O resultado do congresso foi saudado pela imprensa burguesa, que sublinhou que a saída dos comunistas das fileiras do Partido Socialista deveria ser motivo de satisfação: La Stampa, de 22 de janeiro de 1921, falou da «vitória do que é lógico, natural e normal» e sublinhou que a «febre» havia sido eliminada do PSI, e isto graças ao «método liberal» que, deixando o socialismo agir e não reprimindo-o, impediu que a «corrente extremista» e o «revolucionismo anárquico» se fortalecessem a ponto de perturbar e envenenar «a vida da nação». Esta avaliação positiva por parte da burguesia italiana não levou, contudo, a uma redução da violência reacionária, que continuou a ser incentivada por industriais e latifundiários.

A relação com Moscou

A fase de retrocesso, examinada minuciosamente por Lenin, Trótski e Radek, levou - durante o Terceiro Congresso da Comintern no verão de 1921 - à elaboração da tática da "frente única", centrada na oportunidade de concentrar forças recorrendo, sem renunciar à crítica de princípio, também a alianças temporárias com forças reformistas. Esta posição foi contestada por uma forte minoria de esquerda liderada por Bukharin e o próprio Umberto Terracini contestou a necessidade de esperar pela conquista da maioria do proletariado antes de iniciar a luta pelo poder, sendo duramente repreendido por isso por Lenin. Assim começou uma fase de profunda dissidência entre a Comintern e o Partido Comunista da Itália, que adquiriu "uma reputação internacional de extremismo que minou a sua política desde o início" e que, embora aceitasse as diretrizes de Moscou por uma questão de disciplina, nunca trabalhou para uma aplicação eficaz e rigorosa da frente única na Itália.[nota 11]

05

Cinema e televisão

Um documentário de 34 minutos da época é dedicado ao XVII Congresso do PSI e está agora preservado na Cinemateca de Bolonha sob o título Uomini e voci del congresso di Livorno. O congresso também é brevemente abordado no primeiro episódio (L'educazione politica) da série da RAI de 1981 Vita di Antonio Gramsci, de Raffaele Maiello, e foi tema de um episódio de 2014 do programa da Rai 3 Il tempo e la storia, com o historiador Giovanni Sabbatucci como convidado no estúdio.

Vídeos recomendados

Fontes consultadas

Continue pesquisando