Acupuntura e psicologia
Acupuntura e psicologia corresponde à aplicação da acupuntura para amenizar o sofrimento psicológico, enquanto técnica auxiliar da psicoterapia e teoria específica, e não a uma área de atuação profissional restrita aos especialistas em saúde mental. Considerando que a adaptação de uma arte-técnica derivada do sistema etnomédico chinês, feito a acupuntura, às diversas profissões de saúde exige cada vez mais a produção de protocolos de ação especializados na área abordada, esta prática toma como referências tanto o saber tradicional chinês como a disciplina e profissão especializada em questão, a psicologia. Tenta-se produzir o conhecimento científico nos moldes do paradigma ocidental e simultaneamente nos moldes da ciência tradicional chinesa, para se obter uma melhor compreensão de suas proposições teóricas originais e aumentar a eficácia na aplicação da acupuntura e psicologia ao sofrimento psíquico.
Enquanto campo de prática profissional a aplicação dessa técnica, que a rigor não pode ser dissociada de um conjunto de outras igualmente derivadas da Medicina Tradicional Chinesa, tais como moxabustão, fitoterapia, auriculoacupuntura etc., e limita-se às definições de atuação profissional do psicólogo reconhecida pelos órgãos de regulamentação da profissão – no Brasil o Conselho Federal de Psicologia. Além do reconhecimento legal que permite ao psicólogo a prática associada desse conjunto de técnicas, estabeleceu-se um conflito com as demais profissões de saúde, reconhecidas legalmente ou não, que também elegeram a acupuntura como forma de atuação. Observe-se também que a definição do campo específico de atuação do psicólogo possui uma área de interseção de limites difusos com as práticas da psiquiatria, neurologia, fisioterapia, fonoaudiologia e muitas das terapias reconhecidas como Medicinas Alternativas e Complementares (MAC).
Observe-se, porém, que a expansão da utilização da acupuntura, fitoterapia e outras formas de Medicina Alternativa e Complementar (MAC) é uma prática generalizada no ocidente . Na segunda Conferência Científica Internacional sobre Pesquisa e Medicina Complementar, Integral e Alternativa realizado em Boston, Massachusetts, 2002 apresentou-se dados oficiais do National Institutes of Health (NIH) National Center for Complementary and Alternative Medicine (NCCAM) estimando-se que a prevalência de uso das MAC aumentou de 25% em 1990 para 42% em 1997. Este crescimento representa uso aumentado entre todos os grupos socioeconômicos. A prevalência de uso de fitoterápicos aumentou cerca 380% durante no mesmo período de tempo. Ernest, 2001 calcula que a Medicina Complementar na Inglaterra, onde a acupuntura é um expoente de peso, tem uma utilização que pode ser estimada entre um terço e 50% da população.
Pensar na relação entre psicologia e acupuntura significa compreender os distintos caminhos que a psicologia, essa jovem ciência, tomou tanto no ocidente com no oriente. No ocidente pode-se identificar nessa história 3 marcos significativos: A psicologia fisiológica (experimental); a psicofísica; as teorias dos aspectos simbólicos e psicossomáticos (que inclui as explicações dos mecanismos hipnóticos e do efeito placebo) A definição de estímulo é uma "ferramenta conceitual" tanto para a acupuntura como para a psicologia. Por sua origem, enquanto psicologia fisiológica e psicofísica, a psicologia está associada às contribuições de Wilhelm Wundt (1832 -1920), Gustave T. Fechner (1801-1887) e E. H. Weber (1795-1878). A Psicologia Fisiológica de Wundt estabeleceu os princípios de correlação mente cérebro e definiu a consciência como objeto de estudo através da percepção e método experimental.
Entre essas possíveis interpretações do efeito da acupuntura na ciência ocidental tem certo destaque a teoria dos reflexos condicionados e diversas variantes desta teoria que, sem maior rigor, podem ser reunidas com o título de reflexoterapia. O desenvolvimento ocidental das teorias que utilizam a concepção de reflexo (estímulo e resposta) iniciou-se a partir das descobertas do reflexo condicionado especialmente com as contribuições de Ivan Pavlov (1849-1936) à medicina. Diversos estudos, como veremos tem evidenciado o efeito da estimulação de pontos de acupuntura para eliciar ou inibir reflexos . Entre tais interpretações do efeito da acupuntura se destaca, a teoria da irritação associada à desorganização do sistema nervoso (irritação - contra-irritação) como causa de doenças, que se beneficiam da sedação e sono, inclusive este é o fundamento das técnicas de sonoterapia. A principal hipótese ou linha de pesquisa são os possíveis efeitos da atividade cortical sobre cada órgão ou regulação orgânica (rotas córtex-víscera; reflexos viscero-cutâneos ). Atualmente se sabe que os analisadores internos previstos por Pavlov em 1912, (Klotz et AL ) integram-se ao córtex através do sistema límbico e agentes da respostas ao estresse com efeitos pró e anti-inflamatórias, mediadas pelo sistema nervoso autônomo e eixo hipotálamo – hipófise.
Observe-se, porém que a produção de bem-estar, leia-se ausência de dor, ansiedade ou depressão através da acupuntura ainda precisam ser melhor compreendidos. Naturalmente que os mecanismos neurofisiológicos da produção de cortisol, endorfinas ou serotonina, induzidos pela ação das agulhas, são alterados restabelecendo a saúde do paciente, mas não teremos uma explicação completa desse complexo fenômeno, se os aspectos psicológicos e comportamentais desse processo não forem considerados. Acupuntura encontra na Psicologia uma ciência complementar aos seus preceitos, permitindo ao clínico compreender a pessoa à sua frente de modo integral e imparcial.
A Meditação é uma técnica antiqüíssima que se confunde com a própria origem das religiões quando definida ou comparada como transe e êxtase religioso. Uma das mais completas proposições de uso terapêutico sistematizado dessas técnicas é o Treinamento autógeno de Schultz com notável influência do Hatha Yoga e técnicas respiratórias diversas das mais diversas escolas inclusive Budistas (indianas tibetanas e chinesas) e Taoístas. Uma interpretação especificamente psicológica dos mecanismos e efeitos da meditação descrita em antigos textos chineses (Tai I Gin Hua Dsung Dschi – O segredo da flor de ouro) foi realizada, na década de 1930, por Richard Wilhelm (sinólogo) e C G. Jung (1875-1961). Wilhelm também apresentou ao ocidente uma tradução do I Ching atribuído a Confúcio e Jung tem inúmeros textos dedicados a avaliar as diferenças entre o pensamento oriental e ocidental, a natureza das religiões orientais e correlações entre essas e os efeitos da psicoterapia.
Diversamente da medicina ocidental que só veio a reconhecer a circulação do sangue no século XVII (William Harvey (1578-1657)) e os ritmos cerebrais (Hans Berger , 1873-1941) no século passado, na cosmovisão da Medicina Tradicional Chinesa – MTC, a milhares de anos, referências à circulação e vários ciclos e ritmos podem ser identificadas tanto aos ciclos cósmicos (maiores que 28 horas), circadianos (que duram 1 dia), como Infradianos (menores que 12 horas). São considerados correspondentes ao fluxo da energia vital – Chi nos meridianos e órgãos, onde distinguem as fases dos ciclos sazonais ou correspondentes às estações do ano e ciclos com períodos de 12 anos (astrológicos descritos no horóscopo chinês). Identificam naturalmente os ciclos circadianos (24 horas) como sono e vigília (a circulação da energia Yin/Yang), integrando, estes, ao padrão de pequenos ciclos infradianos (12/24) denominados, por eles, a grande circulação de energia.
As noções de desvio de comportamento e contato com a realidade, que definem a loucura, estão presentes em todos os povos. Entre os chineses os conceitos de sábio e tonto podem ser aprendidos nos provérbios de Confúcio (Analectos) ou textos de Chuang Tse e Lao Tse, a exemplo de "O velho tonto que removeu montanhas" e o "Confúcio e o louco". Na primeira fábula valoriza-se a persistência e vontade abnegada de um homem que parecia tolo por não desejar recompensas e, sobretudo por entregar-se a uma tarefa que parecia impossível (remover montanhas para encurtar uma estrada), por sinal acaba conseguindo com ajuda divina e de uma geração de seguidores. A segunda história, também recontada por Chuang Tsé cita um episódio vivido por Confúcio. Relativiza o comentário de um louco que afirma que a sabedoria só faz sentido num mundo onde seja valorizada, de certo modo reafirmado a máxima de Lao Tsé que os homens rudes riem do Tao como se fosse tolice e os homens sábios o reconhecem.


