Ísis
Ísis foi uma das principais divindades na religião do Antigo Egito cuja veneração espalhou-se também para o mundo greco-romano. Ela foi mencionada pela primeira vez no Império Antigo como uma das personagens principais do mito de Osíris, em que ressuscita seu marido, o rei Osíris, e produz e protege seu herdeiro, Hórus. Acreditava-se que Ísis ajudava os mortos a entrarem no pós-vida da mesma forma que tinha feito com Osíris, também sendo considerada como a mãe divina do faraó, que por sua vez estava ligado a Hórus. Seu auxílio materno era invocado em feitiços de cura para beneficiarem o povo comum. Ela originalmente desempenhou um papel limitado em rituais reais e templos, porém era mais proeminente em práticas funerárias e textos mágicos. Ísis era retratada artisticamente como uma mulher humana usando um hieroglifo no formato de trono em sua cabeça. Ela assumiu no Império Novo os traços que originalmente pertenciam a Hator, uma deusa importante durante o período antigo, passando assim a ser retratada usando a touca de Hator: um disco solar entre os chifres de uma vaca.
Nome e origens
Enquanto algumas divindades egípcias apareceram no final do Período Pré-Dinástico (antes de c. 3 100 a.C.), tanto Ísis quanto seu marido Osíris não foram mencionados claramente até a Quinta Dinastia (c. 2494–2 345 a.C.). Uma inscrição que talvez se refira a Ísis é datada para o reinado do faraó Raturés, com ela aparecendo proeminentemente nos Textos das Pirâmides, que começaram a ser escritos no final da Quinta Dinastia e cujo conteúdo pode ter sido desenvolvido tempos antes. Várias passagens dos textos conectam Ísis com a região do Delta do Nilo perto de Behbeit el-Hagar e Sebénito, com ela e seu culto possivelmente se originando lá.[nota 1]
Papéis
O mito sobre a morte e ressurreição de Osíris foi relatado pela primeira vez nos Textos da Pirâmides e cresceu até se tornar o mais elaborado e influente de todos os mitos egípcios. Ísis desempenha um papel mais ativo nesse mito do que os outros protagonistas, tornando-se dessa forma o personagem literário mais complexo de todas as divindades egípcias enquanto a história desenvolvia-se na literatura desde o Império Novo (c. 1550–1070 a.C.) até o Reino Ptolemaico (305–30 a.C.). Ao mesmo tempo, ela absorveu as características de muitas outras deusas, ampliando sua significância para além do mito de Osíris. Ísis fazia parte da Enéade, uma família de nove deuses descendentes do deus criador: Atum ou Rá. Ela e seus irmãos – Osíris, Seti e Néftis – eram a última geração da Enéade, nascidos de Geb, deus da terra, e Nut, deusa do céu. O deus criador, o governante original do mundo, passou sua autoridade através das gerações masculinas, assim Osíris tornou-se rei. Ísis, esposa e irmã de Osíris, era sua rainha.
Iconografia
Ísis era comumente representada na arte egípcia como uma mulher usando um vestido de bainha, um cajado de papiro em uma mão e um símbolo de ankh na outra. Seu adereço de cabeça original era o símbolo de trono usado em seu nome escrito. Ela e Néftis apareciam frequentemente juntas, particularmente ao lamentarem a morte de Osíris, apoiando em seu trono ou protegendo os sarcófagos dos mortos. Nessas situações, seus braços muitas vezes estavam sobre seus rostos em luto, ou ainda abertos ao redor de Osíris ou do morto em um sinal de seus papéis de protetoras. Nessas circunstâncias as duas eram representadas frequentemente como milhafres ou mulheres com asas de milhafre. Esta forma pode ter sido inspirada pela similaridades dos gritos dos milhares com o choro de mulheres gemendo, ou ainda como metáfora conectando a procura dos milhafres por carniça com a procura das deusas por seu irmão morto. Ísis algumas vezes aparecia na forma de outros animais: uma porca, representando seu lado maternal; uma vaca, particularmente quando conectada com Ápis; ou ainda como escorpião. Ela também assumia a forma de uma árvore ou de uma mulher surgindo de uma árvore, algumas vezes oferecendo comida e água para as almas mortas. Esta forma fazia referência ao sustento materno que proporcionava.
Veneração
Ísis originalmente era uma divindade menor na ideologia acerca do rei vivo, mesmo com toda sua importância no enredo do mito de Osíris. Por exemplo, ela desempenhava uma função pequena no Papiro Ramesseum, a escritura dos ritos de coroação realizados na ocasião da ascensão do faraó Sesóstris I do Império Médio. Sua importância cresceu no Império Novo, quando foi cada vez mais conectada com Hator e com a rainha consorte humana. O primeiro milênio a.C. viu uma ênfase cada vez maior na tríade familiar de Osíris, Ísis e Hórus, além de uma explosão no crescimento da popularidade de Ísis. No século IV a.C., o faraó Nectanebo I da Trigésima Dinastia reivindicou Ísis como sua divindade padroeira, conectando-a ainda mais com o poder político. O Reino de Cuxe, que governou a Núbia do século VIII ao IV a.C., absorveu e adaptou a ideologia egípcia que cercava a realeza. Ele igualou a deusa a Candace, a rainha ou rainha-mãe do rei.
Difusão
Cultos baseados em uma cidade ou nação em particular eram comuns pelo mundo antigo até meados do primeiro milênio a.C., quando o contato cada vez maior entre culturas diferentes permitiu que certos cultos se espalhassem mais amplamente. Os gregos tinham ciência das divindades egípcias, incluindo Ísis, desde pelo menos o Período Arcaico (c. 700–480 a.C.), com seu primeiro templo conhecido na Grécia tendo sido construído por volta do século IV a.C. por egípcios que moravam em Atenas. As conquistas de Alexandre, o Grande no final desse século criaram reinos helenísticos pelo Mediterrâneo e no Oriente Próximo, incluindo o Reino Ptolemaico no Egito, colocando religiões gregas e não-gregas em contato muito mais próximo. A difusão de culturas que se resultou permitiu que muitas tradições se espalhassem pelo mundo helenístico nos últimos três séculos antes de Cristo. Os novos cultos móveis adaptavam-se para atrair pessoas de diferentes culturas. Os cultos de Ísis e Serápis, nas formas helenizadas criadas pelos ptolemaicos, estavam entre esses cultos que expandiram-se dessa forma.
Papéis
O culto de Ísis, assim como outros no mundo greco-romano, não tinha um dogma concreto, com suas crenças e práticas permanecendo apenas vagamente similares entre si enquanto difundiam-se pela região e evoluíam com o decorrer do tempo. Aretologias gregas que elogiavam a deusa proporcionam boa parte das informações sobre esses cultos. Partes dessas aretologias eram similares às ideias presentes nos hinos egípcios posteriores, como aqueles existentes em Filas, enquanto outros elementos eram totalmente gregos. Outras informações vem de Plutarco, cujo livro Sobre Ísis e Osíris interpreta os deuses egípcios a partir de sua filosofia média platônica, enquanto vários outros trabalhos de literatura latina e grega falavam da veneração de Ísis, especialmente um romance de Apuleio conhecido como Metamorfoses ou O Asno de Ouro, que termina ao descrever como o protagonista tem uma visão da deusa e torna-se um de seus devotos.
Relações com outros deuses
Mais de uma dúzia de divindades egípcias eram veneradas em uma série de cultos inter-relacionados fora do Egito nos tempos helenístico e romano, porém eram relativamente pequenos. Dentre essas divindades, Serápis era ligado proximamente a Ísis e frequentemente aparecia junto dela em artes, porém Osíris permaneceu central no mito dela e proeminente em seus rituais. Templos para Ísis e Serápis algumas vezes ficavam lado a lado, porém era raro que um único templo fosse dedicado a ambos. Osíris parecia estranho para os gregos por ser uma divindade morta diferentemente das divindades imortais da Grécia, assim tinha um papel pequeno nos cultos egípcios na época helenística. Ele tornou-se, junto com Dioniso, um símbolo do pós-vida feliz nos tempos romanos, com o culto de Ísis focando-se cada vez mais nele. Hórus, frequentemente sob o nome de Harpócrates,[nota 6] também aparecia nos templos de Ísis como seu filho junto com Osíris ou Serápis. Ele absorveu traços de outros deuses gregos como Apolo e Eros, servindo como o deus do Sol e das colheitas. Outro membro do grupo era Anúbis, que era conectado a Hermes na forma helenizada de Hermanúbis. Algumas vezes também dizia-se que Ísis aprendeu sua sabedoria de, ou mesmo por ser a filha de, Tot, o deus egípcio da escrita e sabedoria, que era conhecido no mundo greco-romano como Hermes Trismegisto.
Iconografia
Imagens de Ísis criadas fora do Egito eram no estilo helenístico, assim como muitas de suas imagens feitas no Egito durante as épocas helenística e romana. Os atributos dela variavam muito. Algumas vezes usava o adereço de chifres de vaca de Hator na cabeça, porém os gregos e romanos diminuíram seu tamanho e frequentemente o interpretavam como uma espécie de Lua Crescente. Também usava adereços que incorporavam folhas, flores ou espigas de milho. Outros traços comuns incluíam cachos de cabelo encaracolado e um manto elaborado que era preso por um grande nó sobre seus seios,[nota 7] que originava-se de uma roupa egípcia ordinária, porém era tratada como um símbolo de Ísis fora do Egito. Nas mãos a deusa podia carregar um ureu ou sistrum, ambos tirados de sua iconografia egípcia, ou ainda uma sítula, um recipiente usado para libações de água ou leite que eram realizados nos cultos de Ísis.
Veneração
O culto de Ísis, assim como muitos outros na época, não exigia que seus devotos venerassem a deusa exclusivamente, com seus níveis de comprometimento variando bastante. Alguns devotos serviam como sacerdotes em diferentes cultos e passavam por diferentes iniciações dedicadas a deuses diferentes. Mesmo assim, muitas pessoas enfatizavam uma devoção forte para com Ísis, com alguns chegando a considerá-la o foco de suas vidas. Eles estavam entre os poucos grupos religiosos no mundo greco-romano a ter um nome distinto para si mesmos, vagamente equivalente a "judeu" ou "cristão", possivelmente indicando que eles se definiam por sua afiliação religiosa. Entretanto, a palavra – Isiacus ou "Isíaco" – era raramente usada.
Uma questão controversa sobre Ísis é se seu culto influenciou o cristianismo. Alguns costumes isíacos podem ter estado entre as práticas pagãs que foram incorporadas às tradições cristãs enquanto o Império Romano era cristianizado. Por exemplo, o historiador Andreas Alföldi argumentou que o festival medieval do Carnaval, em que um modelo de barco era carregado pelas ruas, desenvolveu-se do Navigium Isidis. Grande atenção foi prestada para a questão de se traços do cristianismo foram tirados de cultos de mistério pagãos, incluindo o de Ísis. Os membros mais devotos do culto faziam um comprometimento pessoal a deusa que consideravam superior a outros, assim como os cristãos. Tanto o cristianismo quanto o culto de Ísis tinham um rito de iniciação: o mistério de Ísis e o batismo, respectivamente. Um dos temas em comum dos cultos de mistério – um deus cuja morte e ressurreição pode estar ligada ao bem estar de seus adoradores no pós-vida – é semelhante ao tema central do cristianismo. A sugestão de que as crenças básicas do cristianismo podem ter sido tiradas de cultos de mistério tem provocado grandes debates há mais de duzentos anos. Em resposta, Hugh Bowden e Jaime Alvar, dois acadêmicos que estudaram antigos cultos de mistério, sugerem que as similaridades entre cristianismo e os cultos não surgiram pela simples tomada de ideias, mas sim por seu passado em comum: a cultura greco-romana dentro da qual os dois se desenvolveram.
A memória de Ísis sobreviveu à extinção de seu culto. Muitos europeus modernos, assim como os gregos e romanos, consideram o Antigo Egito como local de uma sabedoria profunda e por vezes mística, com essa sabedoria frequentemente sendo ligada a Ísis. A biografia de Ísis por Giovanni Boccaccio em sua obra De Mulieribus Claris de 1374, baseado em fontes clássicas, tratou a deusa como uma rainha histórica que ensinou habilidades civilizadas para a humanidade. Alguns pensadores renascentistas elaboraram esta perspectiva de Ísis. João Ânio de Viterbo afirmou na década de 1490 que ela e Osíris tinham civilizado a Península Itálica antes dos Bálcãs, dessa forma criando uma conexão direta entre sua terra natal e o Egito. Os Apartamentos Bórgia no Palácio Apostólico do Vaticano, pintados para o papa Alexandre VI, patrono de Ânio, incorporaram este mesmo tema em sua representação ilustrada do mito de Osíris.


