Abdul Karim
Mohammed Abdul Karim CIE CVO, mais conhecido como "o Munshi", foi um criado indiano da rainha Vitória do Reino Unido. Ele a serviu durante os quinze últimos anos de seu reinado, ganhando sua afeição maternal ao longo desse período.
Mohammed Abdul Karim nasceu em Lalatpur, Índia Britânica, em 1863 dentro de uma família muçulmana. Seu pai Haji Mohammed Waziruddin era um assistente hospitalar que trabalhava com o regimento de cavalaria britânica dos Cavalos Centrais Indianos. Karim tinha um irmão mais velho, Abdul Aziz, e quatro irmãs mais novas. Ele teve aulas particulares de persa e urdu, viajando quando adolescente para o norte do país e para o Emirado do Afeganistão. Waziruddin participou em agosto de 1880 da Batalha de Kandahar, o último confronto da Segunda Guerra Anglo-Afegã. Seu pai foi transferido depois da guerra para um cargo civil na Prisão Central de Agra, enquanto Karim trablhou como vakil ("agente" ou "representante") para o Nawab de Jawara na Agência de Agar. Ele pediu demissão depois de passar três anos em Agar e voltou para Acra, se tornando um atendente vernacular na prisão que seu pai trabalhava. Waziruddin arranjou um casamento para seu filho com a irmã de um colega de trabalho.
Karim e Buksh viajaram de trem de Agra até Bombaim e então pegaram um navio a vapor até o Reino Unido, chegando no Castelo de Windsor em junho de 1887. Eles foram colocados sob a supervisão de Dennehy e serviram a rainha pela primeira vez em 23 de junho durante um café da manhã na Casa Frogmore. Vitória descreveu Karim em seu diário: "O outro, mais jovem, é bem mais claro [que Buksh], alto, e com um semblante bem sério. Seu pai é um médico natural de Agra. Ambos beijaram meus pés". Vitória escreveu cinco dias depois que "Os indianos sempre esperam e fazem as coisas, tão bem e silenciosos". Em 3 de agosto ela escreveu: "Eu estou aprendendo algumas palavras em hindustâni para falar com meus criados. É de grande interesse para mim tanto pela língua quanto pelo povo, eu nunca naturalmente entrei em real contato com eles antes". Ela provou um "excelente curry" feito por um de seus criados em 20 de agosto. Karim estava ensinando urdu para a rainha por volta do dia 30, algo que ela usou em uma audiência em dezembro para receber Maharani Chimnabai de Baroda.
Karim recebeu uma licença de quatro meses em novembro de 1888 para voltar para a Índia, tempo em que ele usou para visitar seu pai. Ele escreveu para Vitória que seu pai prestes a se aposentar tinha esperanças de receber uma pensão, enquanto seu antigo chefe John Tyler aguardava uma promoção. Como resultado disso, a rainha escreveu durante os primeiros seis meses de 1889 para lorde Henry Petty-Fitzmaurice, 5.º Marquês de Lansdowne e vice-rei da Índia, exigindo ações para a pensão de Waziruddin e a promoção de Tyler. Lansdowne estava relutante em agir porque Waziruddin havia dito a sir Auckland Colvin, governador local, que desejava apenas gratidão e também porque Tyler tinha a reputação de ter um comportamento indelicado e fazer comentários mal-humorados. A ascensão de Karim criou ciúmes e descontento dentre os membros da Criadagem Real, que normalmente jamais se associariam com indianos abaixo de príncipe. Vitória esperava que todos recebessem Karim, um indiano de origem humilde, em seu meio; eles não estavam dispostos a fazer isso. Por sua parte, o Munshi esperava ser tratado como um igual. Alberto Eduardo, Príncipe de Gales, realizou em 26 de abril de 1889 um entretenimento para a rainha na Casa Sandringham e colocou Karim em uma mesa junto com outros criados. Ele se retirou sentindo-se insultado. Vitória ficou do seu lado, afirmando que Karim deveria ter ficado junto com os outros membros da criadagem. Quando Vitória compareceu aos Jogos de Braemar em 1890, seu filho o príncipe Artur, Duque de Connaught e Strathearn, foi falar com o secretário de sua mãe sir Henry Ponsonby indignado por ter visto o Munshi junto com a aristocracia. Ponsonby sugeriu que já que isso ocorreu "pela ordem da Rainha", o príncipe deveria ir falar com ela a respeito. "Isso o calou totalmente", comentou o secretário posteriormente.
A rainha encomendou em 1890 um retrato de Karim pintado por Heinrich von Angeli. De acordo com ela, von Angeli estava ansiso por pintar o Munshi já que nunca antes havia pintado um indiano e "ficou tão impressionado com seu bonito rosto e cor". Vitória escreveu em 11 de julho para lorde Lansdowne e lorde R. A. Cross, 1.º Visconde Cross e Secretário de Estado para a Índia, pedindo por "uma concessão de terra para seu jovem exemplar e excelente Munshi, Hafiz Abdul Karim". Ela não confiava que seus parentes e a criadagem iriam cuidar de Karim depois dela morrer, querendo assim assegurar seu futuro. Lansdowne respondeu dizendo que concessões de terras eram dadas apenas a soldados com um longo e distinto serviço nas formas armadas. Mesmo assim ele concordou em encontrar terras para Karim que lhe dariam uma renda de seiscentas rúpias anuais, a mesma quantia que um soldado poderia receber se tivesse um histórico exemplar. Vitória escreveu várias vezes para o vice-rei entre julho e outubro, pressionando-o pela concessão. Existiam poucas terras controlas pelo governo perto de Acra que não eram terrenos baldios; assim Landowne estava tendo problemas em encontrar um terreno adequado. O Munshi deixou Balmoral em 30 de outubro para uma licença de quatro meses na Índia, viajando no mesmo navio de Maud Hamilton, Marquesa de Lansdowne. Lorde Lansdowne telegrafou para a rainha no mesmo dia para lhe informar que finalmente havia conseguido encontrar uma concessão de terras nos subúrbios de Agra. Como ele escreveu para a soberana:
Karim era visto como alguém que tinha se aproveitado de sua posição como favorito da rainha, tendo subido bem acima de sua função como empregado subalterno, causando grande ressentimento na corte. Ele publicou uma propaganda no jornal Florence Gazette durante sua viagem pela Itália, afirmando que "[ele] pertence a uma família boa e altamente respeitada". O Munshi se recusava a viajar com os outros indianos e se apropriou de um banheiro das damas de companhia para seu uso exclusivo. Ele se recusou a comparecer em Coburgo ao casamento da princesa Vitória Melita de Saxe-Coburgo-Gota pois o pai dela, o príncipe Alfredo, Duque de Saxe-Coburgo-Gota, havia lhe designado um lugar na galeria com outros criados. A rainha defendeu seu favorito apesar de enfrentar oposição de sua família. Vitória escreveu para seu secretário sir Henry Ponsoby: "é realmente ultrajante inventar que o pobre e bom Munshi é tão baixo & é completamente fora de lugar em um país como a Inglaterra ... Ela conheceu 2 Arcebispos que eram respectivamente filhos de um Açougueiro & um Quitandeiro ... o pai de Abdul viu um serviço bom & honorável como Dr. & ele [Karim] sente o coração partido por falarem dessa maneira".
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Karim conseguiu finalizar em 1898 a compra de uma porção de terra adjacente a sua concessão anterior; ele havia se tornado um homem rico. Reid afirma em seu diário que havia desafiado o Munshi sobre suas questões financeiras: "Você disse para a Rainha que nenhum recibo é entregue por dinheiro na Índia, e dessa forma você não precisa dar um para Sir F Edwards [Guardião da Bolsa Privada]. Isto é uma mentira e significa que você deseja enganar a Rainha". Karim disse para Vitória que arranjaria os recibos para responder contra as alegações, com a rainha escrevendo a Reid dispensando as acusações, chamando-as de "envergonhosas". Karim pediu para Vitória lhe conferir o título de "Nababo", o equivalente indiano de pariato, e o nomear um Cavaleiro Comandante da Ordem do Império Indiano (KCIB), algo que lhe faria "Sir Abdul Karim". Elgin ficou horrorizado e sugeriu que ele fosse nomeado membro da Real Ordem Vitoriana (MVO), que seria um presente pessoal da rainha, sem nenhum título, algo que não traria nenhuma implicação política na Índia. Sir Fletwood Edwards e lorde Salisbury aconselharam até mesmo contra a honraria menor. Mesmo assim, Vitória nomeou Karim em 1899 em seu octagésimo aniversário como comandante da ordem (CVO), uma patente intermediária entre membro e cavaleiro.
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Como Karim não teve filhos, seus sobrinhos herderam suas propriedades e riquezas. Sua família continuou a viver em Agra até a independência e partição da Índia em agosto de 1947, quando imigraram para o Paquistão. A propriedade foi confiscada pelo governo indiano e distribuída para refugiados hindus paquistaneses. Metade da casa foi subsequentemente dividida em duas residências individuais, enquanto que a outra metade se tornou uma casa de repouso e um consultório médico. Havia pouquíssimo material biográfico sobre Karim até a publicação das memórias de Frederick Ponsonby em 1951. Examinações acadêmicas sobre sua vida e relação com Vitória começaram por volta da década de 1960, focando-se no Munshi como "uma ilustração para os preconceitos de raça e classe na Inglaterra Vitoriana". Mary Lutyens, ao editar o diário de sua avó Edith (esposa de Robert Bulwer-Lytton, 1.º Conde de Lytton e vice-rei da Índia entre 1876 e 1880), concluiu que "Embora se possa entender que o Munshi era mal visto, como os favoritos quase sempre são ... Não se pode deixar de sentir que a repugnância com que ele foi considerado pela Criadagem era baseada principalmente em esnobismo e preconceitos de cor". Elizabeth Longford escreveu que "Abdul Karim mais uma vez agitou a mesma imaginação real que havia magnificado as virtudes de John Brown ... Mesmo assim, insinuou-se dentro da confiança dela uma pessoa inferior, ao mesmo tempo que aumentou a paixão atordoada da nação com um sonho inferior, o sonho do Império Colonial".


