Bárbara de Alencar
Bárbara Pereira de Alencar foi uma comerciante e revolucionária brasileira. Primeira presa política do Brasil, é considerada uma heroína da Revolução Pernambucana e da Confederação do Equador.
Bárbara Pereira de Alencar nasceu no dia 11 de fevereiro de 1760 em Senhor Bom Jesus dos Aflitos de Exu, sertão de Pernambuco, na Fazenda Caiçara — pertencente ao patriarca da família Alencar, o português Leonel Alencar Rego, seu avô. Adolescente, Bárbara se mudou para a então vila do Crato, no Ceará, casando-se com o comerciante português José Gonçalves do Santos. A heroína republicana era mãe dos também revolucionários José Martiniano Pereira de Alencar e Tristão Gonçalves e avó do escritor José de Alencar, além de quinta avó do escritor Paulo Coelho. Seu pai, juntamente a outros de seus antecedentes, fundaram a cidade de Exu. Constata-se que é nesse momento que os Alencar começam a fazer fortuna com a criação de gado e o cultivo de algodão e cana-de-açúcar, e, mediante a dinâmica econômica do período, vão estendendo seus domínios por Pernambuco e Ceará, principalmente pelos interiores, e com isso vão ganhando visibilidade, respeito e influência.
Imagem: in-test-in · BY-NC-SA · Openverse
Acerca do processo de Independência do Brasil, a historiografia continuamente segue o padrão de invisibilizar mulheres, para tal engendram a narrativa de não conceber o devido mérito, ao reconhecer a participação e importância destas figuras femininas nesse processo, como em tantos outros. Em um período anterior as problematizações historiográficas trazidas a partir do movimento feminista, cabe inferir uma percepção de que a história de amplo conhecimento popular foi escrita a partir de um ponto de vista estritamente elitista. Homens brancos e de classe alta tomavam conta das narrativas historiográficas, sendo sempre colocados como protagonistas e qualquer outra personalidade atuante que não fosse pertencente a este restrito grupo deixava de ser retratado e tinha sua narrativa invisibilizada. Subsumido a esta problemática, vale destacar a figura de Bárbara de Alencar, possuidora de uma importante atuação no processo de emancipação do Brasil e hoje lembrada como símbolo de resistência e força feminina. Esse reconhecimento veio após muita reivindicação e no caso de Bárbara há o ponto de que apesar do gênero, foi uma mulher branca que veio de uma importante família no sertão e detinha bens. Dito isso, cabe pensar em outras mulheres que também fizeram parte desse processo de independência no Brasil. Recorrendo a uma breve sondagem historiográfica, é possível encontrar nomes muito conhecidos como Maria Quitéria, que se vestiu de homem para poder participar ativamente nas batalhas da independência no século XIX, mesmo sendo proibida por seu pai e na época em que viveu, mulheres no campo de batalha era algo incomum e inapropriado na visão geral.
Imagem: in-test-in · BY-NC-SA · Openverse
Que Bárbara de Alencar foi uma personagem importante para o imaginário regional nordestino e representa, até hoje, uma mulher revolucionária e que não se deixou abater pelo protagonismo político masculino, já sabemos. Mas o que Bárbara representa para a Revolução do Crato (Ceará) e cenário para a luta da mulher até hoje lembrada como a primeira presa política do Brasil? Bem, primeiramente urge ressaltar que a Revolução, ou Insurreição, do Crato acontecia sob o contexto da Revolução Pernambucana de 1817, que espalhara seus ideais sociopolíticos por diversas partes do nordeste brasileiro. A partir disso, a Proclamação da República do Crato aconteceu no dia 04 de maio de 1817 e marcava o início de um levante que duraria, no total, oito dias. A independência e a luta por emancipação não definiam Bárbara de Alencar apenas no aspecto de sua vida pessoal; sua participação na vida pública brasileira ia na contramão de interesses políticos do regime monárquico, o que por si só aponta para a justificativa do simbolismo heroico que permeia seu nome até hoje. É pela frente liderada por Bárbara e sua família que a população cratense se inflama contra o regime vigente, de tal modo que a movimentação já chegou a ser chamada de Revolução dos Alencares. A Revolução de 1817 ainda é considerada uma das mais ousadas e radicais tentativas de enfrentamento vividas pela monarquia portuguesa. Ter a representação de uma mulher em sua organização permite alargar a discussão das lutas por independência no Brasil sob outra perspectiva.
Imagem: in-test-in · BY-NC-SA · Openverse
Em 1980 o escritor Caetano Ximenes de Aragão publicou o épico livro-poema Romanceiro de Bárbara sobre a Confederação do Equador com ênfase na saga desta heroína em 77 poesias, recentemente reeditado pela secretaria de cultura do Ceará sob a coleção Luz do Ceará.
Imagem: in-test-in · BY-NC-SA · Openverse
A inclusão de Bárbara de Alencar no livro de Heróis e Heroínas da Pátria, que antes possuía apenas como personagens os heróis da pátria, veio a partir de uma de suas descendentes, a então deputada federal Ana Arraes, através de um projeto de lei que visa enaltecer sua ancestral e trazer visibilidade para a importância de suas ações durante o processo de independência no Brasil. Hoje em dia o Livros de Heróis e Heroínas da Pátria conta com mais de 40 nomes no total, em sua maioria homens. A inclusão de Bárbara no local onde é reservado para figuras heróicas na história do Brasil é uma forma de reconhecimento por ações que em sua época lhe renderam apenas o título de traidora e fizeram com que fosse aprisionada. A intitulação deste projeto que a partir de Bárbara de Alencar foi abrindo espaço para o reconhecimento de outras heroínas da pátria chama-se Projeto de Lei n. 522/2011, de autoria da ex-deputada Ana Arraes e atual vice Presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), que "Inscreve o nome de Bárbara Pereira de Alencar no “Livro dos Heróis da Pátria”, depositado no Panteão da Liberdade e da Democracia, em Brasília".
Imagem: in-test-in · BY-NC-SA · Openverse
Em seu amplo legado político, Bárbara de Alencar é lembrada como a figura de uma mulher comprometida com a causa libertária, possuindo importante participação em eventos com esse caráter no nordeste brasileiro. Embora sua história tenha sido omitida dos livros durante muito tempo, com recentes trabalhos de pesquisa histórica sobre os feitos de Bárbara estão sendo cada vez mais difundidos e utilizados como referência na luta feminina na política. Atualmente, Bárbara é tida como a primeira presa política do Brasil, símbolo do pioneirismo político-social que lançou bases para futuras inserções de mulheres na política e conquista de direitos para elas. As recentes notícias da perpetuação da personalidade histórica de Bárbara, tange às comemorações e eventos que celebram conquistas femininas, dentro e fora da política.


