William-Adolphe Bouguereau
William-Adolphe Bouguereau foi um professor e pintor acadêmico francês. Com um talento manifesto desde a infância, recebeu treinamento artístico em uma das mais prestigiadas escolas de arte de seu tempo, a Escola de Belas Artes de Paris, onde veio a ser mais tarde professor muito requisitado, ensinando também na Academia Julian. Sua carreira floresceu no período áureo do academicismo, sistema de ensino do qual foi um ardente defensor e do qual foi um dos mais típicos representantes.
Primeiros anos
William-Adolphe Bouguereau nasceu em uma família que havia se radicado em La Rochelle desde o século XVI. Seus pais foram Théodore Bouguereau e Marie Marguérite Bonnin. Em 1832 a família se mudou para Saint-Martin, a principal cidade da ilha de Ré, onde o pai decidiu iniciar um negócio no porto. O menino foi matriculado na escola, mas passava grande parte do tempo desenhando. O negócio não resultou muito lucrativo, a família teve dificuldades econômicas, e por isso encaminharam-no para viver com seu tio, Eugène Bouguereau, cura da paróquia de Mortagne sur Gironde. Eugène tinha cultura e introduziu seu pupilo nos clássicos, na literatura francesa e na leitura da Bíblia, além de dar-lhe aulas de latim, ensiná-lo a caçar e montar e despertar-lhe o amor à natureza.
Aperfeiçoamento e início da carreira
Através de seu tio, recebeu uma encomenda para pintar retratos de paroquianos, e com a renda dos trabalhos, mais uma carta de recomendação de Alaux, pôde, em 1846, se dirigir a Paris e ingressar na Escola de Belas Artes. François-Édouard Picot o recebeu como discípulo e com ele Bouguereau se aperfeiçoou no método acadêmico. Na época, disse que ingressar na escola o deixou "transbordante de entusiasmo", estudando até vinte horas diárias e mal se alimentando. Para se aprimorar no desenho anatômico assistia a dissecções, além de estudar história e arqueologia. Seu progresso foi, assim, muito rápido, e obras desta fase, como Igualdade diante da morte (1848), já são trabalhos perfeitamente acabados, tanto que no mesmo ano dividiu a primeira colocação, junto com Gustave Boulanger, na etapa preliminar do Prêmio de Roma. Em 1850 venceu a disputa final para o Prêmio, com a obra Zenóbia encontrada por pastores nas margens do Araxe.
Transição estilística e consagração
Enquanto que sua produção inicial havia privilegiado os grandes temas históricos e religiosos, seguindo a tradição acadêmica, o gosto do público começava a mudar e na década de 1860 sua pintura evidencia uma transformação, aprofundando-se no estudo da cor, preocupando-se com um acabamento técnico de elevada qualidade e consolidando uma obra de maior apelo popular, pela qual ficaria mais conhecido. Realizou decorações na igreja dos agostinhos de Paris e na sala de concertos do Grand-Théâtre de Bordeaux, sempre realizando outras obras paralelamente, que neste período são tintas de certa melancolia. Também estabeleceu fortes laços com Jean-Marie Fortuné Durand, seu filho Paul Durand-Ruel e Adolphe Goupil, conhecidos marchands, participando ativamente dos Salões. Suas obras tinham boa aceitação e logo sua fama se expandiu para a Inglaterra, possibilitando-lhe adquirir uma grande casa com atelier em Montparnasse. Em 1864 nasceu um segundo filho, chamado Paul.
Anos finais
Bouguereau tinha opiniões firmes e em mais de uma vez travou embates com o público, com seus colegas e a crítica. Em 1889 entrou em choque com o grupo reunido em torno do pintor Ernest Meissonier a respeito do regulamento dos Salões, o que acabou resultando na criação da Sociedade Nacional das Belas Artes, que manteve um Salão dissidente. Em 1891 os alemães convidaram artistas franceses para expor em Berlim, e Bouguereau foi um dos poucos que aceitou, dizendo que sentia ser um dever patriótico penetrar na Alemanha e conquistá-la através do pincel. Isso não obstante despertou a ira da Liga dos Patriotas de Paris, e Paul Déroulède iniciou uma guerra contra ele na imprensa. Por outro lado, o sucesso de Bouguereau na organização de uma mostra de artistas franceses na Royal Academy de Londres teve como efeito a criação de um evento permanente, de repetição anual.
Contexto
Bouguereau floresceu no auge do academismo, um método de ensino nascido no século XVI e que em meados do século XIX chegara a obter uma influência dominante. Baseava-se no conceito fundamental de que a arte pode ser integralmente ensinada através da sua sistematização em um corpo comunicável de teoria e prática, minimizando a importância da originalidade. As academias valorizavam acima de tudo a autoridade dos mestres consagrados, venerando de modo especial a tradição clássica, e adotavam conceitos que possuíam, além de um caráter estético, também um fundo ético e um propósito pedagógico, produzindo uma arte que almejava educar o público e assim transformar a sociedade para melhor. Também tiveram um papel fundamental na organização de todo o sistema de arte, pois além do ensino monopolizaram a ideologia cultural, o gosto, a crítica, o mercado e as vias de exibição e difusão da produção artística, e estimularam a formação de coleções didáticas que acabaram por ser a origem de muitos museus de arte. Essa vasta influência se deveu principalmente à sua dependência do poder constituído dos Estados, sendo via de regra veículos para a divulgação e consagração de ideários não apenas artísticos, mas também políticos e sociais.
O mercado e a consolidação do seu estilo
Mesmo que o sistema acadêmico sempre desse grande valor à tradição clássica, a partir da década de 1860, por influência da classe média, que se tornava um importante público nos Salões e passava a comprar arte, as academias já experimentavam significativa modificação em suas ênfases. Havia na época um interesse geral pela busca da verdade e de como ela podia ser comunicada na arte. As academias já não conseguiam manter seu antigo programa de oferecer ao público apenas temas considerados pela elite governante como nobres e elevados, tipificados nas obras históricas, mitológicas, alegóricas e religiosas em abordagens impessoais e solenes. Nas palavras de Naomi Maurer, "embora antes potentes, esses temas já tinham pouca ou nenhuma relevância para um público secularizado que combinava ceticismo sobre a religião com uma ignorância das alusões clássicas, cujo simbolismo era raramente compreendido". Mas não só isso. Outros elementos contribuíram para essa diversificação. O cotidiano passava a ser um assunto digno de representação artística, desenvolvia-se o conceito de arte pela arte, libertando-a da tutela da moral e da utilidade pública, o pitoresco surgia como um valor estético por direito próprio, aumentava o interesse pela Idade Média, pelo exotismo do oriente, pelos folclores nacionais, pelo artesanato e as artes aplicadas, abrindo outras avenidas para a apreciação estética e encontrando outras verdades dignas de apreço, que haviam sido antes desprezadas pela cultura oficial. Por fim, o apoio dos burgueses aos acadêmicos era também uma forma de aproximar-se deles e revestir-se de um pouco de seu prestígio, indicando um desejo de ascensão social. O interesse na proposta acadêmica de modo geral permaneceu, pela grande reputação da escola e pelo alto nível de qualidade do seu produto, mas foi preciso que ela se adaptasse oferecendo não apenas uma variação temática, mas um novo estilo de apresentação desses novos temas, resultando numa sedutora combinação de beleza idealizada, superfícies polidas, sentimentalismo fácil, acabamentos detalhados, efeitos decorativos, cenas de costumes, paisagens exóticas e às vezes um erotismo picante. Essa mudança de mentalidade foi tão importante que, como Bouguereau expressou em uma entrevista de 1891, determinou uma transformação em seu trabalho:
Método e técnica
Como todo acadêmico de seu tempo, passou por um aprendizado sistemático e graduado, estudando os mestres consagrados e as técnicas de seu ofício. A proficiência no desenho era indispensável, era ela a base de toda a obra acadêmica, tanto por estruturar toda a composição quanto por possibilitar, nas etapas iniciais, a exploração de uma ideia sob os mais variados aspectos, antes de se chegar a um resultado definitivo. Naturalmente, seu método de trabalho incluía a realização de inúmeros esboços preparatórios, numa construção minuciosa de todas as figuras e fundos. Da mesma forma era fundamental o perfeito domínio da representação do corpo humano, uma vez que todas as obras eram figurativas e centradas nas ações do homem ou de deuses mitológicos antropomórficos. A impressionante suavidade de textura na descrição pictórica da pele humana e a delicadeza de formas e gestos que obtinha nas mãos, pés e faces eram especialmente admiradas. Um cronista anônimo deixou sua impressão:
Obras eróticas
Entre as mudanças no universo acadêmico trazidas pela burguesia, surgiu a demanda por obras de conteúdo erótico. Isso explica a grande presença do nu em sua obra e vários estudiosos contemporâneos têm se interessado por este aspecto de sua produção. Theodore Zeldin afirmou que a despeito da inegável cultura clássica que tinha, mesmo suas obras mitológicas não tratam dos deuses e deusas em si, mas são simples pretextos para a exibição de belos corpos femininos com suas peles acetinadas, o que, segundo o autor, pode ser confirmado pelo seu hábito de só escolher nomes para as telas depois de terminadas, em longas conversas com sua esposa que muitas vezes acabavam em risadas. Entre suas cenas mitológicas com nus mais conhecidas estão A juventude de Baco, onde uma profusão de nus e figuras semivestidas se deleita e diverte em torno do deus do vinho e do êxtase, e Ninfas e sátiro, em que quatro ninfas nuas de corpos esculturais tentam seduzir a criatura mitológica conhecida por sua lubricidade.
Obras religiosas e históricas
A produção sacra de Bouguereau constitui minoria no conjunto de sua obra, mas deve pelo menos ser feita uma referência breve a este grupo temático. Trabalhou de modo mais enfático no gênero sacro antes da década de 1860, considerando-o "o sustentáculo da Grande Pintura" e dando-lhe um tratamento conservador e grandiloquente que o filiava à escola classicista de Rafael e Poussin. Suas obras religiosas eram muito estimadas e Bonnin, um crítico da época, elogiou a autenticidade de seu sentimento cristão e a nobreza de suas figuras, como expressas na Pietà, considerando-as de melhor inspiração do que as suas criações profanas. Aparentada à Pietà é a Virgem da Consolação, uma composição solene e hierática que remete à arte bizantina, onde a Virgem Maria acolhe em seu regaço uma mãe desolada que tem o filho morto a seus pés. Foi pintada logo após a Guerra Franco-prussiana, homenageando as mães francesas que haviam perdido seus filhos no conflito. Depois seu interesse se voltou para outras áreas, e o próprio artista reconheceu que o mercado para este tipo de arte rapidamente declinava, numa tendência que já em 1846 Théophile Gautier havia detectado.
Retratos
Muito apreciados em sua vida, seus retratos são em geral representações românticas, mostrando uma notável capacidade de captar as emoções e o espírito do sujeito. Neste campo aparentemente ele se sentia mais livre de convenções, e pôde explorar a figura com franqueza e sem ter de referenciá-la com a tradição clássica. Seus retratos, além disso, foram importantes modelos para estimular a produção artística feminina e viabilizar sua inserção no mercado. Iniciou no gênero ainda jovem, retratando pessoas de sua região natal, foi retratista imperial e uma de suas criações mais celebradas é o Retrato de Aristide Boucicaut, de grande rigor formal.
Em sua carreira de professor, em que formou inúmeros alunos, adotou o mesmo método em que fora educado, que exigia uma rigorosa disciplina, um estudo aprofundado dos mestres antigos e da natureza e um perfeito domínio das técnicas e materiais. No método acadêmico não havia lugar para o improviso. Como ele disse certa vez para seus alunos: "Antes de iniciarem o trabalho, mergulhem no sujeito da obra; se vocês não o compreendem, estudem mais, ou busquem um outro tema. Lembrem que tudo deve ser planejado de antemão, até os menores detalhes". Isso não quer dizer que fosse dogmático. Embora encarecesse a necessidade de um treinamento completo e intensa dedicação ao trabalho, segundo Zeldin ele "não instilava doutrinas em seus discípulos, ele os incentivava a seguirem seu pendor natural e encontrarem sua própria originalidade através da pesquisa individual e do desenvolvimento de seus talentos especiais. Pensava que não havia sentido em tentar produzir pintores segundo o modelo renascentista.... Ele próprio não demonstrava interesse em filosofia, em política ou em literatura; não dava importância para teorias sobre pintura e rejeitava análises prolongadas". O próprio artista escreveu:
Fama e descrédito
No início não tinha certeza de seu valor. Em nota escrita em 1848, quando tinha 23 anos, ansiava por ser capaz de criar obras "dignas de um homem adulto". Contudo, com o tempo passou a ser mais confiante: "Meu coração está aberto à esperança, tenho fé em mim mesmo. Não, os árduos estudos não foram inúteis, a estrada que palmilho é boa, e com a ajuda de Deus conquistarei a glória". De fato a conquistou. Trabalhando incansavelmente, e sendo altamente disciplinado e metódico, tornou-se rico, famoso e deixou obra vasta, com 828 peças catalogadas. Ao longo da maior parte de sua carreira Bouguereau foi considerado um dos maiores pintores vivos e a mais perfeita corporificação do ideal acadêmico, sendo comparado a Rafael. Sua feliz combinação de idealismo com realismo era muito admirada, e Gautier disse que ninguém podia ser ao mesmo tempo tão moderno e tão grego. Suas obras atingiam preços astronômicos, e corria uma anedota de que ele perdia cinco francos a cada vez que largava os pincéis para ir urinar. Educou uma legião de discípulos e tê-lo como mestre era quase sempre um passaporte garantido para uma colocação no mercado. Dominou os Salões parisienses numa época em que Paris era a Meca da arte ocidental e em seus tempos de glória sua fama dentro da França só era comparável à do presidente da República. Os colecionadores norteamericanos o tinham como o melhor pintor francês de seu tempo, e era muito apreciado também na Holanda e Espanha.
Uma reabilitação polêmica
Sua reabilitação começou em 1974, quando foi montada uma exposição no Museu de Luxemburgo, que causou alguma sensação. No ano seguinte o New York Cultural Center realizou uma retrospectiva. John Ashbery, comentando-a em um artigo da New York Magazine, disse que sua obra era totalmente vazia. Dez anos depois sua produção foi objeto de uma grande mostra retrospectiva que itinerou pelo Petit Palais de Paris, o Museu de Belas Artes de Montreal e o Wadsworth Atheneum em Hartford. Embora a curadora do Petit Palais tenha alegado que era tempo de revisar sua obra e desfazer certos mitos modernistas, a articulista Vivien Raynor, do The New York Times, recebeu a exposição com ceticismo, dizendo que ele continuava sendo um pintor banal e entediante. Da mesma forma, a inauguração do Museu d'Orsay em 1986, devolvendo visibilidade a inúmeros acadêmicos há muito esquecidos, entre eles Bouguereau, se tornou um pomo de discórdia no mundo da arte.
Distinções
Os esforços artísticos de Bouguereau foram amplamente reconhecidos em sua vida, obtendo grande número de distinções oficiais:


