Recife
Recife é a capital do estado brasileiro de Pernambuco, na Região Nordeste do país. Com área territorial de aproximadamente 218 km², é formado por uma planície aluvial, tendo as ilhas, penínsulas e manguezais como suas principais características geográficas. Cidade nordestina com o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH-M), o Recife é a quarta capital brasileira na hierarquia da gestão federal, após Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, e possui o quinto aglomerado urbano mais populoso do Brasil, com 3,7 milhões de habitantes em 2022, superado apenas pelas concentrações urbanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília. A capital pernambucana tem, num raio de 300 km, três capitais estaduais sob sua influência direta: João Pessoa (122 km), Maceió (257 km) e Natal (286 km).
Arrecife é a forma antiga do vocábulo recife, ambos originários do árabe ár-raçif, que significa calçada, caminho pavimentado, linha de escolhos, dique, paredão, cais, molhe. Em sua forma arcaica, “arracefe”, o vocábulo já era utilizado em 1258, segundo registra o dicionarista José Pedro Machado. Assim, o topônimo da atual cidade do Recife resulta do acidente geográfico, cuja designação é registrada pela primeira vez no diário de Pero Lopes de Sousa, que denominou o seu porto natural de “Barra dos Arrecifes” (1532), e no chamado Foral de Olinda (1537), no qual o primeiro donatário, Duarte Coelho, nomeia-o “ribeiro do mar dos Arrecifes dos Navios”. No mapa do cartógrafo João Teixeira Albernaz (1618) o local encontra-se registrado como “Lugar do Recife”, menção certa aos primórdios da antiga povoação, depois chamada Vila de Santo Antônio do Recife (1709) e, finalmente, cidade do Recife (1823).
O Recife, sim! Recife, não!
Geralmente, o nome do município dentro de frases é antecedido de artigo masculino, como acontece com os municípios do Rio de Janeiro, do Crato, do Cabo de Santo Agostinho, entre outros. A esse respeito, muitos intelectuais recifenses e pernambucanos já se pronunciaram, entre eles Gilberto Freyre, em seu livro "O Recife, sim! Recife, não!"[nota 1], e Edmir Domingues, no seu poema Didaktikós, incluído no seu livro O Domador de Palavras.[nota 2] Sobre a posição correta do artigo masculino antes do topônimo "Recife", assim se pronunciou o historiador pernambucano José Antônio Gonsalves de Mello: .mw-parser-output .flexquote{display:flex;flex-direction:column;background-color:#F1F1F1;border-left:3px solid #C7C7C7;font-size:100%;margin:1em 4em;padding:.4em .8em}.mw-parser-output .flexquote>.flex{display:flex;flex-direction:row}.mw-parser-output .flexquote>.flex>.quote{width:100%}.mw-parser-output .flexquote>.flex>.separator{border-left:1px solid #C7C7C7;border-top:1px solid #C7C7C7;margin:.4em .8em}.mw-parser-output .flexquote>.cite{text-align:right}@media all and (max-width:600px){.mw-parser-output .flexquote>.flex{flex-direction:column}}@media screen{html.skin-theme-clientpref-night .mw-parser-output .flexquote{background-color:transparent}}@media screen and (prefers-color-scheme:dark){html.skin-theme-clientpref-os .mw-parser-output .flexquote{background-color:transparent}}
Primeiros povos e colonização portuguesa
Por volta do ano 1000, os índios tapuias que ocupavam a região da atual cidade do Recife foram expulsos para o interior do continente por povos tupis procedentes da Amazônia. Quando os europeus chegaram à região, no século XVI, ela era ocupada pelo povo tupi dos caetés. A atual área metropolitana do Recife foi palco de muitos dos primeiros fatos históricos do Novo Mundo: no Cabo de Santo Agostinho ocorreu o descobrimento pré-cabralino do Brasil pelo navegador espanhol Vicente Yáñez Pinzón, no dia 26 de janeiro de 1500; e na Ilha de Itamaracá estabeleceu-se, em 1516, o primeiro "Governador das Partes do Brasil", Pero Capico, que ali construiu o primeiro engenho de açúcar de que se tem notícia na América portuguesa.
Saque do Recife (1595)
O Saque do Recife, também conhecido como "Expedição Pernambucana de Lancaster", foi um episódio da Guerra Anglo-Espanhola ocorrido em 1595 no porto do Recife. Liderada pelo almirante inglês James Lancaster, foi a única expedição de corso da Inglaterra que teve como objetivo principal o Brasil e representou o mais rico butim da história da navegação de corso do período elisabetano. Poucos anos após derrotarem a Invencível Armada espanhola, em 1588, os ingleses tiveram acesso a manuscritos portugueses e espanhóis que detalhavam a costa do Brasil. Um deles, de autoria do mercador português Lopes Vaz, veio a ser publicado em inglês e enfatizava as qualidades da rica vila de Olinda ao dizer que "Pernambuco é a mais importante cidade de toda aquela costa". A expedição de James Lancaster saiu de Blackwall, na Grande Londres, em outubro de 1594, e navegou através do Atlântico capturando numerosos navios antes de atingir Pernambuco. Ao chegar, Lancaster tomou o porto do Recife e nele permaneceu por quase um mês, derrotando uma série de contra-ataques portugueses antes de sair. O montante de açúcar, pau-brasil, algodão e mercadorias de alto preço saqueado foi robusto, obrigando-o a fretar navios holandeses e franceses que lá estavam para levar as mercadorias para a Inglaterra.
Invasão holandesa (1630-1654)
Em 1630, a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais invade a Capitania de Pernambuco, então a mais rica capitania do Brasil Colônia e maior produtora de açúcar do mundo. No Recife, foi iniciada a construção de Mauritsstad (Cidade Maurícia, ou Mauriceia), a capital do Brasil Holandês durante 24 anos, que foi governada de 1637 a 1644 pelo conde alemão (a serviço da coroa holandesa) Maurício de Nassau. O império holandês na América era composto na época por uma cadeia de fortalezas que iam do Ceará à embocadura do rio São Francisco, ao sul de Alagoas. Os holandeses também possuíam uma série de feitorias na Costa da Mina e em Angola, situadas no outro lado do Atlântico, o que lhes dava controle sobre o açúcar e o tráfico negreiro, administradas pela Companhia das Índias Ocidentais.
Revoltas e revoluções em Pernambuco (séculos XVII ao XIX)
Com o término da Insurreição Pernambucana, a Capitania de Pernambuco lutava por reconstruir Recife e Olinda, ambas destruídas com as lutas contra os invasores holandeses. É nesse cenário que se inicia uma outra etapa da história recifense, marcada por diversos episódios de relevo na história do Brasil. Entre a segunda metade do período de dominação portuguesa e o período imperial, a cabeça de Zumbi dos Palmares (cortada após sua morte) foi exposta em praça pública no Recife e ocorreram importantes movimentos na atual capital pernambucana, como a Conjuração de "Nosso Pai", a Guerra dos Mascates, a Revolução Pernambucana, a Convenção de Beberibe, a Confederação do Equador e a Revolução Praieira.
Século XX à atualidade
No início do século XX, o Recife era ainda uma cidade muito influente: só perdia em importância político-econômica para o Rio de Janeiro. Iniciou-se então um período de agitação cultural, e a Belle Époque mostrou a busca de novas linguagens para traduzir as velozes mudanças trazidas pelas novas técnicas. Nos anos 1910, a cidade pretendia tornar-se moderna por meio da reforma do porto e da construção de largas avenidas, sem a devida preocupação com a preservação dos edifícios históricos, muitos dos quais completamente demolidos. Como em todo o Brasil, o modernismo não afetou as graves diferenças sociais. Os recifenses tinham até os meados do século uma forte influência cultural francesa.
O Recife é a capital do sétimo estado mais populoso do Brasil, Pernambuco, situando-se próximo ao paralelo 8º04'03'' sul e do meridiano 34º55'00'' oeste. Ocupa uma área de 218,843 quilômetros quadrados. Sede da Região Metropolitana do Recife (RMR), a capital pernambucana possui a quarta maior rede urbana do Brasil em população, com área de influência direta que abrange os estados de Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte (este último junto com Fortaleza), avançando ainda sobre o norte da Bahia (junto com Salvador). De acordo com a divisão regional vigente desde 2017, instituída pelo IBGE, o município pertence às Regiões Geográficas Intermediária e Imediata do Recife. Até então, com a vigência das divisões em microrregiões e mesorregiões, fazia parte da microrregião do Recife, que por sua vez estava incluída na mesorregião Metropolitana do Recife. O Recife faz divisas com os municípios de Jaboatão dos Guararapes a sul e oeste, São Lourenço da Mata e Camaragibe a oeste, Paulista e Olinda a oeste e norte.
Geologia e relevo
A cidade do Recife está situada sobre uma planície aluvional (fluviomarinha), constituída por ilhas, penínsulas, alagados e manguezais envolvidos por cinco rios: Beberibe, Capibaribe, Tejipió e braços do Jaboatão e do Pirapama, conferindo-lhe características peculiares. Essa planície é circundada por colinas em arco que se estendem do norte ao sul, de Olinda até Jaboatão. A altitude média em relação ao nível do mar é de quatro metros, sendo a cidade mais baixa do Brasil. Sua área territorial é composta de 67,43% de morros, 23,26% de planícies, 9,31% de áreas alagadas (aquáticas) e 5,58% de zonas especiais de preservação ambiental (ZEPA). Os limites da cidade são: ao sul, morros com altitudes variadas, a exemplo do Morro dos Guararapes, que se prolongam desde Jaboatão dos Guararapes até Olinda; a leste, o litoral, que é guarnecido por extensos cordões de arenito (arrecifes); e a oeste, os municípios de Camaragibe e São Lourenço da Mata.
Hidrografia
O Recife é conhecido como "Veneza Brasileira" graças à semelhança fluvial de sua área mais central com a cidade europeia de Veneza. Cercado por rios e cortado por pontes, é cheio de ilhas e mangues. Na cidade acontece o encontro dos rios Beberibe e Capibaribe que deságuam no Oceano Atlântico. O município conta com dezenas de pontes, entre elas a mais antiga da América Latina, a Ponte Maurício de Nassau. Na vasta rede de rios e canais da metrópole pernambucana se destacam as bacias dos rios Capibaribe, Beberibe, Tejipió e um sistema de drenagem composto por uma série de cursos d’água secundários ou canais, afluentes ou interligados à drenagem principal. Sua malha hídrica é composta por cursos d’água como os rios Moxotó, Jangadinha, Jiquiá e Jordão, além de diversos canais, e recebe ainda a contribuição do rio Capibaribe pelo seu "braço morto", e também de corpos d’água de expressão em áreas como a Lagoa do Araçá, o Açude da Várzea e o Açude Jangadinha.
Clima
O Recife tem um clima tropical úmido (tipo As' na classificação climática de Köppen-Geiger), típico do litoral leste nordestino, apresentando elevada umidade relativa do ar (URA), precipitações abundantes na maior parte do ano e baixas amplitudes térmicas. As temperaturas mais elevadas são registradas nos meses de verão, passando dos 30 °C, com muito sol, enquanto as menores normalmente ocorrem em julho e agosto, com muita nebulosidade e precipitação, chegando a baixar para 20 °C ou menos. O grande número de arranha-céus no Recife, a formação de ilhas de calor é comum, o que contribui para consideráveis diferenças de temperatura entre diferentes regiões da cidade, sendo Boa Viagem o bairro mais afetado por este fenômeno.
Parques
O Recife possui remanescentes de Mata Atlântica no seu território. Várias áreas do município são de manguezal, sendo que as principais encontram-se próximas ao rio Capibaribe, na Zona Sul e na fronteira com Olinda. Com 215 hectares de área, o Parque dos Manguezais, pertencente à Marinha do Brasil, está situado entre os bairros do Pina, Boa Viagem e Imbiribeira, e é banhado pelos rios Jordão e Pina. Trata-se da maior reserva de mangue em área urbana da América e uma das maiores do mundo, da qual fazem parte a Ilha de Deus, a Ilha de São Simão e a Ilha das Cabras. O Parque Estadual Dois Irmãos é o maior parque do município. Além de parque, é horto, jardim botânico, zoológico e reserva ambiental. Como um parque, Dois Irmãos oferece uma variedade de diversões e lazer para adultos e crianças, incentivando o interesse em conservação do ambiente. De seus 384,42 hectares, 350,10 são de reserva ambiental. O parque e a reserva são separados por arames, e os animais da reserva não podem ser mantidos em cativeiro pelo zoológico.
Problemas ambientais
O Recife foi a terceira cidade da América do Sul a ter rede coletora de esgoto sanitário, após Montevidéu e Rio de Janeiro, porém, nos dias atuais, parte significativa de sua população vive em condições ambientais insalubres, o que repercute na qualidade de vida, sobretudo para aqueles que habitam as áreas pobres da cidade. Em 2010, a proporção de domicílios com saneamento básico adequado, ou seja, o percentual de domicílios do Recife com abastecimento de água por rede geral, esgotamento sanitário por rede geral ou fossa séptica e lixo coletado direta ou indiretamente, era de 59,8%, um aumento de exatos 10% em comparação ao percentual registrado em 2000. A proporção de domicílios com saneamento semiadequado (entende-se por saneamento básico semiadequado a presença de pelo menos uma forma de saneamento considerada adequada) era de 39,9%, contra 49,3% registrados em 2000. O percentual de domicílios em que todas as formas de saneamento foram consideradas inadequadas foi de 0,4%, ante 0,9% em 2000.
Incidentes com tubarão
A maior parte da Praia de Boa Viagem é protegida por uma barreira de recifes naturais, e as autoridades não recomendam o banho além dos recifes, para evitar ataques de tubarões. Além disso, o surfe atualmente é proibido, embora o governo do estado tenha autorizado, no início de 2006, a instalação de uma rede de proteção contra os tubarões. Em 2007, o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) iniciou o processo de instalação, nos tubarões capturados, de sensores que possibilitam a monitoração via satélite, visando identificar o momento de aproximação dos animais da costa, numa área que compreende a Praia do Paiva até a Praia do Pina, para então retirar os tubarões da localização de risco. Hoje em dia os ataques são mais raros, porém as restrições permanecem.
O Recife foi a quarta cidade brasileira a atingir um milhão de habitantes no censo de 1970, após São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, sendo que a capital mineira ultrapassou a capital pernambucana em população ainda durante a década de 1960. No decorrer dos anos 1970, o Recife viu sua taxa de crescimento populacional cair vertiginosamente pelo fato de possuir uma pequena extensão territorial em comparação a outras capitais, perdendo, desse modo, população para municípios de sua região metropolitana, como Jaboatão dos Guararapes, Olinda e Paulista. No censo demográfico de 2010, a população do Recife era de 1 537 704 habitantes, todos residentes na zona urbana, sendo o terceiro município mais populoso da região Nordeste e o nono do país, concentrado 17,5% da população estadual e apresentando densidade populacional de 7 037,61 hab./km², a quarta maior dentre as capitais brasileiras, depois de Fortaleza, São Paulo e Rio de Janeiro. Desse total, 827 885 habitantes eram mulheres (53,84%) e 709 819 homens (46,16%). Quanto à faixa etária, 1 089 774 tinham entre 15 e 64 anos (70,87%), 322 831 menos de quinze anos (20,99%) e 125 099 mais de 65 anos (8,14%).
Região Metropolitana do Recife
A Região Metropolitana do Recife (RMR) foi criada no dia 8 de junho de 1973. Naquele ano era o terceiro maior aglomerado urbano do Brasil, após as regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro, com 1 755 083 habitantes recenseados em 1970. No censo de 1980 foi ultrapassada pela Região Metropolitana de Belo Horizonte, e no censo de 1991 perdeu mais uma posição para a Região Metropolitana de Porto Alegre, passando a ocupar a quinta colocação entre as regiões metropolitanas do país. No censo de 2010 (última contagem oficial) se manteve como a quinta região metropolitana mais populosa do Brasil, com 3 688 428 habitantes recenseados; porém, considerando as regiões integradas de desenvolvimento, perdeu uma posição para a RIDE Distrito Federal e Entorno. Atualmente é constituída por quatorze municípios: Abreu e Lima, Araçoiaba, Cabo de Santo Agostinho, Camaragibe, Igarassu, Ilha de Itamaracá, Ipojuca, Itapissuma, Jaboatão dos Guararapes, Olinda, Moreno, Paulista, Recife e São Lourenço da Mata.
Religião
De acordo com os dados do censo de 2010 do IBGE, 840 407 habitantes eram católicos (54,65%), nos quais 835 337 católicos apostólicos romanos (54,32%), 4 078 católicos apostólicos brasileiros (0,27%) e 992 católicos ortodoxos (0,06%); 384 303 evangélicos (24,99%), sendo 195 765 pentecostais (12,73%) e 106 899 de missão (6,95%); e 54 788 espíritas (3,56%). Outros 224 401 não tinham religião (14,59%), dentre os quais 4 462 ateus (0,29%) e 2 840 agnósticos (0,18%); 32 443 seguiam outras religiões (2,13%) e 1 262 não souberam (0,08%). Segundo o censo brasileiro de 2022, a composição religiosa da cidade era de 47,55% católicos, 27,85% evangélicos ou protestantes, 3,1% espíritas, 0,88% umbandistas ou candomblecistas, 0,01% religião tradicional, 5,58% outras religiões, 14,88% irreligiosos, 0,04% desconhecidos e 0,12% não declarados.
Criminalidade
Segundo o "Mapa da Violência 2013", o Recife e Aracaju foram as únicas capitais nordestinas que obtiveram uma redução de homicídios em 2011. Segundo a mesma pesquisa, o Recife tinha, naquele ano, uma taxa de 57,1 homicídios por 100 mil habitantes, ou seja, quase 6 vezes a taxa de homicídios considerada aceitável pela ONU (10 homicídios por 100 mil habitantes). Em 2013, a capital pernambucana registrou taxa de 36,82 homicídios para um grupo de 100 mil habitantes, sendo naquele ano a 12ª capital estadual mais violenta do Brasil, após Maceió, Fortaleza, João Pessoa, Natal, Salvador, Vitória, São Luís, Belém, Goiânia, Cuiabá e Manaus. Em 2014, o Recife viu sua taxa de homicídios voltar a crescer, pondo fim a uma sequência de anos de redução. A metrópole pernambucana registrou taxa de 39,05 homicídios para um grupo de 100 mil habitantes naquele ano, subindo para a 29ª posição entre as cidades mais violentas do mundo que não estão em guerra, embora tenha mantido a 12ª posição entre as capitais estaduais brasileiras.
Sendo um município do Brasil, o Recife se rege por lei orgânica, promulgada em 4 de abril de 1990. São poderes do município, independentes e harmônicos entre si, o executivo e o legislativo. O primeiro é representado pelo prefeito, auxiliado pelo seu gabinete de secretários e eleito pelo voto popular para um mandato de quatro anos, sendo permitida uma única reeleição para mais um mandato consecutivo. Até 1955, quando ocorreu a primeira eleição direta da história da cidade, todos os chefes do executivo municipal eram nomeados pelo governador do estado. A sede da prefeitura é, desde 1975, o Palácio Capibaribe Antônio Farias, onde também funcionam a maioria das secretarias municipais e alguns órgãos das administrações direta e indireta. No bairro da Boa Vista está a Câmara Municipal do Recife (Casa de José Mariano), sede do poder legislativo, que possui 37 vereadores a partir de 2025 e funciona no mesmo local desde 1963, onde antes se situava a Escola Normal do Recife. Dentre as atribuições da Câmara estão elaborar e votar leis fundamentais à administração e ao executivo, especialmente o orçamento participativo (Lei de Diretrizes Orçamentárias), e promulgar emendas à lei orgânica, que rege o município.
Relações internacionais
O Recife tem o maior número de consulados estrangeiros fora do eixo Rio-São Paulo, sendo inclusive a única cidade, com exceção de São Paulo e do Rio de Janeiro, que tem Consulados-Gerais de países como Estados Unidos, China, França e Reino Unido, além de ser uma das quatro cidades que abrigam os consulados-gerais da Alemanha no Brasil. O consulado-geral dos Estados Unidos, fundado em 1815, é o mais antigo do Hemisfério Sul e um dos mais antigos do mundo.
Conforme a lei municipal nº 16 293, de 22 de janeiro de 1997, o Recife se divide em seis regiões político-administrativas (RPAs): Centro, Norte, Noroeste, Oeste, Sudoeste e Sul. As RPAs, por sua vez, dividem-se em microrregiões, que agrupam os bairros. Ao todo, são 94 bairros, instituídos pelo decreto municipal 14 452, de 26 de outubro de 1988. Conforme censo de 2022, a RPA Sul era a mais populosa, com cerca de 371 mil habitantes, enquanto a RPA Centro era a menos populosa, com uma população de mais de 73 mil pessoas. No mesmo censo, o bairro mais populoso do Recife era Boa Viagem, localizado na RPA Sul, com 125 805 habitantes, e o menos populoso era Pau-Ferro (RPA Noroeste), com apenas 89 pessoas residentes.
O Recife registrou PIB nominal de 66,3 bilhões de reais e PIB nominal per capita de 44 563,38 reais em 2023. Cerca de dois terços do PIB são provenientes de comércio e serviços. Em 2017, a Região Geográfica Intermediária do Recife atingiu um PIB nominal de 135,014 bilhões de reais, o maior entre as regiões intermediárias do Norte-Nordeste, correspondendo a quase três quartos do produto interno bruto total do estado de Pernambuco. Existem na metrópole pernambucana áreas industriais como o Polo Automotivo Stellantis e o Complexo Industrial e Portuário de Suape (que abriga dentre muitos empreendimentos a Refinaria Abreu e Lima e o Estaleiro Atlântico Sul — maior estaleiro do Hemisfério Sul). O Recife pertence ao Mercado Comum de Cidades do Mercosul. Também merece destaque a indústria da construção civil na cidade. O Recife possui centenas de arranha-céus residenciais e comerciais, sendo superada neste indicador no país apenas por São Paulo e Rio de Janeiro, que têm áreas municipais mais de cinco vezes superiores à da capital pernambucana.
Turismo
O Recife atrai turistas de todo o mundo. Destacam-se entre os motivos desta atração as manifestações culturais e as festividades bem como os parques e museus e as igrejas barrocas e construções históricas diversas. O Recife é o portão de entrada do litoral de Pernambuco, de onde partem os turistas que chegam de avião. O Centro do Recife é o principal conjunto arquitetônico e cultural do município: os bairros do Recife, de Santo Antônio, de São José, da Boa Vista e de Santo Amaro abrigam galerias, museus e outros espaços culturais. Outras áreas de interesse são Jaqueira, Casa Forte, Poço da Panela, Espinheiro, Ponte d'Uchoa, Graças, Derby, dentre outros bairros.
Educação
O Recife conta com importantes universidades públicas e privadas, a exemplo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), classificada pelo QS World University Rankings em 2013 como a melhor universidade do Norte-Nordeste e a 8ª melhor universidade federal do Brasil, bem como a 15ª melhor universidade do país, tendo ocupado a 43ª posição entre as instituições da América Latina; e embora tenha sido ultrapassada pela Universidade Federal do Paraná com relação ao ano anterior, continuou à frente de instituições como a Universidade Federal de Santa Catarina e a Universidade Federal da Bahia. Na Faculdade de Direito do Recife importantes nomes da história brasileira estudaram, destacando expoentes como Barão do Rio Branco, Castro Alves, Clóvis Bevilaqua, Tobias Barreto, Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Eusébio de Queirós, Teixeira de Freitas, Raul Pompeia, Nilo Peçanha, Augusto dos Anjos, Marquês de Paranaguá, Epitácio Pessoa, Assis Chateaubriand, José Lins do Rego, Graça Aranha, Pontes de Miranda, dentre inúmeros outros.
Saúde
A metrópole pernambucana tem grande tradição na área da medicina. O primeiro hospital do Brasil foi a Santa Casa de Misericórdia de Olinda, fundada no ano de 1540 e extinta em 1860 com a criação da Santa Casa de Misericórdia do Recife. E foi no Recife que se realizou a primeira operação cesariana do país, em 1817, pelas mãos do médico pernambucano Correia Picanço — fundador das primeiras faculdades de medicina do Brasil e aclamado "Patriarca da Medicina Brasileira". O Recife é hoje o mais importante polo médico do Norte-Nordeste e o segundo mais importante do Brasil, possuindo uma complexa rede de serviços no setor público — ofertados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) — como também no setor privado. Existem 118 Unidades básicas de Saúde, estabelecidas na maioria dos bairros da cidade, que ofertam consultas médicas (Criança, Adulto, Idoso), vacinação, pré-natal, planejamento familiar e exame ginecológico. Cerca de metade destas unidades também oferecem consultas odontológicas.
Transportes
O Recife foi a primeira cidade do mundo a operar locomotivas a vapor construídas especialmente para rodar nas ruas: a chamada "maxambomba" (do inglês machine pump), sistema inaugurado no ano de 1867. A cidade foi também a primeira da América do Sul com conexão direta (non-stop) para a Europa, especialmente para a Alemanha, por meio de dirigíveis. A capital pernambucana tem a única estação de atracação de dirigíveis do mundo preservada em sua estrutura original, a Torre do Zeppelin. Atualmente o município possui uma frota de aproximadamente 2.800 ônibus coletivos, que transportam diariamente 2 milhões de pessoas; um sistema de metrô, que transporta 400 mil passageiros por dia; e um sistema BRT, desenvolvido para transportar 335 mil pessoas diariamente.
Mídia
Também se destaca o Aqui PE, jornal de formato tabloide com notícias de cunho popular. A metrópole possui diversas emissoras de rádio, algumas delas de difusão nacional, como a NovaBrasil FM, a Transamérica Pop, a Jovem Pan FM, a CBN Recife, a Rádio Jornal, a Rádio Clube, a Recife FM, dentre outras. Possui ainda várias emissoras de televisão aberta: TV Globo Pernambuco (emissora própria da Rede Globo); TV Jornal (afiliada do SBT); TV Guararapes (afiliada da RecordTV); RedeTV! Recife (emissora própria da RedeTV!); TV Tribuna (afiliada da Rede Bandeirantes); TV Universitária (primeira emissora de televisão educativa do Brasil, fundada em 1968, afiliada da TV Brasil); TV Nova (afiliada da TV Cultura) e Rede Estação.
Planejamento urbano
O espaço público tem sido tratado, muitas vezes, com desatenção. Dessa desatenção resultam espaços qualitativamente pouco expressivos, pobres do ponto de vista urbanístico e, frequentemente, pouco atraentes. Some-se a esses problemas, a poluição visual e sonora. É nos bairros de renda alta e média que estão localizadas as praças em bom e regular estado de conservação. O processo de verticalização intensificou-se em determinadas áreas da cidade, como na Zona Sul, na margem esquerda do Rio Capibaribe, em parte da margem direita e em parte do Centro Expandido. O grande problema do processo de verticalização e de adensamento construtivo da cidade é que este vem se realizando de forma indiscriminada em parte do território da cidade sem, muitas vezes, ocorrer de forma compatível com a paisagem urbana e com a capacidade das estruturas urbanas.
Ciência e tecnologia
Em 1895 foi criada no Recife a Escola de Engenharia de Pernambuco, primeira escola de engenharia fora da região Sudeste. Nela, que logo se destacou como uma das principais instituições científicas do país, surgiu uma leva de grandes cientistas brasileiros, como Mário Schenberg, José Leite Lopes e Leopoldo Nachbin, graças à ação catalisadora do professor Luís Freire, conhecido por participar ativamente de movimentos em favor da criação de escolas aptas a formar pesquisadores em matemática e física. Reconhecida como berço de cientistas destacados e nomes notórios das ciências exatas, a metrópole pernambucana deu origem ainda a nomes como Paulo Ribenboim, Josué de Castro, Joaquim Cardoso, Samuel MacDowell, Aron Simis, Gauss Moutinho Cordeiro, Israel Vainsencher, Luciano Coutinho, Cristovam Buarque, Fernando de Souza Barros, Ricardo de Carvalho Ferreira, Leandro do Santíssimo Sacramento, dentre muitos.
A cultura recifense é bastante diversificada, uma vez que foi influenciada por indígenas, africanos e europeus. O Recife foi uma das seis sedes da Copa do Mundo de 1950 (única do Norte-Nordeste), abrigando uma partida no Estádio da Ilha do Retiro entre Chile e Estados Unidos, com vitória dos chilenos por 5 a 2. O Recife também foi uma das doze sedes da Copa do Mundo de 2014. O Campeonato Pernambucano de Futebol, um dos principais torneios estaduais do país, é disputado desde 1915, tendo como campeão sempre um time da capital, com exceção de 2020, que foi conquistado pela primeira vez por um time do interior, o Salgueiro Atlético Clube, da cidade de Salgueiro, no sertão. Os principais times da cidade por número de títulos estaduais são o Sport Club do Recife, o Santa Cruz Futebol Clube e o Clube Náutico Capibaribe. Outros clubes esportivos importantes no município são o Clube Português e o América Futebol Clube.
Arquitetura
Apesar de ser um dos cinco patrimônios barrocos do Brasil, o Recife não possui o título de Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO (apenas sua vizinha Olinda detém tal distinção). Em que pese o fato, atribuído à demolição e descaracterização da maior parte do seu centro histórico, a capital pernambucana possui exemplares barrocos de excepcional importância, tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Embora tenham ocorrido grandes destruições do patrimônio histórico recifense em diferentes períodos — a exemplo dos largos do Paraíso e do Corpo Santo (Pelourinho do Recife), dentre muitas construções históricas demolidas para a modernização da área central e construção de avenidas como a Guararapes e a Dantas Barreto —, a cidade barroca resiste na sua parte mais pobre e comercial.
Gastronomia
O Recife é o terceiro maior polo gastronômico do Brasil, segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), entre eles o Restaurante Leite, mais antigo restaurante do país. A Rua da Hora, no bairro do Espinheiro, Zona Norte, e a Rua Capitão Rebelinho, no bairro do Pina, Zona Sul, são os principais redutos gastronômicos recifenses. A cidade é também a terceira do país em número de restaurantes estrelados pelo Guia Quatro Rodas de 2013, atrás somente de São Paulo e do Rio de Janeiro. Onze estabelecimentos do município, que contam com chefs renomados e que vão da cozinha regional às cozinhas lusitana, italiana, francesa, japonesa e peruana, foram agraciados.
Literatura
O abolicionista recifense Joaquim Nabuco escreveu Minha Formação, obra clássica da literatura brasileira. Anos mais tarde é lido, na Semana de Arte Moderna, em São Paulo, o poema Os Sapos do também recifense Manuel Bandeira, considerado o abre-alas do movimento. Gilberto Freyre, um dos mais importantes sociólogos do século XX, representa um marco na história do Brasil devido ao seu livro Casa-Grande & Senzala, que demonstra a importância dos escravos para a formação do país e que brancos e negros são absolutamente iguais. João Cabral de Melo Neto foi o único escritor brasileiro a ser galardoado com o Prêmio Neustadt, tido como o "Nobel Americano", e quando morreu, em 1999, especulava-se que era um forte candidato ao Prêmio Nobel de Literatura.
Dança e música
O Maracatu Nação, também conhecido como "Maracatu de Baque Virado", é uma manifestação cultural da música tradicional pernambucana afro-brasileira. O registro mais antigo que se tem sobre o Maracatu Nação data de 1711, mas o ano de sua origem é incerto. O que se sabe é que ele surgiu em Pernambuco e vem se transformando desde então. Um dos maracatus mais antigos é o Maracatu Elefante, fundado em 15 de novembro de 1800 no Recife pelo escravo Manuel Santiago após sua insurreição contra a direção do Maracatu Brilhante. A escolha do elefante como nome e símbolo da agremiação deveu-se ao fato de este animal ser protegido por Oxalá, um dos muitos orixás do candomblé. Uma das peculiaridades deste maracatu é o costume de conduzir três calungas (bonecas negras) ao invés de duas como é comum aos outros maracatus. São elas: Dona Leopoldina, Dom Luís e Dona Emília, que representam os orixás Iansã, Xangô e Oxum, respectivamente. Outra característica singular do Nação Elefante é o fato de ter sido o primeiro a ser conduzido por uma matriarca, pois até então os maracatus sempre tinham sido regidos por uma figura masculina.
Cinema
O Cinema do Recife é muito respeitado pela crítica: já recebeu vários prêmios nacionais e internacionais e é recordista de indicações e premiações em diversas edições de festivais. Filmes de cineastas e roteiristas pernambucanos como os dramas Baile Perfumado (1996), Amarelo Manga (2002), Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), Febre do Rato (2012), O Som ao Redor (2013), Aquarius (2016), ou mesmo romances e comédias como O Auto da Compadecida (1999), Caramuru - A Invenção do Brasil (2001), Lisbela e o Prisioneiro (2003), A Máquina (2005), Fica Comigo Esta Noite (2006), O Bem Amado (2010), entre muitas outras produções, alcançaram grande projeção.
Espaços culturais
O município abriga vários centros culturais, dentre teatros e museus, e instituições voltadas para a promoção de ações artísticas. O Teatro de Santa Isabel é um teatro-monumento do Brasil e compõe importante conjunto arquitetônico e paisagístico na Praça da República com o Palácio do Campo das Princesas, o Palácio da Justiça e o Liceu de Pernambuco. Destaque ainda para o Gabinete Português de Leitura de Pernambuco, o Arquivo Público de Pernambuco, o Museu Franciscano de Arte Sacra, o Museu Militar do Forte do Brum, o Museu do Trem, o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, a Caixa Cultural, o Centro Cultural dos Correios, o Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco, dentre outros.


