Isabel Bowes-Lyon
Isabel Ângela Margarida Bowes-Lyon, em inglês: Elizabeth Angela Marguerite Bowes-Lyon; foi Rainha Consorte do Reino Unido e dos Domínios Britânicos de 11 de dezembro de 1936 a 6 de fevereiro de 1952, como esposa do Rei-Imperador Jorge VI, além de ter sido a última Imperatriz Consorte da Índia até a dissolução do Raj britânico em 15 de agosto de 1947. Após a morte de seu marido, ela foi oficialmente conhecida como Rainha Isabel, a Rainha Mãe, para evitar confusão com sua filha, a Rainha Isabel II.
Isabel Ângela Margarida Bowes-Lyon nasceu no dia 4 de agosto de 1900, a nona criança de um total de dez de Claude Bowes-Lyon, Lorde Glamis (posteriormente o 14.º Conde de Strathmore e Kinghorne) e sua esposa Cecília Cavendish-Bentinck. Sua mãe era bisneta do primeiro-ministro britânico William Cavendish-Bentinck, 3.º Duque de Portland, e descendia também do governador-geral da Índia Richard Wellesley, 1.º Marquês Wellesley, irmão mais velho do também primeiro-ministro Arthur Wellesley, 1.º Duque de Wellington. O local de seu nascimento permanece incerto, porém é provável que ela tenha nascido na casa de seus pais de Westminster em Belgrave Mansions, Grosvenor Gardens, ou em uma ambulância puxada por cavalos no caminho para o hospital. Outros locais possíveis inclui a Casa Forbes em Londres, residência de sua avó materna Caroline Louisa Burnaby. Seu nascimento foi registrado em Hitchin, Hertfordshire, perto da casa de campo dos Strathmore, St Paul's Walden Bury, que foi dado como seu local de nascimento no censo do ano seguinte. Isabel foi batizada na Igreja de Todos os Santos ali perto em 23 de setembro, com suas madrinhas incluindo sua tia paterna Maud Bowes-Lyon e sua prima Venetia James.
O príncipe Alberto, Duque de Iorque – chamado de "Bertie" por sua família – era o segundo filho do rei Jorge V do Reino Unido e da rainha Maria de Teck. Ele pediu Isabel em casamento pela primeira vez em 1921, porém ela recusou por ter "medo de nunca, nunca mais ter a liberdade de pensar e agir como sinto que eu realmente deveria". Quando ele declarou que não se casaria com outra, sua mãe a rainha Maria decidiu visitar os Bowes-Lyon para conferir ela mesma a garota que havia roubado o coração de seu filho. Ela acabou ficando convencida que Isabel era "a única garota que poderia fazer Bertie feliz", mas mesmo assim decidiu não interferir. Ao mesmo tempo, Isabel foi cortejada por James Stuart, o secretário de Alberto, até ele ter deixado o serviço do príncipe por um trabalho melhor em um negócio petrolífero nos Estados Unidos. Em fevereiro de 1922, Isabel foi uma das damas de honra no casamento de Maria, Princesa Real e irmã de Alberto, com Henrique Lascelles, Visconde Lascelles. Alberto a pediu em casamento novamente um mês depois, porém ela recusou outra vez. Eventualmente, ela aceitou em janeiro de 1923, mesmo com receios sobre uma vida na realeza. A liberdade que Alberto teve ao escolher Isabel, filha de um nobre não pertencente a uma casa real, foi considerada um gesto em favor de uma modernização política; anteriormente, era esperado que príncipes se casassem com princesas de outras famílias reais. Eles escolheram um anel de noivado feito de platina com uma safira da Caxemira e dois diamantes adornando as laterais. Eles se casaram na Abadia de Westminster em 23 de abril de 1923. Inesperadamente, Isabel colocou seu buquê na tumba do Soldado Desconhecido na entrada da abadia, uma homenagem a seu irmão Fergus. Ela passou a ser chamada de "Sua Alteza Real, a Duquesa de Iorque". Depois de um café da manhã festivo realizado no Palácio de Buckingham e preparado pelo chef Gabriel Tschumi, o duque e a duquesa passaram a lua de mel em Polesden Lacey, uma mansão em Surrey, então indo para a Escócia onde Isabel contraiu uma "nada romântica" tosse convulsa.
Depois de uma visita bem-sucedida à Irlanda do Norte em julho de 1924, o governo trabalhista concordou que Alberto e Isabel poderiam viajar pelo Leste da África entre dezembro de 1924 e abril de 1925. O governo trabalhista foi derrotado nas eleições de novembro pelos conservadores, algo que Isabel descreveu a sua mãe como "maravilhoso", e três semanas depois o governador-geral do Sudão Anglo-Egípcio, sir Lee Stack, foi assassinado. Mesmo assim a viagem continuou e o casal visitou Áden, Quênia, Uganda e Sudão, porém o Egito foi evitado por causa das tensões políticas. Alberto sofria de gagueira, algo que muito afetava sua capacidade de discursar; assim, a partir de outubro de 1925 Isabel passou a ajudá-lo durante sessões de terapia com Lionel Logue. O casal teve sua primeira filha no ano seguinte, a princesa Isabel – chamada de "Lilibet" pela família. A segunda filha nasceu quatro anos depois, a princesa Margarida. O duque e a duquesa, sem a filha, viajaram pela Austrália em 1927 para abrir o Parlamento da Austrália em Camberra. Ela ficou "muito infeliz em deixar a bebê", como a própria colocou. Sua jornada através do mar passou pela Jamaica, o canal do Panamá e o oceano Pacífico; Isabel muito se preocupava com sua filha no Reino Unido, porém a viagem foi um grande sucesso. Ela encantou o povo de Fiji quando apertou a pata de um cachorro durante uma cerimônia em que cumprimentava uma longa fila de convidados oficiais. Ela ficou resfriada na Nova Zelândia e não compareceu a alguns compromissos, porém gostou de pescar na Baía das Ilhas acompanhada pelo pescador esportivo australiano Harry Andreas. Na viagem de volta, passando por Maurício, o canal de Suez, Malta e Gibraltar, seu navio o HMS Renown pegou fogo e ela e Alberto se preparam para abandonar a embarcação antes do incêndio ser controlado.
O Rei Jorge V morreu em 20 de janeiro de 1936 e Eduardo, Príncipe de Gales o irmão mais velho de Alberto, ascendeu ao torno como rei Eduardo VIII. Jorge havia expressado antes de morrer suas preocupações particulares sobre seu sucessor, dizendo: "Eu rezo a Deus que meu filho mais velho nunca se case e que nada fique entre Bertie e Lilibet e o trono". Eduardo foi forçado a enfrentar uma crise constitucional depois de alguns meses de reinado por insistir em se casar com a americana Wallis Simpson, uma divorciada do primeiro marido e ainda casada com o segundo. Apesar de legalmente poder se casar com ela, como rei ele era também o chefe da Igreja Anglicana, que na época não permitia que pessoas divorciadas se casassem novamente. Os ministros do rei acreditavam que o povo britânico jamais aceitaria Wallis como sua rainha, aconselhando-o contra o casamento. Eduardo foi forçado a aceitar os conselhos como monarca constitucional. Em vez de abandonar seus planos de casamento, ele escolheu abdicar em favor de Alberto, que muito relutantemente se tornou rei em 11 de dezembro de 1936 com o nome de Jorge VI. Ele e Isabel foram coroados como "Rei e Rainha da Grã-Bretanha, Irlanda e Domínios Britânicos de Além-mar", além de "Imperador e Imperatriz da Índia" no dia 12 de maio de 1937, a data que havia sido escolhida para a coroação de Eduardo VIII. A coroa de Isabel era feita de platina e possuía como ornamento o Diamante Koh-i-Noor.
Visitas e viagens
Uma visita de estado do rei e da rainha para a França em 1938 foi adiada em três semanas por causa da morte da mãe de Isabel, Cecília Cavendish-Bentinck. Duas semanas depois Norman Hartnell criou para a rainha um enxoval todo branco, já que ela não podia usar nada colorido por ainda estar de luto. A visita tinha a intenção de melhorar a solidariedade anglo-francesa no iminente conflito com a Alemanha Nazista. A imprensa francesa elogiou o comportamento e o charme do casal real durante a visita bem-sucedida, notando também o guarda-roupa feito por Hartnell. As agressões da Alemanha continuaram mesmo assim e o governo se preparou para a guerra. O Acordo de Munique de 1938 parecia adiar o advento de um conflito armado, e o primeiro-ministro Neville Chamberlain foi convidado para a varanda do Palácio de Buckingham com o rei e a rainha para receber a aclamação do público. Apesar de amplamente popular com o povo, a política de apaziguamento de Chamberlain com Adolf Hitler era objeto de grande oposição na Câmara dos Comuns, fazendo com que o historiador John Grigg descrevesse o comportamento do rei ao se associar com um político de forma tão proeminente como "o ato mais inconstitucional de um monarca britânico no presente século". Entretanto, historiadores discutiram que Jorge sempre seguia conselhos ministeriais e agiu como estava constitucionalmente obrigado a fazer.
Segunda Guerra Mundial
O rei e a rainha tornaram-se símbolos nacionais da resistência durante a Segunda Guerra Mundial. O Livro da Cruz Vermelha da Rainha foi criado pouco depois da declaração de guerra. Cinquenta autores e artistas contribuíram com o livro, que tinha na capa um retrato de Isabel tirado por Cecil Beaton e foi vendido para ajudar a Cruz Vermelha. Ela publicamente se recusou a deixar Londres ou enviar suas filhas para o Canadá, mesmo durante a Blitz, quando foi aconselhada pelo gabinete a fazer isso. "As crianças não vão sem mim. Eu não vou partir sem o rei. E o rei nunca partirá". Isabel visitou tropas, hospitais, fábricas e áreas do Reino Unido que foram alvos da Luftwaffe, particularmente o East End perto das Docas de Londres. Suas visitas inicialmente provocaram hostilidade; lixo foi atirado em sua direção e as multidões vaiavam, em parte porque ela usava roupas caras que a alienavam do povo que estava sofrendo com a guerra. Ela se explicou dizendo que o público usaria suas melhores roupas caso fossem vê-la, então ela estava apenas sendo recíproca; Hartnell passou a vesti-la com cores suaves e evitou o preto para representar "o arco-íris de esperança". Quando o próprio Palácio de Buckingham foi atingido por bombardeios, a rainha disse que "Estou feliz que fomos bombardeados. Me faz sentir que agora posso olhar o East End na cara".
Pós-guerra
O Partido Conservador de Churchill foi derrotado pelo Partido Trabalhista de Clement Attlee nas eleições gerais parlamentares de 1945. As opiniões políticas de Isabel raramente eram conhecidas, porém ela descreveu em 1947 as "grandes esperanças de um paraíso socialista na terra" de Attlee como desvanecendo e supostamente descreveu seus eleitores como "pobre povo, tantos pouco educados e confusos. Eu realmente os amo". Woodrow Wyatt achava que ela era "muito mais pró-conservadora" que outros membros da família real, porém Isabel mais tarde disse a ele que "Eu gosto do querido Partido Trabalhista". Ela também contou a Fortune FitzRoy, Duquesa de Grafton, que "Eu amo comunistas".
Viuvez
Jorge VI morreu em 6 de fevereiro de 1952 enquanto dormia. Isabel assim passou a ser chamada de "Sua Majestade, a Rainha Isabel, a Rainha-mãe" porque o estilo normal para se chamar a viúva de um rei, "Rainha Isabel", era muito similar ao estilo de sua filha mais velha, a agora rainha soberana Isabel II. Popularmente ela ficou conhecida como "Rainha-mãe" Ela ficou devastada pela morte do rei e foi para um retiro na Escócia. Entretanto, ela saiu do retiro e voltou para seus deveres públicos depois de conversar com Churchill, que havia voltado para o cargo de primeiro-ministro. Eventualmente ela se tornou tão ocupada como rainha-mãe quanto havia sido anteriormente como Rainha Consorte. Isabel realizou sua primeira viagem internacional depois da morte de Jorge em julho de 1953, quando visitou com a princesa Margarida a Federação da Rodésia e Niassalândia. Ela colocou a pedra fundamental da Universidade da Rodésia e Niassalândia, atual Universidade de Zimbabwe. Ela inaugurou a Faculdade do Presidente ao voltar para a região em 1957, comparecendo a outros eventos deliberadamente organizados para serem multirraciais. Atuou como Conselheira de Estado entre 1953 e 1954 durante as viagens de sua filha pelo exterior, também cuidando de seus netos Carlos e Ana.
Centenário
Isabel passou a ser conhecida em seus últimos anos por sua longevidade. Seu aniversário de noventa anos em 4 de agosto de 1990 foi celebrado com um desfile no dia 27 de junho envolvendo muitas das trezentas organizações das quais era patrona. Compareceu em 1995 ao eventos de comemoração dos cinquenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial; no mesmo ano passou por duas operações: uma para retirar catarata de seu olho esquerdo e outra para substituir seu quadril direito. Seu quadril esquerdo também foi substituído em 1998 quando ela escorregou e caiu durante uma visita aos estábulos da Casa Sandringham. Seu centenário foi comemorado de diversas maneiras: um desfile celebrando sua vida teve contribuições de Norman Wisdom e John Mills, sua imagem apareceu em uma nota especial de vinte libras emitida pelo Banco Real da Escócia, e compareceu a um almoço na Guildhall de Londres em que George Carey, o Arcebispo da Cantuária, acidentalmente tentou beber o copo de vinho dela. Seu rápido aviso de "Isso é meu!" causou grande divertimento. Isabel quebrou sua clavícula em uma queda em novembro de 2000, se recuperando em casa durante o Natal e ano novo. Ela realizou uma transfusão de sangue em 1 agosto de 2001 devido a uma anemia causada por exaustão, porém estava bem o bastante três dias depois para fazer sua tradicional aparição no lado de fora da Casa Clarence em comemoração de seu aniversário de 101 anos. Seus últimos compromissos públicos incluíram plantar uma cruz em 8 de novembro de 2001 no Campo das Lembranças, uma recepção na Guildhall em 15 de novembro para a reformação do Esquadrão 600 da Força Área Real, e o re-comissionamento do HMS Ark Royal em 22 de novembro.
Isabel morreu às 3h15min de 30 de março de 2002 enquanto dormia no Chalé Real, Windsor, com sua filha, a rainha, ao seu lado. Ela estava sofrendo de um resfriado que já durava quatro meses. Isabel tinha 101 anos de idade, sendo, na época de sua morte, o membro da família real britânica com a maior longevidade da história. Esse recorde foi quebrado um ano depois por sua concunhada Alice, Duquesa de Gloucester, que morreu aos 102 anos em 29 de outubro de 2004. A rainha-mãe plantava camélias nos jardins de todas as suas residências, com um arranjo especial sendo colocado em cima de seu caixão quando ela foi levada de Windsor para seu velório no Salão de Westminster. Mais de duzentas mil pessoas passaram para ver seu caixão no Palácio de Westminster. Membros de várias divisões das forças armadas ficaram de guarda nos quatro cantos de seu catafalco. Em certo momento, seus quatro netos, Carlos, Príncipe de Gales, André, Duque de Iorque, Eduardo, Conde de Wessex e David Armstrong-Jones, Visconde Linley, montaram guarda como um sinal de respeito conhecido como Vigília dos Príncipes – uma honra concedida apenas uma vez antes durante o velório do rei Jorge V.
Isabel foi conhecida pelo seu charme pessoal e público, era um dos membros mais populares da família real, e ajudou a estabilizar a popularidade da monarquia como um todo. Os críticos incluíram Kitty Kelley, que falsamente alegou que durante a Segunda Guerra Mundial Isabel não cumpriu os regulamentos de racionamento. Isso, no entanto, foi contradito pelos registros oficiais, e Eleanor Roosevelt, que durante a sua estada durante a guerra no Palácio de Buckingham relatou expressamente sobre a comida racionada servida no palácio e a água limitada do banho permitida. Alegações de que Isabel usou calúnias racistas para se referir aos negros foram fortemente negadas pelo major Colin Burgess, o marido de Elizabeth Burgess, uma secretária mestiça que acusou membros da Casa do Príncipe Charles de abuso racial. Isabel não fez comentários públicos sobre a raça, mas de acordo com Robert Rhodes James, em particular, ela "abominava a discriminação racial" e qualificou o apartheid como "terrível". Woodrow Wyatt registrou no seu diário que quando expressou a opinião de que os países não-brancos não têm nada em comum "conosco", ela disse a ele: "Eu gosto muito da Comunidade. Eles são todos como nós". No entanto, ela desconfiava dos alemães, e disse a Woodrow Wyatt: "Nunca confie neles, nunca confie neles". Embora ela possa ter defendido essas opiniões, argumentou-se que elas eram normais para os britânicos da sua geração e criação, que haviam passado por duas guerras cruéis com a Alemanha.
Brasão
O brasão de Isabel era o brasão real de armas do Reino Unido de seu marido, impalado com o brasão de seu pai; com o segundo sendo: I e IV argente, um leão rampant azure, armado e linguado goles, dentro de um treassure flory-contra-flory duplo; II e III arminhos, três arcos em pala proper. O escudo é encimado pela coroa imperial e tendo como suportes o leão coroado da Inglaterra e um leão rampant em faixa or e goles.


