Meritocracia
O termo Meritocracia, neologismo — do latim mereo e do grego antigo κράτος, transl. krátos — estabelece uma ligação direta entre mérito e poder.
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A palavra "meritocracia" foi utilizada pela primeira vez no livro The Rise of the Meritocracy (A ascensão da meritocracia, em tradução livre), de Michael Young (1958), o criador do termo. No livro, uma "ficção-sociológica" distópica e satírica que pretende alertar contra os perigos de um sistema social baseado em medições padronizadas de capacidade, a palavra carrega um conteúdo negativo, pois a história trata de uma sociedade futura na qual a posição social de uma pessoa seria determinada pelo seu quociente de inteligência e pelo seu esforço. Nele o autor desenvolve a ideia de que, longe de ser ideal, este modelo, quando levado a extremos, produz "situações insuportáveis para os 'sem mérito', que acabam abandonados a sua própria sorte". Young utiliza a palavra mérito em um sentido pejorativo, diferente do comum ou daquele usado pelos defensores da meritocracia. Young descreve uma sociedade onde este modelo deixa os indivíduos na base da pirâmide social incapazes de se defender dos abusos de uma elite autocrática. A aplicação integral do modelo meritocrático cria "uma sociedade de pesadelo para a população e danosa às relações sociais".
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Diversos especialistas já analisaram o conceito de meritocracia. Agnès van Zanten[nota 5] faz a seguinte análise do significado e do alcance do conceito: No entanto, se considerarmos, de uma maneira menos abstrata e mais sociológica, que a meritocracia é, sobretudo, um instrumento de justificação e um conjunto de dispositivos através dos quais a escola, como instituição, e os professores, como categoria profissional, pretendem exercer um poder significativo sobre a sociedade, desempenhando um papel importante na seleção dos mais aptos, fica possível estudar empiricamente a extensão de sua influência. Élise Tenret, socióloga, observa — em Les 100 mots de l'éducation (em português As 100 palavras da educação) — que o "modelo meritocrático é particularmente valorizado nas sociedades modernas na medida em que sugere ser capaz de melhor alocar os cargos em função das capacidades dos candidatos". Ela destaca que a utilização ideológica do termo ganhou força ao "permitir às sociedades democráticas e desiguais justificar as desigualdades sociais (...) Desse modo, se as melhores posições são ocupadas pelos indivíduos com mais mérito, isso resulta em que, aqueles que não obtiveram sucesso devem assumir inteiramente a responsabilidade por seu fracasso".
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Frédéric Gonthier[nota 4] questiona a coerência da relação entre igualitarismo e meritocracia — assim como a própria validade da expressão, proposta por François Dubet, em 2004: "a igualdade meritocrática de oportunidades" — e pergunta se "a combinação entre 'igualdade de oportunidades' sociais e mérito" é "capaz de compor um modelo normativo intrinsecamente coerente?" Georges Felouzis[nota 7] considera, por sua vez, que a igualdade de oportunidades é um componente essencial do mérito, de maneira que não se opõem. De acordo com Marie Duru-Bellat,[nota 2] "a meritocracia (...) gradualmente se impôs como o mais importante princípio de justiça, sobretudo na escola onde está no centro de seu funcionamento". O sucesso e o caráter "consensual" da ideia de mérito resulta, em parte, por sua "capacidade de conciliar o ideal igualitário das sociedades democráticas e suas desigualdades reais entre suas posições sociais". A autora — destacando o quanto este princípio deixa a desejar e observando que segue havendo uma forte relação causal entre o meio social de origem e o desempenho acadêmico de cada um — reforça que a questão da igualdade de oportunidades não recebe a merecida atenção e que medidas como a discriminação positiva "não corrigem o problema central do método e nem desfazem a força com que desigualdades sociais impactam de uma maneira importante o desenvolvimento das crianças". Marie Duru-Bellat conclui "que não se trata de rejeitar a meritocracia como um todo, mais sim o uso exclusivo ou excessivo do mérito como princípio de justiça. Se trata de articulá-lo com outras lógicas, mais individualizáveis, como por exemplo o da igualdade". Lembrando que a ausência da noção de mérito no sistema educativo corre o risco de nutrir um "sentimento de injustiça", ela propõe adotar uma posição intermediária entre igualdade e mérito e observa: "não é interessante que se reforce excessivamente a igualdade pois dessa maneira se ignoraria os méritos individuais, mas também não devemos permitir que a noção de mérito prevaleça pois, dessa maneira, se estabelece uma luta sem misericórdia, muito cruel com os mais fracos".
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Etimologicamente, aristocracia é um quase-sinônimo de meritocracia.[nota 9] Entretanto, histórica e politicamente, o conceito de aristocracia remete a um sistema de castas privilegiadas de natureza hereditária que difere da natureza individual do sucesso defendido pela meritocracia.
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Os primeiros indícios de um mecanismo semelhante à meritocracia remontam à Antiguidade, na China. Confúcio e Han Fei são dois pensadores que propuseram um sistema próximo ao meritocrático. Também podem ser citados Gengis Khan, Oliver Cromwell e Napoleão Bonaparte; cada qual utilizou, no exército e na vida política de seus estados, elementos meritocráticos.[carece de fontes?]
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A meritocracia está associada, por exemplo, ao estado burocrático, sendo a forma pela qual os funcionários estatais são selecionados para seus postos de acordo com sua capacidade (através de concursos, por exemplo). Ou ainda — associação mais comum — aos exames de ingresso ou avaliação nas escolas, nos quais não há discriminação entre os alunos quanto ao conteúdo das perguntas ou temas propostos. Assim, meritocracia também indica posições ou colocações conseguidas por mérito pessoal. Embora a maioria das organizações seja apologista da meritocracia, esta não se expressa na sua forma pura em nenhum lugar. Governos como o de Singapura e o da Finlândia utilizam padrões meritocráticos para a escolha de autoridades, mas misturados com outros. O principal argumento em favor da meritocracia é que ela proporcionaria maior justiça do que outros sistemas hierárquicos, uma vez que as distinções baseadas na meritocracia não costumam se dar por sexo, raça, riqueza, posição social ou discriminação positiva. Além disso, em teoria, a meritocracia, através da competição entre os indivíduos, estimularia o aumento da produtividade e da eficiência na sociedade.


