Rubens Paiva
Rubens Beyrodt Paiva foi um engenheiro civil e político brasileiro assassinado durante a ditadura militar no Brasil.
Rubens Beyrodt Paiva nasceu em 26 de dezembro de 1929, no município de Santos, no estado de São Paulo. Frequentou na infância e adolescência os tradicionais colégios paulistanos, Colégio Arquidiocesano e Colégio São Bento. Formou-se em engenharia civil pela Universidade Mackenzie, na capital paulista. Esteve na universidade numa fase em que se vivia grande efervescência política, chegando a participar da campanha nacionalista "O petróleo é nosso" e mantendo presença ativa no movimento estudantil, sendo vice-presidente da União Estadual dos Estudantes. Paiva tinha uma irmã chamada Maria Lúcia Paiva. Seu pai, Dr. Jaime de Almeida Paiva, era advogado e dono de uma das maiores fazendas do Vale do Ribeira, a Fazenda Caraitá. Jaime Paiva foi prefeito da cidade de Eldorado Paulista em duas ocasiões, na primeira de 1956 a 1959 e na segunda, em 1968, eleito pela Aliança Renovadora Nacional, partido da ditadura.
Sua vida política tomou impulso em outubro de 1962, quando foi eleito deputado federal por São Paulo na legenda do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Assumiu o mandato em fevereiro do ano seguinte e participou de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada na Câmara dos Deputados para examinar as atividades do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais – Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IPES-IBAD). A instituição financiava palestrantes e escritores que escreviam artigos avisando sobre a chamada "ameaça vermelha" no Brasil. No dia 1.º de abril de 1964, enquanto os militares avançavam com suas tropas para depor o então presidente João Goulart, Paiva fez um discurso acalorado de cinco minutos na Rádio Nacional criticando o governador paulista, Ademar de Barros, apoiador do golpe, e conclamando trabalhadores e estudantes a defenderam a legalidade. Com o golpe militar de 1964, devido ao fato de ter participado da CPI do IBAD, teve seu mandato cassado no dia 10 de abril por meio do Ato Institucional Número Um, editado no dia anterior pela junta militar que assumiu o poder.
Exílio e volta ao Brasil
Rubens Paiva se exilou na Iugoslávia e depois na França. Passados nove meses, viajou com destino a Buenos Aires, a fim de se encontrar com Jango e Leonel Brizola. Mas, durante uma escala do voo no Rio de Janeiro, disse à aeromoça que iria comprar cigarros, saiu do avião e pegou outro voo para São Paulo, seguindo para a casa de sua família. Chegou em casa de surpresa, dizendo: "Entrei no Brasil, estou no Brasil, vou ficar no Brasil". A família mudou-se então para o Rio de Janeiro, e Rubens Paiva voltou a exercer a engenharia e a cuidar de seus negócios, mas sempre fazendo contatos com os exilados. Fundou, com o editor Fernando Gasparian, o Jornal de Debates e foi diretor da Última Hora de São Paulo, até que o jornal foi vendido por Samuel Wainer ao Grupo Folha da Manhã, de Octavio Frias de Oliveira.
No ano de 1969, depois de uma visita a Santiago, para ajudar a exilada Helena Bocayuva Cunha, filha de seu amigo Bocayuva Cunha (também deputado cassado após o golpe), que fora implicada no sequestro do embaixador Charles Burke Elbrick, Rubens Paiva voltou para o Brasil. Algum tempo depois, pessoas que traziam uma carta de Helena endereçada a Rubens foram presas pelos órgãos da repressão política. Os agentes suspeitaram que Rubens Paiva fosse o contato de "Adriano", codinome de Carlos Alberto Muniz, militante do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8) e contato de Carlos Lamarca, na época o homem mais procurado do país. Na esperança de prender "Adriano" e consequentemente chegar a Lamarca, seis homens que disseram pertencer à Aeronáutica, armados com metralhadoras, invadiram a casa de Rubens Paiva no Rio de Janeiro, em 20 de janeiro de 1971, para prendê-lo, sem contudo apresentar um mandado de prisão. Rubens acalmou os invasores, pediu que guardassem as armas e vestiu-se. Saiu de terno e gravata, guiando o próprio carro. A recuperação posterior desse carro seria a prova de que o ex-deputado fora preso — o que os órgãos de repressão negavam. Paiva foi levado para o quartel do comando da III Zona Aérea e acareado com duas senhoras; os três foram obrigados a ficar com os braços levantados. Estas senhoras haviam ido visitar os filhos no Chile e foram presas ao desembarcar de volta no Rio de Janeiro: uma era mãe de Almino Afonso, a outra de Helena Bocayuva. Uma delas passou mal, Paiva amparou-a e foi então golpeado por um oficial, e depois de responder com um palavrão, foi surrado até ficar estendido no chão.
Esclarecimento da morte
Em fevereiro de 2014, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) apontou que o assassino de Rubens Paiva foi o ex-tenente do exército Antônio Fernando Hughes de Carvalho, oficial do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) ligado ao Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa), através de depoimento de outro dos envolvidos, o coronel da reserva Armando Avólio Filho, ex-integrante do Pelotão de Investigações Criminais da Polícia do Exército (PIC-PE), presente ao interrogatório e tortura de Paiva. A morte do ex-deputado se deu nas dependências do Destacamento de Operações de Informações (DOI) do I Exército, na rua Barão de Mesquita, Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Por seu trabalho na repressão aos subversivos, o tenente Hughes de Carvalho, já falecido, foi condecorado com a Medalha do Pacificador em 1971.
Responsabilização
Apesar da cobertura dada aos militares e subversivos pela Lei da Anistia para crimes cometidos durante o período da ditadura militar, em março de 2014 o Ministério Público Federal (MPF) decidiu, através de procedimento instaurado desde 2012, fazer uma denúncia formal dos militares reformados envolvidos no caso e ainda vivos. O MPF acusou um general, dois coronéis e dois sargentos: Em 26 de maio de 2014, a Justiça Federal aceitou a denúncia do MPF contra os cinco militares, tornando-os réus pelos crimes de homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver e associação criminosa, além fraude processual para três deles. Além da prisão, o MPF pedia cassação das aposentadorias e a anulação de medalhas e condecorações obtidas por eles. A acusação entendia que a anistia não se aplicava e nem estavam os crimes prescritos pois constituíam crimes de lesa-humanidade, tese acatada pelo juiz federal da 4ª Vara Criminal do Rio de Janeiro. A defesa dos réus recorreu da decisão e, em setembro, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região entendeu que a anistia não se aplicava a crimes comuns, como homicídio e ocultação de cadáver, deixando prosseguir o processo.
Homenagens
Em 3 de abril de 1981, ainda durante a ditadura militar, o Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (SEESP) inaugurou em sua sede, na cidade de São Paulo, o auditório Rubens Paiva.O evento contou com a presença da esposa Eunice Paiva e dos filhos Marcelo, Vera e Maria Beatriz (Babiu). "Na engenharia, o Rubens buscou os fundamentos da sua política, pois a atividade lhe permitiu um contato direto com a realidade brasileira, com o operário em construção. Aqui com os amigos, senti que o Rubens está agora dando uma boa gargalhada e fumando seu charuto", declarou Eunice na cerimônia. A homenagem ao engenheiro e líder político, reconhecido pela luta em defesa da democracia e da justiça social no Brasil, também se deveu à sua importância para a valorização dos profissionais, já que foi ele quem sugeriu ao então deputado Almino Affonso que apresentasse um projeto de lei para criar o piso salarial da categoria], ideia concretizada por meio da Lei 4.950-A/1966, em vigência até hoje.
Literatura
Em 2015, seu filho, o escritor Marcelo Rubens Paiva, publicou o livro Ainda Estou Aqui pela Editora Alfaguara. O livro conta a história de seu desaparecimento e o impacto que isso teve para sua família, narrando principalmente a visão da matriarca Eunice Paiva.
Cinema
Em 2024, o livro foi adaptado para o cinema pelo diretor Walter Salles, e protagonizado pela atriz Fernanda Torres, no papel de Eunice Paiva, e Selton Mello, no de Rubens Paiva. Venceu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza. Em 2025, este ganha, o primeiro Oscar brasileiro, de Melhor Filme Internacional. "Ainda Estou Aqui" também foi indicado nas categorias de Melhor Filme e Melhor Atriz, além de tantos outros prêmios naquela temporada.


