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Ameaça comunista no Brasil

Ameaça comunista no Brasil é uma teoria conspiratória que expressa a crença de que o país já correu, ou ainda corre, o perigo iminente de virar um Estado comunista, seja através de uma revolução, seja através da conversão ideológica. No uso corrente é uma expressão inespecífica, englobando supostas ameaças por qualquer tendência de esquerda. É um equivalente de ameaça vermelha, perigo comunista, perigo vermelho e outras. A expressão encarna um fenômeno recorrente na história política e social do país, sendo divulgada por correntes conservadoras de modo alarmista para criar um ambiente de medo e insegurança na população a respeito de um perigo que nunca teve a dimensão e iminência com que foi divulgado, e muitas vezes para justificar a introdução de medidas de exceção de caráter autoritário e antidemocrático, alegadamente necessárias para combater a suposta ameaça.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 11/07/2026
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Definição e premissas

A teoria da ameaça comunista no Brasil é uma versão alarmista e acrítica de anticomunismo, e na forma como é geralmente divulgada, nega qualquer possibilidade de qualquer contribuição positiva da ideologia comunista para a sociedade. A expressão principal da teoria é a denúncia de que o comunismo está em vias de dominar o sistema político nacional, associada à insistência em seu combate urgente, porque ele, assim como todas as outras correntes de esquerda, é considerado uma grande ameaça àquilo que se julga ser o modelo ideal de civilização e aos valores do bem comum, da moral, da família, da justiça, do patriotismo, da liberdade, da religião e/ou das hierarquias e estruturas sociais tradicionais. Também argumenta-se que o comunismo representa um ataque à soberania, à identidade, à estabilidade e à segurança da nação e suas instituições. Para os adeptos da teoria, o comunismo e as esquerdas em geral são a fonte de todo o mal, uma doença social e um inimigo nefasto e subversivo a ser combatido implacavelmente. Em geral seus defensores revelam possuir uma compreensão simplista, estereotipada, limitada ou distorcida do que seja o comunismo e outras ideologias de esquerda.

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Origens

A oposição ao comunismo surgiu desde que o comunismo existe, fortalecendo-se em um período em que em âmbito internacional cresciam tendências autoritárias contrárias à democracia, tanto à direita quanto à esquerda do espectro político. A Revolução Russa de 1917, que instituiu um Estado comunista como uma alternativa política viável, causou um grande impacto internacional, e desde logo passou a sofrer fortes críticas na imprensa brasileira de maneira sensacionalista e acrítica, em geral se baseando em boatos e em informações não confirmadas. Apesar da ampla rejeição do comunismo e sua pronta identificação com as forças do mal, do caos e da barbárie, a ameaça para o Brasil neste período inicial ainda parecia remota, mas aos poucos ela iria adquirir materialidade, especialmente depois que foi fundado no país, em 1922, um Partido Comunista. A partir de então o anticomunismo viria a desempenhar um papel fundamental na história da República, especialmente em momentos de crise ou de instabilidade político-social. No Brasil o anticomunismo se desenvolveu amparado em três ideologias principais: o catolicismo, o nacionalismo e o liberalismo. Para os católicos, o comunismo solapava a espiritualidade, negava Deus, subvertia as hierarquias divinamente determinadas, e atacava a família e a moral cristã, inserindo a luta ideológica no âmbito da luta entre o bem e o mal. Para os nacionalistas, era uma ingerência estrangeira nos assuntos nacionais, abolia a ideia de união entre o povo e o Estado e a ideia de Pátria, e representava o princípio do caos. Por fim, para os liberais, era um ataque à liberdade, à livre iniciativa, à propriedade.

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Retorno da "ameaça" no pós-guerra

Com a queda de Vargas em 1945 em meio a uma grande onda de protestos, o PCB retornou à legalidade e se reorganizou, e todos os presos políticos foram anistiados. Iniciava o processo de redemocratização do Brasil. Em meio ao entusiasmo gerado pelo fim da II Guerra Mundial e pela derrota do nazifascismo, o país se via cheio de novas esperanças de progresso. Luiz Carlos Prestes também ganhou liberdade, já então aclamado por parte da imprensa como "o cavaleiro da esperança", grande "líder popular", "líder das forças progressistas nacionais", "um dos chefes políticos de maior responsabilidade entre nós", "acatado pela maioria antifascista". Nas eleições para presidente deste ano, o candidato comunista, Iedo Fiúza, obteve 10% dos votos. Em 1946 o partido já mantinha oito jornais diários, alguns semanários e duas editoras. Nesta altura tinha cerca de 180 mil filiados. A despeito de sua orientação, sua proposta oficial não previa uma derrubada do sistema e rejeitava qualquer forma de ditadura, mas sim pretendia introduzir reformas dentro do arcabouço capitalista e democrático. Parte dos comunistas, incluindo Prestes, havia mesmo apoiado a permanência de Vargas, entendendo-a como a única alternativa legalista viável para combater o fascismo, enquanto outros queriam sua deposição na tentativa de conquistar reformas imediatas.

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Anos 1960

No início da década de 1960 o cenário político era de grande ativismo e muita polêmica, mas era também muito fragmentado em uma multiplicidade de tendências divergentes ao longo de todo o espectro ideológico. O Partido Social Democrático, ligado às oligarquias agrárias, era o principal representante do conservadorismo; o Partido Trabalhista Brasileiro atraía majoritariamente trabalhadores urbanos; a União Democrática Nacional interessava à classe média, aos profissionais liberais, intelectuais e parte do empresariado; o Partido Socialista Brasileiro agrupava intelectuais e estudantes; e o Partido Comunista contava com bastante prestígio popular. Havia também grupos de centro-esquerda, de extrema-direita, anarquistas e outros. Jânio Quadros elegeu-se presidente com o apoio de muitos que viram nele uma promessa de combate ao getulismo e às esquerdas, mas para a sua surpresa, ele passou a desenvolver uma política externa não alinhada aos EUA, sofrendo uma enxurrada de críticas, que se tornaram extremadas quando ele condecorou Che Guevara, um dos líderes da Revolução Cubana, com a Ordem do Cruzeiro do Sul. Então deflagrou-se nova crise institucional: o presidente renunciou em 25 de agosto 1961, poucos meses após ser empossado. Seu vice, João Goulart, deveria assumir o governo, mas ele tinha laços conhecidos com a esquerda e foi rejeitado por parte do Congresso e impedido pelos ministros militares, que o acusaram de corrupção, conspiração e vinculação ao comunismo e socialismo. Como solução conciliatória para uma situação que foi considerada na época próxima da guerra civil, o Congresso propôs o regime parlamentarista, onde o presidente teria poderes limitados. Tancredo Neves assumiu como primeiro-ministro, mas pediu demissão em 1962. No ano seguinte um plebiscito rejeitou o parlamentarismo, e Goulart reassumiu como presidente com plenos poderes.

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Cenário recente

O bordão da ameaça comunista continua atual. Após a redemocratização do Brasil na década de 1980 (Nova República), o tema permaneceu sendo frequentemente ressuscitado, em geral por grupos militares e setores civis conservadores e direitistas ligados a eles. Para muitos desses grupos, conforme diz Eduardo Heleno de Jesus Santos, "todo político de esquerda é comunista, e todo o comunista deseja implantar uma ditadura no país". Para estes grupos a identificação como comunista abrange não apenas os partidos comunistas propriamente ditos, o PCB e o PC do B, mas também os partidos de esquerda moderada, como o PSDB. No entanto, o principal alvo dos ataques não são eles, e sim o Partido dos Trabalhadores e o seu principal líder, Luiz Inácio Lula da Silva. Na campanha de 1989, Fernando Collor de Mello descreveu o Partido dos Trabalhadores repetidas vezes como o partido da desordem, do caos e da intolerância. Na sua primeira campanha eleitoral, Lula foi retratado por setores evangélicos como o demônio encarnado do comunismo, que fecharia as igrejas e se apossaria dos bens das pessoas. A partir da eleição da presidente Dilma Rousseff, o tema passou a receber forte revigoramento de conservadores e simpatizantes da direita. Na campanha de 2010 José Serra recorreu com força à retórica do medo contra Dilma, acusando o seu partido de ter ligações com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, o Comando Vermelho, Hugo Chávez e terroristas.

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