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Língua tupi

Língua tupi, ou tupi antigo, foi a língua falada pelos povos tupis e por grande parte dos colonizadores que povoavam o litoral do Brasil nos séculos XVI e XVII. Considera-se a língua indígena "clássica" do Brasil e a que teve mais importância na "construção espiritual e cultural" do país.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 17/07/2026
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Descrição linguística

Segue-se um breve sumário das principais características do tupi, sua tipologia e outras características. A presente seção visa a fornecer uma visão geral de seu perfil linguístico, com maior aprofundamento nas seções que se seguem.

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História e interesse histórico

A língua tupi antiga possui vários documentos que descrevem sua estrutura, sendo o padre jesuíta José de Anchieta considerado como seu primeiro gramático (foram os jesuítas que criaram a representação escrita da língua, a qual era, até então, exclusivamente oral). Anchieta não foi, porém, o primeiro jesuíta a aprender a língua nativa: o padre basco João de Azpilcueta Navarro compôs os primeiros hinos religiosos em suas pregações aos indígenas. O objetivo dos padres era catequizar os indígenas.[falta página] Nos séculos XVI e XVII, era chamado pelos portugueses de língua brasílica por ser o idioma mais usado no Brasil (a expressão "língua tupi" somente se generalizou a partir do século XIX). Dentre os grupos reconhecidos pelos historiadores, antropólogos e linguistas que tinham o tupi antigo como língua materna estão os tupinambás, tupiniquins, caetés, tamoios, potiguaras, temiminós e tabajaras. Os europeus que iam viver no Brasil, bem como os escravos africanos que eram trazidos para o país, aprendiam a língua e falavam-na no seu dia-a-dia, usando o português apenas nas suas relações com a Coroa Portuguesa. Inicialmente restrita à costa brasileira, o tupi se interiorizou devido à ação dos bandeirantes, que o levaram ao interior, aos atuais estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, entre outros.

Número de falantes

Conforme Aryon Rodrigues, o tupi era mais falado que o português nas regiões onde houve maior miscigenação entre o colonizador europeu e a indígena nativa. Essas são as regiões periféricas da colonização lusitana, a saber: o sudeste do Brasil, mais especificamente São Paulo e São Vicente, e o Norte. Já em Salvador, antiga capital da colônia, sede da administração lusitada implantada no novo mundo, a língua portuguesa dominava, por duas razões:

Interesse moderno pela língua

O interesse moderno pela língua tupi teve uma conotação nacionalista brasileira. A língua foi bastante explorada nos movimentos literários do romantismo e do modernismo para a afirmação da identidade cultural do país.[falta página] No contexto do nacionalismo da época Vargas, durante as décadas de 1930, 1940, 1950 e 1960, o tupi fez parte do currículo das faculdades de filosofia brasileiras. Em 1954, no governo do presidente brasileiro Café Filho, o tupi foi declarado legalmente matéria obrigatória no currículo das faculdades de letras do país. No entanto, sob a influência do estruturalismo (que, por seu caráter a-histórico, pregava o estudo somente das línguas indígenas contemporâneas), a língua tupi praticamente desapareceu do currículo das faculdades brasileiras, a partir da década de 1970, permanecendo apenas em algumas universidades, como a Universidade de São Paulo.

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Fonologia e ortografia

O tupi identifica um conjunto de 31 fonemas, dos quais doze são vogais, três semivogais e dezesseis consoantes. Característica notória de sua fonologia é, sem dúvida, o seu caráter gutural. Uma outra, os abundantes metaplasmos.

Vogais

As vogais são: a, e, i, o, u, y, ã, ẽ, ĩ, õ, ũ, ỹ (na grafia de Navarro). Como se pode perceber, o tupi antigo possui um sistema vocálico simétrico, com seis pares de vogais orais e nasais. Cada vogal oral tem uma vogal nasal correspondente. Com exceção do y e do ỹ, os demais sons vocálicos do tupi antigo ocorrem também no português.

Semivogais e consoantes

São semivogais: î, û, ŷ. São como as palavras "piá" e "mau" no português, respectivamente. A semivogal ŷ não existe em português.[falta página] As consoantes são: ' (um fonema que não existe no português e que se caracteriza por uma pequena interrupção no fluxo de ar), b (como na palavra "huevo" do castelhano), nh, k, m, (ou mb), n, (ou nd), ng, p, r (sempre brando, como no português "aranha"), s, t, e x (como no português "chácara"). As consoantes e semivogais (consoantes aproximantes) do tupi antigo estão representadas por símbolos fonéticos na tabela abaixo.

Ortografia

Antes do descobrimento do Brasil, o tupi antigo não tinha escrita. Os europeus o representaram de distintas formas, conforme os alfabetos de seus idiomas nativos. Neste artigo, salvo quando for indicado o contrário, far-se-á uso da ortografia desenvolvida por Lemos Barbosa e aprimorada por Eduardo Navarro.

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Substantivos

O substantivo é a classe gramatical mais abrangente em tupi. Todo adjetivo e verbo pode também ser um substantivo (isto é, tem uma forma substantivada), enquanto a recíproca não é verdadeira: nem todo substantivo pode ser transformado em um adjetivo ou verbo. É o caso dos substantivos não possuíveis.[falta página] Os substantivos não possuíveis são apenas substantivos, não podendo ser transformados em um adjetivo ou verbo. Os possuíveis podem todos eles ser adjetivos, já que esta classe gramatical é usada para dar a ideia de posse (ver seção #Adjetivos). Alguns possuíveis podem ser verbos também.[falta página]

Sufixo substantivador

Em tupi, todos os substantivos terminam em vogal. O sufixo substantivador -a é usado para transformar um verbo ou adjetivo em um substantivo, caso estes terminem em consoante.[falta página] O sufixo substantivador será sempre átono (isto é, nunca será a sílaba tônica).[falta página] O mesmo ocorre quando um substantivo e um adjetivo estão em composição: kunhãporanga: mulher bonita (kunhã, mulher; porang, bonito; a, sufixo)

Composições

Em tupi, são comuns as composições, pelas quais termos diferentes formam uma única palavra. Por exemplo, 'ypiranga, que significa "rio vermelho", tem em tupi seus termos justapostos e formam uma unidade conceitual, sendo um substantivo como outro qualquer.[falta página] Há dois tipos de composição em tupi:[falta página] No exemplo acima, há uma relação genitiva, que dá a ideia de posse, origem, ou pertencimento. Em relações desse tipo, ocorre uma inversão da ordem dos termos, conforme as setas indicam. (O mesmo fenômeno ocorre em outras línguas, como o shopping center – centro de compras – em inglês).[falta página] As composições são constituídas por um termo que é o determinante, e o outro que é o determinado. No exemplo, a palavra îakaré é o determinante, pois ela determina, delimita o sentido de 'y, que por sua vez é o determinado.[falta página]

Tempo dos substantivos

Diferentemente da língua portuguesa, o tempo de uma ação, no tupi antigo, é expresso pelo substantivo, não pelo verbo. Tais tempos são futuro, passado e um tempo chamado de "irreal", que é semelhante ao futuro do pretérito, do português. Eles são indicados, respectivamente, pelos adjetivos -ram, -pûer e -rambûer. Estes, por estarem em composição com o substantivo, recebem o sufixo -a, conforme explicado acima. Cabe ressaltar que o futuro significa, mais propriamente, o futuro em relação ao verbo, e não ao tempo presente. No exemplo aîur nde îuka-ram-a resé, a futura morte é futura somente em relação ao verbo "vir", que está no passado. Isto é, o interlocutor pode já estar morto, mas a frase pode permanecer com o -rama[falta página]

Aumentativo e diminutivo

Os graus do substantivo (aumentativo e diminutivo) se fazem pelos sufixos -'ĩ ou -'i, para o diminutivo, e -gûasu, -ûasu ou -usu para o aumentativo. Eis alguns exemplos com suas explicações: ('Y é rio. O g foi adicionado depois pelos colonizadores) Não se deve confundir o adjetivo mirĩ, que significa pequeno, com os sufixos que formam o diminutivo: itámirim, pedras pequenas; Ita'ĩ, pedrinhas.

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Adjetivos

A rigor, não há em tupi uma categoria correspondente a adjetivos. Isto é, não há adjetivos como uma categoria que seja morfológica e sintaticamente distinta dos verbos de segunda classe. Em vez de adjetivos, há os chamados verbos descritivos. Por exemplo, katu é o verbo "ser bom". Xe katu: sou bom. Todavia, a categoria de adjetivos muitas vezes é admitida para fins didáticos. Conforme já esboçado na seção #Composições, os adjetivos podem ser de dois tipos: qualificativos e predicativos. Os primeiros vêm sempre em composição, e possuem um sentido genérico, enquanto os adjetivos predicativos são uma afirmação sobre o sujeito:[falta página] Morfologicamente, os adjetivos qualificativos e predicativos são idênticos.[falta página] Os adjetivos também podem ser usados para dar a ideia de posse. Todos os substantivos possuíveis podem ser usados como adjetivos desse tipo, que se traduzem pelo verbo "ter":[falta página]

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Pronomes

Pronomes pessoais

Os pronomes pessoas em tupi se destacam por ter duas formas de falar "nós". Oré, é um nós exclusivo, que exclui o(s) ouvinte(s), e îandé, que o(s) inclui. Os pronomes pessoais podem ser de duas séries. Os pronomes de 1ª série geralmente são usados sozinhos ou com verbos (mais especificamente os da primeira conjugação, ou 1ª série). Exemplo: ixé a-karukatu: eu comi bem. Abápe morubixaba? – Ixé: quem é o cacique? – Eu.[falta página] Os pronomes da 2ª série são usados em muitos casos. Alguns deles:[falta página]

Pronomes demonstrativos

Os pronomes demonstrativos (este, esse, aquele) em tupi, além de se diferenciarem pela distância do objeto e de quem o possui, também varia conforme a visibilidade. Objetos que estão na vista recebem pronomes diferentes que dos que não estão no campo de visão do locutor.[falta página]

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Verbos

Verbos no tupi antigo podem ser divididos em duas classes. Na primeira, ocorre conjugação verbal, sendo esta feita no início da palavra. Além disso, os verbos podem representar uma ação presente, passada ou futura, pois eles, ao contrário do português, não expressam tempo. (O futuro, em especial, é feito com o acréscimo da partícula -ne ao final do período, mas isso não muda o fato de que o verbo, por si só, não expressa tempo.)[falta página] Há também os verbos da segunda conjugação, ou de 2ª classe. Estes são usados com pronomes pessoais de 2ª classe e não variam. Tais verbos são, na verdade, adjetivos, sendo apresentados como verbos para fins didáticos.[falta página]

Verbos transitivos

Os verbos transitivos são aqueles que exigem um objeto. No tupi antigo, esse objeto pode ser posposto, anteposto, mas também incorporado no verbo. Neste último caso, o objeto fica entre a desinência verbal dos verbos de 1ª classe (a-, ere-, o-, etc.) e o tema verbal. Exemplo: Quando o objeto (no exemplo acima, o peixe) não estiver incorporado, ficará em seu lugar o pronome pessoal de terceira pessoa -i-, mesmo quando o objeto estiver presente na oração. Chama-se a isso de objeto pleonástico. Verbos monossilábicos usam -îo- (ou também -nho- próximo de nasais) ao invés de -i-, e alguns poucos usam -s-. Exemplos:

Futuro

Forma-se com o -ne, sempre no final do período, independentemente da classe gramatical da última palavra. Esse clítico tem também outros significados e nesses casos pode ser usado como uma partícula em outras posições da oração.

Modos verbais

A principal divisão dos verbos em tupi é entre suas formas nominais e suas formas verbais propriamente ditas. As formas verbais são as que recebem prefixos número-pessoais (a-, ere-, o- etc.). As formas nominais não os recebem.[falta página] Dentro de cada uma dessas duas grandes formas de classificar os verbos, há os diferentes modos verbais, conforme a classificação de Navarro. Alguns desses modos são semelhantes ao português, como o modo indicativo, permissivo (semelhante ao subjuntivo do português) e o imperativo. Serão comentados a seguir os modos verbais que forem desconhecidos dos falantes do português, ou os que apresentarem particularidades importantes.[falta página]

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Numerais

Em tupi antigo, há apenas numerais de um a quatro, tanto cardinais quanto ordinais, pois a utilidade de maior precisão matemática era pouca em uma economia primitiva. Os numerais cardinais podem ser antepostos ou pospostos ao nome ao qual se referem, ao passo que os ordinais são somente pospostos. Por exemplo, em se tratando de cardinais, mokõî pykasu e pykasu mokõî são termos equivalentes, significando "duas pombas". No que se refere a ordinais, ta'yrypy significa "primeiro filho (de homem)", e 'ara mosapyra, "terceiro dia". Para expressarem-se quantidades maiores, fazia-se uso de circunlóquios, relacionando, sobretudo, a quantidade de dedos nas mãos e nos pés. Em alguns casos, houve também a incorporação de numerais do português ao tupi. Às vezes, ainda, verificavam-se ambas as possibilidades simultaneamente. Também se podia dizer nã ("assim", "tantos") e mostrar uma quantidade de dedos ou de outras coisas

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Deverbais

Os deverbais são nomes derivados de verbos. Possuem grande importância em tupi e, apesar de serem substantivo como outros quaisquer, podem ser estudados como uma categoria própria.[falta página] Sua importância reside no fato de eles formarem o que em português seriam orações subordinadas, com pronomes como que, o qual, etc. Em rigor, não existem orações subordinadas em tupi. Frases como "o homem que matou a onça" seria traduzida como "o homem matador da onça"; "fiquei feliz quando você veio" seria "fiquei feliz por ocasião da sua vinda". Nas frases em tupi, percebe-se um único verbo (e portanto uma única oração), em vez de dois.[falta página] O -a entre parênteses é o sufixo substantivador. Trata-se de um sufixo acrescentado a outro sufixo.[falta página] Como ambos frequentemente andam juntos, com frequência são vistos como um sufixo só (-sara, -bora, -pyra, etc). Os deverbais, por serem substantivos como quaisquer outros, podem receber sufixos, como é o caso de i îukápyrama, no qual se encontra o sufixo -rama, formando o futuro nominal. (Ver seção #Tempo dos substantivos)

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Posposições

São o mesmo que as preposições em português, mas vêm depois do termo regido. Subdividem-se em posposições átonas, que são justapostas à palavra anterior, e tônicas, que são escritas separadamente.[falta página] Assim como em português, as posposições também podem ser exigidas por determinados verbos. Por exemplo:[falta página]

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Fontes consultadas

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