Língua groenlandesa
O groenlandês, groelandês (português brasileiro) ou gronelandês (português europeu) é um idioma da família esquimó-aleúte, mais especificamente do grupo inuíte. É a língua dos povos indígenas da Groenlândia, onde é falada por cerca de 50 700 pessoas, além de outras 7 000 na Dinamarca. Mundialmente tem 57 700 falantes. A situação da língua é definida como vigorosa, por ser usada oralmente por todas as gerações de forma sustentável. Tornou-se língua oficial da Groenlândia em 1979, junto ao dinamarquês, quando a Groenlândia deixou de ser colônia ao conquistar autonomia no Reino da Dinamarca. A lei groenlandesa de autoadministração de 2009 não estabelece ao dinamarquês qualquer status.
Grœnland (adaptado ao português como Groenlândia) foi o nome em nórdico antigo dado à ilha pelos primeiros europeus a conhecê-la, os islandeses. Vem de grœn (verde) + land (terra), significando terra verde. A Saga de Érico, o Vermelho, conta que Érico nomeou o país na esperança de atrair mais gente para lá por meio do belo nome. Kalaallisut pode referir-se à língua groenlandesa ou à sua dominante variante oeste, da mesma forma que kalaalit pode referir-se aos groenlandeses ou ao principal grupo étnico entre eles, que fala a variante oeste. Daqui em diante, estas palavras são usadas somente em sentido mais restrito. Elas provavelmente vêm de skræling, o nome, de origem controversa, que os exploradores nórdicos deram aos povos com que se depararam na Groelândia e em territórios próximos no Canadá.
A língua groenlandesa compreende três dialetos: Há debate sobre essa classificação. Alguns preferem entender essas variantes como línguas distintas. Outros mantêm que kalaallisut e tunumiisut formam um mesmo idioma, mas veem o inuctune como uma língua separada, já que tem origem nas línguas inuíte do norte do Canadá. Kalaallisut é a variante oficial e dominante na Groenlândia. Ela é a única com ortografia estabelecida e é a principal língua na educação primária. É falada em Nuuk, capital e cidade mais povoada da ilha. As línguas esquimó-aleútes, como o groenlandês, não estão relacionadas aos demais idiomas nativos da América, por provavelmente surgirem em imigrações tardias da Ásia. O groenlandês é da família inuíte e, portanto, está próxima de línguas indígenas do norte do Canadá, como o inuktitut.
Vogais
Há em groenlandês três vogais: /i/, /u/ e /a/, cada uma com vários alófonos: Vogais podem ser duplas em qualquer posição. Nesse caso, são interpretadas como duas moras numa mesma sílaba, não como vogais longas. Há apenas um ditongo, /ai/, geralmente em fim de palavra. Demais combinações de vogais não se encontram numa só sílaba.
Consoantes
As consoantes podem ser simples ou geminadas. Há algumas alofonias e peculiaridades na pronúncia das consoantes:
O groenlandês começou a ser escrito a partir do século 18 por iniciativa de missionários noruegueses e dinamarqueses, que queriam documentar a língua e traduzir textos religiosos, principalmente a Bíblia, para catequizar os nativos. O missionário groenlandês de origem europeia Samuel Petrus Kleinschmidt criou uma ortografia que se manteve popular de 1851 até 1971, quando foi substituída por outra mais fonética. A ortografia atual de 1971 usa as 26 letras do alfabeto latino básico, além das dinamarquesas æ, ø, å. Essas últimas mais as letras b, c, d, h, w, x, y, z são usadas apenas em empréstimos, principalmente dinamarqueses. Retirando essas, sobram 18: a, e, f, g, i, j, k, l, m, n, o, p, q, r, s, t, u, v. Consoantes geminadas e vogais duplas são ambas escritas com a mesma letra duas vezes. As vogais /i/, /u/ e /a/ são escritas i, u, a, respectivamente, exceto os alófonos [e] e [ɔ], que são escritos e, o, respectivamente. As letras f, k, l, m, n, p, s, t, v, b, d, c soam como no português, sem as exceções encontradas nele, mas com as alofonias descritas na seção de fonologia.
Kalaalisut é uma língua altamente sintética, que usa menos palavras, mas cada uma com mais morfemas, formando palavras muito grandes que resumem o sentido de frases inteiras em outras línguas mais analíticas como o português. Abaixo uma tabela demonstrando esse fenômeno: Os sufixos tem um sistema complexo de integração a palavras, pelo qual podem ser truncados ou aditivos. Os truncados assimilam sua primeira consoante à última da palavra a que se juntam. Os aditivos fazem sumir a última consoante da palavra.
Pronomes
Todos os pronomes variam em caso, e a maioria varia em número. Ao contrário do português, não variam em gênero. Há somente 4 pronomes pessoais básicos, cujas formas absolutivas e relativas tem as mesmas terminações, que são: uanga (eu), uagut (nós), illit (você) e ilissi (vocês). São pouco usados, pois já estão embutidos nas conjugações verbais, configurando um idioma de anáfora zero (próximo do português em frases como "vi, vim, venci", onde o pronome eu é desnecessário). São usados mais para dar ênfase. Não há pronomes pessoais de terceira pessoa, pois suas funções são exercidas por pronomes demonstrativos (equivalentes de esse, este, aquele), que, quando servem de pessoais, também são geralmente usados para dar ênfase. O instrumental é raramente usado fora de textos bíblicos.
Substantivos
Variam em número e caso. Há dois números: singular e plural, com que verbos e modificadores concordam. o groenlandês moderno deixou de ter o número dual, característico de línguas próximas como inuktitut. Há muitas palavras unicamente plurais, conhecidas como plurale tantum, em conceitos que indicam várias partes, como billit (carro) e bussit (ônibus) pelas rodas que os constituem, sukkut (açúcar) por seus grãos, ilagisat (família) por seus membros, naalakkersuitsut (governo) por seus políticos etc.. A concordância com essas palavras sempre se dá também no plural. O groenlandês é uma língua ergativa-absolutiva, em que o objeto direto de uma oração transitiva tem o mesmo caso (absolutivo) que o sujeito de um verbo intransitivo, enquanto o sujeito de um verbo transitivo tem outro caso (ergativo). O ergativo também indica o possuidor de algo.
Verbos
Variam para marcar, por sufixos, pessoa, número, transitividade, tempo, modo, aspecto, negação, evidencialidade, causatividade, reflexividade, reciprocidade, passividade e valência. Tanto o sujeito quanto o objeto, se há, são marcados no verbo, e variam em pessoa e número. Há quatro pessoas, das quais a 1ª, a 2ª e a 3ª são comuns ao português. A 4ª marca um sujeito que é o mesmo tanto numa oração principal quanto na respectiva oração subordinada. Assim se diferem frases como "Paulo comeu o prato que (ele mesmo, em 4ª pessoa)fez" e "Paulo comeu o prato que (outro, em 3ª pessoa)fez". Há oito modos, quatro são para orações principais (indicativo, interrogativo, imperativo, optativo) e quatro são para orações subordinadas (causativo, condicional, contemporativo, participial). O modo optativo tem função parecida com a do imperativo, mas é usado com a 3ª pessoa e a 1ª singular, enquanto o imperativo é usado com a 2ª pessoa e a 1ª plural. O interrogativo faz pergunta, o causativo indica causa (ou sequência), o condicional indica hipóteses (análogo a "se"), o contemporativo indica ação simultânea (análogo a "enquanto") e o participial indica orações subordinadas completivas (que começam em "que"). Os sufixos de modo variam entre os afirmativos e negativos.
Sentença
A ordem dos constituintes básica é sujeito-objeto-verbo, como em "o macaco a banana come" ou "eu te amo". Substantivos e seus arredores seguem a ordem seguinte: demonstrativo + substantivo + modificador + numeral + pronome demonstrativo, sendo que só o substantivo é indispensável. Advérbios ou adjuntos adverbiais precedem o verbo.
Numerais
A partir de 13, e com todos números para falar de preços, os numerais dinamarqueses são emprestados, com um sotaque groenlandês.


