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Imigração italiana no Brasil

Imigração italiana no Brasil teve como ápice o período entre 1874 e 1930, ganhando relevância estatística no final do século XIX. Os italianos que foram para o Brasil podem ser classificados em três grupos principais: os que foram para colônias agrícolas, concentrados no Sul e em menor escala no Sudeste, incentivados pelo governo para criar uma classe de pequenos agricultores; os que foram trabalhar nas fazendas de café, o grupo mais numeroso, atraídos por uma imigração subvencionada para suprir a demanda por mão de obra após a abolição da escravatura, sobretudo em São Paulo, mas também em Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro; e os que se dirigiram aos centros urbanos, compostos por imigrantes espontâneos, sem depender de incentivos governamentais, de origem mais diversa, muitos com algum capital e qualificação profissional.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 17/07/2026
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Antecedentes

A presença italiana no Brasil remonta à década de 1560. Na então Capitania de Pernambuco, centro da economia canavieira, o senhor de engenho Filippo Cavalcanti, um nobre oriundo da cidade de Florença, casou-se com Catarina de Albuquerque, filha do governador Jerônimo de Albuquerque com uma índia chamada Tabira ou Muira Ubi, que depois do casamento foi batizada como Maria do Espírito Santo Arcoverde. Desse casamento nasceram doze filhos (tendo morrido o primogênito ainda na infância) dando origem ao clã dos Cavalcanti (ou na corruptela Cavalcante). A família é reconhecida como a mais numerosa do país e a primeira de origem italiana a ser formada em território brasileiro, que se tem notícia. Filippo recebeu a doação de uma sesmaria em 1572, e construiu o primeiro de três engenhos na capitania, fazendo com que os Cavalcanti prosperassem na produção de açúcar. Seus engenhos fariam parte dos relatórios da Companhia das Índias Ocidentais na época da invasão holandesa no Nordeste, em meados do século XVII.

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Estatísticas

Entre 1820 e 1963, entraram no Brasil 1.624.722 imigrantes italianos, com a maior concentração na década de 1890, quando entraram 690.365 (42,49% do total). Em todo esse período, apenas os portugueses (1.767.334) chegaram em maior número. Porém, no começo do século XX, devido à crise na economia cafeeira e à decisão do governo italiano de proibir a emigração subsidiada para o Brasil, houve uma queda significativa na chegada de imigrantes italianos. Entre 1900 e 1910, entraram 221.394 Dados de 2022 apontam que os imigrantes nascidos na Itália residentes no Brasil estavam concentrados na faixa etária mais idosa (acima de 70 anos de idade). Embora os dados apontem que a primeira geração de imigrantes esteja em processo de extinção no Brasil, a presença italiana ainda se mantém no país por meio de milhões de brasileiros descendentes de italianos. Não existem dados concretos sobre o número de descendentes de italianos no Brasil, visto que o censo nacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não questiona a ancestralidade do povo brasileiro há várias décadas. No último censo a questionar a ancestralidade, o de 1940, 1 260 931 brasileiros disseram ser filhos de pai italiano, enquanto que 1 069 862 disseram ser filhos de mãe italiana. Os italianos natos eram 285 mil e os naturalizados brasileiros, 40 mil. Portanto, italianos e filhos eram pouco mais de 3,8% da população do Brasil, em 1940[nota 1] Em 1925, o governo da Itália havia estimado que italianos e descendentes eram 6% da população brasileira e 15% da população branca.[nota 2]

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Início

Desde 1820 havia uma colônia de genoveses em Salvador, na Bahia. Em 1836 foi fundada a Colônia Nova Itália no estado de Santa Catarina, com imigrantes da Sardenha. São registrados italianos em Porto Alegre no Rio Grande do Sul desde as primeiras décadas do século XIX. Em Petrópolis no estado do Rio começam a chegar em 1845, e na cidade do Rio havia mais de 1.700 italianos em 1872. A partir desta época, quando o governo passa a dar atenção prioritária aos italianos em seu programa colonizador, começam a chegar grandes levas para o Espírito Santo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná e principalmente São Paulo, onde se concentrou a maioria. A imigração italiana no Brasil foi intensa, tendo como ápice o período entre os anos de 1880 e 1930. Foram impulsionados pelas transformações socioeconômicas em curso no Norte da península itálica, que afetaram sobretudo a propriedade da terra. Um aspecto peculiar à imigração em massa italiana é que ela começou a ocorrer pouco após a unificação da Itália (1861), razão pela qual uma identidade nacional desses imigrantes se forjou, em grande medida, no Brasil.

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O Brasil como destino

Para compreender a imigração italiana no Brasil, é necessário analisar os aspectos do país durante o século XIX. Na primeira metade deste século, o Reino Unido, a superpotência da época, pressionou fortemente o Brasil para acabar com o tráfico negreiro que supria as necessidades de mão de obra com a importação de escravos da África. A Lei Eusébio de Queirós proibiu o tráfico negreiro em 1850 e, a partir deste momento, começou a falta de mão de obra nas zonas em que se expandia a cultura cafeeira. Isto foi limitadamente resolvido com a importação de escravos da Região Nordeste. Nesta época, surgiu no oeste paulista um grupo de fazendeiros que, premido pela falta de mão de obra escrava, defendeu o uso da mão de obra livre nas plantações de café, opondo-se politicamente aos fazendeiros do Vale do Paraíba, donos de grandes plantéis de escravos. A nação brasileira passou então por um período de fermentação das ideias abolicionistas. Novas leis, como a Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei dos Sexagenários (1885) anunciavam o fim próximo da escravidão. Ao mesmo tempo, a população escrava envelhecia durante a segunda metade do século XIX sem que a reprodução natural da população fosse suficiente para suprir a necessidade de mão de obra nas lavouras que se expandiam ou para colonizar as terras ainda inexploradas no sul do Brasil. É comum afirmar-se erroneamente que a libertação dos escravos em 1888 desencadeou a falta de mão de obra nas lavouras quando os escravos libertos saíram das fazendas para as grandes cidades. Isto aconteceu em pequena escala, e somente no Vale do Paraíba onde a lavoura cafeeira estava em franca decadência de produção. Enquanto isto, na então província de São Paulo, as plantações de café prosperavam e necessitavam cada vez mais de mão de obra em quantidade muito superior à existente.

A questão racial

A questão racial foi decisiva na política imigratória brasileira. O imigrante ideal teria que ser agricultor e, mais do que isso, branco e que emigrava com a família. Neste momento, imigrante virou sinônimo de europeu, pois negros e mestiços foram automaticamente excluídos dos projetos de colonização baseados na distribuição de terras. Nos contratos firmados por agenciadores, os imigrantes eram selecionados de acordo com suas origens regionais (o que indicava que a categoria genérica de "europeu" não era absoluta ou exclusiva). Como exemplo, no decreto 5 663, de 1873, celebrado pelo governo imperial com Joaquim Caetano Pinto Júnior, no topo da lista apareciam alemães e austríacos, portugueses e espanhóis foram excluídos, mas incluía bascos e italianos do Norte. Porém, a política imperial quase sempre não se prendia a escolhas minuciosas da região de origem, sendo o europeu genérico o alvo preferido da política imigrantista. Por muitas décadas os alemães permaneceram no topo da preferência entre os imigrantes, por sua "índole" e seu "pendor" agrícola. A situação se alterou no final do século XIX, quando cresceu a corrente contrária à imigração alemã, devido à formação de quistos germânicos no sul do Brasil, que não se assimilavam dentro da sociedade brasileira, o que passou a ser considerado uma ameaça.

A escolha em imigrar para o Brasil

A política imigratória brasileira teve duas vertentes: uma era atrair imigrantes e fazer deles proprietários rurais e a outra focava em simplesmente obter braços para as lavouras de café. Em consequência, os imigrantes podiam optar entre rumar para os núcleos coloniais ou para as fazendas. Os núcleos coloniais apenas vigoraram nas regiões onde não havia plantações de café, uma vez que, nas regiões cafeeiras, as terras disponíveis à colonização eram escassas e marginais. Ademais, a formação de novos núcleos coloniais dependia da autorização do parlamento, e os representantes impunham obstáculos ao fluxo exagerado de imigrantes para as colônias, visando garantir o fluxo da mão de obra necessária para as fazendas de café. Isso, todavia, não impediu a formação de núcleos coloniais onde havia plantações de café, desde que aqueles não fizessem concorrência com estes.pg.27

A viagem de navio

Depois de decidirem imigrar para o Brasil, quase sempre após terem sido persuadidos pelos agentes e subagentes de imigração, a próxima etapa era a viagem migratória. O primeiro desafio era chegar até o porto de embarque. No caso do Norte, era o porto de Gênova e, no Sul, o porto de Nápoles. A ida até o porto, que às vezes era feita a pé, inclusive no inverno, envolvia aldeias inteiras. Antes de partir, vendiam os poucos bens que possuíam. Frequentemente chegavam ao porto vários dias antes do embarque, por má-fé dos agentes, mancomunados com taberneiros e estalajadeiros, que tratavam de abusar dos preços.pg.44 Uma vez dentro do navio, os imigrantes tinham que enfrentar uma viagem naval terrível, com duração entre 21-30 dias, amontoados no navio como passageiros de terceira classe. Não eram raros os envenenamentos por comida estragada, mortes por epidemias e ondas de furtos. Em 1888, em dois navios que transportavam imigrantes para o Brasil, o Matteo Bruzzo e o Carlo Raggio, 52 pessoas morreram de fome e, em 1899, no Frisca, 24 morreram por asfixia.pg.45

A imigração italiana no sul

No Brasil, havia grande disponibilidade de terras e um grande vazio demográfico, que causava preocupação no governo. Atrair imigrantes europeus para ocupar essas regiões foi uma política que existia desde o início do século XIX. Entre 1818 e 1824, foram feitas duas tentativas de colonização por imigrantes, sendo elas Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro, com suíços, e São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, com alemães. Em 1867, as terras públicas disponíveis à colonização mediam 503 965 hectares e em 1861 existiam 33 colônias habitadas por 33 970 estrangeiros. Quatorze anos depois, o número de colônias crescera para 89, sendo 66 delas no Sul (de São Paulo ao Rio Grande do Sul).pg.19

Mão de obra italiana para o café no sudeste

Embora tenha sido a região Sul a pioneira na imigração italiana, foi a Região Sudeste aquela que recebeu a maioria dos imigrantes. Isto se deve ao processo de expansão das lavouras de café em São Paulo (e, em menor medida, também em Minas Gerais). Com o fim do tráfico negreiro, os próprios donos das fazendas de café tratavam de atrair imigrantes italianos para as suas propriedades. Em 1871, foi criado o subsídio federal à imigração. Também na década de 1870, os proprietários de terras pagavam diretamente a viagem e o imigrante tinha que trabalhar nas fazendas com um contrato de cinco anos, devolvendo o valor da passagem paga. A partir da década de 1880, o governo paulista, controlado politicamente pelos fazendeiros, passou a incentivar a imigração italiana com destino aos cafezais, subsidiando 50% das despesas da viagem, mantendo-se o contrato de cinco anos e o ressarcimento.pg.23 A pressão do principal grupo interessado na mão de obra de trabalhadores livres estrangeiros, os cafeicultores paulistas, reorganizou a política de imigração ao longo dessa década, criando um sistema de subvenções para atrair essa mão de obra. Entre 1889 e 1930 (Primeira República Brasileira), ingressaram no país mais de 3,5 milhões de estrangeiros.

Os italianos nas cidades brasileiras

Embora a imigração italiana no Brasil fosse predominantemente rural, muitos italianos também foram diretamente para os centros urbanos brasileiros. É necessário fazer uma distinção entre imigração subsidiada e imigração espontânea. Os imigrantes subsidiados foram aqueles que chegaram ao Brasil com suas passagens de navio pagas pelo governo brasileiro e que foram encaminhados, predominantemente, para trabalharem nas fazendas de café do Oeste Paulista. Tratou-se de uma imigração incentivada pelo Estado brasileiro, sobretudo como meio de substituição do trabalho escravo na agricultura de exportação. Os imigrantes subsidiados eram, em sua maioria, oriundos do Norte da Itália, miseráveis e analfabetos. Por sua vez, os imigrantes espontâneos foram aqueles que chegaram ao Brasil por conta própria, sem qualquer auxílio do governo brasileiro, e que se instalaram principalmente nos centros urbanos. Os imigrantes espontâneos provinham principalmente das províncias mais ao Sul da Itália e formavam um grupo social bastante heterogêneo. Diferentes autores enfatizam que muitos imigrantes espontâneos já chegavam ao Brasil com algum capital, por mínimo que fosse, o que significa que, ainda que pobres, a maioria deles não era de miseráveis. Muitos deles tinham algum grau de instrução e possuíam habilidades específicas (sapateiros, funileiros, ourives e pintores).

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Regiões de origem

A imigração italiana no Brasil ficou marcada por ter vindo, sobretudo, do Norte da Itália. A grande corrente migratória veio do Vêneto, no Nordeste italiano, região outrora com grandes problemas nas zonas rurais. Porém, a partir do início do século XX, diminuiu a chegada de italianos do Norte, que foram então ultrapassados pelos sulistas, sobretudo da Campânia e da Calábria. Entre 1870 e 1959, dos imigrantes italianos entrados no Brasil, 53,3% vieram do Norte da Itália, 32,1% do Sul e 14,6% do Centro. Os italianos do Norte emigravam preferencialmente para outros países da Europa. O Brasil e a Argentina foram os únicos países fora da Europa que conseguiram atrair uma migração significativa oriunda do Norte da Itália. Os italianos do Sul, por sua vez, preferiam a imigração transoceânica, sendo os Estados Unidos o destino principal. Os vênetos predominaram entre os imigrantes italianos no Brasil, enquanto os toscanos eram os mais numerosos dentre aqueles oriundos do Centro da Itália. Entre os do Sul, destacavam-se os campânios, seguidos dos calabreses e abruzenhos. De fato, o Brasil recebeu imigrantes de quase todas as regiões da Itália. Apenas quatro regiões não contribuíram com praticamente nenhuma imigração para o Brasil: Ligúria, Úmbria, Lácio e Sardenha.pg.40

Os setentrionais

O Vêneto constituiu, por um longo período, a região que mais expulsou imigrantes em direção ao Brasil, principalmente no período entre 1887 e 1895. Neste interregno de apenas oito anos, desembarcaram nos portos brasileiros 246 168 pessoas do Vêneto e do Friul, perfazendo 50% de todos os italianos que lá chegaram. As famílias vênetas eram constituídas, em média, de 12 a 15 pessoas, que viviam em torno de um pequeno núcleo do qual eram proprietárias ou trabalhavam na forma de meeiros em terras de terceiros. Essencialmente agrícola, o Vêneto era uma das regiões mais pobres e atrasadas de toda a Itália. Até 1885, os vênetos que foram para o Brasil não eram camponeses destituídos de qualquer capital, mas sobretudo viviam como meeiros, pequenos proprietários e arrendatários. Só emigravam quando as suas propriedades já não ofereciam a quantidade de gêneros suficientes à sua subsistência.

Os meridionais

Após 1895, a imigração setentrional, sobretudo a vêneta, caiu e foi superada pela meridional. O Sul da Itália tinha características diferentes, uma vez que apresentava resíduos de feudalismo, uma agricultura pobre, com técnicas rudimentares, sem nenhuma mecanização. As terras, em geral, eram monopolizadas por grandes proprietários rurais, divididas em pequenos pedaços, dificultando o sustento e incentivando a emigração. No século XIX, a derrubada das áreas florestais no Sul da Itália provocou uma brusca mudança climática. Com a erosão do solo, eram frequentes as inundações e os deslizamentos. O período de seca durava aproximadamente 6 meses, seguido de outro semestre com chuvas constantes. Em decorrência da devastação ecológica, houve a propagação da malária nas terras baixas, empurrando a população para as colinas altas, longe das planícies mais férteis. Isso obrigava o agricultor a ter que se deslocar por longas distâncias diariamente, inibindo o sucesso das pequenas propriedades.

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Por região

Apenas seis estados brasileiros concentraram a quase totalidade da imigração italiana no Brasil. Eles foram, em ordem de importância, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo, Santa Catarina e Paraná. O estado de São Paulo foi, de longe, aquele que mais recebeu imigrantes no Brasil. Dos cerca de 1,5 milhão de italianos que imigraram para o Brasil entre os anos de 1875 e 1935, 1,2 milhão deles foram para São Paulo, 100 mil para o Rio Grande do Sul, 60 mil para Minas Gerais, 25 mil para o Espírito Santo, 25 mil para Santa Catarina e 20 mil para o Paraná. São Paulo e Minas Gerais tiveram uma política imigratória muito semelhante: atrair italianos para substituírem os escravos como mão de obra nas fazendas de café. Os outros estados, por outro lado, atraíam imigrantes visando convertê-los em pequenos proprietários agrícolas. O estado do Rio de Janeiro e, sobretudo, a sua capital, também foi um destino relevante de imigrantes italianos. Mas estes vinham, sobretudo após o ano de 1900, não diretamente da Itália, mas de outros estados brasileiros, atraídos pelas oportunidades de empregos urbanos. Para as outras regiões do Brasil, a imigração italiana foi bastante exígua. Foram feitas tentativas de colonização italiana tanto no Norte como no Nordeste do Brasil, mas todas fracassaram e não tiveram continuidade.

Espírito Santo

Entre 1812 e 1900, entraram no estado do Espírito Santo 43 929 imigrantes, dos quais 32 900 eram italianos, ou seja, 75% do total. Após o ano de 1900, pouquíssimos italianos ainda entraram no estado, somente 121 indivíduos. Cerca de 93% dos imigrantes italianos que foram para o estado provinham de regiões do Norte da Itália. Cerca de 40% eram provenientes da região do Vêneto, 20% da Lombardia, 14% do Trentino-Alto Ádige, 10% da Emília-Romanha, 5% do Piemonte, 4% do Friul-Veneza Júlia, 2% das Marcas e 2% de Abruzos, 1% da Toscana e 1% de Campânia e outro porcento de outras regiões. Algumas fontes afirmam que 60% da população do Espírito Santo é formada por descendentes de italianos. A historiadora Maria Cristina Dadalto critica essa informação que, segundo ela, é um "mito". Não existe nenhuma pesquisa que comprove esse dado, mas "uma profícua produção literária produzida sobre a imigração italiana no estado ajudou a construir e a fortalecer este mito".

Minas Gerais

Minas Gerais recebeu o terceiro maior fluxo de imigrantes italianos que veio para o Brasil, atrás somente dos estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Cerca de 60 mil italianos se dirigiram para esse estado durante o período da imigração. De forma bem semelhante ao estado de São Paulo, os italianos também foram atraídos para Minas Gerais com o objetivo de aumentar a força de trabalho nas lavouras de café. Mas os resultados da política de imigração em Minas foram bem menos significativos, uma vez que o estado obrigava os imigrantes e os próprios fazendeiros a pagarem parte da passagem de navio, enquanto o estado de São Paulo cobria todos os gastos. Por fim, em 1898, uma grave crise financeira atingiu o estado, que suspendeu a imigração subsidiada.

Paraná

Os primeiros italianos a imigrar para o Paraná foram os vênetos, a partir de 1875, alocados em colônias próximas à Paranaguá, nas regiões de Morretes e Antonina. A Colônia Alexandra e posteriormente a Colônia Nova Itália tiveram vários problemas, sendo que seus moradores foram posteriormente remanejados para regiões mais próximas da capital. Em 1900, viviam no estado do Paraná mais de trinta mil italianos, espalhados por catorze colônias etnicamente italianas e outras vinte mistas. No início, a maior parte dos imigrantes trabalhou como colonos autônomos porém, com o desenvolvimento do café, passaram a compor a mão de obra da região. As maiores colônias prosperaram na Região Metropolitana de Curitiba, sendo o município de Colombo (localizado na Grande Curitiba) a maior colônia italiana do Paraná. A Colônia Alfredo Chaves (que posteriormente se tornaria a cidade de Colombo) foi uma das quatro onde se concentraram os primeiros italianos que chegaram ao estado. As outras são a Senador Dantas (que deu origem ao bairro curitibano Água Verde), a Santa Felicidade (atual pólo gastronômico da capital paranaense) e a Colônia de Santa Maria do Tirol, localizada no município de Piraquara (na Grande Curitiba). A influência italiana se faz presente em todas as regiões do estado (como no norte do estado, com o vocábulo terra roxa, oriundo da confusão da língua italiana para a cor vermelha - "terra rossa").

Rio de Janeiro

Ao contrário do que sucedeu no restante do Brasil, no Rio de Janeiro os imigrantes italianos eram majoritariamente urbanos, trabalhando principalmente na indústria e no comércio. Em 1900 viviam no estado 35 mil italianos, a maioria na própria cidade do Rio de Janeiro, e o restante nas colheitas de café. Os italianos que foram para o Rio de Janeiro se diferenciavam pois eram sobretudo meridionais, oriundos especialmente das províncias de Cosenza, Potenza e Salerno e, em número menor, também de Nápoles, Caserta e Reggio Calábria. Isto porque os italianos do Sul preferiam se dedicar às ocupações urbanas, sendo que a então capital do Brasil oferecia uma série de profissões alternativas.pg.102

Rio Grande do Sul

No estado do Rio Grande do Sul os primeiros imigrantes desembarcaram em 1875, para substituírem os colonos alemães que, a cada ano, chegavam em menor quantidade. Os colonos italianos foram atraídos para a região para trabalharem como pequenos agricultores e lhes foram reservadas terras selvagens na encosta da Serra Gaúcha. Na região foram criadas as primeiras três colônias italianas: Conde D’Eu, Dona Isabel e Campo dos Bugres, atualmente as cidades de Garibaldi, Bento Gonçalves e Caxias do Sul, respectivamente. Com o tempo, os italianos passaram a subir as serras e a colonizá-las. Com o esgotamento de terras na região, esses colonos passaram a migrar para várias regiões do Rio Grande. A base da economia na região italiana do Rio Grande foi, e continua a ser, a vinicultura.

Santa Catarina

Cerca de 95% dos italianos que chegaram ao estado de Santa Catarina eram do norte da Itália, dos atuais estados do Vêneto, Lombardia, Friul-Veneza Júlia e Trentino-Alto Ádige. Porém, os primeiros imigrantes italianos que chegaram ao estado, em 1836, eram oriundos da Sardenha, fundando a colônia de Nova Itália (atual São João Batista). Esses imigrantes pioneiros chegaram em número reduzido e pouco influenciaram na demografia do estado. Foi mais tarde, a partir de 1875, que passou a ser assentado no estado número maior de imigrantes italianos. Foram criadas, assim, as primeiras colônias italianas do estado: Rio dos Cedros, Rodeio, Ascurra e Apiúna, todas estas no entorno da colônia alemã de Blumenau, servindo assim, os italianos, como a ponta de lança deste núcleo germânico. Neste mesmo ano, imigrantes do Trentino fundaram Nova Trento, e em 1876 foi fundado Porto Franco (hoje Botuverá). Os italianos instalados nestas primeiras colônias provinham majoritariamente da Lombardia e do Trentino, o qual pertencia na época ao Império Austro-Húngaro.

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Declínio

Os imigrantes italianos, na maioria, imigravam para o Brasil em famílias. O governo brasileiro preferia atrair famílias inteiras para o Brasil. Nas plantações de café, todos trabalhavam: homens, mulheres e até crianças. Os fazendeiros, acostumados a trabalhar com escravos africanos, passaram a lidar com trabalhadores europeus livres e assalariados. Ao chegarem à fazenda, os colonos se deparavam com as péssimas condições que os aguardavam. As fazendas eram um mundo à parte, isoladas por horas, às vezes dias, dos centros urbanos, sem acesso médico, distantes das igrejas, raramente com acesso à escola, tinham que dormir em cima de palha, em casas minúsculas, sem as mínimas condições de higiene. As condições de trabalho eram degradantes, com frequentes abusos por parte do fazendeiro. Houve rebeliões dos imigrantes, em alguns casos envolvendo colonos que chegavam a assassinar o fazendeiro. O caso mais emblemático foi o assassinato em 3 outubro de 1900, na região de Rio Claro, do fazendeiro Diogo Salles, irmão do então presidente da República Campos Sales, cujo filho tentou abusar de três irmãs do colono italiano Angelo Longaretti e acabou morto por este. O fato deu início a uma revolta de colonos, chamada de Rebelião de Longaretti. Mas as revoltas eram exceções, pois os camponeses italianos normalmente agiam de forma apática, pois provinham eles próprios de uma sociedade que via a resignação como uma virtude cristã. Ademais, havia o afluxo contínuo de imigrantes e os trabalhadores descontentes eram prontamente substituídos por outros. Embora os italianos estivessem habituados a levar uma vida de privações em seu país de origem, a vida nas plantações restringia de tal forma a liberdade que se tornava insuportável. A fazenda era um mundo fechado e o fazendeiro era o senhor absoluto, impondo leis próprias. Habituado a lidar com escravos, o tratamento despendido aos imigrantes não era muito diferente. Os colonos eram vigiados e tinham seu tempo controlado por capangas, com toques de sino marcando o início e o fim do trabalho. Os abusos se verificavam sobretudo na violência física generalizada, inclusive com uso de chicote, como no tempo da escravidão. Eram também controlados em suas atividades familiares e sociais. Aos colonos não havia nenhuma possibilidade de obter proteção legal e o fazendeiro raramente era punido pelas autoridades por seus abusos, o que estimulava a manutenção do seu comportamento e frequentes abusos econômicos, dentre os quais, a aplicação de multas exorbitantes por motivos fúteis, confisco dos produtos dos colonos, adulteração de pesos e medidas e retenção do salário. Aliás, o endividamento do colono era uma estratégia usada para o manter preso à fazenda e impedir sua saída. Neste caso, apenas restava a fuga como forma de escapar da plantação. De fato, seria muito difícil romper com a mentalidade escravista de forma célere, e isso só ocorreu anos mais tarde.pg.48 Esta situação se agravou com o início do declínio dos preços do café de modo acentuado, a partir de 1895.pg.37

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Idioma

Hoje em dia, quase todos os ítalo-brasileiros falam o português como língua materna. A maioria dos imigrantes italianos que vieram para o Brasil não sabia falar a língua italiana culta. O italiano padrão que hoje conhecemos nada mais é que o dialeto toscano, que foi alçado à condição de língua oficial da Itália. Este dialeto foi arbitrariamente escolhido como sendo o idioma principal do Reino da Itália, devido ao prestígio cultural da Toscana e, sobretudo, de Florença (da mesma maneira que o francês vem da língua falada em Paris). A maioria dos imigrantes italianos chegaram ao Brasil na segunda metade do século XIX, época em que o analfabetismo era dominante na Itália. A maioria dos italianos (com a exceção óbvia dos toscanos) falavam exclusivamente outras línguas e dialetos regionais. A língua italiana só se difundiu na Itália a partir do século XX, com a alfabetização em massa da população, um processo relativamente recente (até a década de 1950, a maioria da população italiana ainda se comunicava em dialeto). Os imigrantes, quando tinham conhecimento da língua italiana, se limitavam a um "italiano popular", típico dos estratos baixos da sociedade italiana, no qual mesclavam italiano com seu dialeto regional.

Dados estatísticos

O censo de 1940 analisou as línguas faladas pela população brasileira e a difusão dos falantes da "língua italiana" no Brasil (embora, na maior parte dos casos, tratava-se de falantes de dialetos). Esta pesquisa mostrou que, na década de 1940, a língua portuguesa já se impunha como o idioma dominante nos lares das famílias de origem italiana no Brasil. De acordo com esse censo, havia no país naquele ano 1 260 931 brasileiros nascidos de pai italiano. Destes, somente 115 596 declararam que não falavam o português habitualmente no lar, ou seja, apenas cerca de 10% dos filhos de pai italiano nascidos no Brasil não falavam o português em casa. Situação bem diferente foi verificada entre os alemães: dos 159 809 brasileiros nascidos de pai alemão, 79 088, ou seja, a metade, declarou não falar o português no lar. O censo de 1940 revelou que, embora a imigração alemã tenha sido bem menos numerosa que a italiana, o idioma alemão era mais falado no Brasil que o italiano. Naquele ano, 644 458 pessoas declararam que falavam o alemão em casa, contra 458 054 que falavam o italiano. O Rio Grande do Sul concentrava o maior número de falantes de "italiano" (sobretudo dialetos) no Brasil. Mas, mesmo lá, embora a presença de imigrantes italianos tenha sido mais numerosa e recente que a de alemães, os falantes de alemão eram mais numerosos. No censo de 1940, 393 934 pessoas do Rio Grande do Sul (11,86% da população do estado) declararam falar alemão como língua materna. Em comparação, 295 995 apontaram o italiano (8,91% da população local). No censo de 1950, o número de gaúchos que declararam falar o italiano caiu para 190 376. No estado de São Paulo, que concentrava a maior população italiana do Brasil, no censo de 1940, apenas 28 910 italianos natos disseram falar o italiano em casa (somente 13,6% de toda a população italiana daquele estado).

O talian

O talian é a segunda língua mais falada do Brasil, após o português. O isolamento das colônias do sul permitiu a manutenção da fala dialetal italiana, sobretudo vêneta, com destaque para o norte do Rio Grande do Sul. Ali nasceu um koiné oriundo da convivência de diversos dialetos italianos, mas com uma predominância vêneta que serviu como língua franca para a comunicação dos falantes de diferentes formas dialetais. Para o Rio Grande do Sul houve um fluxo majoritariamente vêneto e lombardo e, na primeira fase, que durou de 1875 a 1910, os imigrantes preservaram seus dialetos regionais vênetos e lombardos, além de falares minoritários trentinos e friulanos. O segundo período inicia-se a partir de 1910, com a construção da estrada de ferro que liga Caxias do Sul a Porto Alegre. O isolamento foi rompido, aliado ao incremento comercial e industrial. Em consequência, os dialetos menos representativos numericamente foram extintos, ao mesmo tempo que os dialetos lombardos e vênetos se interinfluenciaram, com a predominância dos últimos, surgindo uma fala comum, um koiné, chamado de talian.

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Assimilação e identidade

Católico e latino, o imigrante italiano se assimilou no Brasil mais facilmente que alemães e japoneses, por exemplo. O quase desaparecimento dos dialetos italianos no Brasil é um exemplo dessa rápida assimilação. É evidente, porém, as diferenças entre o grupo de italianos que se concentrou em colônias (no Sul) e os trabalhadores do café (Sudeste). Nas colônias, o imigrante se manteve por cerca de três gerações praticamente isolado com outros italianos nas zonas rurais sulistas. No Sudeste do Brasil, por outro lado, o italiano mais facilmente se integrava entre a população local. Ao longo das décadas, os italianos e seus descendentes passaram por três etapas de identificação étnica no Brasil. No início, tinham uma identidade italiana fraca, identificando-se mais com a sua região de origem na Itália. Com o passar do tempo, foram transfigurando-se em italianos "genéricos", abandonando ou amenizando o regionalismo. Por fim, a identidade italiana foi sendo substituída pela brasileira, ficando cada vez mais débeis as ligações com a Itália e a cultura italiana.

Conflitos étnicos

Em sua obra publicada na década de 1970, Angelo Trento sustentava que, com a exceção de alguns conflitos pontuais, os brasileiros receberam os imigrantes italianos de braços abertos. Estudos mais recentes, contudo, refutam essa ideia. A década de 1890 foi o período em que mais entraram imigrantes italianos no Brasil e a imigração representou uma verdadeira "avalanche". Em poucos anos, em muitos municípios de São Paulo os estrangeiros já eram mais numerosos que os próprios brasileiros. Essa mudança demográfica não aconteceu de forma pacífica, vez que as elites locais costumavam culpar os italianos pelo aumento da criminalidade e da desordem nas cidades. Os nacionalistas, representados pelo jacobinos, viam a chegada dessa massa de estrangeiros como uma ameaça à soberania nacional. O povo brasileiro, por sua vez, se incomodava com a presença estrangeira, vendo os italianos como concorrentes no mercado de trabalho.

Na região sul

No sul do Brasil, os conflitos mais violentos envolveram imigrantes italianos e os povos indígenas. Embora o governo brasileiro afirmasse que estava trazendo imigrantes europeus para ocupar "vazios demográficos", na verdade essas terras eram ocupadas pelos índios. No sul de Santa Catarina, à medida que os italianos foram ocupando a região e desmatando a vegetação, se depararam com os xoclengues, que da floresta retiravam seu sustento. Em represália à invasão de suas terras, os índios passaram a atacar as colônias italianas, fato que foi usado pelos imigrantes para criar a ideia de que os índios eram incapazes de conviver com a civilização, justificando seu aniquilamento. Em consequência, recorreram à figura do bugreiro, geralmente brasileiros ou mesmo imigrantes mais destemidos que perseguiam os indígenas e promoviam verdadeiras chacinas, a fim de garantir a posse da terra por parte dos imigrantes. Os massacres também ocorreram no Rio Grande do Sul, mas lá os índios eram da etnia kaingang.

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Casamentos e padrões de miscigenação

Pesquisas apontam que, no início da imigração, havia uma grande resistência dos italianos de se casarem com brasileiros. Havia, inclusive, a tendência nítida de italianos se casarem com imigrantes que vinham da sua mesma região de origem na Itália. Analisando os casamentos de italianos no município de São Carlos, interior de São Paulo, entre 1880 e 1899, os dados mostram que 80% dos homens e 91% das mulheres oriundos do Norte da Itália se casaram com imigrantes oriundos da mesma região italiana. 88% dos homens e 71% das mulheres oriundos do Sul da Itália contraíram matrimônio com pessoas vindas daquela mesma região, enquanto que 23% dos homens e 61% das mulheres do Centro da Itália se uniram a italianos também vindos do Centro (as taxas de endogamia para os italianos do Centro foi mais baixa pois o número de imigrantes oriundos daquela região era menor, portanto tinham maior dificuldade de encontrar companheiros da mesma região, o que os levava a casar com italianos de outras regiões). Os italianos mais endogâmicos eram os vênetos: de 1880 a 1914, em São Carlos, 76,4% dos homens vênetos se casaram com mulheres vênetas, enquanto que 65,3% das mulheres do Vêneto se uniram a homens daquela região. Em seguida vieram os calabreses: 53,1% dos homens calabreses se uniram a mulheres calabresas, enquanto que 77,3% das mulheres da Calábria casaram com homens daquela região. Os menos endogâmicos eram os lombardos, pois estes acabavam se casando sobretudo com vênetos, os mais numerosos naquela região. Isto mostra que os imigrantes italianos tinham uma alta taxa de endogamia, preferindo casar com outros italianos, inclusive optando por se unir a italianos que provinham da sua mesma região de origem na Itália. A Itália era um Estado recém-unificado, e os italianos não tinham uma consciência nacional definida, e o que imperava na época era o regionalismo. Essa mentalidade foi trazida para o Brasil pelos imigrantes, influenciando seus padrões de casamento. Conflitos, animosidades e preconceitos entre italianos de diferentes regiões foram igualmente transportados e vivenciados pelos italianos no Brasil. Com o passar do tempo, porém, essa perspectiva regionalista foi sendo suavizada pois, uma vez no Brasil, italianos de diferentes regiões eram tratados pelos brasileiros como sendo iguais, pois essas diferenças regionais eram desconhecidas pelos brasileiros. O contato com a sociedade brasileira fez crescer não apenas as taxas de casamento entre italianos de diferentes regiões, mas a própria união entre italianos e brasileiros ou com imigrantes não italianos.

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