Hebreus
Os antigos hebreus foram um povo semítico da região do Levante, Oriente Médio. O etnônimo também foi utilizado a partir do período romano para se referir aos judeus, um grupo étnico e religioso de ascendência hebraica. Acredita-se que originalmente os hebreus chamavam a si mesmos israelitas, embora esse termo tenha caído em desuso após a segunda metade do século X a.C. Os hebreus falavam uma língua da família cananeia, à qual se referiam pelo nome “a língua de Canaã”. Esse povo, embora apagado pela grandeza de estados muito maiores, tecnologicamente avançados e mais importantes politicamente, foi responsável, contudo, pela composição dos livros que compõem a Bíblia, obra considerada sagrada por religiões monoteístas ocidentais e orientais.
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O nome "hebreus" vem do hebraico "Ivrim", que significa "povo do outro lado do rio". O livro de Gênesis, capítulo 10, a partir do versículo 21 diz que Noé gerou a Sem; este gerou a Arfaxade, que gerou Salá, que gerou Éber; este gerou a Pelegue, que gerou Reú, que gerou Serugue, que gerou Naor, que gerou Terá, que então gerou a Abraão (que significa "pai de Aram", mais tarde tendo seu nome mudado pra Abraão, que significa "pai de muitos povos"), sendo este considerado um dos três patriarcas do povo de Israel, sendo Isaque e Jacó os outros.
Os desafios referentes à escrita da história dos antigos hebreus são, em primeiro lugar, historiográficos. Questões tais quais os tratamentos das fontes, a natureza das fontes, a maneira de interpretar os dados e as concepções inerentes ao processo de redação dessa história são as mais discutidas recentemente. As fontes para a história dos antigos hebreus, por exemplo, são as mais diversas possíveis: documentos escritos (a Bíblia sendo, de longe, a fonte mais rica de informações escritas, embora não a única), epigrafia, iconografia, arqueologia, linguística, etc. Tradicionalmente, a história dos hebreus antigos foi (e em alguns meios ainda é) recontada a partir de um viés unicamente bíblico, mais ou menos crítico, seguindo o modelo: patriarcas, escravidão no Egito, Êxodo, conquista, Império, exílio. Essa prática está associada a perspectivas religiosas e a uma concepção de história, típica do princípio do século XIX, na qual o documento escrito era considerado mais relevante que outras fontes. Sob esta perspectiva teórica, a cultura material era empregada como mero instrumento ilustrativo. Ademais, nessa época, as interpretações dos dados assumiam fortes conotações nacionais e políticas, uma vez que a institucionalização da História estava estreitamente vinculada ao processo de organização de identidades nacionais. Por conseguinte, muitas interpretações da história hebraica incorporaram elementos anacrônicos do nacionalismo judaico. Diversas escolas historiográficas surgidas desde o fim do século XIX até o começo do século XXI (como os Annales) contribuíram para redefinir essas práticas, focando em fatores sociais, econômicos, demográficos, culturais, etc. e utilizando novos métodos e novos documentos.
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A primeira referência aos hebreus ocorre por volta de 1 200 a.C., no reinado do faraó Merneptá. Nessa época, um povo conhecido como “israelitas” já habitava a região da Palestina no Oriente Próximo. As tradições hebraicas mais antigas sobre suas origens, como o gênesis da Bíblia, falam de certos patriarcas (Abraão, Isaque, Jacó) que teriam iniciado a linhagem dos hebreus. As origens dos povos hebreus, de acordo com a história de gênesis, são situadas na Mesopotâmia (a cidade de Ur). A figura de Abraão provavelmente indica a forma de organização socioeconômica desses primeiros povos: pastores seminômades organizados em pequenos grupos. Abraão é também, de acordo com especialistas, um epônimo para uma tribo pastora atestada na Palestina central no século XIII. Segundo alguns especialistas, uma análise comparativa e o estudo dos anacronismos na narrativa de Gênesis sugere que a história da migração de Abraão para Canaã é um mito que espelha um acontecimento tardio, isto é, o retorno dos judeus “exilados” na Babilônia após a derrota para o Império Caldeu. Acompanhado de sua mulher Sara e seu sobrinho Ló, Abraão é tido como responsável pela primeira ocupação hebraica de Canaã. Seus descendentes apenas abandonariam essa terra, seguindo para o Egito, após uma seca intensa. Essa história parece ter sido uma forma de sustentar uma anterioridade histórica para a ocupação hebraica do território no período do retorno. Os patriarcas hebreus são lembrados como responsáveis pelos primeiros pactos com Deus. Alguns especialistas ressaltaram que "os profetas (e os textos) pré-exílicos não conhecem Abraão e usam em geral o termo “pais” para se referir à geração do êxodo”. Por motivos como este, “a maioria dos estudiosos compreende-os como reflexos mais indiretos de eventos históricos, como representantes de tribos antes que de indivíduos". Não obstante, muitos arqueólogos e historiadores concordam que o Gênesis é um relato em larga medida mítico e, sobretudo, marcado pela época de sua composição. Abraão deu origem a Isaac e a Jacó (ou Israel), e os doze descendentes de Jacó deram origem às doze tribos de Israel.
Problemas de datação do Gênesis
O conteúdo do livro que trata dos patriarcas, o Gênesis, é de difícil datação. A questão de sua autoria já havia sido colocada por Wellhausen no século XIX, que dividiu a composição do livro entre diferentes grupos e épocas. Os especialistas acreditam que o relato foi escrito tardiamente, no período da monarquia ou mais tarde. O anacronismo mais conhecido no livro de Gênesis é a referência aos filisteus (Gênesis 21:34). Essa referência ajuda a datar o relato bíblico, já que os filisteus apenas chegaram à região a partir de 1 200 a.C. Além disso, a cidade de Gerar, citada como capital dos filisteus, era um agrupamento minúsculo no período dos patriarcas, que só se torna uma vila forte por volta do ano 700 a.C. Para mais, a Bíblia se refere aos líderes filisteus como “reis”, embora apenas num estágio tardio os filisteus tenham estabelecido esse título. Outros anacronismos incluem a menção aos arameus (que só chegaram à região no final do século X a.C.), à cidade de Dan (Gênesis 14:14) e à Ur dos caldeus (Gênesis 11:28), todos inexistentes no panorama da época. Não existe, por exemplo, evidência para a ocupação de Edom antes do século VIII a.C. As referências à Lídia, a Kittim e a Nínive também são vistas como altamente anacrônicas. Portanto, o relato dos patriarcas das fontes (J) e (D) no Gênesis foi provavelmente desenvolvido por volta de 700 a.C.
O episódio do Êxodo se refere a um episódio bíblico de acordo com o qual os judeus, escravizados no Egito, teriam conseguido fugir da terra estrangeira, retornando à sua terra de origem, Canaã, sob a liderança de Moisés. Os relatos bíblicos falam que a família de Jacó, um dos patriarcas, teria partido da terra colonizada por Abraão até o Egito devido a uma seca. Lá, encontrando-se com seu familiar José, que teria ascendido a uma posição de importância dentro do governo do faraó, teria se instalado por alguns anos. Não existe, contudo, nenhuma evidência extrabíblica para este episódio. Para harmonizar as fontes arqueológicas com as fontes escritas, alguns historiadores sustentam que “apenas alguns do povo de Israel estavam no Egito e o grupo vindo do Egito então teria se juntado a outros grupos para formar o que foi conhecido como Israel”. No entanto, os egiptólogos estão de acordo de que a imagem dum Egito escravista não é coerente com o Egito da época, onde não havia escravidão. Para Donald B. Redford, os números de judeus envolvidos no Êxodo são por demais extravagantes. As escavações intensivas realizadas nas regiões pelas quais os hebreus teriam passado em seu trajeto de migração não fornecem nenhum dado arqueológico de assentamento humano na época do Êxodo, e o relato bíblico cita cidades que só existiram muito tempo mais tarde. O Êxodo era considerado um evento central na história hebraica, regularmente comemorado pelos hebreus.
Moisés
De acordo com as fontes bíblicas, Moisés era um hebreu que tinha sido criado na corte egípcia, após ser resgatado de uma cesta à deriva no Nilo. Moisés é, com efeito, um nome de origem egípcia. Após guiar seu povo por cerca de três meses, Moisés teria acampado nas proximidades do Monte Sinai, onde se restabeleceu um pacto entre Yahweh (Javé), o Deus nacional, e os hebreus, sob a mediação de Moisés. Evidências externas à Bíblia apontam para uma ocupação hebraica contínua da Cananeia, de forma que Moisés pode não ter existido. Não existe evidência arqueológica para corroborar a existência de Moisés. Nenhuma fonte egípcia ou assíria antiga que faça referência às figuras bíblicas antes de 850 a.C. foi encontrada. Muitos acadêmicos, contudo, preferem não descartar a possibilidade da existência de figuras bíblicas, embora reforcem que todas elas são construções literárias.
De acordo com os relatos bíblicos, o pacto realizado entre hebreus e seu Deus no Sinai impôs alguns deveres aos homens, ligados ao culto de sua deidade. Assim como muitos povos no Oriente Próximo, os hebreus acreditavam que os nomes revelassem a natureza intrínseca de indivíduos e deuses. Essa concepção de mundo explica a proibição da vocalização do nome de seu Deus em alguns livros de leis. Por intermédio de Moisés, os hebreus renovaram um pacto com Deus iniciado no período dos patriarcas, e prometeram cumprir suas leis em troca de proteção. Os historiadores apontam para esse pacto como uma representação dos acordos políticos de vassalagem no Oriente Próximo Antigo. As ordens de Yahweh (Jeová) são formuladas na forma de dez mandamentos. A Bíblia Hebraica traz duas versões dessas ordens, em Êxodo (Êxodo 20:1-17) e em Deuteronômio (Deut. 5:6-21). Um dos exemplos da transformação dessas leis ao longo do tempo é a obrigação do Sabbah, associado ao descanso divino no sétimo dia em Êxodo 20:8-11, enquanto em Deuteronômio 5:12-15 o mandamento é vinculado ao episódio da fuga do Egito.
Origens
Os estudiosos perceberam um vínculo estreito existente entre a religião dos primeiros hebreus e seus antepassados imediatos, os cananeus. Após a descoberta de documentos escritos em Ugarit, uma civilização antiga anterior a Israel, os estudiosos têm compreendido cada vez mais os documentos hebraicos. Os hebreus “emprestaram” o nome de sua deidade nacional, El, dos antigos habitantes de Canaã. Mesmo alguns salmos e outros temas da literatura hebraica parecem ter sido assimilados pelos hebreus a partir da cultura cananeia, uma vez que os atributos do El hebraico são exatamente os mesmos que os do Deus de Ugarit. A literatura bíblica associa com frequência Yahweh (Jeová) a El (Gen. 14:18-20, 33:20, Exod. 6:3, etc.). Alguns deuses como Baal e Asherah, de origem cananeia, eram louvados pelos hebreus antigos e, ao que tudo indica, esse culto era visto como igualmente legítimo. Estudiosos que têm demonstrado maior interesse pela religião popular de Israel apontam para a existência do culto a Asherah, entre outras questões. Os hebreus foram um dos primeiros povos a cultuar um único Deus, isto é, eram monoteístas. No judaísmo, religião professada pelos hebreus, o único Deus é Javé (Jeová), cuja imagem não pode ser representada em pinturas ou estátuas.
A conquista de Canaã é de vital importância para a história judaica. É com essa conquista que os hebreus deixaram de ser um povo nômade, para se tornar um povo com uma terra. Essa região se tornaria, na tradição posterior, o elemento de união deste povo, já que teria sido dada pelo próprio Deus. No entanto, além da teoria religiosa da ocupação (conforme vista no Livro de Josué), de acordo com a qual os hebreus teriam invadido a região de forma belicosa, há diversas outras teorias históricas para explicar como os hebreus conquistaram Canaã e como deixaram seu estado tribal para assumir uma identidade nacional. O desenvolvimento dessas teorias está vinculado, sobretudo, à ausência de evidência arqueológica para a tese da invasão militar, além dos anacronismos e das incoerências internos ao texto bíblico. Um dos problemas, como afirma o arqueólogo Pierre de Miroschedji, é a menção, no relato da conquista, de cidades que não existiam por volta de 1 250 a.C. As cidades da região também não apresentam registros de destruição.
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Segundo a tradição bíblica, o período posterior à ocupação de Canaã foi dominado pelo governo de indivíduos conhecidos como juízes. A principal fonte histórica para esse período é o livro bíblico dos Juízes, onde se conta a história de certos líderes militares (Débora, Gideão, Otoniel, Sansão, etc.) cujos atos são relembrados de forma heroica pelos hebreus. O livro também apresenta uma versão destoante da conquista de Canaã, de perspectiva judaíta. É difícil, contudo, escrever uma história contínua desse período, uma vez que ele apresenta diversos problemas cronológicos, muitas vezes atribuídos a sua edição deuteronomista. Sobre a historicidade do período, enquanto alguns autores falam em “procurar a verdade por trás dos textos”, levando em consideração sua orientação teológica, outros listam anomalias e anacronismos buscando refutar sua validez.
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A ocupação hebraica do território é gravemente abalada com as invasões dos povos filisteus por volta de 1 180 a.C., que se inserem no contexto da invasão dos povos do mar no Oriente Próximo. Os filisteus não só teriam desafiado os hebreus, como teriam mesmo conseguido capturar a Arca da Aliança (ou Arca de Javé) durante a batalha de Ebenezer saindo ilesos, muito embora esse sacrilégio fosse punido com morte instantânea na ideologia hebraica (2 Samuel 6:6-7). Parece que, diante dos ataques dos filisteus, os hebreus tiveram necessidade de se unir em torno de uma figura política mais forte, e todo o povo exigiu um rei como governante, assim como era em todas as nações (1 Samuel 1:8-4). Samuel, um profeta célebre e que também atuava como juíz, teria consagrado à rei um homem chamado Saul, filho de Quis da tribo de Benjamim. Saul passou grande parte de seu governo guerreando contra os filisteus, assim como outros inimigos vizinhos, dentre eles, os reis do reino de Arã-Zobá. Embora o começo de seu reinado tenha sido de certa forma estável, conseguindo prevalecer contra os amonitas, Saul desobedeceu a Deus, poupando o povo de Amaleque, e então Deus pediu para Samuel ungir um novo rei, que é Davi.
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O direito hebraico é um direito religioso, ou seja, seu direito é algo dado por Deus. Dessa forma, o direito era considerado algo imutável e que só poderia ser alterado por Deus, cabendo então aos rabinos apenas a interpretação, mas não a sua modificação. Após o cerco realizado pelo rei da Babilônia, Nabucodonosor, em 586 a.C., que teve como resultado diversos hebreus conquistados como escravos, tem-se, então, um ponto de partida para a formação de um novo direito hebraico, oral, devido à necessidade de os hebreus terem como afirmarem sua cultura ao entrarem em contato com diferentes povos, que também possuiriam fortes e diferentes culturas (como no caso dos romanos, gregos e persas). Dessa forma, iniciou-se um processo na Babilônia que teria fim apenas 900 anos mais tarde. Assim, é criada a primeira codificação oral do direito hebraico, sendo chamada Michná, realizada pelo último dos Tanaim em 192 d.C. Dividida em seis partes diferentes, essa codificação é organizada de forma que a primeira, a terceira e a quarta parte constituem, comparados aos dias de hoje, como o corpo do direito civil. A primeira parte tratava sobre as leis rurais e propriedade imobiliária; a terceira, sobre o direito matrimonial e o divórcio; e a quarta acabava por tratar das obrigações civis, usura, danos à propriedade, sucessão, organização dos tribunais, processo, etc.
O momento da história hebraica particularmente louvado pelos livros sagrados é o período dos reinados de Davi e Salomão, tidos como reis exemplares. Davi escolheu Jerusalém como capital para seu reino e organizou a cidade como um grande centro religioso. De acordo com as fontes bíblicas, Davi teria estendido seu domínio político sobre alguns reinos vizinhos, como Ammon, Moabe e Edom, indo até ao norte da Síria. Quando Davi ficou velho, Bathsheba e outros de seus súditos (Como o profeta Natã) tentaram convencê-lo a escolher como sucessor o seu filho mais novo, Salomão. Salomão governou, de acordo com a Bíblia hebraica, 40 anos sobre Israel; sendo um rei muito sábio, e sendo descrito como o mais rico de seu tempo. Teve 700 esposas princesas e 300 concubinas, como consequência de muitas alianças políticas. Ele também deu continuidade ao projeto de seu pai, que era a construção de um templo no coração de Jerusalém, que fora arquitetado pelo próprio Deus.
Historicidade de Davi e Salomão
A despeito do relato bíblico, os estudiosos não acreditam que tenha havido um grande reino hebreu no período dos reinados de Saul, Davi e Salomão, mas que esses líderes foram engrandecidos devido a uma projeção de período posterior. Exageros já haviam sido notados, por exemplo, nos números de 2 Samuel 24:9, que fariam do exército de Davi numericamente próximo da população da capital austríaca (1,3 milhão de homens). Como afirma Joseph Blenkinsopp, “o registro bíblico fala em termos brilhantes das conquistas de Davi e Salomão, mas a realidade foi provavelmente mais modesta; e é necessário ter em mente que nenhuma fonte daquele tempo se refere, mesmo de passagem, a qualquer um dos dois reis ou ao Grande Israel que eles haviam criado”. De acordo com historiadores como Thomas Thompson, “não há evidência de uma monarquia unida, não há evidência de uma capital em Jerusalém ou de qualquer força política coerente e unificada que tenha dominado a Palestina ocidental (...)”. Portanto, acredita-se que o engrandecimento da Monarquia Unida é um anacronismo.


