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Guerra Peninsular

A Guerra Peninsular (1807–1814) foi um conflito militar entre o Primeiro Império Francês e a aliança do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, do Império Espanhol e do Reino de Portugal e Algarves pelo domínio da Península Ibérica durante as Guerras Napoleónicas. O conflito teve início quando os exércitos franceses e espanhóis invadiram e ocuparam Portugal em 1807, tendo voltado em 1808 após a França se ter voltado contra a Espanha, sua aliada até então. A guerra prolongou-se até à derrota de Napoleão pela Sexta Coligação em 1814, sendo vista como uma das primeiras guerras de libertação nacional e significativa na emergência da guerrilha em grande escala.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 16/07/2026
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Antecedentes

Subjugada pela derrota na Campanha do Rossilhão, Espanha aliou-se à França. Em 1806, enquanto se encontrava em Berlim, Napoleão Bonaparte decretou o Bloqueio Continental, que proibia as importações britânicas para a Europa continental. Portugal, que se mantinha neutro, tentou em vão evitar o ultimato de Napoleão, uma vez que desde 1373 que era signatário de um tratado de aliança com Inglaterra e, posteriormente, com o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. Após a assinatura dos Tratados de Tilsit em 1807, que confirmaram o domínio francês sobre a Europa central e de leste, Napoleão decidiu capturar os portos ibéricos. A decisão contrariou as suas próprias afirmações no início da sua carreira, quando afirmou que Espanha muito dificilmente seria conquistada. Em 27 de outubro de 1807, o primeiro-ministro espanhol Manuel de Godoy assinou com França o secreto tratado de Fontainebleau, mediante o qual os dois países se comprometiam a conquistar Portugal, cujo território seria dividido em três reinos; o novo Reino da Lusitânia Setentrional, o Algarve (incluindo o Alentejo) e o restante Reino de Portugal.

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Insurreições ibéricas

Desde os motins de Aranjuez que Espanha se encontrava em sobressalto. Eram frequentes os ataques aos partidários de Godoy, ao mesmo tempo que França se recusava a reconhecer a legitimidade de Fernando, o que provocava enorme descontentamento e levantava a suspeita de que tencionava fazer com que Godoy regressasse. No início de maio de 1808 começaram a circular rumores de que a Junta de Gobierno estava a ser pressionada para enviar os últimos membros da família real para Baiona. Em 2 de maio, os habitantes de Madrid revoltaram-se contra a ocupação francesa, matando 150 soldados franceses. O conflito terminou com a intervenção da Guarda Imperial e da cavalaria de mamelucos, que irrompeu pela cidade espezinhando os revoltosos. No dia seguinte, o exército francês matou centenas de madrilenos em retaliação. As represálias ocorreram também noutras cidades e prolongaram-se durante vários dias, fazendo eclodir por toda a Espanha ações de resistência espontâneas e frequentemente sangrentas denominadas guerrilha.

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Invasão de Espanha

Embora Napoleão contasse com revoltas populares, acreditava que o exército espanhol se manteria neutro ou se colocaria sob o seu comando, que as revoltas eventualmente terminariam e que Espanha se tornaria uma região pacífica se o seu irmão José fosse coroado rei. Napoleão também não tinha qualquer consideração pelas milícias espanholas que se lhe opunham. Dupont de l'Étang liderou 24 430 homens em direção a Sevilha e Cádis. O marechal Jean-Baptiste Bessières deslocou-se para Aragão e Castela a Velha acompanhado de 25 000 homens, com o objetivo de capturar Santander e Saragoça. Boncey marchou em direção a Valência com 29 350 homens e Guillaume Philibert Duhesme deslocou 12 710 soldados para a Catalunha em direção a Gironda. No entanto, após a Batalha do Bruc, nas montanhas a cerca de 50 km de Barcelona, François Xavier de Schwarz e cerca de 4 mil homens foram forçados a retirar-se devido ao elevado número de baixas infligido pela milícia catalã, os miquelets. A divisão franco-italiana de Guillaume Philibert Duhesme, com cerca de 6 mil soldados, não conseguiu capturar a cidade de Gerona e foi forçada a retirar-se para Barcelona. Em 10 de junho, todos os navios de linha franceses ancorados em Cádis foram capturados, o que levou Dupont a cancelar a marcha sobre Córdova e, em 16 de junho, a retirar para Andujar. Em Aragão, Charles Lefebvre-Desnouettes comandou uma força de 6 mil homens que seriam derrotados no Primeiro Cerco de Saragoça. Recorrendo a táticas de guerra urbana, Palafox susteve os franceses ao longo de três meses. O avanço de Moncey em direção à costa terminou com a derrota em Valência, onde morreram cerca de um milhar de recrutas franceses ao tentar conquistar a cidade. Tendo conseguido conter o contra-ataque espanhol, Moncey deu início a uma longa retirada repleta de saques.

Segunda invasão de Espanha

Passaram-se vários meses de inatividade na frente de combate. A revolução bloqueou a Espanha num momento em que uma ação decisiva poderia ter mudado o curso da guerra. Os franceses, que em junho dominavam Espanha, mantinham-se imobilizados em Navarra e na Catalunha. Por volta de outubro de 1808, as forças francesas em Espanha contavam com 75 000 soldados, contra 86 000 soldados espanhóis e 35 000 soldados britânicos em trânsito. O exército britânico em Portugal encontrava-se também imobilizado devido a dificuldades logísticas e conflitos administrativos. Após a perda de Portugal e a rendição de um corpo francês na Batalha de Bailén, Napoleão apercebeu-se do risco que corria em Espanha. A rendição de Bailén constitui um momento de viragem histórica. Foi a primeira vez, desde 1801, que uma força considerável francesa se rendeu em batalha. A notícia deste evento correu rapidamente por Espanha e por toda a Europa e representou um duro golpe na aura de invencibilidade do exército francês, inspirando movimentos de resistência à ocupação napoleónica. O próprio papa publica uma carta aberta de denúncia em relação a Napoleão e na Áustria começam-se a organizar esforços para desafiar o Império Francês.

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Contra-ofensiva britânica de Moore

Em novembro de 1808, o exército britânico liderado por Moore avançava para Espanha com ordens para prestar assistência aos exércitos espanhóis em combate contra as forças de Napoleão. Moore recebia apelos desesperados do embaixador britânico e da Junta Central para apoiar a causa dos Patriotas. No entanto, as forças de Moore encontravam-se dispersas, pelo que a sua capacidade de ação era limitada. Embora o principal exército de Moore tivesse avançado até Salamanca, em 28 de novembro nenhuma das suas tropas tinha ainda passado Astorga em direção a norte, enquanto John Hope se encontrava ainda 70 km a este com toda a cavalaria e artilharia de Moore. Em 3 de dezembro, um destacamento de Hope juntou-se ao principal exército de Moore, dando-lhe conhecimento das sucessivas derrotas dos espanhóis. Moore concluiu que para evitar uma tragédia teria que desistir e retirar para Portugal. No entanto, antes da retirada Moore recebeu informações secretas de que as forças de Soult estavam dispersas e isoladas em Carrión de los Condes e que os franceses desconheciam a posição do exército britânico. Em 15 de dezembro, iniciou a marcha em direção aos franceses perto de Madrid com o objetivo de derrotar Soult. No dia 20, Moore junta forças com Baird, proveniente da Corunha, dispondo agora de uma força de infantaria com 23 500 homens, uma força de cavalaria com 2 400 homens e 60 peças de artilharia.[nota 3] O ataque foi aberto com um raide bem-sucedido da cavalaria de Henry Paget sobre os piquetes franceses na Batalha de Sahagún em 21 de dezembro. No entanto, apesar de Soult ser apanhado de surpresa, Moore não conseguiu concretizar a sua parte do ataque, tendo esperado dois dias durante os quais Soult conseguiu concentrar as suas tropas. Assim que foram emitidas as ordens para avançar, chegaram notícias dramáticas de que a sul as tropas francesas conseguiram atravessar em massa a serra de Guadarama em direção à planície de Castela a Velha. Ao mesmo tempo, Napoleão soube da presença do exército britânico e virou para norte para o confrontar. No entanto, Moore encontrava-se de tal forma a norte que as forças provenientes de Madrid não teriam sido capazes de o confrontar. Moore estava consciente deste perigo e retirou para oeste mal soube do avanço de Napoleão, requisitando que fosse enviado transporte marítimo de Lisboa para a Corunha. Um ataque de Soult poderia ter atrasado Moore o suficiente para que as forças de Napoleão chegassem à sua retaguarda. No entanto, Soult esperou por reforços de Burgos e foi atrasado por chuva torrencial. Embora La Romana tinha de cobrir a retirada de Moore, foi derrotado por Soult na Batalha de Mansilla. A retirada de Moore foi marcada por numerosos atos de indisciplina em vários regimentos e ações de combate rebelde na retaguarda, o que permitiu a Paget capturar Lefebvre-Desnouettes na Batalha de Benavente, com Napoleão a observar à distância.

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Invasão de Portugal

Primeira invasão

O não cumprimento por parte de Portugal das disposições do Bloqueio Continental, levou a França a invadir o país. A Convenção secreta entre Portugal e a Inglaterra, assinada no dia 22 de outubro, estabelecia com segurança a manobra luso-britânica de pôr a salvo a família real e o governo português no Brasil. Sob o comando do general Jean-Andoche Junot, as tropas francesas entraram na Espanha em 18 de outubro de 1807, cruzando o seu território em marcha acelerada em pleno inverno e alcançando a fronteira portuguesa em 20 de novembro. Sem encontrar resistência militar, uma coluna de tropas invasoras atingiu Abrantes em 24 de Novembro. Faminto e desgastado pela marcha e pelo rigor da estação, o exército francês teve dificuldade para ultrapassar o rio Zêzere, entrando em Santarém em 28. Instalando-se no Cartaxo, parte no mesmo dia, rumo a Lisboa, onde entrou em 30, à frente de dois regimentos em muito mau-estado, para receber a notícia da fuga da família real. Um dia antes, a família real e a corte portuguesa haviam-se transferido para o Brasil a bordo de uma larga esquadra naval, protegida por naus britânicas, e levando consigo cerca de 15 mil pessoas, deixando o governo do território europeu de Portugal nas mãos de uma regência, com instruções para não "resistir" aos invasores. Ficava vazio de conteúdo o decreto de Napoleão publicado pelo jornal francês Le Moniteur de 30 de outubro, dando como banida a Casa de Bragança do trono de Portugal.

Segunda invasão

Após a Batalha da Corunha e evacuação britânica de Espanha, Soult concentrou os seus planos na invasão de Portugal. Na grande estratégia que Napoleão delineou no final de 1808, previa-se que Portugal fosse conquistado através de uma ofensiva em três frentes. O exército de Soult entraria no país por norte, Pierre Lapisse entraria com 9 mil pelo leste e Claude Perrin pelo sul. Restaurada a paz na metade norte da província, e antecipando a vitória na invasão da Andaluzia e do levante peninsular, Napoleão previa que o conflito peninsular estivesse resolvido antes do verão de 1809. Esta confiança era reforçada pelo estado caótico e desmoralizado em que se encontravam os patriotas espanhóis e portugueses.

Terceira invasão

Uma terceira invasão francesa do território português teve início em 1810, sob o comando do marechal André Masséna. Penetrando pela região Nordeste de Portugal, conquistou a Praça-forte de Almeida (agosto), na fronteira, marchando em seguida sobre Lisboa. Interceptado pelas forças luso-britânicas, foi derrotado na Batalha do Buçaco (27 de setembro). Reagrupando as suas forças, retomou a marcha, flanqueando as tropas luso-britânicas e forçando-as a recuarem para defender a capital. Os franceses atingiram as Linhas de Torres a 14 de outubro, erguidas na previsão dessa eventualidade e onde as tropas luso-britânicas os aguardavam desde o dia 10, retirando-se, derrotados, ao final do dia seguinte.

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Intervenção britânica

O início do envolvimento britânico na Guerra Peninsular assinala uma reviravolta profunda na luta contra Napoleão. Cinco dias após ter declarado guerra a França, as juntas das Astúrias, Galiza e Sevilha enviaram delegações a Londres com o intuito de pedir auxílio. Embora não tenham requisitado especificamente tropas, governo de Portland leva em consideração um despacho favorável emitido pelo Exército Britânico. Em 27 de junho de 1808 chegam a Gijón três oficiais britânicos liderados por um tenente-coronel para avaliar a situação do ponto de vista militar. Na sequência da vitória de Bailén, o secretário de estado dos assuntos militares Robert Stewart envia uma segunda delegação liderada pelo general James Leith, que chega a Gijón em 30 de agosto. Esta missão tem como objetivo determinar de que forma é que o norte de Espanha pode ser reforçado de modo a impedir que Napoleão envie reforços através de Irun, isolando-o em Madrid e Burgos. Em novembro de 1808, Leith juntou-se às forças de Baird. A autorização para que os membros da milícia se pudessem voluntariar para servir no exército proporcionava de forma contínua novos combatentes.

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Queda da Junta Central

Wellesley regressou a Portugal em abril de 1809 para comandar a contra-ofensiva do exército anglo-português. O exército britânico foi reforçado com regimentos portugueses treinados pelo general Beresford, o que lhes permitiu adaptar-se ao estilo de campanha britânico. Estas novas forças expulsaram Soult de Portugal na sequência da Batalha de Grijó, travada em 10-11 de maio, e da Segunda Batalha do Porto, em 12 de maio. As restantes cidades do Norte foram recapturadas pelo general Silveira. Perante a contra-ofensiva em Portugal, Soult retirou em marcha pelas montanhas de Ourense. Assegurado o território português, Wellesley avançou em direção a Espanha para se juntar às forças de Cuesta. Os aliados planearam uma ofensiva ao I Corpo de Claude Victor em Talavera no dia 23 de julho. Cuesta mostrou relutância em aceitar, mas foi persuadido a avançar no dia seguinte. Este atraso proporcionou aos franceses tempo para retirar. Cuesta enviou o exército no encalço de Victor, mas foi surpreendido pelo exército francês, ao qual se tinham juntado as guarnições de Toledo e Madrid. Os espanhóis bateram em retirada, enquanto as divisões britânicas avançaram para cobrir a retaguarda.

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Regime de José I

Durante o reinado de José Bonaparte, grande parte da responsabilidade de governação recaía sobre os governos locais de província, liderados por comissários reais. Após um período de preparação e debate, em 2 de julho de 1809 Espanha foi dividida em 38 províncias, cada uma governada por um intendente nomeado pelo próprio rei. Em 17 de abril de 1810, estas províncias foram convertidas em prefeituras e subprefeituras semelhantes às francesas. As novas divisões territoriais foram nomeadas em função das principais cidades, em vez das características geográficas dominantes, embora algumas tivessem mantido os nomes históricos. As suas dimensões eram relativamente equivalentes e apresentavam pouca ou nenhuma relação com as divisões históricas. Entre os segmentos liberais, republicanos e radicais das populações portuguesas e espanholas existia bastante apoio a uma potencial invasão francesa, apesar de em 1807 Napoleão ter abandonado muitos dos ideais republicanos e liberais. Anteriormente à invasão, era usado o termo afrancesado para identificar os apoiantes do iluminismo, do secularismo e da Revolução Francesa. Napoleão dependia do apoio dos afrancesados para gerir a guerra e administrar o país. No entanto, embora Napoleão, através do seu irmão José, tenha cumprido as promessas de remover todos os privilégios feudais e clericais, a maior parte dos liberais espanhóis desde muito cedo se opôs à ocupação devido à sua violência e brutalidade.

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Emergência da guerrilha

A Guerra Peninsular é vista como uma das primeiras guerras do povo, tendo tido um impacto determinante na emergência de movimentos de guerrilha em grande escala. Foi a partir deste conflito que várias línguas adotaram o termo espanhol para designar este tipo de combate popular. Foram as pequenas vitórias obscuras e anónimas da guerrilha, como emboscadas a pelotões ou a sucessiva captura de correios, que permitiram as vitórias de Wellington e do exército anglo-português e a libertação de Portugal e de Espanha. Em Espanha e Portugal, a população estava habituada a enfrentar adversidades, era desconfiada em relação a estrangeiros e era relativamente frequente a prática de modos de subsistência, como banditismo ou contrabando, caracterizados por violência e escaramuças constantes com as forças de autoridade. Muitos dos líderes da guerrilha eram os próprios líderes de grupos de contrabandistas ou assaltantes.

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Contra-ofensiva

A campanha dos exércitos britânico, português e espanhol, entre maio e agosto de 1813, culminou na Batalha de Vitória, seguida um mês depois pela Batalha dos Pirenéus. Em pouco mais de dois meses e depois de uma ofensiva de 600 quilómetros com mais de 100 mil homens das três nações em armas, o curso da história europeia foi modificado de forma decisiva. Seguiu-se uma série de batalhas em território francês até à vitória em Toulouse (10 de abril de 1814), que colocou fim à Guerra Peninsular.

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