Guerra da Coreia
Guerra da Coreia foi um conflito armado travado entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, no contexto macro da Guerra Fria. As Nações Unidas, com os Estados Unidos como sua principal força, vieram em ajuda aos sul-coreanos. A China, por sua vez, interveio em favor do norte, com a União Soviética dando-lhes apoio logístico e político.
Ocupação japonesa (1910–1945)
Após derrotar a Dinastia Qing na Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894–96), o Império do Japão ocupou militarmente a Coreia – uma península estratégica na "esfera de influência" regional. Uma década mais tarde, os japoneses derrotaram a Rússia Imperial na Guerra Russo-Japonesa (1904–05), e tornaram a península coreana seu novo protetorado, pelo Tratado de Eulsa, em 1905, e então assinaram o tratado de Anexação Japão-Coreia em 1910. A Coreia ocupada era considerada parte do Império japonês como uma colônia industrializada, como parte da Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental. Em 1937, o governador da Coreia, o general Jirō Minami, iniciou um processo de assimilação cultural dos 23,5 milhões de coreanos ao banir o uso e o ensino da língua local, proibindo a literatura nacional e promovendo a repressão cultural, implementando à força na sociedade coreana os ensinamentos e tradições japonesas. Em 1939, a população passou a ser obrigada a adotar nomes japoneses sob a regra Sōshi-kaimei. Em 1938, o governo colonial instaurou programas de trabalho forçado.
Invasão soviética-americana (1945)
Em novembro de 1943, em uma conferência realizada no Egito, a República da China, o Reino Unido e os Estados Unidos decidiram que "a Coreia se tornaria uma nação independente após a guerra". Na Conferência de Ialta, feita em fevereiro de 1945, foi acertado que o país entraria para a "zona de influência" soviética, em troca do apoio destes na guerra contra o Japão. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, o Exército vermelho ocupou boa parte do norte da península coreana, como havia sido acertado em acordo com as potências ocidentais e em 26 de agosto de 1945, mas detiveram seu avanço no paralelo 38 e esperaram a invasão americana no sul do país. Em 10 de agosto de 1945, com a derrota japonesa próxima, os americanos duvidavam se os soviéticos iriam honrar os acordos da ocupação da Coreia. Um mês antes, os coronéis Dean Rusk e Charles H. Bonesteel III dividiram a península no paralelo 38, assegurando-se que a zona sul tivesse pelo menos dois grandes portos. Rusk teria justificado o local da divisão no paralelo 38 pois "caso a União Soviética violasse o acordo, a área ocupada pelo exército vermelho estaria ao alcance rápido das forças americanas, [...] era importante colocar a capital da Coreia sob responsabilidade do exército dos Estados Unidos". Os soviéticos aceitaram a demarcação das zonas de ocupação americanas, já que seu foco estava nas negociações com o ocidente sobre como ocupar o leste da Europa e também porque eles aceitariam a rendição japonesa nos termos dela.
Divisão da Coreia (1945–1949)
Na Conferência de Potsdam (julho–agosto de 1945), os Aliados (Estados Unidos e União Soviética) decidiram, unilateralmente, dividir a Coreia — sem consultar o povo coreano. Em 8 de setembro de 1945, o general americano John R. Hodge chegou em Incheon para aceitar a rendição japonesa no sul do paralelo 38. Apontado como governador militar, Hodge assumiu total controle sobre o sul da Coreia. Em dezembro de 1945, a Coreia era administrada por uma Comissão Americano-Soviética, como acertado na Conferência de Moscou, ainda naquele ano. Os coreanos foram excluídos de todas as negociações sobre o futuro do país. A comissão decidiu dar independência a península coreana em 1950, depois de cinco anos de ocupação e de esforços para inclinar a população das zonas ocupadas as ideologias defendidas pelas forças estrangeiras de ocupação. A população coreana se revoltou contra tais determinações. No sul, foram reportados enormes protestos nacionalistas e alguns grupos políticos passaram a pegar em armas após perseguições e tentativas de censura por parte do governo americano. Porém houve muitos protestos relatados na parte norte da península que, foram rapidamente silenciados pelo governo soviético com o uso excessivo da força e da imposição dos valores comunistas.
1950
No começo de 1950, Kim Il-sung viajou para Moscou e para Pequim à procura de apoio para a guerra iminente. A União Soviética ficou bastante envolvida com a militarização da Coreia do Norte e seus planos para uma ofensiva contra o sul. Mao Tse Tung transferiu 50 mil soldados do Exército de Libertação Popular de etnia coreana, juntamente com seus armamentos, para a Coreia do Norte. Meses antes dos primeiros ataques do Norte, a Agência de Inteligência americana notou uma enorme mobilização militar por parte das forças armadas da Coreia do Norte, mas pensou que era apenas uma "medida defensiva" e concluiu que uma invasão era "improvável". Sob o pretexto de estar retaliando supostas pequenas incursões de soldados do sul na fronteira, o exército norte-coreano cruzou a fronteira do paralelo 38, com a proteção de artilharia pesada, em 25 de junho de 1950. Os norte-coreanos haviam declarado que as tropas do exército da Coreia do Sul, sob comando do presidente Syngman Rhee, haviam cruzado a fronteira primeiro e que, por isso, eles pretendiam prender e executar Rhee. As forças armadas de ambos os países já haviam se atacado em pequena escala pela fronteira antes da guerra. A luta começou na península de Ongjin, no oeste, onde os sul-coreanos alegaram ter tomado a cidade de Haeju e rapidamente se tornou em um combate em larga escala por toda a fronteira. Isso levou a crer, para alguns especialistas, que foi o Sul que começou a guerra. A força invasora norte-coreana somava mais de 200 mil homens, enquanto as forças de defesa do Sul tinham ao menos 100 mil soldados.
1951
No ano novo de 1951, os chineses e norte-coreanos lançaram sua terceira ofensiva conjunta. Utilizando de várias surtidas noturnas, os comunistas tentaram cercar as tropas da ONU utilizando sua superioridade numérica. As forças americanas e sul-coreanas foram forçadas por esses ataques a recuar. Ocupados combatendo os chineses, as forças militares dos Estados Unidos e da Coreia do Sul não conseguiram impedir que os norte-coreanos conquistassem Seul pela segunda vez na guerra, em 4 de janeiro de 1951. Frente a uma sucessão de derrotas, o general MacArthur passou a considerar realizar ataques com armas nucleares contra a China e contra a Coreia do Norte. Contudo, com a chegada do general Matthew Ridgway, o exausto 8º exército americano recuperou seus ânimos.
1952
Em 1952, uma série de sangrentas batalhas foram travadas e milhares de soldados morreram em ambos os lados, com pouco ganho estratégico, enquanto a situação humanitária nas Coreias piorava. As tropas chinesas e norte-coreanas sofriam com falta de suprimentos e materiais, ainda contando com uma péssima logística com linhas de suprimentos longas e sob constante ataques aéreos dos aliados ocidentais.
1953
O impasse continuou por 1953. Cerca de 4 500 militares chineses morreram no cerco ao posto avançado americano de Harry. Em Kaesong, mais 1 500 chineses foram mortos. Entre março e julho, perto de Cheorwon, forças norte-coreanas, chinesas, americanas, sul-coreanas e de outros países das forças da ONU se combateram em uma sangrenta batalha que acabou em um impasse estratégico e com a morte de mais de 2 mil soldados. A situação dos comunistas prosseguia tensa devido a falta de suprimentos e as enormes perdas sofridas nos combates. Enquanto nenhum dos dois lados era capaz de vencer uma batalha decisiva sobre o outro, as negociações, que já se prosseguiam há quase 24 meses, continuavam. Entre os obstáculos para a paz estava no ponto de como a troca dos prisioneiros de guerra seria feita.
Eventos posteriores
Os termos do armistício acertaram uma comissão internacional para assegurar que o acordo fosse cumprido. Desde 1953, a "Comissão de Supervisão da Neutralidade das Nações" (NNSC), composta por membros das forças armadas da Suíça e da Suécia, monitorizavam a zona desmilitarizada. O pós-guerra foi um período conturbado para ambas as nações. Na primeira década após o conflito, a Coreia do Sul ficou estagnada economicamente. Em 1953, os sul-coreanos assinaram com os Estados Unidos um Tratado Mútuo de Defesa. Em 1960, a Revolução de Abril conseguiu derrubar o ditador do país, Syngman Rhee, que foi forçado a se exilar na América do Norte. Após o Golpe de Estado de 16 de Maio de 1961, o presidente Park Chung-hee conseguiu levar o país a estabilidade política. Economicamente, contudo, a Coreia do Sul permanecia pobre e subdesenvolvida, com, por exemplo, 25% do seu PIB sendo fruto de prostituição e serviços relacionados. Foi durante a década de 1970 que a economia do país começou a crescer, com a nação se modernizando e se industrializando ostensivamente. Mas foi a partir dos anos 80 que a Coreia do Sul viu um crescimento econômico robusto e sustentável, que continuaria nas duas décadas seguintes (o "Milagre do Rio Han"). Atualmente, o país é uma potência econômica, industrial e tecnológica.
Fatalidades
Cerca de três milhões de pessoas morreram na guerra, a maioria civis, tornando-a talvez o conflito mais mortal da Guerra Fria. Samuel Kim lista a guerra como o conflito mais mortal no Leste Asiático — a região mais afetada por conflitos armados relacionados à Guerra Fria. Embora apenas estimativas aproximadas de fatalidades civis estejam disponíveis, acadêmicos notaram que a porcentagem de vítimas civis na Coreia foi maior do que na Segunda Guerra Mundial ou na Guerra do Vietnã, com Bruce Cumings colocando as vítimas civis em dois milhões e Guenter Lewy na faixa de dois a três milhões. A Coreia do Sul relatou cerca de 137 899 mortes militares, 24 495 desaparecidos, 450 742 feridos e 8 343 prisioneiros de guerra. Os Estados Unidos sofreram 33 686 mortes em combate, 7 586 desaparecidos, juntamente com 2 830 mortes não relacionadas aos combates. Houve 17 730 outras mortes militares não relacionadas ao combate dos americanos que ocorreram fora da Coreia durante o mesmo período, que foram erroneamente incluídas como mortes de guerra até o ano 2000. Os Estados Unidos sofreram 103 284 feridos em ação. As perdas da ONU, excluindo as dos americanos ou da Coreia do Sul, totalizaram 4 141 mortos e 12 044 feridos em ação.
Crimes de guerra
Houve inúmeras atrocidades e massacres de civis ao longo da Guerra da Coreia cometidos por ambos os lados, começando nos primeiros dias da guerra. De 2005 a 2010, a Comissão de Verdade e Reconciliação da Coreia do Sul investigou atrocidades e outras violações de direitos humanos ao longo de grande parte do século XX, desde o período colonial japonês até a Guerra da Coreia e além. A comissão escavou algumas valas comuns dos massacres da Liga Bodo e confirmou os contornos gerais dessas execuções políticas. Dos massacres ocorridos durante a Guerra da Coreia que a comissão foi solicitada a investigar, 82% foram perpetrados pelas forças sul-coreanas, enquanto 18% foram perpetrados pelas forças norte-coreanas.


