Genealogia
Genealogia é uma ciência auxiliar da História que estuda a origem, a evolução e a dispersão das famílias, assim como dos seus respectivos nomes, sobrenomes ou apelidos, e as suas estirpes (linhagens) para traçar um mapa das ligações biológicas e de afinidade entre diferentes indivíduos e gerações. Os genealogistas usam registros históricos, entrevistas orais, análise genética e fontes secundárias para construir árvores genealógicas, tratando das ligações de parentesco tanto em sentido vertical quanto em sentido horizontal.
A genealogia se ocupa da identificação da ligação biológica entre diferentes indivíduos e da reconstituição da sequência ordenada de gerações dentro de um grupo familiar, buscando determinar as origens, a rede de parentescos e a evolução cronológica da família. Numa perspectiva mais abrangente, onde se associa à prosopografia, à história, às ciências humanas e sociais, procura reconstituir o perfil e a história política, econômica e cultural da família e seus integrantes, suas associações com outros grupos e seu papel na sociedade. No âmbito da história, a genealogia está centrada no estudo das famílias, dando subsídios para e sendo subsidiada por outras ciências, como a sociologia, a economia, a história da arte, a genética, a medicina ou o direito. O terno também é empregado em outras áreas de estudo significando a pesquisa das origens, ligações e desdobramentos de determinada ciência, corrente, ideologia, ideia, moda ou tendência, de outros seres vivos, ou mesmo de objetos e invenções, como por exemplo a genealogia da moral, a genealogia da matemática, a genealogia da filosofia de Kant, a genealogia do cão doméstico, a genealogia do violino.
A genealogia é reconstituída através de documentos escritos, como atos legais (certidões de nascimento, casamento e óbito, contratos, inventários, testamentos, etc.), bibliografia histórica, crônicas, arquivos cívicos, familiares, judiciais, militares e religiosos, correspondência, inscrições, lápides, imprensa e outros, mas também pode se valer de tradições orais e imagens. A genealogia pode ser ascendente, partindo do sujeito presente e retrocedendo pelas gerações antepassadas, ou descendente, partindo do fundador da família e acompanhando a evolução da sua posteridade. Um dos principais problemas da pesquisa genealógica é assegurar a veracidade das informações transmitidas pelos documentos e tradições. A oralidade em geral é uma fonte pouco confiável, sendo particularmente propensa a distorções e imprecisões, mas usualmente conserva uma parte de verdade. Documentos podem conter erros inadvertidos, e podem conter informações deliberadamente falseadas. Falsificação de fontes e de árvores genealógicas foram e ainda são expedientes comuns. A documentação pode atestar uma filiação oficialmente reconhecida, mas também pode dissimular uma adoção secreta ou o fruto de um adultério. Quando o pesquisador imagina estar seguindo a linha do sangue, pode estar seguindo uma linha que é apenas cartorial, e quanto mais se recua no tempo, mais difícil é descobrir se esses desvios ocorreram ou não. Estimativas precisas são impossíveis, mas calcula-se que na população europeia exista uma taxa média de até 4,5% de falsa paternidade.
O interesse pela genealogia não é novo. Na Antiguidade muitas famílias ilustres traçaram genealogias que as associavam a ancestrais de tempos remotos, não raramente incluindo entre eles personagens fictícios como heróis lendários e divindades, incorporados às genealogias para emprestar-lhes prestígio. Enquanto em tempos passados a genealogia misturava indiscriminadamente mitos e fatos, e era usada antes para afirmar um parentesco do que para comprová-lo objetivamente, a partir do século XVIII iniciou um movimento em direção a uma pesquisa de caráter científico, que se tornou a abordagem empregada atualmente nos estudos genealógicos acadêmicos. Como refere a historiadora Sara Trevisan, Atualmente a pesquisa da genealogia familiar se tornou uma atividade extremamente popular, sustentada pela disponibilização de uma vasta quantidade de dados arquivísticos e bibliográficos através da internet, mas essa popularização acentuou os problemas na área, sendo feitas pesquisas por uma multidão de amadores sem critério e método, usando fontes de baixa ou nula confiabilidade, com o resultado de proliferarem largamente genealogias falsas ou duvidosas. Segundo a pesquisadora Regina Poertner, as buscas genealógicas são atualmente a terceira maior atividade na internet, perdendo apenas para o comércio e para a pornografia. Em 2004, Jerome de Groot, em uma conferência promovida pela International Federation for Public History, chamou a atenção para este fenômeno e considerou que ele representava um desafio para a historiografia estabelecida e para as práticas de história pública, convidando os acadêmicos a estudarem as várias dimensões em que atuam a genealogia e a história familiar, estabelecendo o contexto local, nacional e internacional para as investigações, e as consequências e implicações de tamanha explosão no interesse genealógico contemporâneo para a imaginação cultural, para a história e para o conhecimento. Comentando esse chamado à ação, o professor Paul Knevel considerou que embora os leigos tenham critérios frouxos na construção da genealogia, é importante que os acadêmicos entendam o que significa para eles essa tentativa de fazer o passado reviver no presente, a importância das implicações afetivas, psicológicas e sociais dessa atividade, e como isso tudo afeta a valorização da história e da ciência pelo público em geral.
A descendência da Antiguidade é um tópico dos estudos genealógicos e prosopográficos que busca estabelecer a ligação entre famílias modernas e as famílias da Antiguidade. Embora seja um fato auto-evidente que todas as pessoas vivas descendem de antepassados que viveram na Antiguidade, a comprovação segura de toda a sequência de gerações para os descendentes de europeus ainda é impossível, havendo uma dramática lacuna de registros entre o fim da Antiguidade e a Idade Média. O mesmo vale para outras regiões do mundo. Apenas um reduzido grupo de famílias do Oriente parece manter registros ininterruptos relativamente confiáveis até o século III ou IV. Para trás desta época, com o conhecimento disponível hoje, embora algumas vias de ligação com épocas ainda mais antigas permaneçam possíveis ou mesmo sejam prováveis, os elos documentados concretamente ainda estão ausentes. Para as famílias europeias, um passo fundamental foi dado pelos eruditos do século XIX, que compilaram todos os registros conhecidos até aquela época sobre todos os personagens da Antiguidade Clássica do Ocidente, permitindo a reconstrução da genealogia de muitas famílias da Grécia e da Roma antigas, embora sua ligação com as famílias modernas permanecesse obscura.


