Escolástica
Escolástica, escolasticismo ou filosofia escolástica é um método ocidental de pensamento crítico e de aprendizagem, com origem nas escolas monásticas cristãs, que concilia a fé cristã com um sistema de pensamento racional, especialmente o da filosofia grega.
Os termos escolástico e escolástica derivam da palavra latina scholasticus, a forma latinizada do grego antigo σχολαστικός (scholastikos), um adjetivo derivado de σχολή (scholē), "escola". Scholasticus significa "pertencente às escolas". Os "escolásticos", portanto, eram "homens das escolas".
Os fundamentos da escolástica cristã foram estabelecidos por Boécio por meio de seus ensaios lógicos e teológicos. Precursores posteriores (e depois companheiros) da escolástica foram o Ilm al-Kalām islâmico, que significa "ciência do discurso", e a filosofia judaica, especialmente o Kalam judaico.
Início da Escolástica
A primeira renovação significativa do saber no Ocidente ocorreu com a Renascença Carolíngia, na Alta Idade Média. Carlos Magno, aconselhado por Pedro de Pisa e Alcuíno de Iorque, atraiu os estudiosos da Inglaterra e da Irlanda, onde algumas obras gregas ainda existiam em seu original. Por um decreto de 787, ele estabeleceu escolas em todas as abadias de seu império. Essas escolas, das quais derivou o nome "escolástica", tornaram-se centros de aprendizado medieval. Durante esse período, o conhecimento do grego antigo havia desaparecido no Ocidente, exceto na Irlanda, onde seu ensino e uso eram bastante comuns em suas escolas monásticas. Os estudiosos irlandeses tinham uma presença considerável no Império Carolíngio (corte franca), onde eram renomados por seu conhecimento. Entre eles estava João Escoto Erígena (815–877), um dos fundadores da escolástica. Erígena foi o intelectual irlandês mais importante do início do período monástico e um filósofo excepcional em termos de originalidade. Ele tinha considerável familiaridade com a língua grega e traduziu muitas obras para o latim, permitindo o acesso aos Pais Capadócios e à Tradição Teológica Grega. Outros três fundadores principais da escolástica foram os arcebispos do século XI Lanfranco e Anselmo de Cantuária na Inglaterra e Pedro Abelardo na França.
Apogeu
Os séculos XIII e início do XIV são geralmente considerados o auge da escolástica. O início do século XIII testemunhou o ápice da redescoberta da filosofia grega. Escolas de tradução surgiram na Itália e na Sicília e, eventualmente, no resto da Europa. Poderosos reis normandos reuniam homens de conhecimento da Itália e de outras regiões em suas cortes como sinal de seu prestígio. As traduções e edições de textos filosóficos gregos feitas por Guilherme de Moerbeke na segunda metade do século XIII ajudaram a formar uma imagem mais clara da filosofia grega, particularmente de Aristóteles, do que a oferecida pelas versões árabes nas quais se baseavam anteriormente. Edward Grant escreve: "A estrutura da língua árabe não era apenas radicalmente diferente da do latim, mas algumas versões árabes derivavam de traduções siríacas anteriores e, portanto, estavam duplamente distantes do texto grego original. Traduções literais desses textos árabes podiam produzir leituras tortuosas. Em contraste, a proximidade estrutural do latim com o grego permitia traduções literais, porém inteligíveis, palavra por palavra."
Pós-escolasticismo
O filósofo Johann Beukes defende que, de 1349 a 1464, período entre as mortes de Guilherme de Ockham e Nicolau de Cusa, houve um período distinto caracterizado por "filósofos robustos e independentes" que se afastaram da escolástica em questões como a crítica institucional e o materialismo, mas mantiveram o método escolástico. Esses filósofos incluem Marsílio de Pádua, Thomas Bradwardine, John Wycliffe, Catarina de Siena, Jean Gerson, Gabriel Biel e terminam com Nicolau de Cusa.
Imagem: José Luis Pajares · BY-NC-SA · Openverse
De acentos notadamente cristãos, a escolástica surgiu da necessidade de responder às exigências da fé, ensinada pela Igreja, considerada então como a guardiã dos valores espirituais e morais de toda a Cristandade. Por assim dizer, responsável pela unidade de toda a Europa, que comungava da mesma fé. Essa linha vai do começo do século IX até ao fim do século XVI, ou seja, até ao fim da Idade Média. Esse pensamento cristão deve o seu nome às artes ensinadas na altura pelos académicos (escolásticos) nas escolas medievais. Essas artes podiam ser divididas em Trivium (gramática, retórica e lógica) e Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música). A escolástica resulta essencialmente do aprofundar da filosofia. A filosofia, que, até então, possuía traços marcadamente clássicos e helenísticos, sofreu influências da cultura judaica e da cristã a partir do século V, quando pensadores cristãos perceberam a necessidade de aprofundar uma fé que estava amadurecendo, em uma tentativa de harmonizá-la com as exigências do pensamento filosófico. Alguns temas que antes não faziam parte do universo do pensamento grego, tais como Providência e Revelação Divina e Criação, passaram a fazer parte de temáticas filosóficas. A escolástica possui uma constante de natureza neoplatônica, que conciliava elementos da filosofia de Platão com valores de ordem espiritual, reinterpretadas pelo Ocidente cristão. E mesmo quando Tomás de Aquino introduz elementos da filosofia de Aristóteles no pensamento escolástico, essa constante neoplatônica ainda é presente.
Imagem: José Luis Pajares · BY-NC-SA · Openverse
O pensador máximo da Escolástica claramente é São Tomas de Aquino, podemos deixar isso em evidencia pelo fato de dividirmos a Escolástica em pré-tomistas e pós-tomistas.[carece de fontes?] Os principais pré-tomistas são: João Escoto Erígena (que criou uma estrutura quaternária da natureza para provar a existência de Deus) e Anselmo de Cantuária (este afirmava que se podemos imaginar no nosso intelecto algo perfeito como Deus, isso em si já é prova de que ele exista de fato - Pensamento muito polêmico e refutado, principalmente por Gaunilode Marmoutiers, este afirmava que se somos capazes de imaginar uma ilha maior do que todas as ilhas, isso não quer dizer que ela necessariamente exista).[carece de fontes?] O principal pós-tomista certamente foi Guilherme de Ockham.[carece de fontes?] Outros nomes da escolástica são: Anselmo de Cantuária, Alberto Magno, Robert Grosseteste, Roger Bacon, Boaventura de Bagnoreggio, Pedro Abelardo, Bernardo de Claraval, João Escoto Erígena, João Duns Escoto, Jean Buridan, Nicole Oresme.[carece de fontes?]
Imagem: José Luis Pajares · BY-NC-SA · Openverse
Neoescolástica ou neotomismo é a revitalização da filosofia escolástica, da Idade Média, que ocorreu a partir da segunda metade do século XIX. Não é só a ressurreição de uma filosofia, mas sim uma regeneração da philosophia perennis (ou metafísica), que surgiu na Grécia Antiga e, nunca deixou de existir. Às vezes, chamada de "o tomismo neoescolástico", em parte porque foi Tomás de Aquino que deu forma final à escolástica no século XIII, devido a ideia de que só o tomismo poderia infundir vitalidade na escolástica do século XX. Na primeira metade do século XX, importantes escolas neotomistas foram criadas, entre as quais estão as de Leuven (Bélgica), Laval (Canadá) e de Washington (EUA). Também é comum usar o termo "neoescolástica" para qualificar a escola do século XVI, em Salamanca (Francisco de Vitória, Domingo de Soto, Luis de Molina, Francisco Suárez etc.), uma corrente de pensamento de grande influência na história da teologia, filosofia, direito e economia e crucial para a compreensão da cultura espanhola posterior, sendo que inclusive a grande crítica que a Igreja fará do juros se fará a partir de textos de Aristóteles.


