João I de Portugal
D. João I de Portugal, conhecido como o Mestre de Avis, foi o Rei de Portugal de 1385 até sua morte, em 1433, sendo o primeiro monarca português da Dinastia de Avis. É reconhecido principalmente pelo seu importante papel na vitória do Reino de Portugal na guerra de sucessão com Castela, desencadeada pela morte do rei D. Fernando, retratado na Crónica de D. João I. O Mestre de Avis conseguiu preservar a independência do reino e estabelecer a Casa de Avis no trono português. O seu longo reinado de 48 anos, o mais extenso de todos os monarcas portugueses, teve início na Era dos Descobrimentos. D. João I é recordado como um rei justo e que trouxe, além da independência, prosperidade ao reino, rendendo-lhe o epíteto «O de Boa Memória»; ele também era referido como «o Bom», às vezes «o Grande», e mais raramente, especialmente na Espanha, como «o Bastardo».
D. João era filho ilegítimo do rei D. Pedro I e de Teresa Lourenço, uma dama galega ou de uma filha de Vasco Lourenço da Praça, um mercador de Lisboa. Em 1364, foi consagrado mestre da Ordem de Avis, sendo nomeado por seu pai. Cresceu com o referido seu avô materno. Depois da investidura nessa ordem de cavalaria, o Mestre passou aos cuidados do comendador-mor da cidade, Fernão Rodrigues de Sequeira. Visitava de vez em quando a corte, desenvolvendo amizade com o seu meio-irmão, o infante D. João, filho de Inês de Castro. Durante o reinado do rei Fernando I, seu meio-irmão, em 1382 devido a intrigas da então rainha Leonor Teles, João foi preso em Évora e com ordem de execução. Pediu ajuda ao conde de Cambridge, tio de Filipa de Lencastre e foi solto. Este episódio iria tornar João cauteloso. João foi eleito rei nas cortes da cidade de Coimbra, em abril de 1385, depois de um período de interregno, entre 1383-85, sendo conhecido por crise de 1383-1385. Após a morte do rei Fernando, meio-irmão de João, o país mergulhou em confusão e guerra civil. João foi escolhido para liderar uma revolta contra a regente Leonor Teles, rainha viúva. Tratou-se, então de uma revolução, pois o poder da regência passou para João que foi aclamado em Lisboa, Regedor e Defensor do Reino. Tratou, então de defender o país contra as investidas castelhanas, rodeando-se de amigos que o apoiaram, como Nuno Álvares Pereira que revelou ser um génio militar.
Crise de 1383–85
À data da morte do rei D. Fernando, Portugal parecia em risco de perder a independência. A rainha D. Leonor Teles de Menezes era impopular e olhada com desconfiança. Os rumores da ligação amorosa com o nobre galego João Fernandes Andeiro, personagem influente no paço, atraiu todas as críticas contra a sua pessoa e a do conde. Para além do mais, a sucessão do trono recaía sobre a infanta D. Beatriz, única filha de Fernando I e de Leonor Teles de Menezes, casada aos dez anos de idade com o rei João I de Castela. No entanto, a burguesia e parte da nobreza juntaram-se à voz popular que clamava contra a perda da independência. Dois candidatos apareceram para competir com D. João I de Castela e D. Beatriz pela coroa portuguesa: D. João, filho de D. Pedro I e de Inês de Castro, e D. João, filho de D. Pedro I e de Teresa Lourenço, que veio a tornar-se rei.
Finalmente, a 6 de abril de 1385, as Cortes portuguesas reunidas em Coimbra elegem o mestre de Avis, D. João, rei de Portugal. Esta tomada de posição significava na prática que a guerra com Castela prosseguiria sem quartel, visto que declarava nulo o estatuto de D. Beatriz de Portugal, rainha consorte de Castela, como herdeira de D. Fernando, e isto devido em especial à violação do tratado de Salvaterra tanto pelo seu marido como por ela (tivera de jurar o tratado em Badajoz, aquando do casamento). «Venhamos a outra maior contradição», disse João das Regras, ao começar a falar da «quebra dos trautos» no seu discurso perante as Cortes de Coimbra. E como os quebrara, não podia suceder ao pai, o «postumeiro (último) possuidor» destes reinos. É por isso que na História de Portugal Beatriz não figura como rainha, pois foram as próprias Cortes de 1385 a proclamar que ao rei D. Fernando I, postumeiro possuidor do reino de Portugal, quem sucedeu foi o rei D. João I, eleito por unanimidade. Isto foi mais pelas ameaças de Nuno Álvares do que pelos argumentos de João das Regras.
Expansão do território
Quando o rei quis armar os seus filhos cavaleiros, estes propuseram a conquista de Ceuta, no Norte de África, em 1415, uma praça de importância estratégica no controle da navegação na costa de África que é conquistada a 21 de agosto. Entretanto, na véspera da partida de Lisboa, morrera a rainha D. Filipa de Lencastre. Após a conquista, são armados cavaleiros, na anterior mesquita daquela cidade, os infantes D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique. O filho Pedro tornou-se duque de Coimbra e Henrique, duque de Viseu. A conquista de Ceuta no entender do rei, dava-lhe prestígio internacional. O rei além de não ser filho legítimo, fora eleito rei em cortes, algo bastante inédito na altura. Ceuta em termos económicos tornou-se dispendiosa, mas o rei não desistiu de a manter e pensava em continuar a expansão.
Cronistas contemporâneos descrevem D. João I como um homem arguto, cioso em conservar o poder junto de si, mas ao mesmo tempo benevolente e de personalidade agradável. Na juventude, a educação que recebeu como mestre da Ordem de Avis transformou-o num rei invulgarmente culto para a época. O rei escreveu o Livro da montaria, uma obra sobre o desporto da caça grossa, atividade paramilitar na época. O seu amor ao conhecimento passou também para os filhos, designados por Luís Vaz de Camões, nos Lusíadas, por «Ínclita geração»: o rei D. Duarte I foi poeta e escritor, D. Pedro, Duque de Coimbra o «Príncipe das Sete Partidas», foi um dos príncipes mais esclarecidos do seu tempo e muito viajado, e o Henrique, Duque de Viseu, «o navegador», investiu toda a sua fortuna em investigação relacionada com navegação, náutica e cartografia, dando início à epopeia dos Descobrimentos. A sua filha Isabel casou com o Duque da Borgonha e entreteve uma corte refinada e erudita nas suas terras. Isabel é mãe de Carlos, o Temerário e este é bisavô do imperador Carlos V.
Títulos e estilos
O estilo oficial de João enquanto Rei era até 1415: "Pela Graça de Deus, D. João, Rei de Portugal e do Algarve". Em 1415, após a conquista de Ceuta, a titulatura evoluiu para: "Pela Graça de Deus, D. João, Rei de Portugal e do Algarve, e Senhor de Ceuta".
Os nomes dos filhos homenageavam tanto membros da família de D. João I quanto de D. Filipa, o que mostra o respeito dos reis pelos seus antepassados. "Das travessuras da mocidade trazia […] consigo D. João I um filho […]. A inferioridade relativa imposta pela bastardia […] azedou o caráter do conde de Barcelos […] O condestável de Bourbon escreveu na sua espada 'Je percerai', e essa espada, através de mil perfídias […] penetrou, abrindo-lhe o caminho do trono […], ganhando, afinal, com o ducado de Bragança, […] fazer deste posto o degrau que levou também ao Trono os seus descendentes. Tinha dez anos apenas, quando seu pai se casou (com D. Filipa de Lencastre)". Do seu casamento com Filipa de Lencastre (1360–1415), para além de um aborto em julho de 1387, nasceram oito filhos. Destes, os seis que chegaram à idade adulta seriam lembrados como a ínclita geração: D. João de Avis teve de Inês Pires os bastardos:


