Cossacos
Os cossacos são um povo nativo das estepes das regiões do sudeste europeu que se estabeleceram mais tarde nas regiões do interior da Rússia asiática. Eles são um povo predominante eslavo oriental e cristãos ortodoxos que se originaram na estepe pôntica como um povo nômade. Os cossacos são muito famosos por sua coragem, bravura, força e capacidades militares, e capacidade de autossuficiência, mas também pela sua crueldade com que atacavam outros povos e aldeias. A sua importância e força militar eram tão grandes que, mais tarde, durante a sua integração ao Império Russo, foram criadas diversas unidades militares de cossacos. Originalmente, este povo ruteno era constituído por camponeses fugitivos, que escapavam do controle dos senhores da guerra dos feudos polaco e moscovita, rumando, assim, às estepes do sudeste europeu, onde se estabeleceram. Eles habitavam áreas escassamente povoadas e ilhas no baixo Dnieper, nas bacias dos rios Don, Terek e Ural, e desempenharam um papel importante no desenvolvimento histórico e cultural da Ucrânia e do sul da Rússia.
O nome cossaco entrou no português através do termo francês cosaque que, por sua vez, derivou do termo polaco, de origem ucraniana, Kozak - e não da versão russa, Kazak. A palavra Kozak deriva de um termo social, utilizado na língua turca, quzzak ou kazak, que significa "nômade", "andarilho" ou "homem livre". O termo aparece pela primeira vez numa crônica rutena datada de 1395.
Os cossacos zaporijianos
Os cossacos da zona de Zaporíjia, que habitaram as estepes ucranianas, são um grupo cossaco bem conhecido e importante na história. O seu número aumentou bastante entre os séculos XV e XVII, “alimentado” pela nobreza Boiarda pobre da Rutênia, comerciantes e camponeses dissidentes da República das Duas Nações. Os cossacos zaporijianos protagonizaram um papel importante na geopolítica europeia, criando e desfazendo uma série de conflitos e alianças com a República das Duas Nações, o Império Russo e o Império Otomano. Em resultado da Revolta de Chmielnicki, nos meados do século XVII, os cossacos zaporijianos conseguiram criar um estado independente que, mais tarde, tornou-se no estado autônomo cossaco, sendo um protetorado russo, prestando vassalagem ao czar russo, mas governado por hetmãs cossacos por cerca de meio século.
Os cossacos russos
A terra nativa dos cossacos é definida por uma linha de cidades fortificadas russo-ucranianas, situadas na fronteira com a estepe, e que se estende até o meio do Volga, Riazã e Tula, penetrando abruptamente de seguida para o sul, estendendo-se até o rio Dniepre, via Pereslavl-Zalessky Pereslavl. Esta área foi colonizada por populações de três povos, que praticavam os mais variados tipos de comércio e artesanato. Estes povos estavam constantemente em luta com os guerreiros tártaros na fronteira junto à estepe, recebendo o nome turco cossacos, que acabou por se estender também a outros povos mais ao norte da Rússia. A referência mais antiga encontrada nas crônicas sobre os cossacos na cidade russa de Riazã data de 1444 e refere o esforço dos cossacos nas batalhas contra os tártaros, defendendo a cidade dos seus ataques. No século XVI, os cossacos de Riazã foram agrupados em comunidades comerciantes e militares e foram enviados para colonizar a área adjacente ao rio Don (fonte: Vasily Klyuchevsky, em O percurso da história russa, vol. 2).
Na guerra civil que se seguiu à revolução russa, os Cossacos encontravam-se dos dois lados do conflito. Muitos oficiais cossacos e outros combatentes altamente experientes lutaram pelo Exército Branco, e outros tantos, pelo vermelho. No seguimento da vitória do Exército Vermelho, uma política de “descazaquização” (Raskazachivaniye) teve lugar sobre os Cossacos sobreviventes e sobre as suas terras, uma vez que estes, eram vistos como uma potencial grande ameaça ao novo regime instaurado. Este acto, consistiu principalmente em dividir os seus territórios entre novas divisões criadas, entregando o governo dos territórios a novas repúblicas de minorias étnicas, encorajando fortemente a colonização dos territórios cossacos de pessoas dessas mesmas minorias. Este processo foi especialmente notado nas terras dos Cossacos Terek. As terras dos Cossacos eram regra geral, bastante férteis, e durante a campanha de nacionalização, muitos Cossacos partilharam do mesmo destino dos Kulaks. A fome de 1933 depressa atingiu os territórios cossacos de Don e Kuban de uma maneira muito abrupta e cruel. De acordo com as crónicas da época, no período de 1919 a 1920, numa população de cerca de 3 milhões de pessoas, o regime bolchevique matou ou deportou cerca de 300 a 500 milhares de Cossacos, incluindo 45 mil Cossacos de Terek.
Origens
Ninguém sabe com exactidão quando é que os Povos Eslavos se estabeleceram nas terras ao largo dos rios Don e Dneper, mas é improvável que tal tenha acontecido antes do século XIII, quando os exércitos mongóis invadiram as terras dos Cumanos, e outras tribos turcas. Grupos protocossacos surgiram muito provavelmente nos territórios que hoje formam a actual Ucrânia, em meados do século XIII. Em 1261, alguns povos eslavos que viviam nos territórios entre os rios Dniestre e Volga, foram mencionados em crónicas rutenas. Registos históricos dos Cossacos anteriores ao século XVI são escassos. No século XV, a sociedade cossaca era descrita como uma federação de comunidades independentes, sem um governo que as unisse todas sob a mesma coroa, ou seja, era no fundo, um aglomerado de comunidades independentes entre si, sem que houvesse um governo, exército nacional ou classe governativa que unisse ou representasse o povo face a um assunto exterior. Estas localidades organizavam frequentemente pequenos exércitos completamente independentes dos exércitos das nações vizinhas (como por exemplo República das Duas Nações, Grão Ducado de Moscovo ou Canato da Crimeia), para se poderem defender quando eram atacadas.
Principais conflitos
Após o pedido do grão-duque Vasili III da Rússia em 1539 para travar os Cossacos, ter recebido a seguinte resposta do sultão otomano «Os Cossacos não me juraram fidelidade, e vivem a seu belo prazer!» Dez anos depois, em 1549, o czar Ivan IV, o Terrível respondeu da seguinte maneira ao pedido de auxílio do sultão otomano para a defesa contra os Cossacos do Don «Os Cossacos de Don não são da minha conta, e eles são livres de entrar em guerra ou viver em paz sem o meu conhecimento!» Episódios semelhantes a este aconteceram entre o Império Russo, Império Otomano e a República das Duas Nações, em que cada qual tentou sempre explorar o belicismo Cossaco em proveito próprio. Enquanto isso, os Cossacos, por sua vez, ficavam bastante satisfeitos por pilhar todos de maneira mais ou menos igual. No entanto, no século XVI, com o domínio na região da República das Duas Nações a estender-se a sul, os Cossacos zaporohianos eram – embora oportunamente e temporariamente – considerados pela república, como sendo “da sua conta”. Os cossacos registrados, permaneceram mesmo como uma parte integrante do exército da República das Duas Nações até 1699.
Razões que levaram os cossacos a revoltarem-se contra a República das Duas Nações
Entretanto, a população Cossaca aumentava com a quantidade de agricultores que fugia dos senhores feudais da República das Duas Nações. Em consequência disto, a Szlachta faz várias tentativas para reconverter Cossacos em escravos feudais, o que agastou imenso as relações entre Cossacos e Polaco-Lituanos, convertendo os Cossacos em tempos defensores aguerridos à república e altamente leais, em Cossacos revoltosos contra a república. As ambições cossacas em serem reconhecidos como iguais ou pertencentes à Szlachta eram também constantemente rejeitadas, e planos para transformar a República das Duas Nações numa República das Três Nações obtiveram um grande insucesso devido à grande impopularidade dos Cossacos no resto da república resultante da insurreição dos Cossacos face à constante rejeição da sua ambição em serem reconhecidos como membros da Szlachta.
A Revolta de Chmielnicki
A Revolta de Chmielnicki deu-se em 1648. A revolta foi o despoletar de uma série de eventos catastróficos para a República das Duas Nações, conjunto de eventos esse que se toma pelo nome de “O Dilúvio”, que enfraqueceram altamente a República das Duas Nações, e iniciou o seu processo de desintegração que culmina cerca de cem anos mais tarde. A rebelião terminou em 1654 com o Tratado de Pereyaslav, que deu origem ao Hetmanato Cossaco, que seria um protetorado do Império Russo, e à starshyna cossaca (nobreza) e total autonomia sob governo do Czar. Desse modo, maior parte dos cossacos se afastaram da esfera de influência da República das Duas Nações, mais especificamente dos polacos.
Sob governo russo
Sob o governo russo, os cossacos de Zaporíjia foram divididos em duas repúblicas semiautônomas do Grão Ducado de Moscovo: O Hetmanato Cossaco e a mais independente Zaporíjia. Uma colónia Cossaca foi também organizada e estabelecida no Sloboda Ucrâniano. Estas colónias foram gradualmente perdendo a sua independência, e mais tarde foram mesmo reorganizadas a mando de Catarina, a Grande da Rússia nos finais do século XVIII. O Hetmanato tornou-se na capital da Pequena Rússia – o nome que se dava à actual Ucrânia – o Sloboda Ucraniana tornou-se na província de Kharkiv, e Zaporizhia foi absorvida na Nova Rússia – região da actual Moldávia e sul da Ucrânia.
Relações com o império
Desde o princípio que as relações entre Cossacos e moscovitas foi bastante variada. Por vezes, envolviam-se em operações militares conjuntas, e por outras, haviam grandes revoltas cossacas. Um exemplo em particular foi a dissolução da colónia de Zaporozhian, que teve lugar nos finais do século XVIII. A cisão entre o povo Cossaco era bastante evidente - entre os que escolheram permanecer leais à monarquia russa (que mais tarde se deslocaram para Kuban) e aqueles que escolheram continuar a sua vida de mercenários, e se deslocaram até ao delta do Danúbio. Não obstante, no século XIX, o Império Russo conseguiu anexar por completo todas as colónias e comunidades cossacas, centralizando o poder, em vez de “premiar” os Cossacos com privilégios pelos seus serviços. Por esta altura, os Cossacos eram elementos bastante activos no exército russo nas guerras que travavam. Embora as táticas cossacas em batalhas em terreno aberto fossem – regra geral – inferiores às de soldados “normais”, como os Dragões, os Cossacos eram excelentes para a exploração, pistagem e serviços de reconhecimento, assim como para empreender emboscadas. As unidades cossacas eram muitas vezes usadas para conter desordem doméstica, especialmente durante a Revolução de 1905.
Organização política
No princípio, os bandos de cossacos eram comandados por um atamã (mais tarde chamado de hetmã). Este era eleito pelos membros da tribo em assembleias chamadas “Rada”, assim como também eram eleitos outros membros importantes do bando, tais como: juízes, escribas, oficiais menores e até mesmo, membros do clero. O símbolo do poder do atamã era um bastão chamado Bulawa. Depois da divisão do Hetmanato pelo rio Dniepre, pelo Tratado de Andrusovo em 1667, os cossacos ficaram conhecidos por cossacos da margem esquerda e da margem direita. O atamã tinha poderes executivos e em tempo de guerra, ele era o comandante supremo no campo de batalha. O poder legislativo era dado à Rada. Os Oficiais mais antigos eram chamados de Starshyna (nobreza). Na ausência de leis escritas, os cossacos regiam-se pelas tradições cossacas, que era a “lei não escrita” mais comum.
Organização militar
No Império Russo, os cossacos estavam organizados em vários voiskos, que se distribuíam ao longo da fronteira russa. Por vezes também existiam comunidades cossacas dentro das fronteiras russas, mas organizadas entre povos “não russos”. Cada comunidade tinha o seu próprio governo, tradições e trajes típicos, assim como uniformes e postos militares. Contudo, nos finais do século XIX, tudo foi uniformizado em exemplo do exército imperial russo. Devido a uma lei de 1988, que permitia uma reforma nas comunidades cossacas, em conjunto com uma lei aprovada em 2005, as patentes dos exércitos dessas comunidades cossacas passaram a ser reconhecidas legalmente, bem como as suas divisas/galões (ver simbologia dos postos das Forças Armadas Portuguesas). No entanto, para as restantes patentes que são comuns ao resto do exército russo, os postos e respectivas denominações são as seguintes:
Povoamentos
Cossacos russos fundaram vários povoamentos chamados stanitsas, bem como fortalezas ao longo de fronteiras problemáticas, como Verny (Almaty, Cazaquistão), Grozny (capital da Chechénia, Alexandrovsk (Forte Shevchenko Cazaquistão), Krasnovodsk (Turquemenistão), Novonikolayevskaya Stanitsa (Bautino, Cazaquistão), Blagoveshchensk, cidades e outros povoamentos ao longo dos rios Ural, Ishim, Irtysh, Ob, Ienissei, Lena, Amur, Anadyr, (Península de Chukotka), e Ussuri. Um grupo de cossacos de albazino colonizou uma parte da China nos princípios de 1685. Embora por vezes os cossacos sejam por vezes vistos como xenófobos, alguns cossacos adaptaram-se muito rapidamente a outras culturas, usando mesmo até tradições e trajes tipícos de outras culturas das vizinhanças ou das terras que colonizavam (por exemplo, os Cossacos de Terek, que foram altamente influênciados pelas tribos nativas do norte do Cáucaso). Os cossacos chegavam mesmo até a casar com residentes locais, misturando-se com o povo local, por vezes quebrando mesmo certas restrições religiosas. As noivas de guerra eram trazidas de terras longínquas, um costume cossaco bastante vulgar no seio das famílias. Um dos comandantes do Exército de Voluntários, o General Bogaevsky, menciona um caso no seu livro, em que um dos seus homens que era cossaco. Sotnik Khoperski, que era chinês de nascimento, tinha sido trazido da Manchúria durante a Guerra russo-japonesa (em 1904-1905), ainda em criança, adotada e criada numa família cossaca.
Imagem popular
Os cossacos têm uma imagem muito “romântica” no exterior, no sentido em que idealizam a liberdade e a resistência à autoridade externa e as suas conquistas militares para com os seus inimigos têm contribuído em grande parte para esta imagem. Para muitos, os Cossacos foram um símbolo de repressão por causa do papel que desempenharam em supressões populares no Império Russo, assim como as suas incursões a populações judaicas. Desde o colapso da União Soviética, muitos começaram a ver os cossacos russos como defensores da soberania russa. Os Cossacos não só restabeleceram todas as suas comunidades, como também passaram a ocupar quase na totalidade todos os cargos na polícia e administrações territoriais das suas terras. As forças armadas russas também tiraram partido do sentimento de patriotismo entre os Cossacos, e à medida que as comunidades iam crescendo e se iam tornando cada vez mais organizadas, as forças armadas russas foram tecnológicamente aproveitando os excedentes cossacos. Não podemos esquecer também que os Cossacos desempenham um papel fundamental no sul da Rússia.
Uniformes militares
Cada comunidade Cossaca possui os seus próprios uniformes militares. Isto deve-se ao facto de ter sido incutida à comunidade Cossaca o fardo de terem de ser auto-suficientes com o seu próprio material militar. Em relação aos uniformes, enquanto estes por vezes eram manufacturados avulso em fábricas de propriedade do Voisko. O modelo do vestuário era normalmente desenhado e costurado numa determinada família com tradições costureiras. Certos itens individuais poderão variar um pouco do que está determinado em regulamento oficial, sendo que poderão ter ficado fora de uso ou obsoletos. Na maior parte das comunidades Cossacas, o uniforme básico compreende a tradicional túnica com calças largas, tipícas dos uniformes tradicionais russos do período 1881 – 1908. Contudo, as comunidades caucasianas (Kuban e Terek), usam uniformes muito compridos com uma abertura frontal, casacos Cherkesska com faixas de caruchos ornamentais e Beshmets (casacos) coloridos, que estereotipam a imagem popular que os Cossacos mundo fora. Na maior parte das comunidades Cossacas usa-se também chapéus com os topos coloridos. As duas comunidades caucasianas no entanto preferem usar chapéus mais altos do que o habitual entre os uniformes militares cossacos.


